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| Exterior do
edifício bombardeado do hospital MSF de Kunduz, alguns dias depois do ataque aéreo norte-americano. (STR/AFP) |
Inicialmente, as forças armadas norte-americanas tentaram justificar o ataque como sendo “danos colaterais”, um subproduto de uma acção necessária para “proteger a força”. Umas forças armadas que invadiram e ocuparam um outro país não podem justificar moralmente as suas acções como sendo autodefesa e, além disso, o direito internacional proíbe explicitamente que de qualquer forma se atinjam pessoas feridas e instalações médicas. O Presidente norte-americano Barack Obama minimizou o ataque como sendo “um trágico incidente”, como se a morte dessas pessoas tivesse sido inevitável.
“É inaceitável que o bombardeamento de um hospital e a morte de pessoal e pacientes possam ser minimizados como sendo danos colaterais ou ignorados como sendo um erro”, disse a presidente dos MSF, Joanne Liu. À medida que cresciam o choque e a indignação, a 8 de Outubro Obama tentou encerrar o incidente chamando a Dra. Liu para lhe dar as “desculpas pessoais” dele pelo que ele alegou ter sido um “acidente”. Os factos, como revelaram os MSF, deixam claro que essa alegação não é verdadeira. Os MSF têm repetido o seu pedido de uma comissão internacional para investigar o ataque, a que continuam a chamar um crime de guerra.
O texto que se segue é a declaração da Dra. Liu quando visitou o Centro de Traumatismos de Kunduz após o ataque norte-americano.
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| O interior do
hospital dos MSF em Kunduz, Afeganistão, depois de ter sido
bombardeado pelas forças norte-americanas. (MSF/AFP/Gettys) |
Todo o Movimento MSF está em choque, e os nossos pensamentos estão com as famílias e os amigos das pessoas afectadas. Nada pode desculpar a violência contra pacientes, trabalhadores médicos e instalações de saúde. Ao abrigo da Lei Humanitária Internacional, os hospitais em zonas de conflito são espaços protegidos. Até prova em contrário, os acontecimentos do último sábado constituem uma indesculpável violação desta lei. Nós estamos a trabalhar assumindo um crime de guerra.
Na última semana, enquanto havia combates por toda a cidade, 400 feridos foram tratados no hospital. Desde a sua abertura em 2011, dezenas de milhares de civis e combatentes feridos de todos os lados do conflito foram triados e tratados pelos MSF. Na noite do bombardeamento, o pessoal dos MSF que estava a trabalhar no hospital ouviu o que foi mais tarde confirmado ser um avião militar norte-americano a circular múltiplas vezes ao seu redor, lançando a cada passagem as suas bombas no mesmo edifício no interior do complexo hospitalar. O edifício visado era o que alojava a unidade de cuidados intensivos, salas de emergência e a secção de fisioterapia. Os edifícios vizinhos neste complexo permaneceram largamente intactos.
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| A Dra. Joanne
Liu, presidente dos MSF International, ladeada por Francoise Saulnier,
conselheira MSF, e Bruno Jochum, Director-Geral MSF Suíça, numa
conferência de imprensa a 7 de Outubro de 2015 em Genebra sobre o
ataque aéreo ao hospital de Kunduz. (AP) |
Este ataque não pode ser ignorado como um mero engano ou uma consequência inevitável da guerra. As declarações do governo do Afeganistão têm alegado que as forças talibãs estavam a usar o hospital para dispararem contra as forças da Coligação. Estas declarações insinuam que as forças afegãs e norte-americanas trabalhando em conjunto decidiram arrasar um hospital a funcionar em pleno, o que equivale a uma admissão de um crime de guerra.
Este ataque não atinge apenas os MSF, também afecta o trabalho humanitário em todo o lado, e mina de uma forma fundamental os princípios centrais da actividade humanitária. Precisamos de respostas, não apenas para nós mas para todo o pessoal médico e humanitário que ajuda vítimas de conflitos, em qualquer ponto do mundo. A preservação das instalações de saúde como espaços neutros e protegidos depende do resultado de uma investigação transparente e independente.
| Fonte: Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), aworldtowinns.co.uk (em inglês) |