Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 18 de Abril de 2005, aworldtowinns.co.uk

A guerra popular do Nepal avança em ofensiva estratégica

Desde que o Partido Comunista do Nepal (Maoista) declarou a entrada na fase da ofensiva estratégica, o Exército Popular de Libertação levou a cabo uma série de acções militares descentralizadas e centralizadas contra o Exército Real do Nepal. Nessas acções, o PCN(M) subiu a novos níveis tanto na frente política como militar.

Houve pequenas e grandes acções por todo o país, incluindo tanto ataques de guerrilha como guerra móvel. Marcando o fim do que parece ser uma primeira fase da ofensiva estratégica, até agora houve uma greve geral (Nepal bandh) de 11 dias e dois importantes ataques militares. As acções militares do EPL contra o Exército Real cobriram zonas que incluíam Pandaun no extremo ocidente do Nepal; Surainaka, no centro do Nepal; a zona de Krishnabhir perto da capital Katmandu e a cidade de Sankhu no Vale de Katmandu; a cidade de Chaughoda no distrito de Makawanpur, no centro do Nepal; e muitas partes do Nepal oriental. Nessas batalhas, o EPL conseguiu tremendas vitórias e infligiu sérios danos ao Exército Real.

O regime do déspota feudal nepalês Gyanendra Shah impôs a censura nos jornais e no resto da comunicação social, numa tentativa para impedir que as pessoas conheçam a actual situação das batalhas e o sentimento público internacional contra os actos brutais do Exército Real. O branqueamento das notícias também pretende manter essa informação longe dos soldados do Exército Real e das suas famílias.

A greve geral de 2 a 12 de Abril pedia o fim da monarquia e o estabelecimento da República do Nepal. Por todo o país o povo nepalês mostrou a sua concordância com essa exigência dando-lhe o seu apoio total, e tornando a greve numa importante vitória.

Esta foi a greve geral mais longa na história da luta do povo do Nepal. No passado havia de vez em quando bandhs de um dia e de três dias e ocasionalmente de cinco dias. Mas o povo nepalês não vacilou ao apoiar a greve geral de 11 dias que visava abertamente derrubar o sistema reaccionário o mais cedo possível. Ao longo desse período, a maior parte do movimento de veículos parou e quase todas as fábricas, mercados, repartições governamentais, instituições de ensino, e empresas permaneceram fechadas. Durante esses dias, o EPL entrou em muitas acções militares por todo o país, incluindo nos distritos de Kaski, Chitawan, Rupandehi, Nawalparasi, Bardia, Dang, Banke, Kailali, Jhapa, Morang, Ilam Rautahat, Janakpur, Okhaldhunga, Ramechhap Sindhupalchok, entre outros. Nessas acções, dezenas de soldados do Exército Real foram mortos e centenas mais ficaram feridos.

O Exército Real recorreu a vários estratagemas para anular os efeitos da greve. Em primeiro lugar, criou um reino de terror de estado onde quer que pode. Lançou e apoiou arruaceiros autocráticos feudais contra os habitantes de uma aldeia do distrito de Kapilbastu e incendiou cem habitações à sua volta. Mataram uma dúzia de habitantes, em que se incluíam alguns activistas maoistas da aldeia, e forçaram milhares de pessoas a fugir para a Índia.

Em segundo lugar, tentaram arrombar os cadeados das portas de lojas, depósitos, escolas, faculdades e escritórios em todo o país e obrigar os seus proprietários a ignorarem a greve e a abrirem os seus negócios. Quase todas as escolas e faculdades foram transformadas em postos de sentinelas do exército para obrigar os professores e os estudantes a irem às aulas.

Em terceiro lugar, o Exército Real forçou os seus proprietários a andar com os seus veículos, escoltando-os de lugar em lugar. Mas quase todos os sectores e estratos populares do país não só ignoraram o Exército Real fascista como protestaram veementemente contra isso, em muitos lugares. Os estudantes nepaleses por todo o país denunciaram a presença do Exército Real nas suas escolas. Os homens de negócios na cidade de Nepalganj, no Nepal ocidental, protestaram quando os soldados do Exército Real arrombaram os cadeados que tinham colocado nas suas lojas e noutros estabelecimentos comerciais. Alguns proprietários de veículos leais ao déspota feudal Gyanendra tentaram obrigar outros a andar com os seus autocarros e camiões nas estradas, mas os seus apelos foram amplamente ignorados.

Em quarto lugar, o Exército Real fez desfilar algumas pessoas comuns perante as câmaras da televisão, alegando que eram maoistas que se tinham rendido. Em quinto lugar, o Exército Real levou a cabo uma propaganda maliciosa que alegava que havia uma cisão dentro do partido maoista. Os soldados pintaram paredes e colaram cartazes com frases contra o Presidente do Partido, Camarada Prachanda, e forçaram a comunicação social nepalesa a propagar essa desinformação. Aturdido pelos golpes dos revolucionários maoistas em todo o país, o porta-voz do Exército Real disse à imprensa nepalesa que o moral do Exército Real era elevado por causa da divisão dentro do partido maoista. Assim, o Exército Real foi obrigado a mentir aos seus próprios soldados e às suas famílias, numa tentativa de manter a sua moral suficientemente elevada para continuarem a matar o povo nepalês, servindo o déspota feudal Gyanendra Shah e os seus amos imperialistas.

Um sector das classes reaccionárias do Nepal lançou a propaganda de que os maoistas tinham imposto a greve geral sob a ameaça de armas. Quem tenha um sentido político percebe que a Guerra Popular no Nepal é uma guerra entre dois estados, duas ideologias e dois exércitos. De um lado está o estado popular revolucionário com uma ideologia maoista e o Exército Popular de Libertação, com o apoio das largas massas populares. Do outro lado está o estado reaccionário semifeudal e semicolonial, com uma ideologia feudal compradora e capitalista e o Exército Real reaccionário isolado das massas e sustentado pelos imperialistas e pelas forças expansionistas indianas. O povo pegou em armas contra as armas de uma sociedade injusta. Tal como as armas maoistas impuseram greves gerais, as armas do Exército Real tentaram arrombar cadeados e portas de lojas, forçar escolas a abrir e fazer arrancar os motores dos veículos que a classe capitalista nacional tinha desligado para apoiar a luta contra o feudalismo e em defesa da revolução maoista. Mas porque as armas do Exército Real não são apoiadas pelo povo, a monarquia ficou impossibilitada de impedir a bandh dirigida pelos maoistas, enquanto, por terem o apoio popular, as armas maoistas obtiveram uma vitória.

O sofrimento produzido pela greve geral recai sobretudo no Exército Real, nos autocratas feudais e nos capitalistas compradores burocratas. A maior parte das principais estradas permaneceu vazia. Por causa das armadilhas que os revolucionários maoistas montaram ao Exército Real nas estradas, o Exército Real só se podia movimentar em grupos de várias centenas de soldados. A greve geral fechou o Exército Real nos seus quartéis. Os autocratas feudais do país, que se têm esforçado para salvar o sistema reaccionário, foram-se esconder nas instalações do Exército Real para evitarem serem castigados pelo povo. Muito frequentemente, a partir desses esconderijos eles representam um papel vital para o Exército Real como espiões e informadores. A greve geral facilitou o castigo de alguns desses autocratas feudais. De um modo semelhante, a greve geral também deu severos golpes contra o capitalismo comprador que tem explorado implacavelmente o povo nepalês. Os compradores foram forçados a parar toda a produção e transportes, incluindo o transporte de fornecimentos de armas ao Exército Real. Os salteadores estrangeiros que procuram lucrar com o trabalho barato e os preços elevados dos bens de consumo ficaram arruinados com a greve. Além disso, o factor mais importante da greve geral foram os golpes militares contra o Exército Real e a sua máquina reaccionária.

Politicamente, a greve geral mostrou que o povo nepalês quer uma mudança total da sociedade nepalesa. Apesar da interrupção temporária do treino militar e das entregas de fornecimentos de armas por parte do imperialismo norte-americano e do expansionismo indiano, eles têm tentado tiranizar o povo nepalês, pressionando Gyanendra Shah a manter o sistema parlamentar reaccionário, em vez de o pressionar a entregar o poder político ao próprio povo nepalês. Fazendo da greve geral de 11 dias um sucesso, o povo nepalês rejeitou os argumentos das potências imperialistas e expansionistas e aprovou as actuais exigências avançadas pelo Partido Comunista do Nepal (Maoista).

O governo nepalês afirma que estas greves atingem mais as massas que a monarquia. De facto, durante quase dez anos de guerra civil, o regime monárquico colocou as massas sob sequestro em várias partes do país, incluindo nas zonas base e nas zonas libertadas. Mais de oitenta por cento do país e da sua população vive sob um sistema revolucionário embrionário em que as instituições de ensino, as empresas, o comércio (incluindo as trocas e permutas e as transacções financeiras), os projectos de desenvolvimento, os cuidados de saúde e sanitários, a alimentação e outras provisões fazem parte de uma nova ordem social cujo princípio-guia é servir o povo. Algumas das pessoas que vivem nas cidades, nas sedes de distrito e na capital sob cerco do Exército Real e rodeados de barreiras e arame farpado tiveram que sofrer e tolerar dificuldades durante a greve, mas as massas revolucionárias nessas zonas viram isso como uma necessidade histórica, as dores de nascimento de uma nova sociedade.

O Presidente Prachanda emitiu um comunicado no último dia da greve geral, a 12 de Abril, dizendo: “Agradecemos a todas as camadas e níveis do povo que apoiaram esta greve geral. Embora estejamos conscientes das dificuldades causadas pela greve, o nosso sentir da necessidade histórica de pôr fim ao despotismo feudal e construir uma república de nova democracia no Nepal manteve-nos firme.”

Durante a greve geral, o EPL levou a cabo sabotagens contra muitos escritórios governamentais em várias sedes do velho estado, acções de massas (incluindo a queima de efígies de Gyanendra Shah e do seu notório filho, o Príncipe Paras Shah), colagens de cartazes e pichagens a favor do estabelecimento da República Popular do Nepal e marchas com tochas e manifestações nas cidades. Entretanto, foram eliminados alguns notórios criminosos em posições governamentais mais elevadas do velho estado. Um deles foi o Responsável Principal do Distrito de Bardia. Finalmente, a culminar as acções centralizadas, o EPL travou uma batalha posicional de 19 horas num ataque às instalações do Exército Real na aldeia de Khara, no distrito de Rukum, e tomou a cidade de Charikot, sede do distrito de Dolakha, a nordeste de Katmandu.

O ataque militar centralizado do EPL em Khara começou às 6 da tarde de 7 de Abril e durou até à 1 da tarde do dia seguinte. Apesar do combate heróico, longo e posicional contra o ERN, o EPL não conseguiu furar as fortificações do inimigo e confiscar as armas e as munições armazenadas no quartel do Exército Real. O EPL teve de lutar contra sete helicópteros que lançavam simultaneamente bombas e balas. Nessa batalha foram danificados dois helicópteros M-17. Também nos dias seguintes, o Exército Real usou helicópteros para encontrar os revolucionários maoistas e atacá-los. A 13 de Abril, o fogo de artilharia do EPL atingiu e danificou um helicóptero.

Na batalha de 10 de Abril em Dolakha, o EPL empurrou o Exército Real para a defensiva e para o seu quartel. Os revolucionários tomaram a sede do distrito, libertando todos os presos da cadeia, incluindo os maoistas encarcerados pelo velho estado, destruíram todos os escritórios governamentais, incluindo as instalações da polícia distrital, e confiscaram todas as armas e munições em armazém.

Estas batalhas – a guerra posicional em Khara, a tomada da sede do distrito de Dolakha e a greve geral nacional de 11 dias – representaram marcos militares e revelaram a natureza e as características da fase da ofensiva estratégica. Em primeiro lugar, o Exército Real foi derrotado em batalhas que ocorreram fora dos seus quartéis, com excepção daquelas em que o EPL menosprezou o inimigo, como as perdas na batalha de Ganespur, no distrito de Bardia. Em segundo lugar, o Exército Real tem conseguido até agora proteger-se nas suas instalações bem fortificadas onde confinou o essencial das suas forças. Em terceiro lugar, o EPL entrou num novo e mais elevado nível da luta contra o Exército Real e esforçou-se por penetrar nas suas fortificações, bem como isolá-lo completamente das massas nas cidades, nas sedes distritais e na própria capital. Neste contexto, o Presidente Prachanda disse no seu comunicado: “Contra toda a propaganda enganadora, o ataque de Khara, foi marcado por novos níveis de coragem e sacrifício, não só estremeceu os corações do inimigo, mas essa batalha total de dois dias e de proximidade também elevou o nível da guerra e abriu as portas a novas lições e experiências.”