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| Refugiados
eritreus observam através do arame farpado no campo de refugiados de
Shagarab em Kassala, no Sudão, o ano passado.
(Foto: Ashraf Shazly/AFP) |
Na sua maioria, estes homens e mulheres estão a fugir ao serviço militar indeterminado que frequentemente envolve trabalhos forçados. Os que tentam evitar esse serviço militar ou escapar à sua escravização quando são alistados enfrentam a prisão, a tortura e o desaparecimento. As mulheres também enfrentam o assédio sexual e a violação pelos seus comandantes. Contudo, em vez de acolherem estes refugiados, como requer a decência comum e a lei, os governos europeus estão a declarar o regime eritreu como sendo tolerável e a encorajá-lo a encarcerar o seu povo dentro das suas fronteiras.
A Dinamarca tem desempenhado um papel principal nestas medidas. Em reacção ao crescente volume de pedidos de asilo de eritreus, a Dinamarca publicou em 2014 um relatório que concluía não haver nenhuma razão válida para lhes conceder esse estatuto. O relatório era baseado em grande parte em entrevistas a fontes diplomáticas anónimas e outras fontes na Eritreia e diz-se que contém declarações contraditórias e especulativas sobre a situação dos direitos humanos na Eritreia e alega que o governo prometeu fazer reformas. Declara que o medo dos eritreus de serem mortos se forem mandados de volta para a Eritreia não tem fundamento. Dois membros da comissão demitiram-se em protesto, dizendo que enquanto estiveram a investigar a situação na Eritreia não tiveram nenhum acesso a centros de detenção nem a entrevistas com vítimas ou testemunhas de violações dos direitos humanos e que as alegações feitas no relatório são no mínimo enganadoras.
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| Sobreviventes
da tragédia de Lampedusa são levados para terra.
(Foto: REUTERS) |
Porém, usando o relatório dinamarquês, o Reino Unido emitiu novas orientações que recusam muitos mais pedidos de asilo de eritreus, os quais são actualmente o segundo maior grupo de pessoas à procura do estatuto de refugiado no Reino Unido neste momento específico.
Responsáveis da ONU e de organizações de direitos humanos acreditam que vários países da União Europeia como a Noruega, a Itália e o Reino Unido podem estar a oferecer ao governo eritreu dinheiro e o levantamento do embargo de armas, da proibição de viajar e do congelamento de bens de responsáveis eritreus em troca de um mais estrito controlo das fronteiras eritreias. “Figuras europeias chave têm-se dirigido a Asmara [capital da Eritreia] e é claro que há uma real vontade política de resolver a crise migratória através do fecho das fronteiras do lado eritreu – é uma táctica muito perigosa”, disse uma pessoa bem informada da ONU, conhecedora das brutais acções do regime eritreu. (The Guardian, 13 de Junho de 2015)
Um relatório da ONU divulgado a 8 de Junho de 2015, baseado em 550 entrevistas confidenciais a testemunhas no estrangeiro e em 160 contribuições escritas, considera a Eritreia responsável por violações sistemáticas, generalizadas e grosseiras dos direitos humanos a uma enorme escala, próxima de crimes contra a humanidade.
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| Muitos
eritreus fogem do país à procura de um futuro melhor.
(Foto: AFP) |
O infortúnio destes refugiados não é suficientemente realçado apenas pelo seu crescente número. Aquilo que as pessoas na realidade arriscam ou por que passam revela o quão desesperadas elas estão em partir. Só o sair da Eritreia está cheio de perigos porque os guardas fronteiriços, agindo de acordo com a política oficial, frequentemente atiram a matar.
Segundo o Telegraph (3 de Outubro de 2013), há três rotas principais pelas quais as pessoas tentam escapar – e todas são excepcionalmente perigosas. Algumas pessoas estabelecem contacto com contrabandistas de pessoas e pagam a travessia pelo Mar Vermelho para o Iémen, a partir de onde tentam passar despercebidas na Arábia Saudita e chegar aos reinos ricos do Golfo.
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| Refugiados
amontoados num barco. (Foto: Picture Alliance) |
“Outras viram-se para ocidente e dirigem-se à fronteira com a Líbia, onde sobem a bordo de barcos sobrecarregados do tipo do que se afundou na quinta-feira. Se se conseguirem manter a flutuar, esses barcos levam os passageiros amontoados através do Mediterrâneo até à Sicília, às costas continentais italianas – ou, mais frequentemente à ilha de Lampedusa onde os migrantes são então detidos.”
Esta é a história de um imigrante eritreu: “Um antigo trabalhador nas minas de Bisha, de 26 anos, disse à Vice News que tinha sido forçado a trabalhar na mina entre Janeiro de 2011 e Outubro de 2013. Ele não quis que o nome dele fosse usado com medo de retaliações contra a família no país. Disse ter trabalhado na mina sete dias por semana, 12 horas de segunda-feira a sábado e sete horas no domingo. ‘Não nos davam comida suficiente para nos alimentarmos, por isso eu estava sempre muito fraco e exausto ao fim do dia. Abundavam problemas de saúde como a dificuldade em urinar e a diarreia. Vivi num complexo habitacional com cerca de 600 pessoas, partilhando 10 casas de banho e 20 chuveiros.’ Em Outubro de 2013, ele foi transferido para longe da companhia mineira para um outro trabalho forçado onde sofreu ‘severos castigos físicos’. ‘Era demasiado para aguentar e eu decidi partir’, disse ele. Em Dezembro de 2013, ele fugiu a pé pela fronteira com o Sudão." (Vice News, 12 de Junho de 2015)
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O regime instituiu inicialmente o serviço militar obrigatório como resposta a uma disputa fronteiriça há muito existente com a vizinha Etiópia, que incluiu uma guerra total em 1998-2000. Os dois países mantêm exércitos com aproximadamente o mesmo número de tropas, embora a Etiópia seja mais de quinze vezes maior que a Eritreia em termos de população. As lideranças dos dois regimes foram antes aliadas próximas na luta contra o amplamente odiado regime etíope de Mengistu Haile Mariam, o qual se desmoronou depois do fim da União Soviética de que era aliado.
As potências europeias que colonizaram a região tinham autorizado a Etiópia a anexar a Eritreia, e Mengistu manteve isso. Depois da queda de Mengistu em 1991, a Eritreia não obteve a independência durante mais dois anos e os anteriores aliados entraram em confronto. O novo regime etíope chegou sob a asa de Washington. Os EUA consideram a Etiópia útil nos seus esforços para dominarem o Corno de África e o exército etíope tem actuado como gendarme dos EUA na Somália, no Sudão e no Sudão do Sul.
Em suma, os países imperialistas estão profundamente implicados na criação e continuação da situação que força tantos eritreus a fugir do seu país. As vidas humanas não têm nenhum peso quando se trata dos interesses económicos e políticos imperialistas. Isto também foi claramente demonstrado pelas mais recentes políticas dos governos europeus em relação aos refugiados, eritreus e outros, que estes governos prefeririam mais ver afogados no Mediterrâneo que vivos nas costas da Europa.
| Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese |