A chama olímpica foi apagada quando os protestos sacudiram o Brasil – um país em crise

Da edição n.º 451, de 8 de agosto de 2016, do jornal Revolution/Revolución, voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA (revcom.us).


O seguinte texto foi extraído de uma carta mais extensa recebida de um leitor:

Quando a tocha olímpica chegou aos arredores do Rio de Janeiro, os professores que protestavam contra os atrasos nos pagamentos dos salários dos servidores públicos devido à iminente bancarrota do governo do Estado do Rio enfrentaram a polícia, agarraram na tocha e apagaram a chama.

Dezenas de milhares de pessoas têm participado em protestos contra os Jogos Olímpicos, mas os protestos têm sido alimentados por uma crise económica, política e social que tem sacudido o Brasil nos últimos dois anos.

Os protestos

Os Jogos Olímpicos tornaram-se num foco da ira popular num país em que 63 por cento da população pensa que o país ser anfitrião de umas Olimpíadas que custaram 11,9 mil milhões de dólares irá afetar um país que já está numa profunda crise política, económica e social. (The New York Times, 4 de agosto de 2016)

Francisco Dornelles, vice-governador do estado do Rio de Janeiro, “decretou o estado de calamidade pública, em razão da grave crise financeira [...] que pode ocasionar o total colapso na segurança pública, na saúde, na educação, na mobilidade e na gestão ambiental”. O jornal The New York Times noticiou que, no Rio, os servidores públicos e os aposentados não estão a ser pagos devido ao “esbanjamento [da] bonança dos rendimentos do petróleo”.

Desde o início do percurso do revezamento da tocha que tem havido protestos. As pessoas têm atirado pedras durante o trajeto da tocha. Tem havido protestos em muitas das zonas periféricas do Rio. Em Itaboraí, onde um gigantesco projeto de refinaria foi encerrado devido a um escândalo de subornos, causando um grande desemprego, os manifestantes levavam uma faixa que dizia: “Enquanto a tocha passa acesa em Itaboraí, emprego, saúde e educação estão apagados.” (Washington Post, 2 de agosto de 2016)

Em São Gonçalo, os manifestantes forçaram os polícias a mudar o trajeto da tocha enquanto gritavam “essa tocha eu vou apagar”. Eles levavam uma faixa “decorada com os anéis olímpicos e com a frase ‘Jogos da exclusão’”. (Washington Post, 2 de agosto de 2016)

Em Niterói, uma cidade mais abastada com vista para a cidade através da baía, os polícias usaram gás lacrimogéneo contra os manifestantes e prenderam algumas pessoas. Quando uma mulher estava a ser detida, ela gritou: “Polícia fascista! Polícia fascista! Olimpíadas matam!” (Washington Post, 2 de agosto de 2016)

Os polícias e os militares usaram granadas, balas de borracha e gás lacrimogéneo para abrir caminho para a tocha nalguns dos subúrbios pobres do Rio.

Não é claro quem são todos os manifestantes, mas a polícia e o governo estão a usar isso como forma de perseguir aqueles que eles rotulam de “bandidos” e “traficantes de droga”. Numa das situações, 450 polícias fortemente armados invadiram as favelas do Alemão perto do aeroporto do Rio e prenderam dezenas de pessoas.

Em Natal, no norte do Brasil, os manifestantes deitaram fogo e destruíram 29 autocarros e outros veículos estatais. Os presos de uma prisão estatal daquela cidade ocuparam a prisão em protesto contra o facto de estarem a ser bloqueados os sinais dos telemóveis (celulares). O governo enviou 1200 tropas para o Natal para acabar com esta mini-rebelião (palavras minhas), dizendo que “isso são bandos de criminosos que estão a desencadear uma onda de violência contra o governo”. (Yahoo News, 3 de agosto de 2016)

O Batalhão de Choque usou gás lacrimogéneo e gás pimenta contra as centenas de manifestantes que se estavam a manifestar ao longo do trajeto da tocha olímpica em Duque de Caxias, a norte do Rio de Janeiro, na quarta-feira anterior ao início dos Jogos Olímpicos. O protesto, que era contra os atrasos no pagamento dos salários dos trabalhadores do setor público do Estado do Rio, decorreu ao longo do percurso da tocha olímpica. (A tocha olímpica aparece no final do vídeo)

Uma vendedora de rua à frente de uma estação do metro do Rio disse: “Só de pensar na Olimpíada fico revoltada. Nossos políticos querem enganar o mundo para que pense que as coisas estão ótimas aqui. Bem, que os estrangeiros vejam por si mesmos a sujeira em que vivemos, o dinheiro que nossos líderes roubam.” (The New York Times, 4 de agosto de 2016)

Crise social

O Brasil tem estado no centro da crise do vírus zika. (Ver “Zika Virus and Global Inequality: A Deadly Combination.” [“O vírus zika e a desigualdade global: Uma combinação mortal”]) As infeções de zika no Estado do Rio são as mais elevadas do país, com uma taxa de infeções de 157 por 100 mil pessoas. Ao mesmo tempo, o governo cortou 30 por cento nos cuidados de saúde desde o início de 2015. Há uma enorme escassez de cuidados de saúde com mais de metade dos hospitais fechados.

Mais de 150 médicos e professores assinaram uma carta que dizia que os Jogos Olímpicos deveriam ser adiados ou movidos para fora do Rio para “impedir que os Jogos Olímpicos transformem o zika numa pandemia global”. (Dave Zirin, The Nation, 26 de julho de 2016) Em maio, a Harvard Public Health Review declarou que “Os Jogos Olímpicos de 2016 devem ser adiados, deslocados, ou ambos, como medida de precaução”.

77 mil pessoas foram deslocadas e milhares perderam as casas devido a construções relacionadas com os Jogos Olímpicos, e essas pessoas têm saído às ruas para protestar contra o seu desalojamento.

O assassinato de pessoas pela polícia tem aumentado, com um aumento de 135 por cento no número de pessoas mortas pela polícia em maio deste ano, em relação a maio do ano passado. 307 pessoas foram assassinadas pela polícia no Rio o ano passado. Um em cada cinco homicídios no Rio é cometido pela polícia. Isto corresponde a um aumento de 26 por cento no número de pessoas mortas pela polícia no Rio durante o último ano.

As favelas (onde vivem as pessoas pobres) estão num caos com os programas de pacificação anticrime – que usam táticas policiais tipo os SWAT norte-americanos, uma gigantesca presença policial e tiroteios policiais que matam residentes das favelas. É irónico que os organizadores dos Jogos Olímpicos tenham planeado o que é chamado de “turismo da pobreza” nas favelas onde estavam a tentar instituir programa de pacificação para mostrar aos visitantes quão “belas e pacíficas são as favelas, que até se pode lá levar turistas”. Mas isto fez ricochete contra eles quando os polícias iniciaram um crescendo de assassinatos nas favelas. Uma estudante do ensino secundário de 17 anos falou sobre isto. Ela disse a um repórter: “Eles vão querer mostrar a todas as pessoas que estão vindo aqui do estrangeiro para as Olimpíadas: ‘Vejam, nós temos segurança’. Mas isso é uma mentira. O desejo de mostrar que o Brasil as pode proteger – mas para nós, a população, haverá mais violência e mortes.” (Dave Zirin, The Nation, 26 de julho de 2016)

As vias fluviais estão contaminadas, incluindo a Baía de Guanabara onde irão decorrer eventos olímpicos, “com os níveis de vírus aquáticos até 1,7 milhões de vezes maiores do que seria considerado perigoso numa praia do sul da Califórnia”. (The New York Times)

O Rio tornou-se num estado militarizado com 85 mil tropas no terreno, o dobro do número de forças militares que foram usadas nas Olimpíadas de Londres em 2012.

Crise económica

O Brasil está a atravessar uma profunda crise económica em que a economia encolheu 5,4 por cento no primeiro trimestre deste ano. A inflação atingiu os 10,7 por cento no final de 2015, que é o valor mais elevado dos últimos 12 anos. Esta é a maior recessão do Brasil desde os anos 1930.

Segundo a agência Reuters, o Rio de Janeiro é um dos estados mais endividados do país e foi atingido de uma forma particularmente dura pela recessão. O desemprego atingiu os 11,2 por cento no período entre fevereiro e abril deste ano.

Com 11,4 milhões desempregados, mais 20 por cento em relação há um ano, o banco central do Brasil estimou recentemente que a economia iria encolher 3,5 por cento este ano, o que se segue a uma queda de 3,8 por cento na economia em 2015, com os salários médios a cair mais de quatro por cento durante o último ano.

Por isso, continuem atentos que os Jogos Olímpicos ainda não acabaram.