A democracia dos esquadrões da morte de Washington na Colômbia

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 22 de Setembro de 2008, aworldtowinns.co.uk

A aliança a três entre o governo colombiano de Alvaro Uribe, os esquadrões da morte de direita que já assassinaram dezenas de milhares de pessoas nas últimas décadas e o governo dos EUA nunca esteve tão a nu. O General Mario Montoya, chefe do exército colombiano e durante anos principal elemento de ligação entre os exércitos colombiano e norte-americano, foi referido como sendo um importante e talvez mesmo o principal elemento de ligação entre as forças armadas da Colômbia e os paramilitares.

Essas alegações foram feitas por um paramilitar veterano em audiências judiciais à porta fechada em Medellin, na Colômbia. O jornal norte-americano Washington Post obteve um registo vídeo do seu testemunho e o jornalista Juan Forero entrevistou esse homem, Luis Adrian Palacio, na prisão (Washington Post, 17 de Setembro). Forero escreveu que pelo menos quatro chefes paramilitares fizeram testemunhos semelhantes. Responsáveis judiciais colombianos disseram que Palacio “tem um elevado grau de credibilidade” e que o General Montoya seria investigado com vista a uma acusação.

Montoya foi oficialmente responsável pela gestão das enormes quantias de dinheiro que os EUA têm canalizado para as forças armadas colombianas, somas que as colocam ao mesmo nível que os exércitos israelita e paquistanês em termos de apoio norte-americano. Montoya é uma visita frequente nos EUA e muito conhecido em Washington. Recebeu treino e pelo menos uma medalha dos EUA. Quando o jornal perguntou ao Secretário de Estado Adjunto dos EUA para as Relações Exteriores que fizesse um comentário sobre essas alegações, Thomas A. Shannon Jr. disse: “Ele é um grande comandante no terreno. Tem feito muito bem em relação às FARC”. Os EUA trabalharam com Montoya para orquestrar o resgate em Julho de Ingrid Betancourt e outros reféns detidos pelas FARC [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia] (Washington Post, 3 de Julho). O responsável norte-americano admitiu que o seu governo tinha conhecimento das acusações que há muito existiam sobre as ligações de Montoya aos paramilitares, mas disse “não terem encontrado nada que as provasse”.

Na realidade, há provas de que o governo dos EUA não só sabia muito sobre as ligações entre os paramilitares e o governo colombiano, como também foi ele que organizou essas ligações. Elas foram extensivamente investigadas e descritas em muitas publicações, entre as quais o relatório “As Redes de Assassinos da Colômbia” [“Colombia's Killer Networks”] publicado em 1996 pela organização Human Rights Watch. (Ver também o documentado artigo “Paramilitarism in Colombia” na wikipedia.org e o colombiajournal.org.)

O movimento paramilitar na Colômbia, tal como as FARC, tem as suas raízes na guerra civil iniciada em 1948 entre os partidos Liberal e Conservador e tem-se mantido desde então sobretudo nas zonas rurais, com uma intensidade variável. Os actuais e bem armados mercenários de direita descendem do Plano LASO do Presidente norte-americano John F. Kennedy do início dos anos 60, quando o exército norte-americano começou a trabalhar com as forças armadas locais para criar milícias civis de combate aos movimentos radicais e pró-soviéticos da América Latina. Na Colômbia, isso significou a organização de esquadrões da morte liderados pelos grandes agrários para levarem a cabo uma guerra suja contra o movimento de guerrilha de base camponesa dessa altura. Em meados dos anos 60, grande parte desse movimento evoluiu para as FARC, lideradas por um partido pró-soviético cuja estratégia era usar a luta armada para instaurar o tipo de regime reformista (e de certa forma pró-soviético) que os EUA estavam decididos a impedir na sua autoproclamada “esfera de influência”, como a Guatemala (golpe de estado da CIA em 1954 e guerra genocida liderada pelos EUA nas zonas rurais em 1966-1996, um modelo para os conselheiros militares norte-americanos na Colômbia), o Chile (golpe de estado da CIA em 1973), Granada (invadida em 1983), a Nicarágua (onde os brevemente vitoriosos rebeldes foram esmagados pelo esquadrões da morte “Contras” organizados pelos EUA e financiados pelo tráfico de drogas e por um bloqueio dos EUA e deixaram-se então ser afastados pelo voto) e El Salvador (onde a guerra civil do final dos anos 80 e início dos anos 90 também foi de certa forma semelhante à da Colômbia).

