30 anos após a revolução iraniana

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 23 de Fevereiro de 2009, aworldtowinns.co.uk

Neste mês de Fevereiro passa o trigésimo aniversário da revolução iraniana. A República Islâmica do Irão, que chegou ao poder em 1979, alega que a revolução foi uma grande vitória, mas muitos iranianos não concordam.

À medida que a revolução ganhava impulso nos últimos meses do antigo regime, as pessoas desafiavam cada vez mais o exército do monarca e a sua brutal e infame polícia secreta (a SAVAK). Ao derrubar o Xá, um dos mais brutais peões do imperialismo norte-americano, o povo iraniano fez história. Estava certamente à espera de conquistar um mundo novo e melhor. Mas se o significado de uma revolução for a libertação das massas ou pelo menos uma resposta aos interesses políticos e económicos do povo no seu conjunto, o seu resultado não foi nenhuma vitória.

Em Janeiro de 1979, o Xá e a sua família fugiram do país, muito provavelmente seguindo instruções de Washington. Como estava previamente combinado, Shapour Bakhtiar, um chamado nacionalista, tornou-se primeiro-ministro, esperando fazer diminuir ou mesmo acabar com a escalada da revolta das massas. Mas também Bakhtiar não conseguiu resistir à tempestade da revolução. Menos de um mês depois, também ele teve que fugir.

As forças e as lutas que tornaram a revolução possível

O povo iraniano, mulheres e homens de todo o país, de diferentes nacionalidades, de várias religiões e sem religião e de diferentes classes estavam a integrar a revolução para exprimirem o seu ódio ao regime e aos seus apoiantes imperialistas. A maioria das pessoas e dos grupos políticos evitava falar nas diferenças dos seus pontos de vista. Toda a gente parecia unida para derrubar o Xá. Mas o que é que se lhe seguiu?

A fúria do povo resultava de uma acumulação de décadas de privações, repressão e opressão. Há décadas que o povo lutava e resistia.

As nacionalidades oprimidas do país estavam privadas do seu direito à autodeterminação. Após a Segunda Guerra Mundial, o povo curdo, liderado por Ghazi Mohammad, declarou a República Democrática do Curdistão a 12 de Dezembro de 1945. O povo azeri, sob a liderança de Jafar Pishevary, declarou a República Democrática do Azerbaijão. Exactamente um ano depois, a 12 de Dezembro de 1946, o exército do Xá esmagou essas novas repúblicas e massacrou muitos milhares de pessoas.

Os anos de 1949 a 1953 foram um ponto alto do movimento popular. Começaram a florescer movimentos de operários, de camponeses e de estudantes e a assumir formas organizativas. Em muitos casos, esses movimentos de massas em ascensão foram organizados pelo Partido Tudeh. (Este partido apoiava nessa altura a então socialista União Soviética, mas era um partido reformista, não comunista. Porém, devido ao seu apoio à URSS, muitos comunistas e massas revolucionárias aderiram a ele. Mais tarde, quando os revisionistas dentro do partido soviético fizeram regressar o capitalismo sob uma forma pseudo-socialista disfarçada, o Partido Tudeh apoiou-os.) Essa foi a primeira vez em que o Xá teve que fugir.

Talvez o maior crime do Xá tenha sido o golpe de estado que fez em 1953 com o total apoio financeiro e político dos EUA e da Grã-Bretanha e dos respectivos serviços secretos. Esse golpe de estado derrubou o governo de Mohammad Mossadegh, um primeiro-ministro nacionalista que defendeu a nacionalização da indústria petrolífera do Irão, controlada nessa altura pelos imperialistas britânicos. Por isso, o regresso do Xá a 19 de Agosto de 1953 foi um dos dias mais negros do século XX para o Irão. Mossadegh e muitos dos seus apoiantes e ministros foram presos; alguns deles foram executados. Um reino de reacção e terror varreu o país. Muitos activistas políticos foram identificados, presos, torturados e, em muitos casos, executados.

Mas a luta popular não terminou. Quatro meses após o golpe de estado, a 7 de Dezembro de 1953, Richard Nixon, o vice-presidente dos EUA dessa altura, foi ao Irão para verificar a consolidação do regime do Xá. Os estudantes manifestaram-se em massa contra a visita e as forças de segurança do Xá assassinaram três estudantes. Essa data passou a ser chamada Dia dos Estudantes. Desde essa altura, todos os anos nessa data, os estudantes protestaram contra o Xá – uma tradição de manifestações nesse dia que ainda hoje se mantém. O movimento estudantil foi um dos movimentos mais importantes, activos e efectivos contra o regime do Xá e ficou ainda mais forte no final dos anos 60 e nos anos 70. Um activo movimento de estudantes iranianos fora do país também surgiu depois de 1962. A Confederação de Estudantes Iranianos no estrangeiro representou um importante papel na divulgação fora do país da luta contra o Xá e também teve um importante impacto dentro do país. O que foi muito significativo nesse movimento estudantil foi o seu carácter geralmente de esquerda e em particular a atracão de muitos estudantes para o comunismo.

As lutas do povo do Irão durante os anos 60 ganharam um novo impulso sob a influência dos movimentos revolucionários e de outras tendências políticas no mundo, e em particular na China, no Vietname e em Cuba. No interior desse novo movimento surgiu uma luta vital para que abandonasse o reformismo que fora dominante durante as décadas anteriores no movimento popular iraniano e para que adoptasse uma orientação revolucionária. Por sua vez, esse movimento radical entre os estudantes universitários e outros jovens teve uma influência nos movimentos operários e outros que também surgiram nessa altura. Por volta dos anos 70, começaram a surgir organizações radicais viradas para a luta armada para derrubar o Xá, em todos os cantos do país e de uma forma sem precedentes.

A ascensão do movimento islâmico e o sequestro da revolução iraniana

O clero e os líderes religiosos com fortes ligações ao feudalismo sempre foram uma força poderosa no interior das classes dominantes. Esse foi também o caso durante o golpe de estado de 1953 apoiado pela CIA. O Aiatola Kashani, que era nessa altura um influente clérigo e que tinha apoiado o Xá contra Mossadegh, foi um excelente exemplo disso.

Mas a aliança entre o clero e o Xá começou a esboroar-se no início dos anos 60, quando o Xá introduziu o que chamou de “Revolução Branca”. Isto era o tipo de planos de reformas que os EUA tinham inventado e patrocinado sob diferentes nomes em muitos lugares do terceiro mundo para permitir que o capital global penetrasse ainda mais nas economias e culturas tradicionais desses países. A Revolução Branca incluiu algumas reformas da terra e alguns direitos limitados para as mulheres. Isso visava romper com alguns limites das práticas tradicionais e, em resultado disso, reduzir o poder de certos sectores das classes dominantes, sobretudo os sectores mais tradicionais e teocráticos das forças feudais dentro do poder dominante. O Aiatola (o principal clérigo da hierarquia xiita) Ruhollah Khomeini tornou-se o líder e a voz dessas forças conservadoras e tradicionais que se opuseram ao Xá e às suas reformas, não de uma perspectiva anti-imperialista e a olhar para o futuro, mas de um ponto de vista retrógrado e reaccionário. Quando o Xá mandou Khomeini para o exílio em 1962, isso promoveu ainda mais o seu estatuto de líder religioso.

Durante as lutas radicais do final da década de 60 e de toda a década de 70, o impacto da voz de Khomeini limitou-se a um certo sector do povo – o sector conservador tradicional da sociedade. À medida que o sentimento revolucionário ganhava momento e que os vários movimentos se preparavam para a revolução de 1979, havia poucos sinais das forças islâmicas. Mas a situação mudou à medida que se aproximava Fevereiro de 1979.

O Xá adoptou uma posição brutal face aos comunistas e a outras forças revolucionárias. A sua SAVAK torturou e assassinou muitos deles. As várias organizações comunistas só conseguiam sobreviver mantendo-se clandestinas e mesmo assim muitas pessoas foram presas e assassinadas. Embora, mesmo assim, tenham crescido, estas condições severas dificultavam a sua capacidade de ganhar amplas raízes na sociedade. Ao mesmo tempo, os clérigos usavam as convicções religiosas e as tradições retrógradas incrustadas na sociedade para influenciarem as massas e usavam as mesquitas de todos os bairros e aldeias para as organizarem. Os EUA e outros imperialistas ocidentais, que odiavam os verdadeiros comunistas e que também estavam em conflito com o bloco soviético, promoviam a ideologia religiosa em países como o Irão para a usarem contra os seus rivais, os social-imperialistas (socialistas em palavras, imperialistas nos actos). Em comparação com os radicais de esquerda, os islâmicos tinham muito mais liberdade.

Um outro factor importante que debilitou a esquerda e criou uma situação favorável às forças islâmicas foi o facto de que, na China, após a morte de Mao Tsétung, os seguidores da via capitalista do tipo dos que já estavam no poder na URSS organizaram um golpe de estado. Isso foi um enorme revés para o movimento comunista mundial. O seu impacto tornou-se ainda pior porque deixou muitos comunistas desorientados ou mesmo a saudarem entusiasticamente essa nova versão da adopção da política e ideologia capitalistas com um disfarce pseudo-socialista.

