Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 15 de Dezembro de 2003, aworldtowinns.co.uk

A captura de Saddam: Uma oportunidade fotográfica para o terrorista-mor dos EUA

Nada de bom pode vir da captura de Saddam Hussein às mãos das forças de ocupação dos EUA. Pessoas em todo o mundo adoeceram com os regozijos vomitados para cima do mundo vindos de Washington e de Londres com o objectivo de justificar e manter a ocupação do Iraque. Fazemos aqui uma tentativa de limpar alguma da sujidade dos óculos das pessoas.

Os crimes

A maioria dos crimes de Saddam foi cometida sob instigação dos EUA ou com a sua cumplicidade (já para não mencionar a França, a Alemanha e a Grã-Bretanha). O julgamento de Saddam irá provavelmente encobrir tudo isso.

Valas comuns de prisioneiros: o Partido Baath de Saddam tomou o poder no Iraque em 1963, num golpe elogiado pelos EUA e provavelmente organizado pela CIA. O anterior regime tinha abandonado o pacto antissoviético de Bagdad com os EUA e ameaçava nacionalizar o consórcio petrolífero, propriedade de estrangeiros. A CIA forneceu aos membros do Baath uma lista de nomes de suspeitos comunistas e radicais. Dez mil pessoas foram presas. Muitas foram torturadas. Foram executadas entre 4 a 5 mil pessoas. O chefe da CIA no Médio Oriente nessa altura, James Critchfield, afirmou: “Consideramos isto uma grande vitória.” (em Saído das Cinzas: A Ressurreição de Saddam Hussein, por Andrew e Patrick Cockburn, 2000.)

Saddam tomou pessoalmente as rédeas do poder em 1979. Durante os doze anos seguintes, foi a menina dos olhos dos serviços secretos ocidentais, dos EUA à França. Nenhum governo ocidental se queixou por ele ser muito brutal ao defender os interesses desses governos.

Os procuradores ao serviço dos EUA pouco provavelmente trarão este tema ao seu julgamento.

Invasão de outros países: em 1980, o Iraque atacou o Irão. Falando das dificuldades que os EUA enfrentarão se Saddam tiver direito a algo parecido com um verdadeiro julgamento, Robert Fisk, especialista no Médio Oriente, salientou: “Este é o homem que sabe mais que qualquer outro sobre as relações do Baath com a CIA.” Muitas pessoas sugeriram perguntar a Saddam exactamente o que os EUA fizeram para encorajar o Iraque a começar uma guerra com um regime que então os norte-americanos consideravam um sério problema.

Que os EUA o encorajaram diplomática, financeira e militarmente é incontestável. O Secretário da Defesa de Bush, Donald Rumsfeld, poderia testemunhar isso. Ele visitou o Iraque como enviado especial do Presidente Reagan em 1983. Como sinal de apoio, a embaixada dos EUA em Bagdad reabriu alguns meses depois. Morreu um milhão de pessoas na guerra reaccionária de oito anos durante a qual os EUA ajudaram ambos os lados em vários momentos, de modo a prolongar a matança o mais possível.

Quanto à invasão do Kuwait por Saddam, o Iraque tem aí uma reivindicação histórica. Algumas testemunhas-chave poderiam ajudar muito a clarificar isso. A Embaixadora dos EUA, April Glaspie, poderia explicar por que, quando Saddam lhe perguntou se os EUA objectariam à anexação daquele país, ela respondeu: “Nós não temos nenhuma opinião. [...] O Secretário Baker deu-me directivas para enfatizar as instruções [...] de que o Kuwait não está relacionado com a América.” O seu chefe, James Baker, então Secretário de Estado de George Bush pai e agora enviado especial de George Bush filho, poderia responder a uma pergunta que inquieta muita gente: os EUA tramaram deliberadamente Saddam para assim poderem ter um pretexto para a sua própria invasão?

Massacres de xiitas: à medida que a primeira Guerra do Golfo terminava, o governo de Bush sénior fez um apelo aos oprimidos árabes xiitas para que se concentrassem no sul do Iraque e se revoltassem contra o regime de Saddam. Mesmo após o fim da guerra, os aviões de combate norte-americanos continuaram a sacrificar as tropas iraquianas à medida que estas fugiam em retirada nas estradas para Bagdad. Mas enquanto os EUA tentavam usar os xiitas como peões contra Saddam, consideravam como perigo principal não o regime de Saddam mas um vazio de poder no qual insurreições em massa pudessem ameaçar a estabilidade regional. O actual Bush poderia ter o seu pai a testemunhar sobre isso.

Utilização de armas químicas proibidas internacionalmente: os aviões de Saddam espalharam gás venenoso na cidade curda de Halabja em 1988, matando mais de 5000 pessoas numa questão de horas. Essa não foi a primeira atrocidade desse tipo. Em Março de 1984, no dia em que a ONU publicava um relatório em que condenava o uso de gás venenoso pelo Iraque contra as tropas iranianas, Rumsfeld estava a ter uma amistosa reunião com o ministro do exterior do Iraque. Durante os dois anos seguintes, os EUA ajudaram a construir a força aérea de Saddam. Quando o bombardeamento aéreo de Halabja provocou um clamor mundial, os EUA declararam “inconclusivas” as provas contra Saddam e sugeriram que o Irão estava por trás disso. Ironicamente, e de acordo com a comunicação social, esta é a defesa que Saddam está agora a usar no cativeiro.

Em 1988, o governo de Bush sénior impediu o Conselho de Segurança da ONU de condenar o Iraque pelo massacre de Halabja.

Mais, os EUA começaram por enviar antraz para o Iraque nos finais dos anos 70 e continuaram a faze-lo durante mais uma década, mesmo quando o Iraque estava a usar armas químicas contra o Irão e os curdos iraquianos.

Se houver o que qualquer pessoa sã possa chamar um verdadeiro julgamento para Saddam Hussein, estará uma grande multidão na bancada dos acusados, mesmo que as acusações se restrinjam a crimes cometidos no Iraque durante os seus anos de poder.

Substituir o regime de Saddam com quê?

“Este acontecimento traz a garantia adicional de que as câmaras de tortura e a polícia secreta acabaram para sempre”, declarou Bush. Isto é mais uma mentira.

Os ocupantes norte-americanos reabriram a prisão de Abu Ghraib, a infame prisão-inferno de Saddam a oeste de Bagdad. A comunicação social ocidental relatou que, desde Setembro, 10 mil homens foram lá encarcerados, aproximadamente metade deles opositores da ocupação e classificados como “detidos de segurança” sem nenhum dos direitos de qualquer preso de direito comum (como um julgamento) ou prisioneiros de guerra. Soldados norte-americanos mataram a tiro um jornalista palestiniano nas proximidades de Abu Ghraib, quando tentava filmá-la.

As autoridades de ocupação também têm estado a reconstruir a Mukhabarat, a polícia secreta de Saddam. Há alguns meses atrás, fizeram ofertas de emprego a ex-oficiais dos serviços de estrangeiros da Mukhabarat (que espiava contra a Síria e o Irão). Ultimamente, os relatos da imprensa citam funcionários não identificados dos EUA a dizer que os EUA estão agora a concentrar-se em reagrupar também os serviços domésticos. Isto significa o regresso tanto dos arquivos sobre os cidadãos iraquianos como dos homens que os usaram para punir a dissensão.

Depois de inicialmente terem planeado preservar o exército iraquiano e de depois o terem dissolvido, os EUA estão agora a fazer regressar unidades inteiras e os seus oficiais. Do primeiro batalhão do novo exército iraquiano dirigido pelos EUA, três quartos dos homens serviram anteriormente no antigo exército. Mas quase metade deles resignou recentemente em protesto contra a política de ocupação, realçando as contradições da situação que provocaram as vacilações dos EUA. A mesma situação parece prevalecer entre a polícia (readmitida por atacado).

Dada esta situação, o regime de Bush tornou claro que manterá um número significativo de forças de ocupação no Iraque no futuro previsível, apesar das afirmações sobre a devolução da “soberania” ao povo iraquiano a 1 de Julho de 2004.

Esse tipo de “soberania” é o que qualquer pessoa objectiva chamaria escravidão nacional. O plano é que um punhado de agentes escolhidos a dedo pelos EUA (que ultimamente têm vindo a afastar freneticamente todos os que considera incertos) organize várias reuniões onde escolha outras pessoas para escolherem algum tipo de governo que operaria com conselheiros norte-americanos a olhar por cima dos seus ombros e teriam as forças armadas norte-americanas como o seu único apoio real.

Em suma, a política dos EUA é substituir o regime repressivo e reaccionário de Saddam por um regime reaccionário, repressivo e marioneta dos EUA, usando alguns dos mesmos experimentados e verdadeiros opressores da velha guarda em conjunto com as “botas” norte-americanas para esmagar o povo, caso os antigos homens-de-mão de Saddam e algumas caras mais frescas provem ser demasiado suaves. Essencialmente, o “novo” plano de Bush para “devolver o Iraque aos iraquianos” em meados de 2004 não é nada diferente dos esforços dos EUA para “vietnamizar” a guerra do Vietname, erguendo um governo e um exército-fantoche, ou do governo-fantoche dos nazis em França durante a segunda guerra mundial. É o que as potências imperialistas sempre fizeram.

Mesmo agora, enquanto ainda há alguns assim chamados juízes iraquianos no Iraque, estes não têm qualquer autoridade para mandar prender ou libertar ninguém. Tudo o que podem fazer é dar o seu selo de aprovação ao que o verdadeiro poder faz.

Se o Conselho Administrativo Interino instalado pelos EUA, que é suposto fazer um julgamento “iraquiano” a Saddam, fosse sujeito a testes de ADN para provar a sua identidade como ele foi, revelaria que não passam de clones norte-americanos.

Incidentalmente, embora pouca informação tenha aparecido sobre as câmaras de tortura instaladas pelos norte-americanos (excepto os protestos da Amnistia Internacional sobre alguns homens que se sabe terem morrido repentinamente em detenção), agentes dos EUA têm admitido quase abertamente que essa prática levou à captura de Saddam. Uma equipa de Operações Especiais dos EUA, recentemente muito falada e constituída por agentes da CIA e operacionais do Departamento de Defesa, concentrou-se em capturar familiares próximos e distantes de Saddam. Como descrevia o jornal Washington Post: “O governo dos EUA tinha oferecido uma recompensa até 25 milhões de dólares por informações que conduzissem à captura de Saddam Hussein. Mas porque a informação vital chegou devido aos interrogatórios, não de um acto voluntário, um funcionário sénior disse: ‘Poupámos 25 milhões aos contribuintes’.”

Quem dá aos grandes criminosos o direito de julgar os pequenos?

Como salientou o ex-Procurador-Geral dos EUA, Ramsey Clark, os EUA não têm nenhuma base legal para processar Saddam, porque a própria ocupação norte-americana é ilegal. Contudo, a partir do minuto em que foi abertamente proposta a invasão do Iraque e provavelmente muito tempo antes, ocupar o Iraque foi o objectivo dos EUA nesta guerra. Bush e Blair foram ambos mentirosos comprovados com as suas histórias sobre as armas de destruição em massa de Saddam. A invasão foi parte de um maior plano para trazer o Médio Oriente inteiro mais directamente para baixo do controle dos EUA, como pilar de um império verdadeiramente global e controlado militarmente a um nível que o mundo nunca antes viu.

A captura de Saddam teve como significado mandar uma “mensagem” da determinação, desumanidade e invencibilidade imperial norte-americana aos iraquianos e aos povos do mundo, como também a outros lacaios norte-americanos na região que se mostraram insatisfatórios. No início da guerra, os EUA queixaram-se da humilhação ilegal de prisioneiros quando a comunicação social árabe mostrou soldados dos EUA sob custódia iraquiana. Mas não conseguiu resistir a transformar em espectáculo televisivo a degradação pública de Saddam (forçado a abrir a sua boca como um animal ou um escravo em leilão e a ter a sua barba e cabeça tosquiadas, etc.) porque a classe dominante norte-americana obedece a uma lei “mais elevada” – os seus interesses políticos e económicos.

Os imperialistas dos EUA são os maiores criminosos do planeta de hoje e os mais odiados. Desde o final da segunda guerra mundial, só a sua lista de crimes vai do bombardeamento de Hiroxima (seguido pelo bombardeamento de Nagasáqui três dias depois, só para mostrar que isso não era um engano) aos seus golpes de estado na Guatemala, no Irão e no Congo, e da Guerra do Vietname que deixou vários milhões de mortos na Indochina, passando pelas invasões de Granada, Panamá, Somália, Jugoslávia e outros países. Os 12 anos de sanções após a primeira Guerra do Golfo mataram centenas de milhares de iraquianos. Diz-se que Rumsfeld autorizou pessoalmente pelo menos 50 ataques aéreos na segunda guerra, nos quais mais de 30 civis foram considerados em risco. Mais de mil civis foram mortos apenas pelas ilegais bombas de fragmentação norte-americanas e britânicas. (Veja-se o relatório de 12 de Dezembro da organização Human Rights Watch.)

Bush fanfarronou sobre Saddam: “Bom desembaraço. O mundo está melhor sem ele.” De facto, o mundo não está nada melhor com Saddam nas mãos norte-americanas. A verdade é que os povos de todo o mundo estariam muito melhores sem a classe dominante dos EUA e todos os imperialistas que, com a captura de Saddam, uma vez mais exibiram compulsivamente a sua essência reaccionária e ridícula.

O futuro sem Saddam

Não é por causa de Saddam que o povo iraquiano tem resistido. Ele elevou a sua voz, manifestou-se nas ruas e atacou os ocupantes na maior parte do país. Nos dias seguintes à captura, centenas de pessoas em Falluja tomaram violentamente o escritório do presidente da Câmara nomeado pelos EUA. Protestos em massa também começaram em Ramadi e Tikrit, apelidada de “praça-forte de Saddam” pelos norte-americanos, e entre os estudantes da cidade de Mossul, a norte, até recentemente apontada como um modelo dos esforços das forças armadas dos EUA para ganhar “os corações e as mentes” iraquianos. Foram emboscadas tropas dos EUA num importante tiroteio em Samarra, uma cidade considerada hostil a Saddam.

Não importa qual o resultado imediato que a captura de Saddam possa ser, aquela resistência continuará até que a sua causa seja removida. O povo iraquiano quer o seu país de volta.