Relato do Egipto: Uma situação complexa e difícil – para o povo e para os seus inimigos
14 de Novembro de 2011. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.
Por Samuel Albert, Cairo.

A euforia evaporou-se. Embora o duro ambiente político de hoje seja muito diferente do dos anos anteriores à saída de Hosni Mubarak, em que prevaleciam um silêncio e uma calma forçadas, também mudou marcadamente desde o período imediatamente precedente e subsequente à renúncia forçada dele a 11 de Fevereiro. Agora, entre os milhões de pessoas que participaram ou apoiaram essa revolta e, de uma forma mais geral, há um sentimento de que a situação está a ficar cada vez mais complexa, desordenada e perigosa. Ocorrem diariamente manifestações, greves, concentrações e outros protestos, mas muita gente comum está a ficar mais passiva. Há um desalento no ar com origem em mais do que o inverno que se aproxima.

Este desânimo é, em grande parte, produto da evolução dos acontecimentos desde então, tanto do que aconteceu como do que não aconteceu. Embora muitos activistas exprimam uma esperança em que o despertar político do povo egípcio possa levar a uma mudança social basilar nalgum momento futuro, neste momento a principal preocupação deles é que a situação possa ficar ainda mais difícil e mesmo desastrosa, tanto em termos de repressão política como de um fechar das mentes entre uma grande parte do povo.

Já mais ninguém grita «O povo e o exército são uma só mão», como o fizeram quando a recusa do exército a disparar sobre os manifestantes ajudou a tornar possível a demissão de Mubarak. A ilusão de que o exército seria pelo menos neutro em relação a uma mudança basilar começou a esbater-se passados só alguns meses, mesmo que as pessoas ainda se tentem agarrar a isso. Motivadas por distintos interesses de classe e ideologias, as forças sociais altamente heterogéneas cuja convergência fez cair Mubarak estão agora a puxar o país para diferentes direcções. Toda a gente sabe que o exército vai desempenhar um papel chave, mesmo que os generais, os seus financiadores norte-americanos e o imprevisível desenrolar dos acontecimentos ainda não tenham decidido exactamente qual será esse papel.

As forças armadas do Egipto têm o monopólio da violência organizada, tal como acontece em todos os estados, e têm bens económicos inigualados na maioria dos outros países, juntamente com o apoio dos EUA e de outras potências imperialistas. Aqui, elas também beneficiam da legitimidade que os órgãos do estado ainda detêm aos olhos das massas. Não são poucas as pessoas que gostam de ver diferenças entre os generais da era Mubarak no Conselho Supremo das Forças Armadas (SCAF) que está no poder e o exército enquanto instituição que elas consideram patriótica. Isto deve-se ao facto de terem liderado a revolução de 1952 que finalmente expulsou os ocupantes britânicos e pelo seu papel na defesa do país contra as subsequentes invasões por Inglaterra, França e Israel.

Muita gente esperava que à queda de Mubarak se seguisse a adopção de uma nova constituição que determinasse um quadro que desse origem a algum tipo de mudança social. Mas a ideia de que um «estado de direito» possa reflectir outra coisa que não quais as classes e organizações que dominam a sociedade recebeu um duro golpe em Março, quando o exército, a trabalhar com a Irmandade Muçulmana, as forças do antigo regime e os meios de comunicação social do estado e outros órgãos reaccionários, propuseram com sucesso um referendo para aprovar a manutenção da velha constituição com algumas mudanças para pior. Inesperadamente, a participação eleitoral foi extremamente elevada e mais de 70 por cento dos votos aprovaram a proposta. Isso incentivou as forças armadas a discutirem publicamente cenários como a promulgação de artigos para uma nova constituição decretada por eles próprios, ou a selecção por ele próprios do essencial dos membros do comité que irá escrever a nova constituição, o que daria aos militares a última palavra em todas as principais questões e continuaria a protegê-los da supervisão civil.

O processo das eleições parlamentares está agendado para começar em finais de Novembro e continuar durante Janeiro. Inicialmente, os militares prometeram governar durante apenas seis meses. Agora dizem que entregarão o poder a um presidente civil em 2013. Antes, a maioria das pessoas via a eleição de um parlamento e a sua selecção de um comité para escrever a nova constituição como uma possível via pacífica para a mudança. Agora, alguns concluíram que o verdadeiro objectivo desse processo é relegitimar o estado e dispersar as chamas que ainda se sentem nas ruas, ambos aspectos que visam tornar mais difícil uma mudança revolucionária sem mudar nada de essencial na sociedade. Mas mesmo os que ainda têm esperança na democracia parlamentar em geral decidiram que, neste momento, a única questão em aberto é saber se o novo parlamento será um circo de forças díspares e pouco dispostas e impossibilitadas de mudar alguma coisa ou se será dominado por islamitas que visam fazer a sociedade andar para trás.

Mesmo as forças que se identificam com a revolta e que estão mais focadas na actividade eleitoral já estão pessimistas quanto ao resultado. Os únicos que parecem estar à espera do apuramento dos votos são os islamitas, sobretudo a Irmandade Muçulmana, que de início se opôs à revolta, e os salafistas, fundamentalistas que defendem que os egípcios devem viver como os muçulmanos no tempo de Maomé, uma sociedade com mulheres de burka e homens de barba e vestes longas, ainda que toda a gente possa continuar a ter um telemóvel.

Um exército cada vez mais agressivo

Para muita gente, a esperança em algo positivo vinda da «mão» do exército desapareceu em Abril, quando, em vez de deixar isso para a polícia, as forças armadas atacaram os manifestantes que contestavam o seu domínio, matando dois manifestantes. Mas muito pior aconteceu a 9 de Outubro, quando os cristãos e os laicos que protestavam contra a ausência de reacção das forças armadas a uma vaga de ataques incendiários premeditados contra igrejas coptas, foram eles próprios atacados, deixando 28 mortos e centenas de feridos e lesionados.

Os manifestantes tinham marchado pelo centro do Cairo até Maspero, a sede da televisão pública. Os vídeos colocados online mostram veículos blindados do exército a rolar pelo meio da multidão, atropelando ou esmagando uma dúzia de pessoas até à morte. Mas a luta era complicada, envolvendo manifestantes, soldados e uma horda de civis não identificados que carregaram sobre a multidão e que podem também ter lutado contra os soldados.

A dificuldade em determinar exactamente o que aconteceu reflecte a variedade de forças em acção. Também alimenta o sentimento generalizado de que há obscuras forças misteriosas a manipular a situação e a tomar a iniciativa política, um sentimento que deixa muitos ex-participantes na revolta paralisados e assustados.

Quem eram os homens vestidos à civil que investiram contra os manifestantes a coberto da noite? Algumas pessoas acham que eram pessoas dos bairros pobres vizinhos organizadas por fundamentalistas muçulmanos. Libertar o Egipto da sua minoria cristã é um dos pilares do programa deles, juntamente com a institucionalização da subjugação das mulheres aos homens e os castigos severos prescritos pela Xariá (lei islâmica), tais como cortar a mão direita aos ladrões.

Outras pessoas acham que esses homens eram membros dos antigos serviços de segurança do estado e das milícias ligadas ao Partido Democrático Nacional de Mubarak, que visa fazer descarrilar o movimento popular através do fomento de divisões entre muçulmanos e cristãos. Por vezes, é-nos relembrado que a liderança da igreja copta apoiou o antigo regime e continua a representar um papel político e social conservador. Algumas pessoas alegam que agentes israelitas também estão a actuar no meio de tudo isto. Embora os agentes israelitas não possam ser o factor principal nesses acontecimentos, como algumas pessoas gostariam de pensar, certamente que eles estão presentes e activos. (Um deles foi recentemente apanhado e expulso.)

Uma névoa de confusão similar pairou sobre os protestos de Setembro à volta da embaixada israelita, depois de o SCAF não ter reagido a um ataque transfronteiriço israelita. Os soldados israelitas, alegadamente à procura de combatentes palestinianos, mataram seis polícias egípcios. A maioria das pessoas diz que os protestos eram legítimos mas que a penetração na embaixada foi de facto uma provocação que visava desacreditar o movimento. Outras acham que a acção que forçou o embaixador israelita a fugir o país salvou a honra do Egipto. O sentimento de que não há uma informação fidedigna – mesmo algumas pessoas que estiveram nesses acontecimentos dizem não ter a certeza de quem exactamente o fez – está relacionado, embora não seja equivalente, com a questão de se saber se o movimento deveria ou não visar o SCAF, em vez de dar o benefício da dúvida aos militares.

Mas o governo das forças armadas tem tornado clara a sua atitude em relação ao incidente da Maspero de uma forma que é muito mais amplamente esclarecedor. Durante esse protesto, os pivôs da televisão do estado apelaram aos «egípcios honrados» que fossem para a Maspero lutar em defesa dos soldados que diziam estar a ser massacrados pelos cristãos. Na realidade, a maioria dos mortos eram coptas; e não morreu nenhum soldado. Nas semanas seguintes, as forças armadas investigaram as acusações de que tinham assassinado manifestantes e declararam-se a si próprias inocentes. Não foi feito o mais leve esforço para identificar os atacantes civis. Embora as relações das forças armadas com a igreja copta continuem tensas, até agora os únicos alvos identificados da investigação foram jovens laicos que tinham liderado as manifestações na Praça Tahrir e que se tinham vindo manifestar contra a repressão dos coptas.

Claramente, independentemente de quem tenha organizado os ataques, o exército está, no mínimo, a protegê-los. Além disso, sobretudo tendo em conta estes factos, não há nenhuma razão para aceitar simplesmente a alegação do exército de que os seus soldados não tinham recebido munições reais e não podiam ter sido responsáveis pelo tiroteio.

Dois conhecidos jovens activistas laicos foram levados para serem formalmente interrogados. Ambos recusaram-se a cooperar. Um deles foi libertado. O outro, Alaa Abd El-Fattah, um conhecido blogger e importante activista já anteriormente encarcerado em 2009, declarou que se recusava a responder a perguntas porque os militares não se podiam investigar a si próprios imparcialmente e porque os militares não tinham direito a processar civis. Foi acusado de roubar armas do exército e de destruir propriedade do estado. A maioria das pessoas que não apoiam o exército consideram a ideia de que ele atacou e danificou um veículo blindado não é mais que uma fantasia de filme de acção. Ainda mais sinistro, ele foi acusado pelo conteúdo do seu próprio blogue, uma crítica às forças armadas que, segundo o SCAF, terá fomentado a violência.

O jovem foi reenviado para a prisão por duas semanas, à espera de uma decisão sobre o que fazer com ele. Ao fim da noite de 31 de Outubro, vários milhares de pessoas – sobretudo bloggers e seus leitores e outras pessoas mobilizadas à última hora na internet, e por isso, por definição, sobretudo jovens e outros elementos das classes médias superiores – marcharam através do Cairo para uma prisão, em apoio a Fattah e a um outro blogger, Maikel Nabil, que tem estado em greve de fome em protesto contra a sua pena de dois anos por ter escrito «O exército e o povo nunca foram uma só mão». Os militares mandaram Nabil para um hospital mental, mas os médicos, desprezando essa manobra repressiva, recusaram-se a recebê-lo. Fattah, da cela que partilhava com muitos presos comuns, escreveu um empolgante e amplamente reproduzido texto num blogue sobre o facto de se encontrar uma vez mais nos calabouços de Mubarak, depois da queda de Mubarak. A 13 de Novembro, os militares renovaram o encarceramento dele durante pelo menos mais duas semanas. Houve uma segunda marcha de menor dimensão liderada pela Não aos Julgamentos Militares, um grupo de direitos humanos que é agora uma das mais activas organizações nas ruas (en.nomiltrials.com).

Numa outra manifestação em finais de Outubro, uma multidão semelhante, juntamente com um pequeno partido islamita, tinha marchado da Praça Tahrir para Maspero e de volta, em protesto contra a morte na prisão de um jovem que cumpria uma pequena pena acusado de crimes menores. As autoridades alegaram que ele se tinha envenenado a si próprio ingerindo drogas para impedir que elas fossem descobertas. Os manifestantes, recordando justificações semelhantes de mortes na prisão no tempo de Mubarak, estavam mais inclinados a acreditar na família da vítima e num médico do hospital para onde foi levado o cadáver dele, que disseram que a polícia tinha forçado água com sabão pela garganta dele abaixo e pelo ânus acima até que isso o matou. Embora, ao contrário dos bloggers, Essam Attah não fosse um preso político, parecendo ter sido uma vítima da repressão policial dos jovens das classes mais baixas em geral, estes acontecimentos sublinharam o facto de a polícia e as forças armadas estarem a continuar e mesmo a incrementar o tipo de atrocidades que levaram as pessoas a revoltar-se contra Mubarak e a afastá-lo – e de que a polícia e as forças armadas são uma só mão.

Os tribunais militares já julgaram cerca de 12 000 pessoas por delitos políticos e criminais desde que as forças armadas assumiram o poder. Após a sua televisionada sessão de abertura, o julgamento de Mubarak por assassinato e outros crimes foi adiado indefinidamente. Os tribunais civis estão desacreditados como inteiramente corruptos e parte do «sistema» de Mubarak e muitas vezes nem conseguem funcionar. Durante um turbulento confronto em Outubro entre advogados e juizes sobre as propostas de procedimento no tribunal, os magistrados puxaram das suas pistolas e começaram a disparar para o ar para esvaziar a sala. Os juizes nomeados por Mubarak são desprezados como piratas autorizados a roubar os pobres, a classe média e mesmo os ricos sem ligações.

Isto ilustra as circunstâncias mais vastas numa sociedade onde durante meio século o regime nomeou aberta ou efectivamente os funcionários de todas as instituições. As autoridades, do topo para baixo, são desprezadas como repressivas, arbitrárias e normalmente corruptas. Por exemplo, mesmo na Universidade do Cairo, que surpreendentemente não é um viveiro político, tem havido importantes lutas para que haja dirigentes independentes nos departamentos e nas faculdades. O mesmo controlo quase total que fez com que o regime de Mubarak fosse visto como invencível produziu um vazio de legitimidade e autoridade moral que os generais têm tido grande dificuldade em preencher desde que as pessoas perderam o medo e a inércia.

Um refluxo relativo

Até agora, os recentes protestos foram relativamente pequenos e de base restrita em comparação com Janeiro e Fevereiro. Nessa altura, os operários das fábricas e outras pessoas pobres foram os primeiros egípcios a enfrentar as forças de segurança do regime, na cidade do Suez. Centenas de milhares de pessoas de todas as classes sociais – muçulmanos, coptas e não crentes em conjunto – agarraram em pedras e paus para combaterem a polícia e os arruaceiros de Mubarak e ocuparam a Praça Tahrir no Cairo e outros espaços públicos em Alexandria, a segunda maior cidade do Egipto.

Agora, o Cairo e Alexandria testemunham diariamente greves, ocupações, bloqueios de ruas e outros protestos de pequenos grupos ou de centenas de pessoas, mas que não desencadearam a esperada efusão em larga escala. As maiores acções ultimamente têm ocorrido em pequenas cidades.

Em Damietta, uma cidade portuária no rio Nilo a norte do Cairo, dezenas de milhares de habitantes bloquearam o trânsito durante as primeiras duas semanas de Novembro, exigindo o afastamento de uma fábrica canadiano-egípcia de fertilizantes que está a envenenar a água e a matar as pessoas. O exército tentou mas não conseguiu acabar com o bloqueio do porto. A polícia abriu fogo a 13 de Novembro e matou dois manifestantes. Numa cedência que não é incomum neste tipo de situações, sobretudo quando face a questões que são formuladas como não políticas, o governo concordou depois em encerrar a fábrica, mas as pessoas não acreditaram nas promessas das autoridades e algumas permaneceram nas ruas.

Em Aswan, muito a sul do Cairo, no Nilo, centenas de núbios (uma minoria marginalizada) manifestaram-se nesse mesmo dia em protesto contra a morte pela polícia de um barqueiro, a terceira morte dessas nos últimos meses. Também aqui, a agitação continua.

Porque é que o movimento político tem diminuído e mesmo recuado em geral, pelo menos por agora, apesar das contracorrentes, é uma questão tão complexa e difícil de responder quão importante. Duas razões são óbvias. Uma é que há nove meses atrás havia uma convergência entre jovens bloggers e activistas similares (a página no Facebook de uma das principais organizações tinha centenas de milhares de «amigos»), a classe média baixa urbana, os operários e outros pobres urbanos, veteranos de esquerda, todo um sector de capitalistas excluídos do círculo interno de Mubarak e, até certo ponto, os EUA e os seus generais egípcios, todos convencidos de que Mubarak tinha de sair e de que o seu filho Gamal não deveria ficar a perpetuar o regime. Não há hoje nenhum consenso semelhante sobre o domínio do exército e sobretudo sobre que tipo de regime deve ser estabelecido em sua substituição.

Uma outra razão, relacionada com esta, é que os desenvolvimentos desde a queda de Mubarak têm servido para levar muitas pessoas comuns, sobretudo os mais oprimidos, à passividade. Embora durante um curto período tenham acreditado, correctamente, que as suas acções poderiam mudar a história, agora descobrem-se espectadores da obsessão de quase toda a esquerda tradicional e dos partidos liberais com o processo eleitoral. Deliberadamente ou não, essas forças viraram as suas costas às acções conscientes das massas em geral.

Os comités de autodefesa formados nos bairros mais pobres durante a revolta para proteger as pessoas e as suas casas dos criminosos libertados e encorajados pela polícia parecem ter ficado inactivos. Ao mesmo tempo, a polícia tem respondido ao quase universal (e agora livremente expresso) ódio a ela recusando-se a tratar do crime e mesmo a organizar o trânsito. Vê-se polícias a conversar despreocupadamente nos cruzamentos e rotundas quase permanentemente engarrafadas que tornam a condução de um automóvel nesta cidade de 20 milhões de habitantes um privilégio e um pouco como ter um caixão móvel. Face a uma vida diária que parece ser cada vez mais caótica e frequentemente assustadora, há um desejo generalizado de algum tipo de ordem, segurança e estabilidade. Se a vida diária não pode mudar de uma forma fundamental, pode pelo menos ficar menos extenuante.

Nesta situação, os islamitas são considerados com probabilidade de obter muitos mais votos que qualquer outro partido, incluindo os de esquerda que tentam atrair as massas das classes mais baixas com plataformas que reivindicam um salário mínimo e coisas assim. Com a sua combinação entre proselitismo religioso e o fornecimento de serviços sociais básicos que o governo não proporciona, tais como clínicas de saúde e alimentos subsidiados nos feriados religiosos, os islamitas são normalmente as únicas forças organizadas visíveis nos bairros pobres. Eles também estão a afirmar o seu domínio entre as classes educadas.

Ficará para uma outra ocasião uma análise mais profunda da variedade de forças islamitas e da questão do Islão, da ineficaz esquerda tradicional e das questões fundamentais sobre a sociedade que, para consternação da esquerda e dos liberais, os islamitas têm insistido em abordar em voz alta, como se o domínio patriarcal dos homens sobre as mulheres que caracteriza toda a dimensão da vida diária egípcia devesse ter a dignidade da lei. Por agora, basta dizer que os partidos não revolucionários que se auto-intitulam socialistas ou comunistas e as forças abertamente pró-capitalistas como Mohammed El Baradei (o ex-chefe da Agência Internacional da Energia Atómica visto por quase todos os partidos não islâmicos e pela maioria dos laicos como o único candidato presidencial que pode enfrentar a Irmandade Muçulmana e os antigos colaboradores de Mubarak), todos concordam basicamente na impossibilidade, pelo menos por agora, de uma mudança radical na sociedade egípcia. Eles também concordam, explicitamente no caso da Irmandade Muçulmana, que não há nenhuma alternativa ao tipo de políticas económicas aprovadas pelo FMI e dependentes da globalização em que Mubarak se empenhou a levar a cabo. De uma forma reveladora, embora a Irmandade seja muito activa em Damietta, ignorou o movimento de massas contra a fábrica de fertilizantes.

É irónico que muitos, embora longe de serem todos, dos jovens activistas que forneceram a faísca para a revolta de 25 de Janeiro e que persistem nas ruas, se chamem a si próprios «liberais». O que querem dizer não é exactamente a definição europeia, a crença nos mercados livres, nem uma analogia com o Partido Democrático norte-americano, mas sim que a obtenção dos «direitos humanos» – as liberdades políticas tão cruelmente negadas pelo regime de Mubarak – constituiria uma revolução suficiente para transformar o Egipto. Essa ilusão é tornada ainda mais forte pelos esforços do regime militar para bloquear a instauração do tipo de sistema político parlamentar e dos direitos formais que caracterizam a maioria dos países imperialistas. Porém, mesmo que esse objectivo pudesse ser atingido – o que ainda é uma questão não resolvida – não poderia oferecer a possibilidade de uma transformação económica, política, social e ideológica radical sem a qual a vida diária e o destino do Egipto permaneceriam quase iguais, ainda que embrulhados em vestes «democráticas» ou islâmicas ou alguma combinação delas.

Factores contraditórios

Esta é uma situação difícil para o povo egípcio, mas também muito difícil para os seus inimigos, as potências ocidentais que têm subordinado a economia e a política do país aos interesses deles e dos exploradores e candidatos a exploradores internos que governam o país numa parceria júnior com os imperialistas.

Em primeiro lugar, tem havido um tipo de despertar político entre as massas que só ocorre em momentos especiais da história. Certamente que não a maioria dos 80 milhões de habitantes do Egipto, mas certamente milhões de pessoas, literalmente, tomaram a história nas suas próprias mãos. Isto inclui muitos dos desapropriados que normalmente estão proibidos, pela força da tradição, da cultura e por vezes das armas, de ter alguma coisa a dizer sobre quem governa, como e para quê. Durante os anos de Mubarak, ninguém ousava discutir política em público. Mesmo entre amigos mantinha-se as conversas tão longe de outros ouvidos quanto possível. Hoje em dia, o confronto de opiniões ocorre em muitos bairros e é frequentemente ensurdecedor.

Ao mesmo tempo, a frequentemente repetida frase de que «O povo egípcio perdeu o seu medo», e que portanto se pode contar com ele para continuar a resistir independentemente de tudo, deve ser cientificamente analisada para se compreender a natureza contraditória deste fenómeno. Se durante 18 dias tanta gente de diversos estratos sociais esteve disposta a arriscar a morte em vez de continuar a viver como antes, isso está relacionado com o facto de eles acreditarem, muito correctamente, que as suas acções poderiam fazer uma diferença crucial. Se, hoje em dia, tantas dessas mesmas pessoas adoptaram uma «atitude de esperar e ver», isso acontece porque agora parece ser a alternativa mais razoável para elas – dentro do quadro da situação tal como ela lhes é apresentada. Embora haja factores díspares a trabalhar na criação de um momento revolucionário, seguramente que as massas populares não podem ser inspiradas a arriscar tudo a menos que pelo menos um núcleo de pessoas entre elas obtenha uma compreensão de base da razão por que as suas vidas e o mundo são como são e como é que as pessoas os podem transformar.

Quase ninguém esperava que Mubarak fosse derrubado da forma como o foi. As primeiras pessoas que a 25 de Janeiro foram para a Praça Tahrir esperavam ir para casa poucas horas mais tarde, depois de mais uma, ainda que muito maior, manifestação. Agora que as pessoas mostraram do que são capazes, seria criminoso que os que se consideram revolucionários ficassem contentes com a redução da actividade das massas à escolha do «mal menor» numa lista de candidatos não estimulantes, ou a qualquer outra coisa que não a construção e a tentativa de levar a revolta mais avante, até uma conclusão decisiva.

No que diz respeito a alternativas menos más, os imperialistas e os seus lacaios egípcios, eles próprios não têm o que possam considerar boas escolhas.

Um governo militar, ou um governo civil cujas decisões sejam abertamente sujeitas a aprovação militar, pode não ser aceitável para muita gente que não é nem remotamente revolucionária, incluindo os grandes capitalistas e outras forças inerentemente não anti-imperialistas, mas os EUA e os seus generais locais podem decidir que o controlo do povo egípcio implica isso. A Irmandade Muçulmana tem exprimido repetidamente a sua vontade de manter a subordinação económica, política e militar do Egipto aos EUA, mas Washington pode ainda não ter decidido se uma tal relação é possível e desejável.

A questão de Israel torna isto ainda mais complexo. Um ódio feroz a Israel pela forma como trata os palestinianos e a agressão, as ameaças e a interferência no Egipto são um factor central na vida política do país e no pensamento das pessoas, incluindo entre as classes mais baixas. Frequentemente (embora nem sempre), está associado ao ódio aos EUA por apoiarem Israel, pelas duas guerras contra o Iraque, o Afeganistão, etc., já para não falar no persistente apoio norte-americano a Mubarak. Ao mesmo tempo que remove o nome de Mubarak de praças, estações de comboio e mapas, os militares egípcios estão agora a usar os canais de televisão e outros meios de comunicação social à sua disposição para promoverem o antecessor de Mubarak em mais de meio século de domínio militar, Anwar Sadat, como o único líder egípcio que conseguiu infligir um rude golpe militar a Israel (na guerra de 1973). Ao mesmo tempo, os militares devem estar dolorosamente conscientes de que Sadat foi assassinado em 1981 por islamitas do interior do próprio exército depois de ele ter capitulado a Israel.

Embora o SCAF possa considerar a Irmandade Muçulmana como um aliado crucial, e embora o Islão esteja profunda e historicamente enraizado no exército egípcio (ao contrário da Turquia, cujas forças armadas estiveram durante muito tempo associadas à tradição laica kemalista), as forças islamitas podem não poder produzir o tipo de regime fidedigno, estável e tolerante a Israel de que os EUA precisam no Egipto. O próprio estado de Israel pode estar ou não disposto ou capaz de cumprir compromissos secundários (tais como parar a expansão dos colonatos e o estabelecimento de um frágil «mini-estado» palestiniano) que torne possível esse compromisso principal.

Esta situação internacional determina o enquadramento global e interage com a situação interna, incluindo os variáveis estados de espírito entre as próprias pessoas. A natureza dinâmica desta interacção pode ser vista na forma como a revolta no Egipto já colocou problemas à actual ordem mundial na região e fora dela, e na forma como os desenvolvimentos internacionais têm reverberado no Egipto. Por exemplo, de uma forma positiva, a queda do regime de Ben Ali na Tunísia e, negativamente, a assunção quase universal (mesmo pelo Partido Comunista Egípcio e por outras pessoas que se auto-identificam como marxistas) de que a experiência da União Soviética e o desaparecimento de um pólo revolucionário no mundo com o golpe de estado capitalista que se seguiu à morte de Mao na China «mostrou» que o socialismo falhou. Toda a gente se refere à «revolução» de 25 de Janeiro, mas o conceito de revolução das pessoas é extremamente limitado no âmbito.

Em suma, há obstáculos reais ao estabelecimento de um regime reaccionário durável no Egipto. O futuro não pode ser previsto, mas há factores significativos que poderão prolongar a actual instabilidade política. Isto é ainda mais uma razão para que aqueles que realmente querem libertar o povo egípcio de todas as suas grilhetas não deverem afastar a possibilidade de o movimento que derrubou um dos mais poderosos e odiados tiranos do mundo poder continuar até obter o poder político revolucionário de que o Egipto e o mundo necessitam de ver emergir desta situação difícil e complicada mas também ainda instável e potencialmente favorável.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese