México: O aniversário de um massacre enquanto continuam os massacres
1 de Outubro de 2012. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

O massacre de Tlatelolco, ocorrido há 44 anos, continua a projectar a sua sombra sobre a paisagem política do México.

Durante o verão de 1968, um movimento de estudantes do ensino secundário, profissional e universitário, ligado à insurreição radical que então varria o mundo, teve de enfrentar a polícia e o exército desde o início. Em resposta aos violentos ataques às escolas ocupadas, os estudantes foram distribuir folhetos e falar às pessoas nos autocarros, nos mercados, às portas das fábricas e nas zonas rurais para construírem um vasto movimento social que levou a questão da revolução a muitas mentes.

A 2 de Outubro de 1968, pouco antes do início dos Jogos Olímpicos, dezenas de milhares de estudantes e de residentes locais juntaram-se para um comício político na Plaza de las Tres Culturas, no bairro de Tlatelolco, na Cidade do México. O governo tinha gastado uma enorme quantidade de dinheiro para se poder embalar no prestígio dos primeiros Jogos Olímpicos que iam ser realizados num país do terceiro mundo e não estava disposto a permitir que a sua autoridade e legitimidade fossem postas em causa.

Milhares de tropas e centenas de pequenos tanques cercaram a zona. Os membros da Brigada Olímpica, uma unidade secreta de forças especiais da Guarda Presidencial, infiltraram a multidão. Um helicóptero começou a lançar labaredas. Isto foi o sinal para os membros da Brigada abrirem fogo. Os soldados, a polícia e os agentes à paisana também começaram a disparar. Pelo menos uma metralhadora instalada num apartamento num 19º andar disparou sobre a praça. As unidades da Brigada Olímpica entraram na praça para prender os líderes estudantis. Andaram de casa em casa nos edifícios de apartamentos vizinhos durante toda a noite à procura dos estudantes. Durante essa tarde e na noite seguinte, mataram centenas de pessoas e prenderam mais alguns milhares.

Como Ministro do Interior, Luis Echeverria teve responsabilidades no massacre de Tlatelolco. Três anos depois, durante a presidência dele, a 10 de Junho de 1971, uma unidade paramilitar de elite treinada pelos EUA e conhecida como Os Falcões atacou uma manifestação de estudantes na Cidade do México, espancando e disparando sobre as pessoas, mais de cem das quais acabaram por morrer.

No trigésimo aniversário do massacre de Tlatelolco, o Presidente Vincente Fox, do PAN (Partido de Acção Nacional), cuja eleição pôs fim ao reinado de setenta anos do PRI (Partido da Revolução Institucional), desbloqueou documentos que essencialmente revelavam que a versão governamental dos acontecimentos – de que tinham sido os os próprios estudantes a começar os disparos para provocarem os soldados – era uma mentira. Era impossível que Fox se distanciasse desse passado odioso sem este tipo de medida. Em 2006, o ex-Presidente Echeverria foi preso e acusado de genocídio, mas as acusações contra ele acabaram por ser arquivadas sob o pretexto de que já tinha passado demasiado tempo. Ele ainda continua vivo. Durante este período, documentos secretos obtidos por uma organização académica norte-americana de investigação revelou que as forças armadas norte-americanas forneceram ao governo mexicano equipamento militar para ser usado contra o povo e que a CIA esteve em contacto ininterrupto com ele durante a «crise» de 1968.

O 2 de Outubro é agora oficialmente um «dia nacional de luto» e dezenas de milhares de pessoas marcharam na capital no quadragésimo aniversário de Tlatelolco, mas os responsáveis pelo massacre nunca foram punidos. Além disso, apesar do surgimento de diversos partidos políticos rivais, todos os três principais partidos do México, o PRI (recém-eleito para encabeçar o próximo governo mexicano), o PAN (o actual partido no governo que se apresenta a si mesmo como campeão da «democracia») e o PRD de «esquerda», têm, de uma forma ou de outra, continuado a estar envolvidos na execução de assassinatos e massacres pelo estado.

