O veredicto do «Rodney King» britânico: O assassinato de Ian Tomlinson pela polícia
23 de Julho de 2012. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

O veredicto do processo judicial do agente policial Simon Harwood, acusado de homicídio involuntário no caso da morte do vendedor de jornais Ian Tomlinson durante os protestos contra o G8 (o Grupo dos 8 principais países imperialistas) em Abril de 2009 foi anunciado na quinta-feira passada, 19 de Julho. Ainda que tivesse havido muita preocupação com que o sistema fizesse o que normalmente faz, que a justiça não veria a luz do dia, mesmo os cépticos empedernidos em relação à justiça britânica alojavam alguma esperança de que desta vez as suas preocupações se revelariam infundadas – no fim de contas, o vídeo era inequívoco. Milhões de pessoas tinham testemunhado Tomlinson, de 47 anos, de mãos nos bolsos, cabeça para baixo, olhos no chão, a caminho de casa vindo do trabalho de uma forma que não podia ser menos ameaçadora, quando de repente o agente Harwood saiu de uma linha de meia dúzia de polícias em balaclavas e equipamento completo antimotim, ergueu o bastão dele até à altura da cabeça e golpeou Tomlinson pelas costas, fazendo com que ele caísse no chão. As testemunhas relataram ter ouvido um ruído quando a cabeça dele atingiu o pavimento. Alguns minutos depois, Tomlinson estava morto.

E milhões de pessoas na Grã-Bretanha também sabem a história do que aconteceu após a morte de Tomlinson, antes de o vídeo ter aparecido: a montanha de mentiras e distorções que emanaram da Scotland Yard e da Comissão Independente de Queixas da Polícia [IPCC na sigla em inglês], de que nenhum polícia tinha tocado em Tomlinson, que ele tinha caído por si mesmo, talvez incomodado por «manifestantes anarquistas violentos», que a polícia tinha tentado salvá-lo mas que tinha sido impedida pelos ataques dos manifestantes, e depois que o médico legista tinha declarado morte de causas naturais. A IPCC concluiu que a polícia não tinha nada a que responder. A morte de Tomlinson estava prestes a desaparecer da vista, para sempre.

Mas, entretanto surgiu a reviravolta nessa ficção: a polícia desconhecia que um homem de negócios de Nova Iorque tinha filmado a cena do ataque – ele tinha guardado a filmagem durante uma semana, na esperança de não vir a ser envolvido, de o polícia assumir os seus actos e de a verdade surgir por si própria. Quando ele evidentemente concluiu que isso não iria acontecer, enviou o vídeo ao jornal The Guardian, e então a teia de mentiras do estado começou a desmoronar-se como um castelo de cartas. (ver o vídeo em http://www.guardian.co.uk/uk/g20-police-assault-ian-tomlinson?)

Perante a evidência do vídeo, emergiu a pouco e pouco um outro quadro. A primeira autópsia feita pelo médico legista Dr. Patel tinha confirmado imediatamente a versão policial dos acontecimentos, concluindo que Tomlinson tinha morrido de causas naturais depois de ter sofrido um ataque cardíaco. Mas veio a saber-se que Patel tinha um passado imaculado de apoiar sempre a versão da polícia em todos os casos que lhe eram levados, entre eles o caso de Roger Sylvester que foi morto pela polícia na zona de Tottenham, no norte de Londres. Infelizmente para Patel, a lista dele de encobrimentos incluía um caso em que as decisões dele tinham contribuído para permitir que um assassino violador em série não tivesse sido descoberto. No caso de Tomlinson, esse comparsa da polícia despejou na pia litros de «um fluido de cor rosada» drenado do homem morto como sendo irrelevante – a única outra amostra foi depois considerada «extraviada» – e ignorou as contusões no corpo de Tomlinson que o exame do médico legista subsequente concluiu serem do bastão de Harwood. O veredicto do médico legista seguinte foi então: «morte ilegal».

E quanto às alegações da polícia de que foram eles que tentaram salvar a vida de Tomlinson? O vídeo revelou a toda a gente como, depois de Tomlinson ter caído sob o efeito dos golpes de Harwood, nem um único polícia ergueu um dedo para o ajudar e, pelo contrário foi um jovem manifestante que veio em socorro dele. Depois de Tomlinson ter sido ajudado a pôr-se em pé, de ter dado a volta à esquina e de ter caído de novo, foi a mesma história. Jovens manifestantes vieram novamente em socorro dele, entre os quais um fotógrafo jornalista e depois uma jovem que iniciou os primeiros socorros. A primeira coisa que a polícia fez quando chegou foi afastá-la, apesar dos protestos dela e de ela se ter identificado como estudante de medicina.

Harwood depôs no julgamento e o testemunho dele revelou claramente a cultura da polícia e sobretudo do Grupo de Apoio Territorial [TSG na sigla em inglês] de elite que ele integra, a brigada antimotim da força da Polícia Metropolita [Met] de Londres. O TSG é o sucessor da infame Patrulha Especial que foi reorganizada na sequência da repugnância generalizada que ela desencadeou quando matou o professor Blair Peach em 1979. Antes dos protestos contra o G8, os chefes da Met tinham ido à televisão avisar que estavam «à altura disso e preparados para isso».

Quando questionado no julgamento sobre que métodos estavam à disposição dele para afastar alguém numa situação de ordem pública, Harwood respondeu: «Podemos usar uma bastonada no braço ou na perna», começou ele, e continuou listando, por ordem, um empurrão, um pontapé ou um soco, um spray CS ou algemas. E listou no fim uma ordem vocal. Como relatou o jornal The Guardian, «‘Você foi directamente para a violência, a força’, fez notar [o procurador] Denis, visivelmente surpreendido. ‘Não, eu fui para a força razoável’, respondeu Harwood. Aparentemente insensível à reacção na sala de audiências, o polícia continuou a citar outras tácticas possíveis – uma arma de fogo, um empurrão com o escudo antimotim, ou um ‘golpe ameaçador da vida’.» Alguns dos filhos de Tomlinson fugiram da sala de audiências com horror da brutalidade do homem que tinha golpeado o pai deles.

Imediatamente a seguir ao julgamento, veio a público que Harwood tinha na realidade uma longa história de alegada má conduta policial. Tinha sido acusado de atacar um civil durante um incidente de irritação no trânsito, e que quando o civil iniciou um processo judicial e ficou claro que o agente iria enfrentar um processo difícil, ele demitiu-se apenas alguns dias antes por «motivos de saúde» que alegou estarem relacionados com um acidente de moto três anos antes. Harwood foi depois reintegrado como consultor civil, mas como já não estava formalmente na força policial, o processo disciplinar não teve continuidade. Durante os anos seguintes, Harwood esteve envolvido noutras acusações de má conduta que levaram a processos disciplinares, mas foram todos arquivados. Seria este um caso de um polícia «mau» que tinha passado pelos procedimentos normais de selecção da Polícia Metropolitana? Ou seria ele de facto apenas o tipo de pessoa que é procurada para o TSG, os «durões» usados na linha da frente para impor a lei e a ordem britânicas?

O que nos revela sobre a Grã-Bretanha este veredicto? Talvez mais que qualquer outra coisa mostra o poder do estado britânico para proteger aqueles a quem concedeu o monopólio da violência legítima em defesa da ordem actual. Em cada passo desta história, desde que Tomlinson caiu ao chão em resultado das bastonadas de Harwood, foram mobilizados recursos extraordinários para conseguirem proteger um deles: desde o relatório do médico legista aos relatórios da IPCC, aos protestos do Mayor de Londres Boris Johnson e de outros políticos contra «a orgia de ataque à polícia», aos mecanismos do próprio processo judicial. Sobre tudo isto está o actual clima de intensa preocupação com a segurança durante as Olimpíadas que começam na próxima semana, com um constante bombardeamento de manchetes sobre um possível ataque terrorista e um infinito tocar de harpa sobre o papel vital da polícia e do exército enquanto «defensores da linha da frente da nação».

O veredicto também surge pouco antes do aniversário das revoltas que fizeram estremecer o país em Agosto passado. Perante tudo isto, houve, claro, um alto nível de atenção ao tipo de reacção que haveria a este veredicto. Alguns comentadores tinham chamado a isto o «momento Rodney King britânico», uma referência ao afro-americano que foi vítima de um espancamento prolongado às mãos de vários polícias de Los Angeles que foi filmado em vídeo. A posterior absolvição dos polícias originou aí então à conhecida revolta de 1992.

Mas certamente que havia a expectativa de que o caso de Tomlinson seria diferente, que não provocaria o mesmo tipo de reacção violenta como a que originou o espancamento de King ou a morte de Mark Duggan o ano passado – afinal, Tomlinson não era um jovem negro, como King ou Duggan, e por isso o veredicto poderia não atingir a veia profunda de amargura e ressentimento perante o racismo policial. Pelo contrário, ele era um homem branco de meia-idade, que muitas vezes dormia profundamente, um alcoólico conhecido, um refugo da sociedade... quem se iria preocupar?

O grupo Inquest investigou as 300 mortes sob custódia policial que ocorreram num período ligeiramente superior a uma década, desde os anos 1990 – e revelou que nem sequer um polícia foi condenado num único desses casos. De forma semelhante, um artigo do jornal The Independent afirmava que «Desde 1990 morreram 1433 pessoas após contacto com a polícia. Nem um único agente foi condenado por homicídio involuntário.» (23 de Julho de 2012) O caloso desprezo por todas essas vidas e em particular o desdém pela vida de Ian Tomlinson que fica reflectido neste veredicto fez chegar uma séria mensagem às pessoas: os pobres e os marginalizados vivem enquanto o estado capitalista os tolerar e este pode extinguir as vidas deles sem o mínimo aviso. E ninguém pagará por isso, mesmo quando as provas forem evidentes perante toda a gente.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese