A crise migratória: Uma ameaça a uma ordem mundial desprezível

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 14 de março de 2016, aworldtowinns.co.uk

As palavras “Europa Fortaleza” estão a tornar-se uma realidade. Aos 40 mil refugiados que chegaram vivos à Grécia só para lá ficarem encurralados, foram-lhes oferecidas poucas saídas, a não ser a morte ou a deportação. Não há campos de concentração nem assassinatos em massa de migrantes, mas o valor das vidas deles já foi diminuído pelas potências europeias.

O Presidente de Conselho Europeu, Donald Tusk, avisou os imigrantes: “Não venham para a Europa... Irão fazer tudo isso para nada.” Mas dado aquilo de que estão a tentar fugir, que outra coisa podem eles fazer? Eles arriscaram morte para chegar tão longe e, para muitos, a escolha mais racional é continuarem a arriscar a morte pelo frio, as doenças, a polícia, os vigilantes, o afogamento em rios gelados ou perecer em bosques quando tentam dirigir-se para norte.

Mais quatro países que eram canais de saída da Grécia – Eslovénia, Sérvia, Croácia e Macedónia – fecharam as suas fronteiras “com o apoio implícito da União Europeia” (The New York Times, 3 de março de 2016). A Albânia mobilizou a polícia para ajudar a patrulhar a sua fronteira com a Grécia, à qual se juntaram agentes italianos. A Bulgária anunciou que irá construir uma cerca, fechando a última abertura. A Grã-Bretanha já começou a enviar Land Rovers para capturar refugiados que tentam atravessar aquele país e mandá-los de volta para a Turquia.

Londres anunciou que enviará três navios para se juntarem à flotilha da NATO no Mar Egeu. Ao contrário do que acontecia antes, estes navios irão operar em águas gregas e turcas. Eles não estão lá para salvar ninguém – a 13 de março afogaram-se 18 pessoas, a acrescentar às mortes evitáveis de mais de 300 pessoas nestas águas este ano, só até agora. Os seis navios da flotilha incluem agora duas barcas de desembarque, concebidas para despejarem numa praia um grande número de soldados ou quaisquer outras pessoas.

A 12 de março, foram filmados nessas mesmas águas dois homens num barco da Guarda Costeira turca a aproximarem-se de um barco de borracha cheio de refugiados e a baterem-lhes com varas. Um correspondente da BBC disse que não era a primeira vez que isto acontecia. Noutras ocasiões, houve jornalistas que os viram perfurar balsas salva-vidas. Dentro da Turquia, que manteve abertas as suas fronteiras com a Síria para permitir que os recrutas e provisões chegassem aos combatentes islamitas, os guardas fronteiriços têm aberto fogo sobre os refugiados que fogem da Síria, segundo o jornal The Independent (4 de março), o qual também relata “violentos espancamentos de pessoas apanhadas depois de terem tentado fugir”.

O plano da União Europeia [UE] tem três aspectos até agora: o uso imediato de muros e armas para impedir que os 42 mil refugiados que já estão na Grécia escapem, impedir que mais venham e enviar tantas dessas pessoas quantas puderem para a Turquia. A UE ofereceu milhares de milhões de dólares à Turquia para que os aceitasse – tornando a UE e o regime turco nos maiores “traficantes de seres humanos” do planeta. Dado o que a Turquia lhes está a fazer, porque é que algum refugiado quereria acabar por ir lá parar?

Mais de 14 mil pessoas, sendo entre metade e dois terços delas mulheres e crianças e com muitos velhos, estão encurraladas na cidade de Idomeni, na fronteira da Grécia com a Macedónia. Elas estão permanentemente molhadas e com frio, e muitas acabam por ficar doentes nestas condições. Quando são tratadas num hospital, são depois levadas de volta para tendas na lama gelada.

Os gregos dessa aldeia, e de tão longe quanto Tessalónica, trazem-lhes comida e provisões. Um clube de chefes de cozinha vem preparar refeições para milhares de pessoas de cada vez. “Pensionistas que lutam para sobreviver compram dois pães, um deles para partilhar com aqueles que chegaram à sua comunidade; noutros lugares, os aldeãos abrem as casas deles.” (The Independent, 12 de março) Ativistas de ONGs, médicos e outras pessoas de todo o mundo vêm para fazer o que podem. Mas os governos da Europa parecem estar à espera que estas pessoas morram ou aceitem qualquer destino inaceitável que lhes seja oferecido. Foi tomada uma decisão política para se verem livres deles, e fazê-los sofrer faz parte da imposição dessa decisão.

Os riscos são muito elevados, não só para as potências europeias mas também para os EUA. Eles concebem esta situação não como uma crise humanitária mas como uma ameaça aos seus “interesses de segurança”. É verdade que a dominação deles está em risco. O principal comandante da NATO na Europa, o general norte-americano Philip Breedlove, disse ao Congresso norte-americano que “a Rússia e o regime de Assad estão a transformar deliberadamente a migração da Síria numa arma, numa tentativa de esmagar as estruturas europeias e de quebrar a determinação europeia”. O objetivo são “as regras acordadas da ordem internacional”. (Sítio internet do Departamento de Defesa dos EUA)

Esta declaração, tão demente quanto possa parecer, reflete as preocupações que percorrem hoje toda a classe dominante norte-americana, e as dos seus aliados ocidentais. A alegação de que a Rússia está a tentar deliberadamente fazer com que os sírios fujam para a Europa ao apoiar a ofensiva militar do regime de Assad não pode esconder o facto de os EUA e os seus aliados terem feito tanto para prolongar a guerra civil e a transformar num conflito internacional. Todos os países imperialistas do mundo têm responsabilidade pelos horrores de que os refugiados sírios estão a fugir, bem como pelos horrores de que os afegãos, os iraquianos e outros estão a tentar escapar. As pessoas deveriam pensar sobre o ponto que o general fez de que o poder militar dos imperialistas russos rivais e as crianças refugiadas doentes representam ambos uma ameaça mortal aos interesses que ele representa.

“A verdade é que é impossível que um pequeno punhado de países ricos continue a beneficiar e a impor o atraso e a pobreza em grande parte do mundo sem ter de enfrentar as consequências dessa dominação”, escreveu o Grupo do Manifesto Comunista Revolucionário (SNUMAG de 28 de setembro de 2015). “A atual crise está cheia de perigos reais e sérios, não só para os refugiados mas também para toda a gente. Mas estas mesmas condições explosivas também podem trazer consigo oportunidades reais para se começar a esculpir um tipo diferente de futuro. Que não mais definhe sobre as promessas não cumpridas de uma democracia social europeia cada vez mais falida. Em vez disso, nós precisamos de olhar para além dos horizontes do atual sistema e de começar a construir o tipo de movimento que, lutando para derrotar a investida reacionária, possa avançar na direção da única verdadeira solução, a revolução comunista.”