A Colômbia, as Honduras e a diplomacia de canhoneira de Obama

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 31 de Agosto de 2009, aworldtowinns.co.uk

A Colômbia emergiu como a peça central das movimentações de Washington para intensificar a presença militar norte-americana na América Latina. Contrastar a forma como a administração Obama tem tratado os presidentes da Colômbia e das Honduras ajuda a clarificar a hipocrisia norte-americana e revela as suas verdadeiras intenções.

Em Junho, o exército hondurenho derrubou o Presidente Manuel Zelaya. Alegou que o plano dele de realizar um referendo para mudar a constituição do país de forma a poder candidatar-se a um segundo mandato representava uma ameaça de instalação de uma “ditadura”. Washington deu crédito a essa ideia e recusou-se a alinhar com o direito internacional e a Organização dos Estados Americanos na exigência do restabelecimento de Zelaya. Tendo em conta que a dominação económica norte-americana tornou esse país inteiramente dependente das importações e exportações dos EUA e que o exército hondurenho é, de muitas formas, um apêndice do exército dos EUA, que o treina, financia e ajuda a administrar, isto significa que é o colosso norte-americano quem literalmente toma decisões nas Honduras. A “pressão” contra o golpe governamental limitou-se ao cancelamento dos vistos diplomáticos dos seus dirigentes para os EUA, o que não tem efeitos práticos, uma vez que eles já dispõem de todos os vistos civis de que necessitam para comprarem, consultarem e conspirarem em Washington.

Ao mesmo tempo, o Presidente colombiano Alvaro Uribe tem discutido publicamente planos para pedir ao Senado desse país que altere a constituição para que lhe permita candidatar-se a um terceiro mandato, repetindo um acto anterior do qual resultou o seu actual segundo mandato, constitucionalmente proibido. Qual foi o castigo dele, vindo dos sempre vigilantes guardiães da “democracia” a norte? À medida que aumentavam as críticas a Uribe, a Secretária de Estado de Obama, Hillary Clinton, escolheu-o como um exemplo para a América Latina, elogiando-o por enviar tropas que servem sob a batuta dos EUA no Afeganistão e no Haiti. (Página web do Departamento de Estado, 18 de Agosto de 2009)

Isso foi injusto para com o Brasil, que tem desempenhado um papel ainda mais vergonhosamente central na ocupação do Haiti liderada pelos EUA sob a bandeira da ONU, com o Chile não muito atrás. Mas isso provavelmente não foi uma simples omissão da parte de Clinton. Uma semana antes, o Presidente brasileiro Luiz Ignacio (Lula) da Silva tinha exprimido desconforto em relação ao plano que está no centro da relação de Obama com Uribe, um acordo que será assinado em breve e que dá aos EUA acesso militar a sete ou mais bases colombianas. De facto, a maioria dos presidentes latino-americanos presentes na cimeira de 10 de Agosto em Quito, Equador, tinham exprimido sentimentos semelhantes. (Embora Markus Schultze-Kraft, chefe para a América Latina do Grupo Internacional de Crise, tenha escrito que os governos reunidos deram “sinais de moderação” a que Obama e Clinton não “corresponderam” – www.crisisgroup.org/home/index.cfm?id=6287, 24 de Agosto de 2009.) Numa outra cimeira de emergência que teve lugar mais tarde nesse mês em Bariloche, Argentina, para discutir o proposto pacto EUA-Colômbia, Lula e outros recuaram um pouco. Ainda assim, nesta altura, os dois únicos governos sul-americanos desavergonhadamente entusiásticos no apoio público aos EUA são o Peru e a Colômbia.

O que se sabe sobre o plano é suficientemente perturbador, mas pode ser pior que isso. A maior parte ainda é segredo, mesmo para os congressos dos EUA e da Colômbia, já para não falar das pessoas comuns. Além disso, Washington fez questão de não consultar antecipadamente outros governos latino-americanos ou sequer de lhes falar nele, como se poderia esperar de uma tão importante alteração militar. Tal como quase toda a gente, esses líderes têm que se contentar com o que tem surgido na comunicação social. Isto parece querer sublinhar a relação especial EUA-Colômbia e esfregar nos narizes dos outros presidentes o seu estatuto de segunda classe. Pode-se alegar que inquietar esses governos pode ter sido uma consequência não intencional e não um sinal de falta de jeito da parte da equipa de Obama.

Segundo as partes conhecidas do Acordo de Cooperação de Defesa EUA-Colômbia, válido por dez anos, os EUA podem mais que duplicar o seu pessoal declarado na Colômbia, para 800 militares e 600 “contratados civis” (fanáticos dos esquadrões da morte, como têm demonstrado no Iraque as empresas “civis”), o máximo permitido pela actual lei dos EUA. Responsáveis de Washington e Bogotá insistem em que não serão bases dos EUA porque a Colômbia reterá a soberania sobre elas. Mas os pilotos militares, as tripulações e as tropas norte-americanas viverão e trabalharão permanentemente nessas bases e desfrutarão mesmo de imunidade perante a lei colombiana.

Para que é que são essas bases? Os responsáveis dos EUA e da Colômbia salientam a sua utilidade na interdição do tráfico internacional de drogas. É verdade que, das sete bases conhecidas, duas são instalações navais e três estações aéreas, além de duas instalações do exército. A vigilância aérea dos EUA a partir daí poderia abranger uma região que vai desde a fronteira dos EUA até muita da América Latina e dos vizinhos oceanos Atlântico, Caribe e Pacifico. Não há dúvida nenhuma que os EUA gostariam de controlar melhor esse espaço aéreo e marítimo. Mas há vários factores conhecidos que lançaram duvidas sobre as alegações de que o objectivo principal é restringir o tráfico de drogas.

Um deles é a natureza do regime colombiano e da sua relação com os EUA. Há uma extensa documentação do papel central que o dinheiro da droga e os principais senhores da droga têm representado na sustentação do governo de Uribe e no cimentar da aliança entre o exército e os esquadrões da morte de direita que, em conjunto com a legitimidade eleitoral, têm sido um dos dois principais pilares do regime. De facto, os jornais Washington Post e Los Angeles Times têm noticiado razões para se acreditar que o programa dos EUA de extradição de suspeitos de droga da Colômbia, que vão dos principais líderes dos cartéis a distribuidores de rua, foi de facto planeado para impedir os juízes colombianos e outras autoridades civis de perturbarem essa aliança questionando esses homens (Los Angeles Times, 27 de Março de 2007, Washington Post, 19 de Agosto de 2008). De qualquer forma, nenhum observador sério pode negar que as forças armadas de Uribe têm estado pelo menos tão envolvidas no tráfico de droga no terreno, e provavelmente muito mais, em termos de tráfico internacional, que as FARC, a oposição armada que é supostamente o alvo deste acordo militar. Várias das bases não se situam em locais onde poderiam interceptar as remessas internacionais, mas sim em regiões interiores isoladas onde podem ser usadas contra as próprias FARC.

“Se você me perguntar se as missões retirarão vantagem deste acordo para no futuro incorporarem nas zonas-alvo as FARC, a resposta é sim, sem dúvida nenhuma”, disse o embaixador norte-americano William Brownfield em defesa desse acordo (WP, 27 de Agosto de 2009). Este envolvimento dos EUA na guerra civil da Colômbia, que dura há décadas e que opõe a oligarquia tradicional a um grupo reformista que já foi pró-soviético (e pró-europeu) tem uma alarmante dimensão internacional. O ano passado, em nome do ataque a um campo das FARC, a Colômbia montou uma importante incursão transfronteiriça no vizinho Equador, levando este país a cortar relações com a Colômbia. De facto, o apoio dos EUA às forças armadas colombianas foi uma das razões por que o Presidente equatoriano Rafael Correa se recusou recentemente a renovar o arrendamento da base aérea de Manta, até agora a única grande base dos EUA na América do Sul. Durante a sua campanha para a presidência, Obama disse: “Nós apoiaremos o direito da Colômbia a atacar terroristas que procurem refúgio dentro das suas fronteiras” (nacla.org, 10 de Agosto de 2009).

Além disso, as declarações irritadas do presidente venezuelano Hugo Chávez de que o acordo EUA-Colômbia é sobretudo uma ameaça ao seu país têm uma base real e isso é mesmo geralmente admitido nos círculos de política externa.