Em 1985, as FARC, que sempre defenderam uma solução negociada da guerra e uma partilha de poder com as classes dominantes tradicionais do país, chegaram a um acordo com o governo colombiano e tentaram converter-se num partido político legal. Os paramilitares, que trabalhavam com a polícia e o exército, assassinaram milhares dos seus activistas públicos e dos seus candidatos às eleições a vários níveis – incluindo dois candidatos presidenciais – antes do chamado processo de paz ter chegado oficialmente ao fim. (Um outro elemento na estratégia reformista armada das FARC tem sido uma esperança e por vezes sucesso na obtenção de apoio europeu, à medida que os capitais europeus desafiam cada vez mais os EUA na América Latina. O sequestro reaccionário e os longos anos de cativeiro da política franco-colombiana Betancourt tornaram-se um pretexto cínico para muitos anos de contactos e negociações entre as FARC e o governo francês. O colapso dessa esperança, e o agora aparente fim do apoio de Hugo Chávez da Venezuela, são factores das actuais dificuldades das FARC.)

A organização que acabou por dominar o movimento paramilitar, as Forças Unidas de Autodefesa da Colômbia (AUC), representou uma confluência de velhos e novos proprietários (incluindo alguns barões da droga que adquiriram enormes áreas e alguns proprietários tradicionais que se mudaram para as drogas), dos militares e dos sectores público e privado norte-americano. A empresa bananeira norte-americana Chiquita Brands admitiu o financiamento das AUC desde a sua fundação em 1997 até que concordou em aceitar uma amnistia governamental e afastar-se oficialmente em 2003. Um congressista norte-americano que se reuniu com os líderes das AUC disse que isso era apenas a “ponta do iceberg” em termos do apoio privado norte-americano aos paramilitares. Esses esquadrões da morte ajudaram as empresas estrangeiras a controlar a militância dos trabalhadores nas plantações, fábricas, instalações de gás e petróleo e noutras áreas da economia.

Mas foi o governo norte-americano, agindo através dos militares e da CIA, que treinaram, armaram e deram ordens a esses paramilitares, tanto directamente como através das forças armadas colombianas. O relatório da Human Rights Watch, que se baseou numa entrevista com o reformado Adido Militar norte-americano em Bogotá, descreve a formação em 1996 de uma equipa formada pelo Grupo Militar da Embaixada dos EUA, pelo Comando Sul das forças armadas dos EUA, pela CIA e por outras agências norte-americanas para montar uma rede secreta de civis (incluindo oficiais reformados do exército) sob o comando de oficiais no activo. O relatório conclui que embora “nem todos os paramilitares sejam parceiros próximos do exército”, a parceria montada era “um mecanismo sofisticado, apoiado em parte por anos de aconselhamento, treino, armamento e silêncio oficial dos Estados Unidos, que permitiu ao exército colombiano levar a cabo uma guerra suja e ao sistema colombiano negá-la”.

Seria difícil exagerar as atrocidades que as AUC cometeram. Um dos seus comandantes, Ever Velosa, que confessou a morte de quase mil pessoas e forneceu detalhes sobre o assassinato de 6000 pessoas, só pelas suas milícias, em coordenação com o exército, disse que 90% das vítimas não tinham qualquer ligação à guerrilha (Washington Post, 19 de Agosto). Em 1997, em Mapiripan, no departamento de Meta, os membros das AUC entraram na cidade com uma lista de nomes fornecida por informadores. Foram casa a casa, levaram as pessoas para o centro da cidade e torturaram-nas até à morte – cortando-as aos bocados com machetes ou serras eléctricas e atirando os seus restos (e por vezes as pessoas desmembradas ainda vivas) ao rio. Mataram cerca de dez pessoas por dia durante cinco dias. Os responsáveis locais chamaram repetidamente o exército durante esse período, mas o exército não apareceu senão depois da saída das AUC. O general que mais tarde foi acusado do planeamento do massacre tinha terminado pouco antes o seu treino com os Boinas Verdes do Exército dos EUA que operam na Colômbia. Em 2001, em Alto Naya, no Cauca, 90 membros das AUC mataram cerca de 120 pessoas, também com serras eléctricas e machetes. Uma unidade do Exército nas proximidades recusou-se a intervir. Em 2003, atacaram uma comunidade indígena em Betoyes, no mesmo Departamento, violando e matando raparigas e mulheres da forma mais horrível. A Amnistia Internacional relatou que o Exército apoiou o massacre (segundo várias publicações de direitos humanos e outras, citadas no artigo da wikipedia.org). Esses paramilitares também estiveram activos nos bairros de lata de Medellín, onde levaram a cabo aquilo que algumas pessoas consideram ser uma campanha genocida contra os jovens, em Bogotá e noutras cidades, assassinando activistas políticos, advogados, académicos, activistas sindicais e outras pessoas, e criando um clima de terror político.

O ano passado, o jornal norte-americano Los Angeles Times revelou um relatório da CIA sobre os vínculos entre o exército colombiano e os paramilitares. Descrevia massacres levados a cabo em Medellin durante uma ofensiva anti-FARC em 2002 chamada “Operação Orion”. O General Montoya comandou a polícia durante essa operação. O relatório cita um informador que disse que as ordens para a ofensiva foram assinadas conjuntamente por Montoya e pelo líder paramilitar Fabio Jaramillo, um subordinado do sucessor do barão da droga de Medellín, Pablo Escobar. A CIA recusou-se a confirmar ou negar a autenticidade do relatório e, em vez disso, atacou o jornal por, “em última análise, afectar a nossa capacidade de proteger os norte-americanos” (Los Angeles Times, 27 de Março de 2007). As acusações do envolvimento de Montoya com os paramilitares têm quase trinta anos, quando, como jovem tenente, começou a subir nas fileiras do exército. Nessa altura, ele trabalhava no Batalhão de Inteligência e Contra-Inteligência (BINCI), uma unidade que levou a cabo uma campanha de atentados bombistas, assassinatos e morte de detidos. Que isto era pelo menos conhecido das autoridades norte-americanas nessa altura, se não mesmo um seu trabalho directo, foi recentemente tornado claro pela desclassificação de um relatório de 1979, antes classificado como secreto, da Embaixada dos EUA em Bogotá (“A Verdade sobre a Triplo A” [“The Truth about Triple A”], Arquivo de Segurança Nacional, Universidade George Washington, www.gwu.edu).

Embora as acusações a Montoya sejam particularmente reveladoras, ele é, afinal de contas, apenas o chefe do exército. O governo de Uribe não tem um papel menor que esse general como “activo” norte-americano e não está menos integralmente envolvido com as AUC e outros paramilitares. Durante os dois últimos anos, as acusações formais e/ou condenações por cumplicidade com as AUC atingiram o irmão de Uribe, um primo seu, o seu vice-presidente, o seu Ministro da Defesa, o presidente do seu partido e dezenas de deputados do seu partido. Tem havido alegações de que os paramilitares realizaram reuniões secretas no rancho de Uribe. As acusações, provenientes de diferentes origens, algumas delas incluídas em relatórios dos serviços de informações dos EUA, esboçam os vínculos de toda a vida entre Uribe e a sua família, por um lado, e Pablo Escobar e outros líderes narcoparamilitares de Medellin (Relatório de 1991 da Agência de Informações da Defesa dos EUA, divulgado no Arquivo de Segurança Nacional, www.gwu.edu). Quaisquer que sejam as disputas internas da classe dominante por trás das decisões de juízes, políticos do próprio partido de Uribe e outros membros da classe política da Colômbia para o entregarem, Uribe tem reagido atacando o sistema judicial e tentando acumular ainda mais poder directo nas mãos do executivo. As massivas marchas contra o “terrorismo” em muitas cidades colombianas no início deste ano foram parte das diligências de Uribe para legitimar e reforçar esses esforços.

Em vez de criticarem ou cortarem os laços com pessoas como Uribe e Montoya, os EUA estão agora a trabalhar para as protegerem do sistema judicial colombiano. Aquilo que os EUA anunciam como esquema para levar à justiça os barões da droga colombianos foi concebido para fazer exactamente o oposto: extraditar os líderes das AUC para prisões nos EUA onde os colombianos não possam interrogar esses assassinos que usaram as drogas para financiar as suas operações, silenciando assim a prejudicial torrente de testemunhos sobre o eixo EUA/Uribe/paramilitares.

As ligações políticas nacionais e internacionais usufruídas por muitos dos barões da droga da Colômbia (embora não sem conflitos) podem ter sido um factor na persistência do contrabando de cocaína para os EUA. Uma vez que o governo norte-americano frequentemente usou e protegeu esses homens, é uma caricatura da justiça que seja esse governo a julgá-los e uma ainda maior caricatura que os julgue em nome dos enormes danos causados por essas drogas às pessoas nos EUA e não pelos seus muito piores crimes contra a Colômbia e os colombianos. Isto faz com que as acusações norte-americanas contra as FARC por envolvimento no tráfico de cocaína, ainda que aparentemente verdadeiras, sejam o cúmulo da hipocrisia.