Todos esses factores convergiram para criar uma situação em que as forças religiosas se sobrepuseram às forças revolucionárias. Nos últimos meses antes da revolução, eles conseguiram tomar a liderança do movimento popular e começaram então a assumir compromissos com os imperialistas e a abortar a revolução no último momento.

Ao mesmo tempo que a juventude revolucionária e as massas populares lutavam contra o exército do Xá e tomavam guarnições do exército a 8 e 9 de Fevereiro de 1979, os representantes de Khomeini estavam ocupados a negociar com agentes norte-americanos, de diferentes formas e através de diferentes canais. (Ver o artigo sobre a Conferência de Guadalupe no SNUMAG de 26 de Maio de 2008.) Ao mesmo tempo, os clérigos do Irão estavam a tentar fazer parar a revolução dizendo: “Khomeini ainda não deu ordens para a jihad (guerra santa)”.

É esta a história de como o regime do Xá foi derrubado, como uma revolução foi roubada e como as classes burguesas compradoras e feudais se mantiveram no poder e continuaram a oprimir e a explorar, em muitas maneiras mais severamente que o Xá, as massas populares e mantiveram o país dentro da rede do sistema imperialista mundial.

Os novos opressores do povo do Irão

Assim que as forças islâmicas sob a liderança de Khomeini chegaram ao poder, a primeira coisa que fizeram foi tentar reprimir sistematicamente e eliminar os que tornaram a revolução possível.

Menos de um mês após a revolução, muitas mulheres perceberam que tinham sido enganadas por um regime antimulheres. Elas foram, de facto, o primeiro alvo do novo governo islâmico. A 8 de Março de 1979, elas realizaram uma histórica manifestação de protesto contra as medidas obscurantistas do regime, que incluíam obrigá-las a cobrirem as cabeças e restrições aos seus direitos e papéis na sociedade. Dezenas de milhares de mulheres gritaram nas ruas de Teerão: “Não fizemos a revolução para voltar para trás”. Mas o regime via a opressão das mulheres como um pilar do seu regime. Qualquer abrandamento dessas restrições poria em perigo a sua sobrevivência e por isso pressionaram ainda mais nesse sentido.

O povo curdo que, tal como outras nacionalidades minoritárias, há muito lutava contra o regime do Xá, também foi dos primeiros a ser visado pelos novos governantes islâmicos. As organizações comunistas tinham uma grande influência no Curdistão e essa região era um centro da continuação da revolução. Milhares de revolucionários de todo o país foram para o Curdistão para apoiar e participar nessa luta. Depois de algumas batalhas dispersas e jogadas conspirativas para tomar o controlo do Curdistão, finalmente a 19 de Agosto (aniversário do golpe do Xá) Khomeini deu a ordem para a jihad, que se tinha recusado a dar durante os dias mais tumultuosos da revolução contra o Xá. O alvo dessa jihad era o povo curdo. Isso desencadeou uma guerra entre o regime de Khomeini e o povo curdo e as organizações revolucionárias que lutavam no Curdistão, a qual viria a durar vários anos. O regime usou a mesma violência extrema contra outros povos minoritários como os turquemenos, os árabes e os baluchis, um mês depois de ter chegado ao poder.

À medida que a opressão das mulheres e a guerra no Curdistão continuavam, o regime planeou esmagar o movimento estudantil, uma outra fortaleza da esquerda radical. Em nome de uma “Revolução Cultural” que visava a islamização das universidades, desencadeou o ataque armado do Hezbollah (fanáticos religiosos que actuavam como arruaceiros não oficiais do regime) aos campi universitários. Apesar da heróica resistência dos estudantes, o Hezbollah, com o apoio de novas forças armadas mais profissionais (os Pasdaran, os chamados Guardas Revolucionários), tomaram as universidades e fecharam-nas durante mais de um ano. As forças de Khomeini, concentradas sobretudo no Partido da República Islâmica, começaram a sanear os professores, os conferencistas e os estudantes progressistas e revolucionários. Com a islamização das universidades, eles esperavam que o movimento estudantil nunca mais se voltasse a erguer.

Mas isso não foi o fim das práticas contra-revolucionárias do regime islâmico. Finalmente, após ter infligido tantos golpes à revolução, a 30 de Junho de 1981, Khomeini e o seu bando acharam que era o momento certo para darem um golpe mortal.

Milhares de comunistas revolucionários e outras forças revolucionárias, muitos deles conhecidos revolucionários que tinham lutado contra o regime do Xá e passado anos na prisão e sob tortura da SAVAK, foram presos e executados numa questão de alguns meses. Essa repressão continuou de uma forma intensificada em todo o país durante toda a década de 80. Durante esse período, dezenas de milhares de revolucionários e comunistas foram executados. Muitos mais foram encarcerados e sofreram torturas físicas e psicológicas. Finalmente, no verão de 1988, depois do fim da guerra Irão-Iraque, milhares de presos políticos que tinham sobrevivido às anteriores execuções e torturas foram mortos sem deixar rastro ou após julgamentos que duravam apenas alguns minutos, para porem fim ao “problema” dos presos políticos.

A declaração de vitória do regime foi de facto uma declaração de morte da revolução popular.

O que correu mal?

Hoje em dia, três décadas após dezenas de milhares de comunistas e outros revolucionários terem sido encarcerados, torturados e executados, quando nem sequer as campas e as famílias de muitos desses revolucionários são deixadas em paz, continuam proibidas as organizações comunistas e revolucionárias. As massas vêem negados os seus direitos políticos mais elementares. As mulheres, metade da população, são oprimidas enquanto género. São forçadas a cobrir-se com o véu islâmico e tratadas como valendo metade de um homem. As nacionalidades minoritárias vêem negado o direito à autodeterminação. A situação económica está a deteriorar-se; a pobreza está a aumentar. A dependência da droga é mais comum que em qualquer outra época da história do país. O povo iraniano pagou muito caro o malogro da revolução por essas cliques reaccionárias. Em vez de obterem a sua própria emancipação e a da humanidade do sistema imperialista mundial e de toda a ordem capitalista de exploração e opressão, as massas populares são pelo menos tão esmagadas como nunca e o país no seu todo está ainda mais dependente economicamente.

Mas a questão ainda se mantém: O que é que correu mal? Porque é que a revolução foi derrotada? Porque é que as massas populares, cujas lutas heróicas tornaram possível o colapso do regime do Xá, estão a passar por tanto sofrimento? Porque é que os revolucionários e as forças comunistas, que durante décadas estiveram na vanguarda das lutas contra o Xá, foram derrotados pelos novos governantes?

Estas questões podem e devem ser vistas de muitos ângulos, mas uma importante lição dessa revolução salienta-se neste momento particular.

Como foi mencionado antes, todos os sectores do povo estavam unidos sob as palavras de ordem “Abaixo o Xá”. Isso não era errado em si mesmo, mas o que foi errado foi que as forças mais conscientes e sobretudo as forças comunistas se limitaram a isso. Elas ignoraram o facto de diferentes forças de classe e interesses antagónicos estarem temporariamente agrupados atrás dessas palavras de ordem. Todas as correntes políticas viam os seus objectivos resumidos nas palavras de ordem “O Xá é um fascista, ele tem que sair”. Havia pouca clareza sobre o que iria acontecer para além disso. Muitas forças revolucionárias partilhavam em vários graus essas perspectivas míopes ou, quando fizeram alguma tentativa para irem mais além, não persistiram nisso. Como resultado, em vez de lutarem para aproveitar a oportunidade apresentada por uma grande conjuntura histórica, na prática os comunistas revolucionários foram atrás dos ladrões da revolução, até se tornarem no alvo dos reaccionários. As razões ideológicas para isso estão fora do âmbito deste artigo. Numa palavra, a perspectiva comunista foi comprometida. As forças islâmicas reaccionárias puderam fazer mais que apenas usar as vantagens que a própria sociedade e os imperialistas lhes tinham dado. Elas também puderam neutralizar as forças mais radicais e impor de facto a sua própria liderança.

Esta lição tem importantes implicações para os dias de hoje, em que os comunistas não estão numa posição de força. Algumas correntes da actual cena política internacional apelam às pessoas e aos revolucionários que ignorem as diferenças ideológicas – as diferentes perspectivas do mundo e os objectivos opostos – e que se limitem a apoiar os fundamentalistas islâmicos contra os EUA. Isto não só encobre a natureza dessas forças reaccionárias, como também empurra as pessoas para baixo da sua liderança. Os resultados dessa abordagem hoje não seriam melhores que o que aconteceu ao povo do Irão. Isso é uma receita para enganarem as pessoas uma vez mais.

Porém, as boas notícias são que, apesar de tanta opressão, repressão e sofrimento, a luta de classes tem-se mantido no Irão e tem-se intensificado, sobretudo na última década. As mulheres nunca pararam as suas lutas sob várias formas e emergiu um movimento de mulheres contra a discriminação aberta e legal. Apesar da brutalidade contra o movimento estudantil, o movimento re-explodiu na última década, resultando num importante desafio ao regime islâmico. Os trabalhadores têm tentado criar sindicatos e lutar por direitos básicos. Numa palavra, a luta de classes está a intensificar-se, enquanto, ao mesmo tempo, a República Islâmica do Irão, apesar das contradições, tem tentado vigorosamente encontrar no sistema imperialista mundial um lugar para os interesses reaccionários das classes que representa. Desta forma, a luta continua e as pessoas não podem repetir os erros que fizeram na última revolução.