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| Alguns dos 150 mil
kikuyus que foram forçados a ir para campos de detenção durante a Revolta Mau Mau, 1952. (Foto: AP) |
O secretário de imprensa de Obama respondeu que é habitual restituir bens doados a anteriores presidentes, e que outro busto de Churchill desfruta de um lugar proeminente na Casa Branca. Obama disse que mantém esse busto de Churchill num sítio onde o pode ver diariamente. “Está lá voluntariamente. [...] Eu amo Winston Churchill. Eu amo o sujeito.”
Que há para amar em Winston Churchill? As mãos dele foram desavergonhadamente encharcadas no sangue de literalmente milhões de pessoas em África e na Ásia, e ele defendeu essas mortes argumentando que os nativos de pele escura do mundo tinham beneficiado do domínio do homem branco superior. Apesar disso, as pessoas estão sujeitas a uma lavagem cerebral tão grande que as sondagens na Grã-Bretanha elogiam Winston Churchill como grande estadista, talvez o maior de sempre.
Quando era jovem, ele partiu para África para participar em “muitas pequenas guerras joviais contra povos bárbaros”. Quando ele descobriu que as populações locais resistiam às tropas e aos colonos britânicos que ocupavam as suas terras, ele estigmatizou a resistência delas como sendo “uma forte propensão aborígene para matar” e exigiu que elas fossem esmagadas. Ele defendeu os campos de concentração britânicos na África do Sul, onde morreram 28 mil bóeres (imigrantes holandeses), e os campos segregados para onde foram levados 150 mil africanos negros e onde 14 mil deles morreram. Como Secretário Colonial nos anos 1920, ele lançou rufiões negros e morenos (as Forças Especiais da altura) para esmagar a insurreição irlandesa contra o domínio britânico. Quando os curdos se revoltaram contra a dominação britânica nos anos 1940, ele declarou-se “fortemente a favor de usar gases venenosos contra as tribos selvagens”.
Churchill acreditava que as férteis terras altas do Quénia deveriam pertencer aos colonos brancos e que as populações indígenas deveriam ser afastadas. Quando o povo kikuyu lutou contra isso, no que foi conhecido como a revolta Mau Mau, cerca de 150 mil pessoas foram forçadas a ir para campos de detenção. No livro Imperial Reckoning: The Untold Story of Britain's Gulag [Relatório Imperial: A História Não Contada do Gulag Britânico], baseado em cinco anos de investigação, a Professora Caroline Elkins, uma historiadora galardoada com o prémio Pulitzer, descreve os choques elétricos, as chicotadas, os horrendos assassinatos e mutilações, incluindo pessoas queimadas vivas, usados contra os africanos suspeitos de apoiar a insurreição.
Churchill ofereceu a “Terra Prometida” aos judeus e ignorou os palestinos que já viviam no país como sendo “hordas bárbaras que pouco mais comiam que esterco de camelo”. Ele criou a Jordânia e o Iraque, usando fronteiras arbitrárias para dividir e dominar grupos étnicos, bombardeando aldeias inteiras até à submissão e criando o palco para a atual crise. Os bombardeamentos terroristas de civis em 1920 foi uma ante-estreia das táticas usadas pelos norte-americanos e britânicos durante a invasão e ocupação do Iraque contemporâneo.
Em número crescente, as políticas imperiais de Churchill foram demonstradas de uma forma mais brutal na Índia colonial. Na fome de 1943, pelo menos 3 milhões de pessoas sofreram a fome e a morte no Bengala. Tendo plena consciência do que estava a fazer, Churchill recusou-se a enviar provisões alimentares para a região, dizendo que isso era culpa dos próprios indianos por “se reproduzirem como coelhos”.
O livro de Madhusree Mukerjee Churchill's Secret War [A Guerra Secreta de Churchill] descreve vividamente o efeito da fome, a partir de entrevistas com sobreviventes. “Muitos suicídios, mortes de clemência e casos de abandono de crianças ocorreram entre as famílias que já não conseguiam aguentar ver as faces famintas e de olhos abertos dos seus filhos. A prostituição em massa, praticada por mães, esposas ou filhas das aldeias com qualquer pessoa que tivesse cereais, salvou muitas vezes famílias inteiras. Os bordéis para soldados [britânicos e australianos] eram servidos por jovens famintas das zonas rurais. Muitas foram enganadas com promessas de um trabalho verdadeiro e depois forçadas à servidão, muito tal como hoje as mulheres são forçadas à prostituição em todo o mundo.” (Ver o SNUMAG de 11 de abril de 2011.)
Depois da II Guerra Mundial, o império britânico deu lugar à dominação dos EUA, e o imperialismo britânico floresceu como parceiro júnior nesta nova “relação especial” com os EUA. Os dias em que as potências ocidentais desfrutavam de um domínio direto e aberto sobre as colónias podem ter terminado quanto ao essencial, mas o imperialismo enquanto sistema económico e político em que um punhado de países domina e sangra o mundo continua em vigor. Por exemplo: as ocupações militares e as guerras geradas pela necessidade de proteger os interesses dos EUA, da Grã-Bretanha e de outros países ocidentais no Médio Oriente, e as “fábricas de suor” no Bangladesh e na China sem as quais não haveria nenhum centro comercial no Ocidente, não são menos devastadoras que os horrores enfrentados por povos colonizados diretamente que antes constituíram a maioria da população do mundo.
O próprio avô kikuyu de Obama foi encarcerado sob o reinado de Churchill. Mas Churchill é o modelo de Obama, tal como o é para a maioria dos líderes e candidatos a líderes das potências imperialistas. Quando Obama diz “Eu amo o sujeito”, ele está a falar como comandante supremo e diretor-geral do império norte-americano e, tal como Churchill, ele está preparado para fazer tudo o que puder para defender esse império.
| Fonte: Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), aworldtowinns.co.uk (em inglês) |