As AUC dissolveram-se (pelo menos oficialmente, embora haja indícios de que alguns dos seus bandos de assassinos ainda estão em operação), não por causa de qualquer golpe governamental contra elas mas porque o mesmo governo que secretamente pagava a esses mercenários para combaterem, agora se ofereceu publicamente para lhes pagar para pararem. Ao contrário das FARC, foram autorizados a juntarem-se à situação política convencional. Quando as AUC se dissolveram formalmente, os seus comandantes submeteram-se à prisão na expectativa de que seriam rapidamente perdoados e reciclados para a vida civil. Mas o seu destino legal acabou por ser mais complicado do que eles e o regime de Uribe esperavam. Alguns ficaram debilitados pela prisão, onde falaram a investigadores civis. Em Maio passado, agindo sem aviso prévio e para surpresa geral, Uribe foi buscar o principal comandante das AUC e 14 dos seus principais colegas a uma prisão em Medellin e enviou-os para os EUA. Mais recentemente, os EUA actuaram de forma a extraditarem o acima mencionado Velosa, um das duas dezenas de comandantes de topo das AUC que iriam testemunhar durante os procedimentos judiciais especiais conhecidos como “Processo de Justiça e Paz” que “contaram como os esquadrões da morte que ele ajudou a organizar foram apoiados por oficiais do exército e por políticos proeminentes” (Washington Post, 19 de Agosto). Nesse artigo, o jornalista Forero escreveu: “Quinze outros comandantes paramilitares de topo foram extraditados para os Estados Unidos, gerando grandes preocupações entre os investigadores colombianos, os grupos de direitos das vítimas e organizações como a Human Rights Watch, todos dizendo que as complexas investigações sobre os crimes paramilitares estavam a ser destruídas. Com quase todos os principais comandantes em prisões nos EUA, alegam eles, os investigadores colombianos e a procuradoria perderam as suas fontes de informação mais conhecedoras dos grupos paramilitares.”

É tudo menos um dado adquirido, porém, que a denúncia de Montoya e tudo o resto venham a ter um grande efeito em si mesmo. A parceria entre as forças armadas e os paramilitares não era segredo nenhum para os milhões de colombianos que sofreram às suas mãos. Calcula-se que 10% da população tenha sido violentamente deslocada, expulsa das zonas rurais por esses bandos armados aliados. Os seus assassinatos e o seu terrorismo atingiram todos os cantos da sociedade colombiana e ajudaram a dar forma a muita da paisagem política e económica do país, incluindo o crescimento da agro-indústria e outras expansões capitalistas. Numa palavra, os paramilitares, com as suas raízes no semifeudalismo, têm sido um factor essencial na criação do terreno para o desenvolvimento do país, subordinado ao imperialismo mas verdadeiramente capitalista. Poder-se-ia dizer que a legitimidade das eleições e a eficácia dos esquadrões da morte (incluindo os esquadrões da morte conhecidos como forças armadas colombianas) têm sido os pilares gémeos da democracia da Colômbia, muito elogiada pelos imperialistas e muito dominada pelos imperialistas.

Num comunicado do 1º de Maio intitulado “Colocar a Nossa Perspectiva no Objectivo do Comunismo”, o Grupo Comunista Revolucionário (GCR) da Colômbia descreve esse processo: “A concentração de terras cresce vertiginosamente, já não mais nas mãos dos proprietários tradicionais e dos narcoparamilitares, mas também nas mãos dos capitalistas locais e dos imperialistas que visam o desenvolvimento da indústria de biocombustíveis; o aumento das expulsões forçadas; a crescente subordinação do país ao imperialismo – sobretudo ao ianque mas também ao europeu, ao japonês e ao australiano – não só na esfera económica mas também política, militar e judicial. Para as classes dominantes, os proprietários e capitalistas de que são aliados e apêndices do imperialismo, a ‘solução’ para a crise, isto é, a solução para os seus problemas – que não são os problemas da maioria do povo, mas sim a resistência do povo a uma maior exploração – é uma maior repressão, legal e ilegal, que visa esmagar o mais leve sopro das lutas populares, desenvolvendo uma tendência para a fascização.”

“Com a conversão dos meios de comunicação numa desavergonhada ferramenta de propaganda do regime genocida de Uribe, eles conseguiram conquistar um importante sector do povo trabalhador. Mas isso não levou à rendição de outros importantes sectores populares. Aguçou a polarização política, tal como se viu nas massivas marchas de 4 de Fevereiro (organizada pelo governo e seus aliados) e 6 de Março (organizada por várias forças de oposição). O que é necessário é uma polarização de outro tipo, que passe da resistência à revolução.”