Tunísia: «O povo quer uma nova revolução!»
9 de Maio de 2011. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Os manifestantes enfrentam a polícia em Tunes, a 14 de Janeiro de 2011. (Foto: Christophe Ena/AP)

O tipo de ira popular que a 14 de Janeiro afastou o odiado tirano Ben Ali e que derrubou dois dos governos que lhe sucederam irrompeu de novo na Tunísia.

Desde 7 de Maio que está em vigor um recolher obrigatório nocturno na capital do país, nos seus subúrbios operários e em três cidades do interior do país, após os mais violentos confrontos desde Janeiro. Os primeiros protestos irromperam a 5 de Maio, após uma entrevista televisiva em que o recém-demitido Ministro do Interior, Farhat Rajhi, a quem chamavam «Senhor Limpeza» e que supostamente o Presidente Foued Mebazzaa levou para o governo para limpar das forças de segurança os elementos do anterior regime, disse que tinha sido afastado exactamente por ter tentado fazer isso e declarou que não se podia confiar nas palavras do presidente. Ainda mais explosivo, alertou para o facto de o presidente e o chefe das forças armadas General Rachid Ammar estarem a discutir a possibilidade de um golpe militar caso o resultado das eleições para a Assembleia Constituinte marcadas para Julho não seja do agrado deles.

A 6 de Maio, a multidão que se tem concentrado todas as sextas-feiras à tarde para discutir, debater e fazer ouvir a sua voz na Avenida Bourguiba, em Tunes, estava particularmente furiosa. No início, as centenas de manifestantes, sobretudo adolescentes e estudantes universitários, ocuparam a escadaria do Teatro Municipal, o local de muitas dessas manifestações deste ano. Depois, começaram a marchar rumo ao vizinho Ministério do Interior, o qual tem estado isolado do exterior por arame farpado e veículos blindados anti-motim. Isto aconteceu várias vezes durante os últimos meses, mas desta vez a multidão estava furiosa e decidida e a repressão foi mais violenta.

Protestos numa rua de Regueb a 9 de Janeiro. (Foto: Abu Omar/AP)

A polícia, omnipresente durante o regime de Ben Ali e ultimamente não vista tão frequentemente nas ruas, ordenou aos manifestantes através de megafones que dispersassem e fossem para casa. Os manifestantes, por sua vez, cantaram o hino nacional e gritaram «O povo quer uma segunda revolução!» Chamaram arruaceiros e covardes aos polícias e exigiram a demissão do presidente. Nos últimos meses têm entrado e saído diversos primeiros-ministros e governos, numa tentativa de pacificação do povo, mas o presidente, enquanto chefe de estado e símbolo de pessoas supostamente menos contaminadas entre as que trabalhavam para a autocracia corrupta de Ben Ali, é visto como garante da continuidade e portanto respeitado por uns e odiado por outros.

A polícia disparou granadas de gás lacrimogéneo e distribuiu pancadaria para tentar desbaratar a manifestação. Depois, quando os jovens se começaram a reagrupar após se terem dispersado, respondendo tão vigorosamente quanto puderam com pedras da calçada e tudo o que estava à mão ou nas suas mochilas, a polícia não só carregou sobre os jovens à bastonada, como também perseguiu e espancou os manifestantes e outras pessoas de todas as classes sociais que apareceram no seu caminho na abarrotada avenida principal e ruas adjacentes. Derrubando os vendedores ambulantes e espalhando os produtos deles, eles avançaram para as zonas mais pobres, fazendo um arco em expansão que acabou por cobrir grande parte do centro de Tunes. A polícia a pé estava acompanhada por brigadas de dois homens com bastões em motocicletas e por carros blindados da Guarda Nacional. Muitas pessoas ficaram feridas, fossem jovens manifestantes, pessoas às compras ou transeuntes.

A polícia também descarregou a sua raiva sobre a imprensa, espancando cerca de 15 jornalistas tunisinos e internacionais e confiscando máquinas fotográficas. Ao perseguirem jornalistas em fuga, chegaram mesmo a invadir as instalações do La Presse, um jornal conhecido pela sua servil adoração a Ben Ali até à queda dele e que continua a ser um órgão de comunicação muito pró-regime. O sindicato nacional de jornalistas emitiu um comunicado que dizia que a intenção do regime era não só impedir os protestos mas também cortar o povo de uma das fontes da sua ira – o noticiar dos acontecimentos.

Jovens tunisinos enfrentam as forças de segurança
em Regueb a 9 de Janeiro de 2011.
(Foto: Abu Omar/AP)

O regime tentou alegar que o seu objectivo era proteger a «revolução» anti-Ben Ali, da qual alega obter a sua legitimidade. O regime alterna frequentemente actos brutais com várias medidas que visam atrair e satisfazer o povo. Num acto típico, após o banho de sangue de sexta-feira, o novo Ministro do Interior prometeu um inquérito à violência e pediu desculpa à comunicação social. Garantiu ao país que o seu governo respeitava o direito de manifestação e a liberdade de imprensa. O governo atirou as culpas de tudo para a «irresponsabilidade» do ex-Ministro do Interior – o Ministro da Defesa alegou que era o ex-Ministro do Interior que estava a pôr em risco a «revolução». Nesse mesmo dia, um tribunal condenou um membro da família de Ben Ali à prisão por motivos relacionados com drogas. Mas muitas pessoas não estão convencidas de que o país tenha mudado tanto quanto elas queriam.

Posteriormente, nessa mesma noite, um posto da Guarda Nacional num bairro operário de Tunes ardeu completamente e outro foi incendiado no subúrbio de Ethadamen, na capital, onde em Janeiro último os jovens se ergueram para exigirem que a revolução continuasse após a queda de Ben Ali. Também houve violentos protestos no difícil interior do país, incluindo em Sidi Bouzid, a cidade onde em Dezembro passado teve início a insurreição.

Nessas pequenas cidades particularmente empobrecidas, os jovens das zonas rurais estão insatisfeitos com a tradição e, ao mesmo tempo, é-lhes negado o acesso integral ao que eles consideram ser a vida moderna. Eles estão afastados de qualquer futuro devido ao desemprego e estão sufocados pelo tédio absoluto em cidades onde as estruturas culturais e os serviços públicos são praticamente inexistentes. Não admira que eles queiram partir janelas e deixar entrar um pouco de ar. Esses jovens e outras pessoas que derrubaram Ben Ali estão impacientes por uma mudança que seja integral, em toda a sociedade e em todo o país, mesmo que estejam longe de ter a certeza do que isso possa ser ou de como isso possa acontecer.

Apesar da sua falsa «autocrítica», no sábado a polícia governamental atacou de novo os manifestantes em Tunes. A multidão concentrou-se frente ao Ministério do Interior a cantar «Os tunisinos já não têm medo do gás lacrimogéneo nem das balas» e «Povo tunisino, revolta-te!» e a exigir a demissão do governo provisório.

Durante os dias seguintes continuou a haver manifestações em Tunes, as quais se propagaram a outras cidades. A 8 de Maio, em Slimane, uma pequena cidade litoral a 45 quilómetros de Tunes, um soldado atingiu e matou Mahmoud Toumi, um membro do Partido Patriótico e Democrático do Trabalho (conhecido como PT) e activista do Comité Local de Defesa da Revolução.

Num comunicado em honra do camarada caído, o PT salientou que esse licenciado universitário, desempregado e entusiasta da internet de 26 anos era um exemplo típico das dezenas de milhares de jovens homens e mulheres tunisinos que estiveram no centro desse movimento.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese