Síria: Um grande perigo
6 de Agosto de 2012. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

O movimento popular sírio está a ser atacado de dois lados. A trágica ironia é que mesmo tendo-se espalhado, em termos geográficos e sociais, muito mais amplamente que em qualquer outro momento anterior, a iniciativa está a passar para as mãos dos inimigos do povo. Forças que inicialmente se opuseram à revolta relativamente espontânea e que tentaram chegar a acordo com o regime de Bashar al-Assad estão agora a tentar matar tudo o que era melhor na revolta e a impor uma nova ordem reaccionária.

Os Estados Unidos e outros estados ocidentais e árabes seus aliados etiquetam Assad de criminoso que «mata o seu próprio povo», e isso é verdade. Ao mesmo tempo, embora o eixo NATO-monarquias árabes não esteja neste momento a bombardear e a metralhar os bairros sírios, ele não é menos desumano e criminoso que Assad ao tentar impor a sua vontade e interesses ao povo sírio.

O movimento pelo derrube de Assad rebentou em Março de 2011 e inicialmente tinha por base as classes médias baixas, sobretudo os jovens desempregados com estudos e os trabalhadores e outros imigrantes rurais. Começou nas cidades de província e em aldeias vizinhas em zonas que se tinham tornado centros de pobreza, em contraste com Damasco, Allepo e as cidades litorais onde estão mais concentradas a riqueza do país e as forças mais repressivas do regime (Ver o SNUMAG de 16 de Maio de 2011 e de 13 de Fevereiro de 2012, e os relatórios do Grupo Internacional de Crise, uma organização que visa fornecer informação fidedigna aos decisores políticos dos governos ocidentais). Inevitavelmente marcada desde o início por ideias e objectivos contraditórios, a revolta tem-se reconfigurado repetidamente.

Sobretudo depois de o regime ter iniciado um assalto total das forças armadas aos bairros e cidades rebeldes, o movimento propagou-se rápida e amplamente. Elementos da classe média e de outros extractos que se tinham mantido neutros ou mesmo pró-Assad começaram a opor-se activamente ao regime – de uma forma dramática quando os comerciantes encerraram os mercados (souks) de Damasco após o massacre de Houla em Maio passado. Os refugiados afluíram a Allepo e Damasco vindos de lugares como Homs, onde o exército sírio limpou o bairro inteiro de Baba Amro, que tinha sido uma praça-forte da revolta, e isso foi um outro factor de propagação da revolta. Ambos são exemplos de como a repressão tem propagado a resistência.

A dinâmica de recuos e avanços entre a revolta e a repressão rapidamente chegou a um ponto onde o movimento das ruas se encontrou num impasse. Mas à medida que as concentrações de massas e as marchas relativamente espontâneas e outras formas de protesto começaram a abrir caminho a um conflito armado mais organizado face à escalada de violência pelo regime, algo de diferente começou a surgir.

Muita gente pode ter ficado satisfeita por o movimento não ter nenhum objectivo claro para além da queda de Assad, mas a militarização do conflito levantou inevitavelmente questões mais vastas e mais fundamentais. A complexidade da guerra e o necessário nível de organização e liderança implicam que os seus objectivos sejam definidos – questões de estratégia, de táctica, de como lutar e onde obter armas e outros bens só podem ser respondidas tendo em conta os objectivos políticos da guerra.

Algumas pessoas alegam que, dado que o movimento popular não conseguia derrubar o regime sem armas, não teve outra escolha a não ser aceitar armas de onde quer que as pudesse obter. Mas essas armas e outras formas de apoio não são neutras. Acima de tudo, elas visam servir os objectivos políticos dos EUA, embora nisso também estejam envolvidos outros estados e interesses reaccionários.

Uma das grandes vantagens do movimento popular, e uma das razão por que os imperialistas e seus parceiros se lhe opuseram, foi que no início esses interesses estrangeiros tinham poucas formas de intervir na Síria. O Conselho Nacional Sírio [SNC, na sigla em inglês], cuja liderança é apoiada e depende das classes dominantes norte-americana, francesa e britânica (ver «A oposição síria: Quem é que está a falar?», The Guardian, 12 de Julho de 2012), reflectia a atitude deles em relação ao movimento de massas: quando surgiu o grito «O povo quer a queda do regime», o SNC tentou usar a revolta para forçar o regime a um compromisso de partilha de poder. Felizmente, nessa altura, o SNC não conseguia desempenhar um grande papel no interior do país, embora as potências ocidentais o tenham declarado como representante legítimo do povo sírio.

Mas esta situação está a mudar. O chamado Exército Sírio Livre [FSA, na sigla em inglês] emergiu ao lado do movimento de massas à medida que os soldados abandonavam as suas unidades e regressavam às suas aldeias e bairros, onde a eles se juntaram jovens locais numa miríade de grupos de combate autónomos ou pouco coordenados. Mas à medida que converge para um verdadeiro exército, está a ser esculpido como instrumento concebido para substituir um regime reaccionário por outro, e especificamente para colocar a Síria debaixo das botas dos EUA e seus parceiros. As potências ocidentais querem construir o FSA como braço armado do SNC.

Não é grande segredo a forma como o estão a fazer, apesar de que o que tem sido declarado publicamente seja provavelmente apenas a ponta de um iceberg reaccionário. Como noticiou o jornal The New York Times em várias ocasiões, a 21 de Junho e mais recentemente a 4 de Agosto, a CIA instalou-se na Turquia, «seleccionando os combatentes [sírios], recebendo-os e trabalhando com agentes do Departamento de Estado [dos EUA] na tentativa de unir os combatentes aos dirigentes políticos de dentro e fora do país». A Turquia também está a desempenhar um importante papel no moldar do FSA – politicamente, acima de tudo, mas também organizativamente – trabalhando através dos seus contactos com os actuais e antigos dirigentes das forças armadas da Síria, até recentemente aliadas da Turquia. A Arábia Saudita e o Qatar estão a fornecer armas, bem como enormes quantias em dinheiro. Também se diz que agentes secretos das antigas potências coloniais do Médio Oriente, França e Grã-Bretanha, com os seus contactos e capacidades, estão envolvidos nas decisões sobre quem obtém o quê.

As sanções norte-americanas proíbem a maioria das transferências financeiras para a Síria, mas o governo de Obama autorizou o envio de dinheiro através do Grupo de Apoio Sírio, um autoproclamado canal de ajuda ao FSA. O governo norte-americano alega que apenas está a «coordenar» o armamento do FSA por outros países. O financiamento norte-americano publicamente admitido inclui equipamento de comunicações, material médico e outra «ajuda» humanitária. Mas a verdadeira natureza de tudo isto revela-se quando se vê quem é que está encarregue desse programa, o Secretário de Estado Adjunto norte-americano William Burns, que trabalhou no planeamento da fase pós-invasão do Iraque em 2003. Segundo o NYT e outros relatos, o Pentágono e o Departamento de Estado estão a trabalhar nos detalhes de como governar a «Síria pós-Assad».

As potências ocidentais têm produzido uma tempestade perfeita de cinismo, hipocrisia e mentiras. Elas têm violado os seus próprios embargos de armas à Síria – criados para forçar a Rússia a aceitar um embargo às suas próprias remessas para o regime – e tentam explicar isso com o argumento de que como os EUA e seus aliados representam a «democracia», tudo o que eles fazem é automaticamente «humanitário». Ao mesmo tempo que se queixavam de a Rússia estar a tentar usar o Conselho de Segurança das Nações Unidas [CSNU] para proteger o regime de Assad no seu próprio interesse, os EUA, a Grã-Bretanha e a França tentavam forçar o CSNU a aprovar uma resolução Capítulo VII que iria abrir a porta a uma maior intervenção militar, similar à forma como os EUA usaram as sanções da ONU contra o regime de Saddam Hussein para justificar a invasão pela sua «coligação de interessados», mesmo depois de não terem obtido o endosso do CSNU.

A Rússia tem apoiado a Síria não porque se trate de um caso de um «inimigo da democracia» a apoiar outro, tal como tem sido afirmado, ou sequer sobretudo devido a interesses económicos e militares, mas mais importante porque não quer ficar sem nada à medida que os EUA avançam para afastar os desafios ao seu domínio da região. A Rússia tem laços antigos e profundos com o regime sírio, com os seus oficiais militares, com a burocracia e com um sector da elite educada do país. Mas a Rússia não tem nenhuma lealdade a Assad. Ainda que em simultâneo a Rússia e os EUA levem a cabo uma intensa rivalidade em relação à Síria, os governos de ambos os países têm procurado algum tipo de «solução à Iémen» que remova Bashar e alguns dos elementos do círculo dele mas que deixem intactas as forças armadas e o aparelho de estado no seu todo.

Se isto não tem produzido resultados, pelo menos até agora, parte da explicação pode estar em que nenhuma destas potências imperialistas tem conseguido exercer a sua influência na Síria de forma a obtê-los. Um outro factor pode estar em que embora até agora o regime tenha estado sobretudo sob influência russa com alguns interesses partilhados com os EUA, Washington pode não estar na disposição de querer partilhar a Síria com os papéis invertidos.

Ao mesmo tempo, as alegações de Bashar Assad a credenciais anti-imperialistas não resistem às evidências. Embora dependa da Rússia, um país capitalista monopolista cuja «ajuda» económica e militar é tão «neutra» como a dos seus rivais imperialistas, sob o reinado de Assad, a Síria ficou mais completamente aberta ao mercado capitalista mundial e ao capital imperialista em geral. Isto agravou enormemente as desigualdades regionais e o desespero económico que ajudaram a incendiar a revolta.

Além disso, embora Israel tenha ocupado e colonizado os Montes Golã da Síria há quase 40 anos, e embora o regime tenha obtido legitimidade com a sua pretensa «firmeza» contra Israel, os sionistas e o Ocidente muitas vezes valorizaram Hafaz Assad e o seu filho Bashar pelo papel deles na repressão dos palestinianos. Afinal de contas, as potências ocidentais e Israel deixaram que a Síria ocupasse o Líbano, desde que protegesse as fronteiras de Israel.

O facto de os imperialistas ocidentais terem ignorado deliberadamente as provas do envolvimento sírio no assassinato do primeiro-ministro libanês Rafik Hariri em 2005 parece indicar que não quiseram, nessa altura, nem sequer um confronto político com o regime.

Agora que as coisas mudaram, é repugnante ouvir a principal agente norte-americana agitadora da guerra Hillary Clinton a pregar sobre as atrocidades que o regime de Assad infligiu aos sírios, sobretudo porque quem tiver perdido a introdução à lista dela (tortura, bombardeamentos de artilharia e tanques a bairros inteiros, etc.) pode ter pensado que ela estava a falar sobre o que os EUA fizeram aos presos em Abu Ghraib, sobre a cidade de Falluja e sobre outras acções norte-americanas no Iraque.

E ela nem sequer mencionou, ao condenar a tortura pelas forças de segurança de Assad, a subcontratação que os EUA fizeram desses mesmos serviços – cujo exemplo mais infame é o caso de Maher Arar, o canadiano nascido na Síria sequestrado por agentes de segurança norte-americanos quando estava em trânsito num aeroporto de Nova Iorque e transportado para a Síria, juntamente com uma lista de perguntas e com relatórios enviados de volta a Washington (The New Yorker, 15 de Fevereiro de 2005).

Na defesa dos seus interesses reaccionários, os EUA e os seus parceiros, sobretudo a Arábia Saudita, um regime fundamentalista islâmico se alguma vez houve um, também contribuíram para transformar numa verdade o que antes era uma mentira de Bashar Assad: a de que o movimento contra o regime era dominado por fundamentalistas islâmicos. O íngreme aumento da influência islamita dentro do movimento surgido há quase ano e meio é uma outra alteração da situação, embora não tenha ocorrido do dia para a noite.

Desde o início que as pessoas gritaram «Só Deus, a Síria e a liberdade e nada mais» (invertendo o slogan do regime, «Só Deus, a Síria e Bashar e nada mais» que era visto como um igualar do estatuto de Assad ao de Alá). Mas embora as convicções religiosas espontâneas e organizadas sempre tenham estado presentes e sempre tenha havido diversas correntes, o movimento popular não visava no seu todo a instauração de um regime religioso, e tem havido um pronunciado apelo popular à unidade, independentemente da religião.

Agora parece que à medida que os grupos de combatentes se fundem em formações maiores – por exemplo o recém-formado comando do FSA de toda a cidade de Allepo, actualmente a principal frente de batalha –, muitas pessoas sentem que têm de deixar que os salafistas declarados (um movimento fundamentalista sunita) predominem, porque eles têm mais dinheiro e melhores armas. Ao mesmo tempo, a bandeira negra salafista também tem um apelo pragmático mais vasto. Ela tenta congregar forças contra o regime mais laico do Médio Oriente numa base sectária que em ao mesmo tempo atrai fundos estrangeiros e não deixa de ter apoio e uma base social num país onde as identidades comunitárias estão profundamente arraigadas e onde o Islão tem ganho força.

Esta situação complexa ficou bem ilustrada pelo primeiro-ministro sírio Riad Hijab que, quando se afastou do regime, proclamou: «A partir de hoje, sou um soldado desta revolução sagrada» – a questão sendo que independentemente dos serviços que ele prestou ao regime face à revolta popular e da cumplicidade dele com os crimes contra o povo, ele está a apostar em que as suas origens sunitas e a sua proclamada devoção lhe permitirão mudar de lado com total impunidade – desde que os lados sejam definidos pela religião. O Conselho Nacional Sírio, por seu lado, não só tem ficado cada vez mais sob influência islâmica como também tem agitado à bandeira verde do Islão (embora não especificamente a bandeira negra do salafismo) como forma de obter a influência entre o povo que lhe tem faltado.

A guerra civil sectária de que o regime falsamente acusou o movimento de massas de estar a fazer tornou-se num perigo real. Embora a classe dominante norte-americana não se preocupe nada com as consequências dessa guerra para o povo, tem corrido esse risco com conhecimento total do que isso significa, as próprias medidas que os EUA e seus parceiros estão a tomar para colocar a Síria sob o seu controlo podem possivelmente fazer o país e talvez muita da região ficar fora de qualquer controlo. Certamente, que os EUA sabem que o fundamentalismo islâmico não deixa de ser um perigo para os seus interesses. Isto é uma indicação de quanto Washington sente que está em jogo, não só para a Síria mas para o domínio regional norte-americano e tudo o que isso significa para o domínio do mundo.

Uma guerra civil sectária será um resultado tão mau para a revolta popular como qualquer pessoa possa imaginar. Para o regime, essa poderá ser a única saída, e repetidamente tem parecido que o regime está a tentar provocar esse tipo de desenvolvimento, dado que poderia permitir ao círculo interno de Assad apresentar-se como a única esperança de sobrevivência para alawitas, cristãos, xiitas, druzos, laicos e outros grupos. Um relatório do Grupo Internacional de Crise de 1 de Agosto alegava que se a religião sunita fosse transformada na linha divisória, o país poderia ficar dividido a meio. Ainda que aceitar o domínio salafista possa parecer a única forma de as forças rebeldes afastarem o regime, na realidade isso torna muito mais difícil unir a maioria dos sírios contra o regime. Por exemplo, muitos e talvez a maioria dos alawitas, uma comunidade historicamente oprimida, têm muito mais em comum com outros sírios oprimidos e explorados que com Assad e os alawitas do seu círculo interno, capangas e mercenários.

Estes desenvolvimentos cuspiram no rosto do que a revolta tem tentado defender. Não tanto no início, mas não muito depois, houve vozes que começavam a gritar «cristãos para Beirute, alawites para os seus sepulcros», mas isto era muitas vezes abafado por muitas outras que gritavam «A Síria é um país para todos», «Uma, uma, uma, a Síria é só uma». Estas palavras de ordem a favor da unidade do povo continuaram a ecoar quando recrudesceram as manifestações que começaram em Maio e nos grandes protestos nas ruas de Damasco a 6 de Agosto.

O movimento foi sempre atravessado por correntes contraditórias, mas parece ter ficado marcado por um sentimento de renascimento nacional dos sírios, um povo humilhado e oprimido que recuperou a sua dignidade através do seu próprio despertar político e de actos corajosos, de um sentimento de solidariedade entre o povo contra um inimigo comum e uma combinação de criatividade individual e vontade de sacrificar os interesses pessoais. Tem-se dito que a vida política e cultural síria nunca foi tão viva e tão enriquecida por uma vasta participação. Agora, embora algumas pessoas estejam delirantes com o que consideram ser a perspectiva de vitória contra o regime, outras são tomadas pela escuridão, furiosas com o desabar das suas aspirações para o futuro do seu país e do seu povo.

Nunca o slogan popular «O povo sírio sabe que caminho tomar» foi tão obviamente errado. Na realidade, são os inimigos do povo que são muito claros quanto a para onde querem ir e a como lá chegar. Eles têm usado todo o seu poder para tentarem tornar uma luta justa no seu oposto. Também puderam beneficiar do impulso da espontaneidade, das ideias contraditórias entre os diferentes sectores do povo e da forma como as pessoas sentem que têm de escolher entre as únicas opções que sentem estar-lhes abertas. Se pelo menos algumas pessoas não têm uma perspectiva clara e de base cientifica de um tipo diferente de sociedade e não conseguem avançar na luta pela implementação de um plano para a criar, então as opções limitam-se às apresentadas pelos opressores e aspirantes a opressores e pelos seus poderosos protectores.

Isto é verdade a nível local – se não houver nenhuma alternativa real, um conflito sectário tem uma lógica que pode superar a vontade das pessoas para a impedirem. E é verdade para a Síria como um todo, cujo povo só pode ser unido numa luta pela libertação da nação das garras de interesses reaccionários contraditórios, e por fim erguer-se completamente como parte da luta pela libertação do mundo inteiro.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese