Os seguintes três artigos são da edição de 23 de Junho de 2014 do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG). Podem ser reproduzidos ou usados sob qualquer forma, no seu todo ou em parte, desde que a fonte seja citada.

EUA – os maiores responsáveis pela guerra civil sectária no Iraque e na Síria
24 de Junho de 2014. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Os habitantes do Iraque, Síria e outros países, já num inferno, enfrentam algo ainda pior dado que os EUA tentam desesperadamente perceber como retirar alguma vantagem da confusão que criaram na região, ou pelo menos como preservar os seus interesses centrais. Os EUA, que não são os únicos a alimentar a guerra civil sectária na região, mas que têm mais responsabilidade que qualquer outro país, estão agora a justificar uma maior interferência e talvez mesmo mais violência, em nome de acabar com ela.

Na Síria, ajudaram a transformar um conflito político numa guerra religiosa ao usarem os fundamentalistas sunitas contra o regime de Bashar al-Assad. No Iraque, aliaram-se a um sector da elite xiita para acabarem com a resistência de base sunita à ocupação norte-americana. Em ambos os casos, usaram o sectarismo religioso para conseguirem o controlo político. Ironicamente, o governo de Assad mantém-se de pé, enquanto o governo de Maliki instalado pelos EUA cambaleia. Tudo o que os EUA fizeram teve um “ricochete”, mas eles não podem limitar-se a aceitar estes reveses se quiserem manter a sua posição na região e no mundo.

Os imperialistas não criaram a divisão entre sunitas e xiitas, mas muitas vezes actuaram deliberadamente para aumentar o antagonismo e emaranhar ainda mais as diferenças religiosas com diferentes interesses políticos e económicos. Na região, bem como em muito do mundo colonial, procuraram construir uma base social para o seu domínio, apoiando-se num grupo religioso ou étnico contra os outros, quer fossem os cristãos do Líbano, os alawitas e outras minorias religiosas da Síria, ou sunitas do Iraque, já para não falar no estado judaico de Israel em terras palestinianas roubadas.

Além disso, a região seria muito diferente se em 1980 os EUA e os seus aliados não tivessem encorajado o regime de base sunita de Saddam Hussein a atacar a recém-criada República Islâmica xiita do Irão e depois também armado o Irão (quer através de Israel, quer directamente). Essa guerra dizimou toda uma geração de jovens de ambos os lados, com um total de um milhão de vítimas, para reforçar os interesses norte-americanos através da debilitação de ambos os países, cujos regimes Washington considerava problemáticos. (Ver Oil, Power and Empire [Petróleo, Poder e Império], de Larry Everest, Common Courage Press, EUA, 2004)

Este processo continuou em 1991 com a primeira Guerra do Golfo e a dúzia de anos de sanções ao Iraque que serviram como arma de destruição em massa contra as vidas dos iraquianos. As estimativas do número de pessoas que morreram em resultado da desnutrição ou doenças devido às sanções variam entre meio milhão e um milhão.

Saddam respondeu encorajando uma crescente religiosidade sunita e uma identificação religiosa, numa altura em que as pressões da globalização nas sociedades e nos exploradores locais estavam a dar um ímpeto à ascensão do fundamentalismo religioso em muitos países. Os slogans nacionalistas e laicos que tinham sido a assinatura do partido Ba'ath no governo do Iraque (e da Síria) esbateram-se, e o próprio Saddam teve um fim ignominioso, primeiro deposto e capturado pelos EUA e depois apressadamente enforcado.

O presidente Barack Obama e outros importantes porta-vozes da classe dominante norte-americana estão agora a queixar-se amargamente do primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki, mas em primeiro lugar foram eles que puseram Maliki no poder com o objectivo de derrotar as forças sunitas que agora estão muito mais fortes que nunca.

Maliki e as pessoas em torno dele (o partido islamita xiita Dawa) trabalharam desde o início com os invasores norte-americanos. Os EUA contaram com o apoio deles enquanto levaram a cabo uma guerra de uma década que, tendo ocorrido em cima das sanções, transformou o Iraque de um dos países mais abastados e com melhor educação do mundo árabe, onde a religiosidade tinha um papel relativamente pequeno na vida oficial, num inferno. Embora o Dawa estivesse ligado ao regime iraniano e se dissesse que tinha estado envolvido num ataque islamita às tropas norte-americanas no Líbano, Washington decidiu que precisava de ignorar isso.

Os EUA iniciaram uma ofensiva frenética no país e mataram um grande número de iraquianos, por vezes sem fazerem distinção. Lembremo-nos do vídeo secreto das forças armadas norte-americanas que o fundador da Wikileaks Julien Assange e o soldado norte-americano agora conhecido como Chelsea Manning tornaram público. Mostra um helicóptero militar norte-americano a disparar sobre pessoas que apenas estavam a andar rua abaixo, e voltaram atrás deliberadamente para destruir uma carrinha com crianças lá dentro. Ou dos mercenários da Blackwater que abriram fogo numa rotunda de Bagdad cheia de carros e peões apenas porque a visão de muitos iraquianos os deixava nervosos.

Além disso, os EUA andaram num frenesim e estilhaçaram a sociedade iraquiana, numa tentativa de impor a sua própria ordem, e depois tentaram reorganizá-la numa base ainda mais reaccionária que no tempo de Saddam.

Os ocupantes realizaram as eleições de 2005, apresentadas pelos EUA como uma grande vitória e prova de que é uma força do bem, com o objectivo de estabelecerem um regime iraquiano que quisesse e fosse capaz de defender os objectivos norte-americanos. O embaixador norte-americano dessa altura, Zalmay Khalilzad, escolheu Maliki para ser o novo primeiro-ministro e organizou tudo para que isso acontecesse. (Agora Khalilzad está a apelar a que os EUA regressem a Ahmad Chalabi, o político xiita que garantiu à Casa Branca de Bush que os invasores norte-americanos seriam acolhidos de braços abertos e que lhes forneceu as provas falsas das armas biológicas e outras armas inexistentes de Saddam.)

Mas Maliki sobreviveu aos neoconservadores de Bush e também desfrutou do apoio de Obama. Nas eleições de 2010 que resultaram num empate entre políticos sunitas e xiitas, os EUA voltaram a organizar-se para que Maliki se mantivesse no governo.

Obama anunciou um plano para acabar em 2009 com as operações de combate norte-americanas no Iraque, tal como esteve quase a retirar outras 30 mil tropas para o Afeganistão. O projecto de manter 10 mil tropas e muitos mercenários norte-americanos no Iraque caiu porque Washington queria um tratado que lhes desse imunidade perante a lei iraquiana, o que, depois do incidente com a Blackwater, Maliki achou muito perigoso concretizar, mas também porque, como anunciaram importantes figuras do governo Obama, eles sentiam que a situação se tinha estabilizado e podiam confiar no regime de Maliki. Note-se que ao mesmo tempo que Obama agora manda de volta tropas para o Iraque, os conselheiros dele dizem que não precisam de esperar pela imunidade legal – presumivelmente porque as armas são um trunfo perante a lei.

Essa situação “estabilizada” quando as tropas de combate norte-americanas saíram era uma situação em que um sector da elite xiita, centrada no estado e no exército, e os líderes tribais tiravam o tapete à antiga elite sunita que tinha uma base semelhante e reduziam o seu poder, riqueza e posição. As pessoas comuns das zonas sunitas não têm sofrido só o desemprego e novos níveis de pobreza, também têm sido hostilizados, humilhados e abusados pelas autoridades xiitas. A polícia secreta e o exército cometem habitualmente atrocidades. (Face à ofensiva do ISIS, quando a polícia governamental fugiu de Baquba, a pouca distância a norte de Bagdad, a última coisa que fez foi executar os 44 prisioneiros sunitas da prisão local.)

Durante o último ano e sobretudo no início deste ano, à medida que o descontentamento e a rebelião se propagavam, lugares como Falluja, a oeste de Bagdad, uma das cidades que mais sofreu às mãos do exército norte-americano durante a guerra contra a ocupação, ficou novamente sob cerco e bombardeamento do governo de Maliki.

Se os EUA se opuseram, isso não foi divulgado. Quando Obama deu as boas-vindas a Maliki na Casa Branca em Dezembro de 2011, disse que Maliki “representa o governo mais inclusivo do Iraque até agora”. Quando o partido de Maliki “ganhou” as eleições parlamentares de Abril de 2014, a meio de um boicote sunita, os EUA não ficaram contentes, mas aceitaram a legitimidade dele desejando alguém que servisse melhor os seus interesses. Não foi senão a 10 de Junho, quando o exército de Maliki colapsou, que os EUA decidiram aproveitar o facto de o parlamento ainda ter de nomear um governo e um novo (ou velho) primeiro-ministro para tentarem mostrar uma nova cara para eles próprios. De novo, note-se que os EUA dizem agora que podem enviar tropas antes da formação de um novo governo constitucional que os convide.

De repente, os EUA estão a chorar lágrimas de crocodilo sobre o sectarismo xiita de Maliki e a falta de “inclusividade”, mas a verdade é que durante a guerra civil de 2006-7 no centro do Iraque, os EUA desarmaram primeiro as milícias sunitas e permitiram que as forças sectárias xiitas limpassem etnicamente as zonas mistas de Bagdad, ainda que ao mesmo tempo também tentassem aliar-se aos líderes tribais sunitas contra os fundamentalistas sunitas do que mais tarde viria a ser chamado ISIS [Estado Islâmico do Iraque e al-Sham, também chamado ISIL, Estado Islâmico do Iraque e Levante].

O embrionário ISIS retirou-se em grande parte para a Síria onde floresceu numa guerra civil que as potências ocidentais certamente pelo menos encorajaram. Durante o último ano, consolidou-se no leste da Síria e expandiu-se de volta ao Iraque. Agora que a fronteira entre os dois países foi efectivamente apagada e uma guerra civil reaccionária ameaça reemergir numa vasta e horrenda escala no Iraque, tal como já aconteceu na Síria, o problema, tal como os EUA o vêem, não é nenhum sectarismo religioso, nem as vidas sírias e iraquianas, mas simplesmente como encontrar um regime iraquiano dócil aos seus interesses e ainda competir pelo controlo da Síria.

Um aspecto da situação que precisa de ser melhor compreendido é a dinâmica entre o ISIS e as outras forças anti-Maliki. Segundo o Instituto Real de Serviços Unificados, o Grupo Internacional de Crise e outras fontes, grupos organizados liderados por antigos agentes dos serviços secretos e do exército de Saddam, entre os quais altos quadros do Ba'ath, têm proeminência entre a liderança militar desta ofensiva e na administração das cidades recentemente ocupadas. A insurreição tem sido mais forte em fortalezas ba'athistas como Tikrit, Falluja e outras cidades e vilas. Importantes clérigos sunitas (não necessariamente hostis a Saddam no passado) também têm desempenhado um papel importante, bem como líderes tribais sunitas, dizendo-se que os membros das tribos sãos os combatentes mais numerosos. Os EUA podem estar à espera de reconstruir as suas ligações a essas forças tribais, esperando que elas não partilhem o objectivo político do ISIS de um estado sunita Xariá/jihadista internacional.

Embora a religião não seja o único factor nesta situação, seria errado menosprezar a sua importância como fenómeno crescente em si mesmo, como ideologia e programa político. O conflito internacional entre os EUA e seus aliados e o islamismo político (e particularmente o jihadi) por sua vez influência as situações locais. (Note-se que no discurso de Obama após a queda de Mossul, ele mencionou o perigo islamita para os interesses norte-americanos no Iémen.) Na ausência de uma alternativa revolucionária, e com a destruição do antigo tecido social e os horrores da vida no Iraque que os EUA criaram, bem como a força de tradição, não é difícil perceber por que muitas pessoas se viram para o fundamentalismo religioso.

Uma outra questão importante é o papel do regime iraniano no Iraque. Os EUA e a República Islâmica do Irão apoiaram ambos o regime de Maliki e competiram entre si por influência dentro dele. O apoio do Irão a Maliki foi uma vantagem para os EUA, mas também uma séria e crescente fonte de preocupação. Vozes dentro tanto do regime norte-americano como do iraniano têm esperança na cooperação em interesses comuns, mas há importantes obstáculos a que isso seja possível.

O factor iraniano é outros dos múltiplos vínculos entre a situação iraquiana e as rivalidades regionais em geral e mesmo mundiais, desde a ânsia da Arábia Saudita em minar a influência iraniana por quaisquer meios necessários, à actual disputa entre os EUA e a Europa e o Irão e a Rússia em torno da Síria, a questão de Israel, e as relações EUA-Rússia em geral. Todas estas coisas estão intricadamente entrelaçadas.

Finalmente, embora não nos possamos focar aqui na questão do Curdistão, a classe dominante curda, até agora mais uma beneficiária afortunada que uma força motriz neste conflito, gostaria de ser um importante interveniente na redefinição do mapa regional. Onde pode chegar a realpolitik (“o inimigo do meu inimigo é meu amigo”) ficou visível quando, apesar da histórica oposição de Washington à autodeterminação curda, ela se aliou aos EUA, o que permitiu a criação da Região Autónoma Curda no Iraque. Agora, tem uma relação próxima com Recep Tayyip Erdogan, o primeiro-ministro de um país que há muito definiu a sua identidade e existência nacional através da opressão dos curdos e tem a sua própria agenda regional reaccionária. A Turquia, um grande investidor no Curdistão iraquiano, fornece a principal saída para o petróleo que o mantém próspero.

O próprio nome do grupo islamita sunita que lidera a ofensiva contra Maliki – Estado Islâmico do Iraque e al-Sham (por vezes chamado Da'ish em árabe) – indica o que está em jogo. O objectivo de unir o Iraque e a Síria, e talvez o Líbano, a Palestina, a Jordânia, o Chipre e a Turquia meridional (a região conhecida como Grande Síria ou al-Sham, o nome de um antigo califado que aí existiu) como uma única entidade governada pela Xariá, o que significaria abolir completamente a configuração de estados que as grandes potências, em particular a Grã-Bretanha e a França, estabeleceram quando dividiram o Médio Oriente entre si durante a I Guerra Mundial. Falando em traços gerais, tem sido a configuração da dominação imperialista desta parte do Médio Oriente desde então.

É isto que os EUA, e quaisquer aliados que possa atrair, estão a tentar preservar: uma ordem de opressão. As novas forças, também opressoras e reaccionárias, que ameaçam esta ordem emergiram no terreno preparado pela dominação dos imperialistas e pelos mecanismos do seu sistema económico mundial.

Os EUA, que há não muito tempo pensavam que podiam fazer quase tudo, não parecem saber o que fazer – porque não têm uma solução real nem sequer opções óbvias. Apesar disto, sentem-se compelidos a agir. Obama já enviou seis navios de guerra para o Golfo Pérsico. Os fuzileiros navais [Marines] enviados para reforçar a embaixada norte-americana (e o aeroporto) poderão ser usados para montar uma enorme ponte aérea de pessoal norte-americano – de partida ou de chegada. Os “conselheiros” norte-americanos (será que alguém pode acreditar que após uma década de “conselheiros” norte-americanos o que o exército iraquiano precisa é de mais treino?) podem ser usados para coordenar ataques de drones, na Síria e também no Iraque, o que poderia provocar uma maior reacção islamita. Um resultado positivo para os EUA está longe de estar garantido.

Os islamitas, apesar da sua actual atractividade na região, nem sequer reivindicam querer libertar nenhuma nação do sistema imperialista. Embora vários factores tendam a levá-los ao conflito com os EUA e outras potências imperialistas, eles não têm uma solução para os problemas dos povos causados pelo sistema imperialista mundial. Eles não têm nenhuma substituição aceitável para a actual ordem imperialista.

Temos testemunhado como uma profunda crise social, uma aguda crise de legitimidade e alguns milhares de homens armados podem derrotar 200 mil soldados, capturar uma enorme quantidade de armas e equipamento fornecidos pelos EUA para os usarem contra um regime apoiado pelos norte-americanos, e pôr a única superpotência do mundo num dilema. As mesmas contradições colossais que causam tanto sofrimento e miséria às massas populares também estão a criar novas possibilidades para os povos se levantarem e mudarem esta situação através da revolução.




Do Irão: Oponhamo-nos a todos os esforços reaccionários para se aproveitarem desta situação e, em vez disso, usemo-la para construir um movimento revolucionário
24 de Junho de 2014. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

O texto que se segue é extraído e editado de um comunicado do Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista) divulgado em meados de Junho.

A Republica Islâmica do Irão (RII) é outro governo muito preocupado com o avanço do ISIS. O regime de Bagdad tem relações muito próximas com a RII. Peritos políticos e militares iranianos desempenharam um importante papel no treino do actual exército iraquiano, pelo menos dos seus sectores xiitas. Depois do ataque do ISIS a Mossul, o chefe dos Guardas Revolucionários, o notório sanguinário General Qasem Soleimani, foi a Bagdad para proteger a capital com 150 “peritos” militares e 1000 tropas.

Desde a formação do ISIS que a RII os tem chamado “Takfiris” [muçulmanos que rotulam os outros muçulmanos de infiéis], e desde a crise na Síria que os Guardas Revolucionários iranianos os têm combatido. Os líderes da RII dizem que o ISIS é uma criação saudita para enfrentar o Irão. As forças militares iranianas estão em alerta na parte ocidental do país e no Curdistão iraniano, e os voos para o Iraque, incluindo os dos peregrinos iranianos, foram suspensos. Os ataques do ISIS acrescentaram uma nova contradição a todas as outras entre as governantes da República Islâmica: deve a RII usar os Guardas Revolucionários para avançarem militarmente de uma forma total contra o ISIS, ou ajudar o Iraque de uma forma mais limitada? Deve a RII continuar a apoiar o governo de Nouri al-Maliki ou abandoná-lo?

Devido a estas contradições internas, diferentes dirigentes da RII têm diferentes posições. Mas, em geral, a RII está a usar isto para declarar uma cooperação com os EUA em guerras sujas regionais. No aniversário da sua eleição, o Presidente Hassan Rouhani gritou: “Nós estamos a combater o terrorismo mundial!” A 14 de Junho, declarou: “Se a RII vir uma acção militar dos EUA contra o ISIS, pode ser concebível alguma forma de colaboração entre ambos os países”. Ao mesmo tempo que está a gritar contra o “terrorismo”, está em marcha um terrorismo de estado muito mais grave dentro do próprio Irão, já que o regime continua a reprimir as nacionalidades oprimidas e as minorias religiosas. Nos últimos dias, foram executados dois activistas árabes e 57 jovens curdos acusados de colaborar com os salafistas [fundamentalistas sunitas] e forças políticas curdas foram levadas a tribunal.

Claro que, em caso de uma maior intervenção da RII no Iraque, temos de esperar uma reacção dos apoiantes do ISIS nas zonas sunitas e fronteiriças do Irão como o Baluchistão e outros lugares. A ironia é que os primeiros a proclamar um regime religioso na história recente estão agora a proclamar a sua oposição a outras forças reaccionárias que, tal como a RII, também querem estabelecer o governo de Alá na Terra.

As forças reaccionárias do Médio Oriente e África, quer xiitas, sunitas ou salafistas, têm levantado a bandeira do Islão para chegarem ao poder e partilharem a exploração e a pilhagem do povo juntamente com as potências imperialistas. Nesta tentativa, elas cometerão todos os crimes necessários. A ideologia islâmica é uma ideologia e um programa social extremamente reaccionário e contra o povo, e o crescimento do fundamentalismo islâmico é o resultado dos crimes horrendos do capitalismo imperialista e do seu funcionamento no mundo. As suas hediondas consequências económicas e sociais têm provocado horrores a milhões de pessoas nos países periféricos, incluindo o Médio Oriente e o Norte de África, e resultaram na formação de movimentos fundamentalistas islâmicos nesses lugares. O Islamismo é um movimento reaccionário sem uma perspectiva diferente do que a continuação das relações capitalistas e da pobreza, miséria, ignorância, superstição, relações patriarcais e misoginia para os operários e trabalhadores desses países.

Embora as consequências de um envolvimento militar numa região plena de contradições e instabilidade não sejam claras para os governantes teocráticos do Irão, as necessidade de médio, longo ou mesmo de curto prazo, para manterem um sistema que quanto ao seu núcleo está totalmente dependente e baseado no sistema capitalista imperialista mundial, forçam a RII nessa direcção. Qualquer derrota neste envolvimento irá piorar a própria crise política, económica e ideológica da RII, incluindo as contradições entre os próprios governantes. Apesar disto, os dirigentes do regime vêem uma entrada nesta guerra regional como uma oportunidade para salvaguardarem o seu sistema. Vêem a necessidade de entrar num jogo perigoso e multifacetado, esforçando-se por se tornarem no principal aliado das potências imperialistas na região e desafiando os combatentes islamitas da al-Qaeda e as forças paramilitares dependentes da Arábia Saudita, do Qatar, etc., mesmo que a granada possa explodir nas suas próprias mãos. A situação no Médio Oriente é tal que os regimes governantes só podem obter crédito junto dos imperialistas através de tais medidas. Quase nenhum estado pode manter-se afastado destas contradições e conflitos.

Várias forças da oposição iraniana têm tido diferentes posições sobre esta situação. Imediatamente após a ofensiva do ISIS, os Mojahedin Khalq [uma organização iraniana frequentemente descrita como “marxista islâmica” que combateu o regime iraniano] disseram ao canal noticioso televisivo Al-Jazeera que a cidade de Mossul estava sob controlo dos revolucionários e das tribos iraquianas. Que uma força como os Mojahedin na região comecem a apoiar e mesmo a trabalhar com o ISIS não é extraordinário.

Num folheto divulgado no primeiro dia da crise, o Komala Zahmatkeshan [um partido essencialmente curdo iraniano que se diz “marxista-leninista”] disse que o governo curdo iraquiano deveria “fazer regressar as regiões separadas do Curdistão aos braços da Região Autónoma Curda para as proteger contra o ISIS” e que todas as forças políticas do Curdistão iraquiano se deveriam unir a esse governo nisso. O Komala também disse: “Declaramos o nosso apoio ao governo da Região Autónoma Curda para proteger o povo do Curdistão iraquiano e estamos prontos para colaborar de qualquer forma possível para proteger esta experiência histórica do perigo dos terroristas e racistas”.

Tais declarações por parte de forças nacionalistas e pró-imperialistas como o Komala não são novas. Há muito tempo que este partido canta o velho hino de alinhar com quaisquer forças reaccionárias que estejam no poder. Um dia aliam-se a Ahmed Chalabi e aos imperialistas contra Saddam e, no dia seguinte, apesar das intenções deles, a Nouri al-Maliki e à RII a pretexto de defenderem a Região Autónoma Curda. Mesmo quando não estão no poder, a natureza de classe dessas forças é óbvia. Estão essencialmente à procura de um lugar e do seu quinhão no mundo opressor e de uma participação nas relações de exploração.

Tais forças estão à procura de uma via intermédia como saída para esta confusão, mas caem repetidamente na armadilha de tentarem escolher entre o mau e o pior, alinhando com um conjunto de imperialistas reaccionários ou forças fundamentalistas islâmicas e estados reaccionários das região.

Durante a primeira guerra mundial imperialista, Lenine foi o único que se opôs a uma posição semelhante tomada pelos fortes partidos social-democratas da altura, e expôs a natureza reaccionária dessa guerra imperialista. Ele disse que a verdadeira natureza dessa guerra deveria ser exposta e que a sofística e o belicismo patriótico das classes dominantes imperialistas na promoção da guerra deveriam ser implacavelmente expostos. Também hoje, as forças comunistas e revolucionárias têm de denunciar a natureza de todas as forças e estados reaccionários, quer no governo ou fora do estado, às ordens dos EUA ou de quaisquer outros imperialistas, e acautelar-se contra qualquer tentativa de ficar perto dessas potências ou grupos reaccionários de qualquer lado da equação que só irá reforçar as grilhetas de escravidão dos povos da região.

A razão por que jovens de diferentes nacionalidades estão a combater sob as bandeiras negras do ISIS, dos talibãs ou de outros islamitas na região não é apenas porque os estados do Irão, Iraque, Síria, Líbia e Egipto, etc., são injustos e corruptos. Também é porque não há nenhuma alternativa comunista em cena. Uma alternativa comunista – se tiver uma compreensão clara da situação política na região e no mundo e das complexas contradições entre as várias forças reaccionárias e burguesas e pró-imperialistas – pode mostrar o caminho para uma verdadeira revolução socialista, para o derrube revolucionário de todos esses estados e a eliminação da influência imperialista na região, em unidade com o proletariado internacional. Esta ausência é penosamente sentida na região. Enquanto uma tal força e pólo comunista não for formado na região e no mundo, forças como o ISIS terão a possibilidade e a oportunidade de mobilizar as massas populares, incluindo os operários e os trabalhadores. As genuínas forças comunistas e revolucionárias, mesmo quando são uma muito pequena minoria, não devem deixar as pessoas escolher entre o mau e o pior e não devem elas próprias cair nisso.

A tarefa de todas as pessoas e grupos progressistas (já para não falar nos comunistas) é tomar uma posição contra a participação da RII na guerra no Iraque ou em qualquer outro lugar, e encorajar as pessoas a odiar esta “missão” reaccionária que irá servir o sistema imperialista mundial.

Precisamos de expor a hipocrisia dos dirigentes de segurança, militares e ideólogos da RII que querem promover o acto desprezível de mandar os Guardas Revolucionários para combaterem numa guerra reaccionária como sendo de “interesse nacional” e que visa “tornar o Irão seguro” e que o justificam desta forma. As pessoas devem ficar a saber que o ISIS e a RII partilham uma natureza comum. Os crimes da RII contra os árabes do Khuzestão [uma província iraniana] devem ser denunciados. Muitos jovens árabes estão a ir pela via errada de servir os salafistas em oposição à RII. Esses jovens e todos os povos, sejam curdos, árabes, fars, turcos ou turcomanos, devem saber que a via do povo não é a de qualquer destes reaccionários, quer seja a RII ou os seus rivais sunitas.

Horizontes míopes, quer sejam religiosos, nacionais ou regionais, só podem trazer miséria à maioria das pessoas. As pessoas devem ver para além das divisões nacionais, regionais, religiosas, raciais e de género/sexuais e compreender o horizonte mais vasto da unidade internacionalista baseada em interesses de classe. Os operários, e os activistas operários em particular, devem assumir uma posição contra a propaganda anti-sunita e anti-árabe e contra o fanatismo “nacional” que provêm dos porta-vozes das forças de segurança e militares do Irão. Não nos esqueçamos da guerra Irão-Iraque, quando centenas de milhares de jovens foram levados a caminhar por campos de minas numa guerra reaccionária, e os trabalhadores do Irão e do Iraque foram forçados a matar-se uns aos outros e foram mortos para fortalecer os tronos de Saddam e Khomeini.

No meio de tudo isto, as mulheres devem estar na vanguarda da tomada de uma posição contra o aventureirismo militar da RII, porque numa guerra entre os reaccionários islâmicos do Irão e os reaccionários islâmicos do Iraque ou de qualquer outro lugar, as mulheres serão as primeiras vítimas.

É necessário que as forças revolucionárias e comunistas exponham a natureza do ISIS e de outras forças fundamentalistas islâmicas na região, e que exponham e se oponham ao regime da RII e à sua vontade de se aliar ao imperialismo norte-americano e à intervenção e expansionismo no Iraque, na Síria e noutros lugares. Não devemos deixar que o regime fortaleça as suas ligações aos imperialistas soprando as chamas da guerra entre xiitas e sunitas e apresentando-se como “anti-extremistas” para expandir a sua própria influência na região. Não devemos deixar que o regime se esconda por trás da face negra dos reaccionários do ISIS, ou que a use para embelezar a sua própria face repelente e repressiva aos olhos dos vários sectores do povo. Não devemos deixar que se aproveite do fundamentalismo sunita para reprimir os protestos dos povos oprimidos do Irão como os árabes e os baluchis.

Trata-se do mesmo regime que dentro das suas próprias fronteiras continua a impor leis cruéis como a do apedrejamento de mulheres, que de todos os púlpitos prega a religião, a ignorância e a superstição, e que regularmente lança as suas patrulhas da moralidade contra as mulheres.

Devemos expor a verdadeira natureza reaccionária destas guerras horrendas. Nas últimas décadas, o povo do Iraque pôde experimentar as políticas imperialistas e reaccionárias. Milhões de crianças iraquianas foram vítimas das sanções imperialistas. Milhões de iraquianos foram empurrados para a diáspora. Centenas de milhares de operários e trabalhadores iraquianos morreram ou foram feridos, e muitos deles perderam a vida nos calabouços de Abu Ghraib. Hoje, o povo iraquiano não deve deixar que novos e velhos criminosos sob qualquer disfarce uma vez mais estejam na liderança.

As estruturas políticas da região estabelecidas após a I e a II Guerras Mundiais sob o patrocínio dos imperialistas ocidentais liderados pelos EUA estão a desmoronar-se, e as guerras norte-americanas no Iraque e no Afeganistão aceleraram este processo. Os imperialistas e os seus estados locais como o Iraque e mesmo o Irão estão impossibilitados de lidar com esta situação. A fanfarronice dos exércitos e dos governos deles é oca. Eles estão debilitados pelas suas contradições internas e isto cria importantes oportunidades para as forças comunistas revolucionárias se organizarem contra toda esta opressão e exploração entre as massas que estão fartas desta situação, e para começarem um movimento pela revolução – uma revolução que destrua estes estados e que, em vez deles, estabeleça novos estados socialistas.




Dos EUA: Não à escalada da agressão norte-americana contra o Iraque – avancemos por outro caminho!
24 de Junho de 2014. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Os seguintes excertos editados são do Revolution, o jornal do Partido Comunista Revolucionário, EUA, nº. 342, de 22 de Junho de 2014.

O presidente Barack Obama diz que os EUA precisam de responder militarmente porque o ISIS “representa um perigo para o Iraque e o seu povo” e para os “interesses americanos”. Mas a principal causa do inimaginável sofrimento do povo iraquiano têm sido esses mesmos interesses – imperialistas – norte-americanos.

O conflito entre o regime apoiado pelos EUA no Iraque e o ISIS faz parte de um conjunto muito mais vasto e complexo de desafios ao império norte-americano pelos seus rivais e outras forças reaccionárias. Isto tem tido expressão num intenso conflito, numa brutal opressão e num horrendo sofrimento no Iraque e na vizinha Síria. Há três anos, os EUA (e, com interesses sobrepostos e opostos, os aliados dos EUA) encorajaram e apoiaram um grupo de forças reaccionárias que tentavam derrubar o governo de Bashar al-Assad na Síria e instalar um regime mais complacente com os interesses do imperialismo norte-americano. O resultado tem sido uma guerra civil na Síria que tem devastado o país, destruído as principais infra-estruturas e criado uma enorme crise humanitária com centenas de milhares de refugiados. A ocupação norte-americana do Iraque, e as décadas anteriores de sanções mortíferas e a invasão, geraram terríveis condições para os habitantes locais. E, do Paquistão ao Iémen, e para além deles, os drones, mercenários e regimes aliados dos EUA geraram um ódio generalizado aos EUA. Estes e outros factores, incluindo a falta de uma verdadeira alternativa revolucionária radical na região, criaram um terreno fértil para a ascensão de forças reaccionárias como o ISIS.

A invasão e ocupação pelos EUA em 2003 – com base em mentiras sobre “armas de destruição em massa” – levaram à morte de entre 600 mil e 1,4 milhões de iraquianos, à deslocação de mais de 4 milhão de pessoas e ao fortalecimento do fundamentalismo islâmico reaccionário, entre os quais o ISIS. E esses interesses imperialistas estão essencialmente a manter e a impor um mundo de exploração, opressão e devastação ambiental.

O que está em acção no Iraque – e para além dele em vastas partes do mundo – é um conflito entre diferentes forças opressoras e reaccionárias. Apoiar qualquer uma delas só irá perpetuar a opressão e o sofrimento. E qualquer escalada do envolvimento militar dos EUA deve ter a oposição das pessoas nos EUA em nome de quem esta agressão está a ser levada a cabo.

O que é necessário para que algo melhor possa sair desta loucura que está a devastar o povo do Iraque, e de todo o Médio Oriente? Numa palavra: a revolução! Uma revolução que extirpe – e não que intensifique – a opressão, incluindo a opressão das mulheres. Há uma profunda base para a revolução na miséria e no ódio, no caos e nas constantes crises geradas pelo funcionamento do sistema capitalista-imperialista no Médio Oriente em geral, e no Iraque em particular.

Uma coisa revelada por esta mais recente crise para os EUA no Iraque é que o imperialismo norte-americano não é todo-poderoso. Toda a situação no Iraque e na região está atormentada de contradições. Apesar do seu poderio militar, os EUA não têm conseguido atingir os seus objectivos no Iraque. A pretensa “guerra global ao terrorismo” de 13 anos (na realidade uma guerra pelo império) debilitou o seu sistema e gerou novas contradições e dificuldades, entre as quais a expansão do jihadismo islâmico reaccionário no Norte de África, Médio Oriente, Ásia Central e outros lugares.

Na ausência de uma verdadeira alternativa, toda a indignação e fúria geradas pelo imperialismo irão ser canalizadas para becos sem saída, desespero e programas reaccionários. Mas há um outro caminho! A nova síntese do comunismo, de Bob Avakian, é a alternativa real, radical, viável e visionária ao imperialismo ocidental e ao fundamentalismo islâmico. Fazê-la seguir em frente requer entrar em profundidade na ciência da revolução. Significa liderar as pessoas para a luta e transformar o pensamento delas, fazer a revolução. E, como parte disto, requer um movimento mundial e, no mapa político dos EUA, que exponha e se oponha aos crimes imperialistas mas que também rejeite e se oponha à (não) “alternativa” fundamentalista islâmica.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese