Algumas questões sobre o desenvolvimento das relações EUA-Paquistão
13 de Junho de 2011. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Durante as duas últimas semanas houve um elevado volume de tráfego de altos responsáveis dos EUA de visita ao Paquistão. Entre eles estiveram a Secretária de Estado, Hillary Clinton; o Chefe do Estado-Maior dos EUA, Almirante Mike Mullen; o director da Agência Central de Informações (CIA), Leon Panetta; e o presidente do Comité de Relações Externas do Senado, John Kerry. Essas visitas visaram claramente lidar com, mas não necessariamente reduzir, a tensão nas relações EUA-Paquistão que tinha sido ampliada com a operação dos Navy Seal norte-americanos para matarem Osama Bin Laden.

A comunicação social descreveu a atmosfera em que ocorreram as visitas como fria. «Em vez das habituais amabilidades diplomáticas, a Sra. Clinton e o Almirante Mullen apareceram porém com um ar desconfortável e sério numa reunião no palácio presidencial com o Presidente Asif Ali Zardari, o Primeiro-Ministro Yousaf Raza Gilani e o chefe do Exército, General Ashfaq Parvez Kayani».

Desde a morte de Bin Laden que o Paquistão tem dado alguns passos deliberados para corroer a cooperação de segurança com os EUA. «Entre esses passos estiveram a divulgação do nome do chefe da estação local da Agência Central de Informações e o pedido ao Pentágono de retirada de alguns dos conselheiros militares que há anos trabalham com as forças de segurança do país» (The New York Times, 27 de Maio).

A visita de Panetta, o chefe da CIA nomeado por Obama para substituir Robert Gates como Secretário da Defesa no fim deste mês, teve lugar cerca de duas semanas depois. Ele reuniu-se com o chefe do exército paquistanês, General Kayani, e o líder dos serviços secretos do Paquistão (ISI), Tenente General Ahmen Shuja Pasha.

O ataque norte-americano ao complexo de Abbotabad no Paquistão onde Bin Laden estava escondido, sem autorização ou sequer conhecimento das autoridades paquistanesas, fez piorar enormemente as relações entre os EUA e o Paquistão.

Os EUA não acharam necessário desculpar-se, nem sequer explicar esse evidente acto de agressão a outro país. Pelo contrário, os responsáveis norte-americanos e os membros do Congresso assumiram eles próprios a tarefa de questionarem as autoridades paquistanesas sobre porque é que elas não tinham conseguido prender Bin Laden ou porque é que não sabiam onde é que ele estava escondido.

«A Senadora Dianne Feinstein, uma Democrata da Califórnia que é presidente do Comité de Informações do Senado, reconheceu que não tinha nenhuma prova de que o governo do Paquistão sabia onde é que Bin Laden se escondia, mas disse que o governo tinha muito a que responder [...] ‘Se eles não sabiam, porque é que não sabiam? Porque é que não deram mais atenção a isso? Tratou-se apenas de uma indiferença benigna, ou foi uma indiferença com um objectivo?’ disse ela.» (NYT, 3 de Maio)

Por sua vez, as autoridades paquistanesas viram-se numa posição defensiva e negaram ter ajudado Bin Laden ou conhecer o esconderijo dele. Os ISI exprimiram o seu embaraço por não terem localizado Bin Laden mais cedo.

Humilhado e enfrentando a ira pública, o Primeiro-Ministro paquistanês Gilani, depois de inicialmente ter assumido uma posição defensiva, apelidou o ataque norte-americano de violação da soberania paquistanesa. Isto parece ser até onde ele e os seus parceiros sentem que podem ir na reacção aos EUA.

Porém, as causas da tensão das relações EUA-Paquistão não podem ser reduzidas a estes desenvolvimentos recentes. Ela é o resultado de uma relação entre um país imperialista e um país dominado, um país que se tornou muito complexo devido à intensificação das contradições na região.

Desde a sua fundação em 1947 que o Paquistão tem dependido da Grã-Bretanha e posteriormente dos EUA para se estabelecer como país independente da Índia. Por sua vez, tem representado um importante papel para os interesses regionais dos EUA. Esse papel expandiu-se quando em 1980 a União Soviética invadiu o Afeganistão e durante toda a década seguinte, quando o bloco ocidental, encabeçado pelos EUA, transformou a região num campo de batalha com o seu rival bloco de leste, encabeçado pela URSS. O Paquistão também usou essa oportunidade para aumentar a sua influência regional, de forma a consolidar a sua posição contra a Índia. Essa nova força aumentou quando, em meados dos anos 90, os talibãs, treinados e apoiados pelo Paquistão às ordens dos EUA, tomaram o poder no Afeganistão.

Para o Paquistão, a lua-de-mel não durou muito. À medida que se começou a intensificar a contradição entre os EUA e a Al-Qaeda e outras forças que tinham sido aliadas dos EUA durante os anos 80, essa posição do Paquistão também ficou ameaçada. Quando por fim os EUA e os seus outros aliados imperialistas invadiram e ocuparam o Afeganistão, tudo o que o Paquistão tinha conseguido ficou ameaçado. Porém, os EUA estavam à espera de uma cooperação total do Paquistão, tal como antes.

Na década que decorreu desde essa invasão, as forças norte-americanas usaram cada vez mais o território do Paquistão como se fosse o seu próprio território, ou pelo menos como se fosse um território sob seu controlo. Sentiram-se livres para levarem a cabo operações militares e actividades de espionagem, e mesmo para prenderem e matarem os seus opositores e pessoas comuns sempre que o desejaram.

O governo e o exército paquistaneses têm estado ao serviço dos EUA desde Outubro de 2001, dias antes da invasão norte-americana do Afeganistão. Essa invasão só foi possível usando o território do Paquistão. Alguns dos primeiros ataques aéreos norte-americanos no Afeganistão foram lançados de bases do exército paquistanês em Quetta e noutros locais da fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. Com a continuação da ocupação norte-americana do Afeganistão, a rota mais eficiente para o abastecimento das forças norte-americanas era através do Paquistão.

Para agradecer ao Paquistão, os EUA «promoveram» o Paquistão ao nível de «importante aliado não-NATO», um estatuto apenas atribuído a meia dúzia de outros países, e continuaram a apoiar económica e militarmente os governantes do país.

Mas, por seu lado, as classes dominantes do Paquistão não podiam estar satisfeitas com os desenvolvimentos na região após a invasão do Afeganistão. Com a queda dos talibãs, a Índia, um inimigo do Paquistão de longa data, tornou-se mais influente na região. O Paquistão sentia que estava a ponto de perder todas as suas cartas na região e que ficaria vulnerável face à Índia. Como os talibãs tinham sido úteis ao Paquistão e o exército e as forças de segurança paquistanesas tinham encorajado a ascensão do fundamentalismo islâmico como fonte de legitimidade e coesão nacional, tinham pouco interesse em combater os fundamentalistas islâmicos e em particular os talibãs afegãos.

Não há dúvida nenhuma que os EUA tinham consciência deste conflito entre os seus interesses e os do Paquistão, mas pareciam ter decidido aceitar a situação. Certamente que os EUA fecharam os olhos ao desinteresse das forças armadas paquistanesas enquanto o Paquistão estive a ajudar logisticamente as forças norte-americanas.

Porém, quando a guerra contra o Afeganistão começou a não correr bem, os EUA ficaram cada vez mais frustrados e começaram a culpar o Paquistão por estar a fornecer um abrigo seguro aos talibãs.

Isto coincidiu com a entrada em funções do novo Presidente norte-americano Barack Obama e com a revisão da estratégia norte-americana para a guerra no Afeganistão, a qual foi concluída sob a liderança dele. A nova estratégia envolvia um uso acrescido dentro do Paquistão das aeronaves não tripuladas conhecidas como drones na procura dos talibãs e de outros alvos. Esses drones têm bombardeado casas e aldeias, matando centenas de civis paquistaneses.

Tem sido noticiado que as autoridades paquistanesas aceitaram secretamente as operações com drones. Quer isto seja verdade ou não, não altera a natureza desses actos de agressão e intervenção descontrolada, e mesmo de assassinato de civis.

Um outro incidente que revelou a extensão das violações da soberania do Paquistão pelos EUA foi o que é conhecido como caso Davis, em que se ficou a saber que os EUA não só tinham estado a levar a cabo operações secretas no Paquistão sem o conhecimento das autoridades paquistanesas, como tinham estado a levar a cabo assassinatos e outras operações militares agressivas sem sequer informarem o governo, o exército ou os ISI. (Ver o SNUMAG de 4 de Abril de 2011)

«Um responsável dos serviços secretos paquistaneses confirmou que havia operacionais da CIA que usavam os seus próprios agentes locais para atacar militantes ligados à Al-Qaeda com drones nas zonas tribais do Paquistão, e especulou que eles pudessem estar a tentar expandir essa campanha para atingirem outros militantes paquistaneses e talibãs afegãos dentro do Paquistão.» (NYT, 31 de Março de 2011)

Há relatos credíveis de que a CIA já matou de várias formas inúmeros líderes talibãs, incluindo assassinatos no terreno em vários pontos do Paquistão, como Quetta.

Por isso, o ataque norte-americano ao complexo de Abbotabad não foi apenas uma extensão da interferência anterior, mas uma grande escalada, tanto em termos dos seus componentes técnicos (o grau de secretismo para com as autoridades paquistanesas e a profundidade a que os comandos norte-americanos penetraram no país a partir das suas bases no Afeganistão), como de uma mensagem política deliberada. O facto de responsáveis norte-americanas, congressistas e a comunicação social amiga do governo terem alinhado nesta agressão reforçada e claramente ilegal, aumentando os seus ataques políticos às autoridades paquistanesas, só pode ser interpretado como uma tentativa por parte dos EUA de normalizarem a continuação dessas actividade ao mesmo nível ou num nível mais elevado.

Isto pode significar uma preparação para operações militares terrestres e aéreas norte-americanas a uma escala ainda maior em pelo menos alguns pontos do Paquistão. Obviamente, isto dependerá do desenvolvimento dos acontecimentos regionais, em particular da guerra no Afeganistão, e das necessidades e capacidades do imperialismo norte-americano.

Ao mesmo tempo, estes desenvolvimentos esclareceram a natureza reaccionária das classes dominantes paquistanesas e a dependência delas em relação ao imperialismo norte-americano, e a sua legitimidade tornou-se ainda mais diminuta que nunca aos olhos dos paquistaneses que estão extremamente enfurecidos tanto com a determinação norte-americana de infligir uma humilhação ao Paquistão, como com a disposição das autoridades do Paquistão para aceitarem essa humilhação nacional.

Apanhada nesta situação, a estrutura do poder paquistanês vê-se numa situação cada vez mais instável, e ainda mais instável se torna quanto mais os EUA tentarem impor os seus interesses, criando uma espiral de instabilidade.

Os recentes desenvolvimentos não só levantaram muitas preocupações relacionadas com a actuação dos EUA na região e os seus planos para o Paquistão, como também levantaram uma vez mais a questão da chamada «guerra contra o terrorismo».

A pergunta que já foi feita por muita gente é saber se depois da morte de Bin Laden a chamada «guerra contra o terrorismo» teria chegado ao fim? Se é verdade que o objectivo principal dessas guerras é defender os interesses imperiais globais dos EUA, então a morte de Osama Bin Laden não muda nada. Os EUA e as outras potências imperialistas ocidentais permanecerão na região e continuarão a tentar dominá-la, seja através de uma guerra em larga escala como a do Afeganistão até agora, seja, agora que Bin Laden está morto, através do tipo de «paz» que estão agora a explorar através de negociações com elementos dos talibãs.

Isto representa uma outra tentativa de manter o país sob influência norte-americana, à custa do povo e dos interesses do povo, tal como fizeram com o governo que eles instalaram no Iraque, inteiramente reaccionário e, no fim de contas, dependente dos EUA.

Os EUA têm tentado resolver a questão da Al-Qaeda e de outras forças que já foram aliadas dos norte-americanos na guerra por procuração contra a URSS e que são agora um importante inimigo. Mas estes novos desenvolvimentos e os resultados de uma década de guerras levadas a cabo no Afeganistão e no Iraque tornam claro que os EUA tentam atingir objectivos geopolíticos mais vastos, sobretudo o domínio de regiões estratégicas do mundo. A agressão e outros crimes cometidos nesta tentativa estão a dar um maior ímpeto à própria instabilidade que ameaça ainda mais os arranjos geopolíticos que os EUA estabeleceram para controlarem grande parte do mundo, e que portanto podem requerer ainda mais agressões.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese