18 de Setembro – Relatos ao vivo de Teerão

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 21 de Setembro de 2009, aworldtowinns.co.uk

O texto que se segue integra excertos de dois relatos dos protestos de 18 de Setembro enviados por activistas de Teerão ao jornal estudantil iraniano Bazr (www.bazr1384.com).

Passa pouco das 10h da manhã. As ruas estão a encher-se de pessoas que vieram para protestar. Algumas dirigem-se à Rua Enghelab, outras sobem a rua em que estou. Algumas dirigem-se às ruas e vielas laterais. Estão a tentar juntar-se a uma outra manifestação, evitando serem dispersas. As pessoas sorriem umas para as outras, como se todos nos conhecêssemos uns aos outros e que apenas não nos lembrássemos de onde ou quando. Algumas pessoas fazem o sinal V de vitória. Um velho sentado no seu carro estacionado sorri com satisfação. Um rapaz esconde o seu telemóvel atrás da mão e tira fotografias. Talvez vejamos o seu relato mais tarde na internet. Uma mulher diz: “Não vão nessa direcção, é aí que eles vão atacar”. As pessoas nos carros tocam as suas buzinas.

As mulheres deste país são tão corajosas. Pode-se vê-las de todas as idades e em todo o lado. Elas parecem tão resolutas. Por vezes sorriem (...) É verdade, como diz o ditado, que “Onde há mais opressão, há mais revolta”. Uma rapariga faz envergonhadamente o sinal de vitória; parece ser a sua primeira manifestação. Há tantas mulheres de meia-idade com jovens. Provavelmente, é porque são mães que vieram para o campo de batalha com os seus filhos. Há tantos grupos de mulheres de diferentes idades e também muitas mulheres que vieram por si próprias.

Quando me aproximo da Praça Vali Asr, toda a gente está a subir a rua. De uma forma ou de outra, a multidão veio para protestar. As pessoas não têm intenção nenhuma de participar nas orações de sexta-feira, sobretudo porque o imã que as lidera é Ahmad Khatami [um clérigo muito ligado ao regime]. Pelo contrário, ao comerem, todas as pessoas estão a violar o jejum do Ramadão. Isso também faz parte do protesto e é um sinal da volatilidade da religião em que se baseia o poder dominante.

A quantidade de pessoas nas ruas a protestar contra o regime faz toda a gente feliz. Porém, as palavras de ordem nem sempre são tão boas e encorajadoras. Algumas pessoas tentam gritar “Morte à China e à Rússia”. Reaparecem palavras de ordem de há dois ou três meses atrás. “Abaixo o ditador” é mais geral e por isso ecoa mais forte. Ouço algumas mulheres dizerem: “As verdadeiras autoridades religiosas são Montazeri e Saneei” (referindo-se aos aiatolas supostamente da oposição, Hossein Ali Montazeri e Saneei). Surpreende-me que, em vez de questionarem todo o conceito de autoridade religiosa reaccionária, queiram substituir uma por outra.

As pessoas encheram as ruas, mas a liderança reformista reduziu a capacidade desta enorme multidão. Muitas vezes as palavras de ordem não fazem sentido e são repetidas por pessoas que têm dúvidas quanto a elas. As pessoas encheram as ruas, mas não há um tipo de força que as permita enfrentar os arruaceiros do poder de estado. Há mãos escondidas a manobrar nos bastidores. Algo está a acontecer. Mas as pessoas que estão nas ruas não têm nenhum papel nessas decisões. O futuro ainda não é nosso. Ainda.

Ao contrário de algumas suposições, o Movimento Verde não foi derrotado. Os acontecimentos de hoje mostram que eles têm a capacidade de assumir um maior controlo sobre os manifestantes, agindo de uma forma mais organizada que antes, fortalecendo o aspecto religioso das manifestações e defendendo autoridades religiosas como Montazeri e Saneei em oposição ao Líder Supremo Khamenei.

Antes, o factor mais importante nas lutas internas entre as duas facções da República Islâmica era que ambas concordavam em manter de fora o povo. Mas, após as eleições, as regras do jogo mudaram e as duas facções procuram formas de lidar com a nova situação.

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À medida que nos aproximávamos da Rua Karimkhan, podíamos ouvir mais claramente as palavras de ordem: “Abaixo o ditador”, “O Irão tornou-se numa Palestina, porque é que toleramos isso pacificamente?”. Podíamos ver centenas de mãos levantadas e a bater palmas. Prometia ser uma gigantesca manifestação. Juntámo-nos ao protesto sob a Ponte Karimkhan. Para ser honesto, algumas das palavras de ordem não eram tão agradáveis aos nossos ouvidos. “Olá Hossein, Mir Hossein” em defesa de Mir Hossein Mousavi. “Não Gaza, não o Líbano, eu dou a minha vida pelo Irão”.

Era claro que, na ausência de forças avançadas e revolucionárias a propor palavras de ordem correctas, houve palavras de ordem erradas que se propagaram e que estão a ter uma influência política e ideológica muito negativa no movimento: de novo, o aparelho clerical de ignorância e superstição pode ser fortalecido e o chauvinismo reaccionário iraniano e persa pode substituir a solidariedade dos povos oprimidos do mundo...

A ponte está cheia de gente. A multidão criou um bonito cenário... De repente, do lado norte da praça, reparamos numa nova multidão de manifestantes constituída por jovens, rapazes e raparigas. Aí, as palavras de ordem são mais radicais. “A violação e a tortura já não nos assustam”, gritam eles enquanto tentam juntar-se aos manifestantes que convergem para a Praça Sétimo de Tir, vindos de sul. Surgem entre eles, basiji, polícias à paisana e forças de segurança. Os confrontos entre os manifestantes e as forças do regime estão iminentes.

Após um período de tensão, as pessoas reanimaram. O seu ânimo é claramente muito elevado. Tudo isto promete um início de semestre muito agitado nas universidades e escolas, um novo ano escolar agitado e uma grande escola de luta para toda a gente.