O exemplo das Honduras fornece mais provas disso. Independentemente de quão pequeno possa ser o país e de quão pobre tenha sido mantido pela dominação dos EUA, as Honduras têm desempenhado um papel estratégico para o exército norte-americano na América Central. Durante os anos 80, os EUA lançaram os seus assassinos “Contras” (os “contratados civis” dessa época) contra o regime sandinista que tinha derrubado um fantoche de longa data dos EUA na Nicarágua, numa guerra financiada pelo tráfico de droga organizado pela CIA. Esse exército mercenário e os militares e agentes civis norte-americanos que o dirigiam estavam baseados nas Honduras. As Honduras continuam a fornecer aos EUA a sua principal base aérea na América Central, Soto Cano/Palmerola. Foi esta base que o exército hondurenho usou para reabastecimento quando sequestrou o presidente e o levou para fora do país. O que terá feito o Presidente Zelaya para ter obtido a ira de Obama?

“Diplomatas europeus que conhecem Zelaya e a forma como ele trabalha descrevem-no como um nacionalista populista e não como um ideólogo de esquerda”, escreveu sobre ele o jornal Washington Post, exprimindo a forma como alguma da principal comunicação social do império vê as coisas (5 de Julho). O “crime” de Zelaya parece ter sido ter-se juntado ao presidente nicaraguense Daniel Ortega (um líder sandinista que tenta sacudir o seu passado radical), a Correa do Equador, ao presidente boliviano Morales, a Cuba e a vários países caribenhos para formarem uma aliança regional encabeçada por Chávez. Esse agrupamento não tem nenhuma componente militar e não representa nenhuma ameaça existencial aos EUA, mesmo em termos económicos, mas parece ter sido planeado para permitir que esses líderes levantem publicamente o seu nariz aos EUA, apesar de, ao mesmo tempo, e quanto ao fundamental, não conseguirem libertar os seus países do domínio imperialista, nem os seus povos de escravizantes relações e tradições económicas e sociais.

Será este tipo de coisa mais do que o que os EUA estão agora dispostos a tolerar? Os actos de Washington tornam a resposta óbvia. A meio do que tem sido sobretudo uma guerra de palavras, está a olhar para as suas armas.

Um factor que precipitou o derrube de Zelaya parece ter sido a sua anunciada intenção de transformar Palmerola num aeroporto civil – com financiamento venezuelano (Nikolas Kozloff, “O golpe de estado e a base aérea dos EUA nas Honduras”, Counterpunch, 22 de Julho de 2009). Como a constituição hondurenha proíbe bases estrangeiras, em teoria Palmerola não pertence aos EUA. Mas os EUA não têm nenhuma intenção de partilhar o seu controlo.

Os aeródromos da Colômbia, futuras bases irmãs de Palmerola, serão equipados com modernas torres de controlo e ampliados para receberem grandes aviões. Nenhum dirigente sul-americano tem salientado que essas bases irão colocar muito do continente ao alcance de algumas horas de voo das gigantescas aeronaves de transporte dos EUA, sem reabastecimento.

Algumas pessoas costumavam dizer que o ex-presidente George W. Bush “tinha ignorado” a América Latina. Isso não era verdade. Afinal de contas, o governo Bush apoiou claramente um golpe de estado que durante breves momentos afastou Chávez em 2002 e iniciou o “Plano Colômbia”, que trouxe Uribe para o centro do palco e lhe forneceu seis mil milhões de dólares em ajuda, até agora. Além disso, em Julho de 2008, o governo Bush começou a reactivar a IV Frota da Marinha dos EUA, famosa como instrumento da “diplomacia de canhoneira” norte-americana no Caribe e na América Central e do Sul. Obama continuou a construir essa frota, armando Uribe e ameaçando a Venezuela, e agora foi ainda mais longe que Bush na projecção do poder militar dos EUA sobre toda a América Latina.

(Para uma análise das razões por que Chávez e o seu esquema petrolífero “não podem levar a um mundo sem imperialismo”, ver os artigos reproduzidos do jornal norte-americano Revolution/Revolución nos SNUMAGs de 23 de Julho e 30 de Julho de 2007. Para saber mais sobre os EUA e a Colômbia, ver o SNUMAG de 22 de Setembro de 2008.)