O texto seguinte é um artigo do Aurora Roja, órgão da Organização Comunista Revolucionária (OCR) do México (aurora-roja.blogspot.mx). Para os leitores não mexicanos, acrescentámos algumas explicações, entre parênteses rectos.

Abaixo o estado assassino!

Prender pessoas sem motivo, tortura-las, fazê-las desaparecer e assassiná-las: estes são os procedimentos normais do estado mexicano. As pessoas esperam poder mudá-lo através de reformas ou elegendo novos rostos, mas os factos têm mostrado que isso não resulta.

Os assassinatos de 1968 continuam impunes porque o estado não mudou

Em 1968, os jovens revoltaram-se contra a sangrenta repressão do estado. Eles estilhaçaram a rotina sufocante e puseram em causa a ordem social. Porque é que o estado massacrou centenas de pessoas em Tlatelolco a 2 de Outubro? Por que encarcerou outras duas mil pessoas? Porque é que a comunicação social propaga a mentira oficial de que «foram os estudantes que começaram o tiroteio» e que só morreram vinte ou trinta pessoas? Para manterem e reforçarem o seu monopólio do poder. Quiseram mandar uma mensagem escrita em sangue a todos os que ousaram pô-los em causa – a mensagem de que, tal como dizia o filme Rojo Amanecer [um conhecido filme sobre o massacre de Tlatelolco]: «Vocês não podem brincar com o estado».

Se, como se diz, o estado representa «o povo mexicano», então porque é que reprime o povo que supostamente representa? A verdade é que só representa uma pequena minoria que acumula riquezas e benefícios com o actual sistema, os grandes capitalistas e proprietários rurais mexicanos e estrangeiros. Reprime qualquer oposição popular que ameace ou mesmo que apenas perturbe o funcionamento da ordem capitalista dominante (se essa oposição não puder ser esmagada por outros meios).

Agora, 44 anos após o massacre, e apesar do gabinete do procurador especial que há seis anos anda a «investigar os crimes do passado», nenhum dos responsáveis foi punido pelos assassinatos do 2 de Outubro nem por outros crimes cometidos em 1968 e 1971. Apesar das reformas e da «transição democrática», continuamos essencialmente perante o mesmo estado que defende o mesmo sistema e representa as mesmas classes dominantes.

O estado continua a massacrar o povo

A experiência mostra que todos os partidos no governo e todos os chefes de estado defendem os interesses do sistema.

Acteal – Dezembro de 1997: Quarenta e cinco camponeses índios Tzoztil foram mortos por paramilitares treinados e armados pelo Exército mexicano. O governo aplicou a etiqueta de «conflito intercomunitário» a um massacre que fez parte da sua estratégia para lidar com a insurreição índia e com o EZLN [os Zapatistas] e que visa esmagar a resistência camponesa ao estado capitalista-agrário que nega autonomia aos povos indígenas e pilha e destrói as comunidades camponesas, ao serviço de projectos capitalistas. Agindo a pedido de Calderón [o actual Presidente], o Departamento de Estado norte-americano recomendou recentemente que fosse concedida «imunidade» ao [ex-presidente Ernesto] Zedillo, o principal responsável por esse crime hediondo. O PRI, o PAN, Obama e Hillary Clinton (do Partido Democrata dos imperialistas norte-americanos) estão em vias de dar impunidade aos autores intelectuais desse massacre. Hoje, a mesma estratégia de utilizar paramilitares para matar pessoas está a ser levada a cabo em Chiapas, Michoacan, contra os índios Purechas em Cheran e os Nahuas em Ostula, e em muitos outros pontos do país.

Atenco – Maio de 2006: Numa campanha contra os vendedores ambulantes de flores, a polícia local de Texcoco (uma municipalidade governada pelo PRD) deteve 84 pessoas. Depois, a Polícia Preventiva Federal (sob o governo do então presidente Vicente Fox, do PAN) e a polícia do estado de México (sob Enrique Pena Nieto [o agora presidente eleito do PRI]) cercaram San Salvador Atenco e prenderam 84 pessoas. Em Atenco, revistaram casas, roubaram e espancaram pessoas e mataram dois jovens. No total, encarceraram 146 pessoas e violaram 26 mulheres detidas, numa tentativa de esmagarem a justa resistência ao seu monopólio do poder. Este é outro crime do estado que continua impune. Os esforços de Pena Nieto para o justificar na Universidade Ibero-Americana contribuíram para o nascimento do movimento #YoSoy132 [Uma grande vaga de protestos que ainda decorre e que emergiu inicialmente na primavera passada quando os estudantes interromperam o discurso de Pena Pieto. Uma edição anterior do Aurora Roja descreveu-a como «a expressão no México de um novo despertar político que agora irrompe em importantes zonas do mundo e se reflectiu nas revoltas árabes, no movimento Ocupar, nos Indignados de Espanha, etc.»].

Oaxaca – Junho de 2006: A brutal repressão do protesto dos professores (ordenada pelo governador do PRI Ulises Ruiz Ortiz) foi a faísca que desencadeou uma revolta popular em Oaxaca. As pessoas ergueram barricadas de rua e ocuparam estações de rádio para divulgarem a verdade. Centenas de milhares de pessoas manifestaram-se. A polícia, o Exército e os seus esquadrões da morte assassinaram pelo menos 26 pessoas. Depois de cinco meses de resistência heróica, o Presidente Fox (do PAN) ordenou à Polícia Preventiva que esmagasse a revolta e assegurasse o «regular funcionamento» do sistema. O governador de Oaxaca, Gabino Cue (nomeado candidato pelo PRD, pelo MC [o seu próprio partido, o Movimento dos Cidadãos] e pelo PAN), continua a encobrir os crimes do anterior regime e a cometer novos crimes.

Os assassinatos políticos na capital

No DF (o distrito da capital) os governos do PRD encobriram os assassinatos políticos de activistas populares. Também reprimiram barbaramente os grevistas da universidade nacional, os protestos contra a invasão do Iraque e outras acções em defesa de Atenco e, entre muitos outros crimes, causaram a morte de jovens no New's Divine [um bar da Cidade do México onde em 2008 uma rusga policial resultou na morte de uma dúzia de pessoas que ficaram sufocadas ao serem esmagadas contra as saídas bloqueadas quando a multidão tentava escapar a brutais espancamentos].

Digna Ochoa, uma corajosa defensora dos camponeses pró-ecologia de Petatlan, Guerrero, foi vítima de um cobarde assassinato no seu escritório a 19 de Outubro de 2001, depois de repetidas ameaças e ataques. As provas apontam para os caciques dessa região e para o Exército como sendo os autores, mas o procurador distrital da capital encerrou o caso com o absurdo argumento de que ela cometeu suicídio.

Pavel González, um estudante da universidade nacional e activista político, desapareceu da Faculdade de Filosofia e Letras a 19 de Abril de 2004. Foi torturado e morto cinco dias depois, no quinto aniversário da greve estudantil em que ele tinha participado. O corpo dele estava coberto de contusões e eram visíveis as impressões digitais dos seus assassinos no pescoço dele. Foi encontrado amarrado a uma cruz numa colina chamada Pico de Aguila, em Ajusco. Uma vez mais, o procurador distrital da capital declarou essa morte como suicídio.

Carlos Sinhue Cuevas Mejia era professor estagiário na Faculdade de Filosofia e Letras da universidade nacional, foi assassinado a 26 de Outubro de 2011. Carlos também era um estudante grevista e activista político. Durante os anos 2009-11 foi caluniado e ameaçado numa série de panfletos assinada por um chamado «Colectivo Revolucionário Emiliano Zapata», um grupo fantasma cuja única actividade era acusar os verdadeiros activistas populares de serem «infiltrados». Esses panfletos apareceram anonimamente no campus universitário e as autoridades não fizeram nenhuma tentativa para impedir a sua distribuição. Carlos participou nos movimentos de apoio aos SME [os trabalhadores do sector eléctrico em greve], à municipalidade autónoma de San Juan Copla e aos vendedores ambulantes, e contra a repressão, a militarização e muitas outras injustiças e crimes cometidos pelo estado. O gabinete do procurador recusou-se completamente a investigar a perseguição política que ele tinha sofrido. Miguel Mancera, o procurador principal dessa altura, declarou de imediato que a morte de Carlos podia ser um «crime de paixão». Ele está agora a tentar encerrar o caso, encobrindo assim esse assassinato político alegando que estava ligado ao pequeno tráfico de droga.

Criminalizar as vítimas para proteger os verdadeiros criminosos

Com a cortina de fumo da «guerra contra o «tráfico de droga» e agindo a pedido dos EUA, durante os últimos seis anos o estado mexicano tem criado um clima generalizado de terror contra a população em geral, sobretudo os jovens e as classes mais baixas. Pensem nas pessoas reais por trás destas estatísticas: 30 000 desaparecidos, 250 000 pessoas violentamente deslocadas, 20 000 órfãos. Um relatório de Novembro de 2011 da organização Human Rights Watch documenta as execuções extrajudiciais, os desaparecimentos, a tortura e as detenções arbitrárias feitas pelas forças armadas e pela polícia, chamando-lhes «endémicos na guerra contra o tráfico de droga no México». Os estados cometem estes crimes diariamente, não porque estejam a proteger os cidadãos nem a «eliminar o crime organizado», mas antes porque estão a controlar o negócio da droga, a reforçar a sua máquina de repressão e a dominar, degradar e criminalizar os oprimidos. O objectivo é impedir qualquer insurreição que possa ter um potencial revolucionário, mesmo antes que ela comece.

Este estado é cúmplice do sequestro, extorsão e desaparecimento de milhares de imigrantes da América Central. Está conluiado com o feminicídio [os assassinatos ainda não resolvidos de centenas de mulheres] e com o desaparecimento de mulheres que são vendidas para a escravidão sexual. Está conluiado com esquadrões da morte como o Matazetas de Veracruz,. que em vez de matar Zetas [uma grande organização de droga] massacrou 35 pessoas inocentes. E os soldados e a polícia estão eles próprios a matar muitas pessoas, como os seis membros da família de Reyes Salazar, assassinados pelo Exército em Valle de Guadalupe, Chihuahua, em 2009-11, e as 50 pessoas «desaparecidas» pela Marinha no corredor entre Monterrey e Nuevo Laredo em Junho de 2011.

Combater a repressão, preparar a revolução

Estes são apenas alguns exemplos dos milhares de crimes que mostram a natureza assassina deste estado que garante e exerce o monopólio do poder político das classes dominantes, concentrado no seu monopólio da força armada dita «legítima». O carácter e o papel deste estado não mudaram e não podem mudar em resultado de reformas e mudanças de partido político no governo ou de presidente.

Este estado e este sistema não merecem continuar, nem é inevitável que continuem. Podem ser afastados pela luta revolucionária do povo que eles há tanto tempo e tão cruelmente exploram e oprimem – a grande maioria do povo. O sistema está cheio de contradições que podem levar a crises que façam estremecer e despertar as pessoas e forcá-las a agir, de uma forma ou de outra. Para que as pessoas ajam de acordo com os seus próprios interesses, neste momento precisamos de forjar um movimento para a revolução que lute contra a repressão como parte da luta para finalmente esmagar este estado e o sistema que ele defende, libertar o país do domínio imperialista e criar uma sociedade muito melhor que lute pelo fim de toda a exploração e opressão e pela emancipação de toda a humanidade num mundo comunista. Denunciar estes crimes e desmascarar o estado que os comete contribuirá para acelerar esta revolução – contribuirá para forjar a consciência, a capacidade de luta e a organização que são necessárias para se atingir esse objectivo.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese