Londres: A legitimidade em questão?
28 de Março de 2011. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

A 26 de Março, Londres foi cenário de mais um combate contra o governo britânico de coligação. Centenas de milhares de pessoas – entre um quarto e meio milhão, segundo os vários relatos da comunicação social – protestaram contra os cortes orçamentais e outras políticas de austeridade impostas pelos conservadores e democratas liberais e contra a miséria que espera os mais baixos estratos do povo. Foi a maior manifestação em Londres desde a invasão do Iraque em 2003, altura em que se manifestaram milhões de pessoas. No sábado, foram precisas várias horas para que quem estava na cauda da manifestação conseguisse chegar ao ponto de partida. Em Hyde Park, onde a manifestação terminou, as pessoas continuaram a chegar durante várias horas.

A participação nessa manifestação excedeu em muito as expectativas dos seus organizadores, o Congresso dos Sindicatos. Mas a dimensão e a crueldade dos cortes previstos atraíram um grupo muito grande e variado de operários, professores, advogados, enfermeiros, reformados, desempregados, estudantes, médicos, velhos, jovens, adolescentes, homens e mulheres.

Muitas das faixas também exigiam à Grã-Bretanha: «Deixem a Líbia em Paz». Algumas pessoas vestiam t-shirts que actualizavam o título de uma canção popular: «Andar como um egípcio – Lutar como um egípcio»!

Porém, o protesto não se limitou à manifestação organizada ao longo do percurso definido pela polícia e pelos organizadores. Apesar das ameaças feitas por várias forças, incluindo a polícia, jovens enfurecidos estavam decididos a deixar uma mensagem clara à classe dominante de que não se iriam deixar ser espremidos pelo governo para este resolver uma crise financeira que não é culpa deles e pagarem pelo que para eles são os interesses dos ricos.

Os jovens enfurecidos deixaram a sua mensagem ao invadirem lojas e atacarem bancos e outros símbolos do capitalismo, em dezenas de locais do centro de Londres.

Pouco antes das 14h, um bloco de jovens desviou-se do cortejo principal e entrou em Regents Street. Pouco depois, a Topshop (apresentada como a maior loja de roupa do mundo e cujos proprietários são conhecidos por não pagarem impostos) da Oxford Street tornou-se no alvo de alguns dos manifestantes. Ao mesmo tempo, um grupo que levava um «Cavalo de Tróia» de fabrico caseiro ocupou Oxford Circus, o local onde a Regents Street se cruza com a Oxford Street. Também houve relatos de confrontos entre a polícia e manifestantes na própria Oxford Street. Como uma grande secção da Oxford Street, o maior centro comercial do centro de Londres, tinha sido fechada ao trânsito automóvel, os manifestantes consideraram-na um bom trajecto para continuarem a sua marcha.

Depois, o banco HSBC em Cambridge Circus, perto de Piccadilly Circus, foi atacado. Por volta das 15h, o hotel de luxo Ritz, a 500 metros a oeste de Piccadilly Circus, tornou-se no alvo dos manifestantes.

Uma hora depois, centenas de manifestantes ocuparam a Fortnum & Mason, uma loja de alimentos de luxo em Piccadilly. Embora tenham sido totalmente não violentos e não disruptivos para com quem andava às compras, segundo os observadores legais, e tenham saído voluntariamente pouco depois, eles foram «enchaleirados» à saída e foram todos presos.

Entretanto, o Cavalo de Tróia em Oxford Circus foi ateado, ao mesmo tempo que se ateavam fogueiras e lançava fogo-de-artifício para chamar a atenção. Alguns grupos ocuparam várias lojas da Oxford Street. Houve outros bancos atacados, como o Lloyd's TSB e o Santander, e uma loja da Porsche. Há relatos de os manifestantes terem-se apoderado das barricadas da polícia e as terem usado para partir vidraças.

A polícia tentou conter os manifestantes em vários locais do West End, no centro de Londres. Muitos dos manifestantes recusaram-se a deixarem-se ficar encurralados e enfrentaram a polícia para furarem as barreiras.

Por volta da 19h, iniciaram-se confrontos na Jermyn Street, perto de Piccadilly Circus. As chamas iam até muito alto nos caixotes do lixo.

Mais tarde, nessa noite, os protestos mudaram-se para a Praça de Trafalgar. Aí, vários milhares de manifestantes juntaram-se para dançarem e ouvirem música à volta de fogueiras. Foram montadas tendas, mostrando que algumas pessoas pretendiam aí passar a noite. Seguindo o exemplo do movimento anti-Mubarak, elas pretendiam tornar esse monumento ao império britânico, que no passado governou o Egipto, numa nova versão da Praça Tahrir [da Libertação] no Cairo. A polícia parecia achar isso intolerável e começou a provocar os manifestantes, usando os seus bastões para os empurrar e espancar.

Por fim, com a desculpa de os manifestantes poderem vir a iniciar uma «violência cega», as autoridades montaram a sua infame táctica de «enchaleiramento». Um grande número de polícias cercou os manifestantes e mantive-os cercados a céu aberto e ao frio até os libertaram às primeiras horas da manhã.

A polícia tentou dar a entender que tinha evitado usar o «enchaleiramento» durante o dia. Alguns observadores comentaram que a polícia parecia ter tido instruções para ser menos violenta que o habitual, de forma a evitar ser comparada ao regime de Khadafi que está actualmente a ser bombardeado pela Grã-Bretanha e outros países em nome da democracia.

Porém, parece mais provável que os manifestantes tenham conseguido evitar ser cercados usando novas tácticas como manifestarem-se de diferentes formas em diferentes locais. Foi só quando as pessoas convergiram para a Praça de Trafalgar e a noite caiu que várias vagas de agentes da polícia os conseguiram cercar e reter. A ideia de que milhares de pessoas pudessem fazer uma manifestação nesse local e atrair muitas outras para o seu protesto ia para além do que as autoridades estavam dispostas a aceitar.

Além das várias centenas de pessoas presas nesse dia, a polícia anunciou que iria analisar as fotografias dos manifestantes (as autoridades tentam tirar fotos de todas as pessoas individualmente, sobretudo quando elas são «enchaleiradas») e fazer ainda mais prisões.

Quase instantaneamente, ergueu-se um coro de condenação dos protestos por parte de personalidades do governo, líderes do Partido Trabalhista na oposição, do Congresso dos Sindicatos e da comunicação social. Tal como a propaganda que é dirigida contra os jovens que actualmente fazem estremecer os regimes reaccionários do Médio Oriente, estes corajosos manifestantes de Londres foram etiquetados de arruaceiros e criminosos.

Estes jovens, em geral não atacaram edifícios ao acaso. Eles queriam deixar uma mensagem clara ao terem seleccionado cuidadosamente símbolos daquilo que vêem que está errado na Grã-Bretanha – o facto de o governo estar ao serviço das grandes empresas e dos «ricos».

Quem são os verdadeiros arruaceiros e criminosos na sociedade? Quem está a cortar nos serviços públicos e a destruir o sistema de ensino e os serviços de saúde, ao mesmo tempo que reforça os lucros dos gangsters proprietários dos bancos e das grandes empresas? Ou quem protesta contra isso? Muita gente está a fazer este tipo de perguntas.

Uma leitora do jornal Independent de Londres, usando o nome de Kubelik, colocou os seus comentários no blogue dos leitores. Disse que quando se preparava para sair da manifestação com outros professores, satisfeita com as actividades desse dia, viu-se em Piccadilly a testemunhar uma parte dos protestos radicais que aí decorriam:

«A princípio, eu queria estar indignada e desligar o evento principal da violência, pensando que ela iria diminuiria a homogeneidade da manifestação principal, que seria apresentada como actos de criminosos e extremistas violentos. Porém, após algumas conversas com os amotinados, a minha perspectiva começou a mudar.»

«O que eles me disseram foi o seguinte: Vivemos numa sociedade muito corrupta, com enormes níveis de desigualdade, não só neste país, mas em todo o mundo. Já não podemos confiar nos nossos políticos e eles são vistos como tendo os seus focinhos na gamela (sem problema). Os jovens estão a ser desproporcionadamente alvo das políticas governamentais (como trabalho numa universidade, eu aqui não tenho nenhum argumento). Os pobres, os deficientes e os velhos estão a ser desproporcionadamente afectados (yep). O capitalismo é uma construção social que beneficia alguns e marginaliza a maioria, divide para reinar, fomenta inimizades materiais que fragmentam a sociedade e encoraja o egoísmo. Funciona num ciclo que implica que inevitavelmente aqueles que são menos capazes de enfrentar uma queda são os mais atrozmente discriminados como resultado dessa brutalidade (isto parece ser consistente com a minha experiência).»

«Eles estão enfurecidos e frustrados e sentem-se traídos pelas gerações anteriores. Vêem um governo de milionários, uma elite patrícia que protege os seus benfeitores e amigos na cidade [...] Por isso, não será legítima uma resposta que atinja aqueles que lucram com um sistema que vitima tanta gente e que o suportam? Não será inteiramente legítimo, perante a ausência de lei, tomarem as coisas nas suas próprias mãos e lutarem por um mundo melhor?»

«Esta manhã vi-me a pensar se os deveríamos diabolizar como criminosos ou proclamá-los como heróis.»

Há indícios de que isto representa o que muitas pessoas da classe média hoje pensam.

Dirigindo-se à concentração em Hyde Park, onde terminaram as actividades oficiais desse dia, o dirigente do Partido Trabalhista Ed Miliband juntou-se ao resto do sistema na diabolização dos manifestantes. Os organizadores pró-trabalhistas da manifestação chamaram-lhe «Marcha pela Alternativa». Mas que alternativa propôs? Ele nem sequer condenou os cortes, apenas criticou o governo por estar a ir «demasiado longe e demasiado rápido» ao fazer o que ele descreveu como cortes necessários. Foi redondamente vaiado. Posteriormente, essas saudáveis objecções ao seu discurso foram atribuídas a «agitadores fascistas».

Os membros de todos os três principais partidos, do topo e mesmo muitos de níveis mais baixos do Partido Trabalhista, todos eles concordam em que esses cortes são inevitáveis.

Pode muito bem ser que os actuais deficits do governo correspondam a dez por cento do PIB e sejam insustentáveis. Parte desse dinheiro foi usado para pagar os custos da participação da Grã-Bretanha nas invasões do Iraque e do Afeganistão, os anos de ocupação desses dois países e o reforço das forças armadas britânicas. Outra parte foi para salvar da bancarrota os bancos britânicos e as grandes empresas. E ainda há as grandes isenções fiscais às empresas. Pode muito bem ser que este tipo de medidas seja essencial para impulsionar os interesses globais dos imperialistas britânicos.

Mas muitos britânicos consideram o serviço nacional de saúde, o acesso ao ensino superior, a habitação social e outros programas estabelecidos durante o último meio século, já para não falar de um emprego, como direitos seus. A ideia de que a Grã-Bretanha já nem sequer pode ter um sistema de bibliotecas públicas decentes, já para não falar em benefícios sociais para as pessoas que ficariam em grandes dificuldades sem eles, isto vai contra o que muita gente pensa ser o essencial do modo de vida e dos «valores» britânicos, ou pelo menos do que deveria ser.

A militância da luta estudantil contra o aumento das propinas, o carácter alargado e o enorme número de pessoas que se mobilizaram para a manifestação e a fúria dos jovens indicam um profundo e agudo descontentamento com a forma como estão as coisas e uma aversão a aceitarem o que eles consideram estar errado, independentemente de os políticos lhes estarem a dizer que não há outra alternativa. Independentemente de quão séria seja a crise financeira, porque é que as pessoas comuns que não a causaram devem ser obrigadas a pagá-la e porque é que as pessoas lá mais em baixo devem suportar o fardo maior? Todo o programa de cortes viola o sentimento de justiça de muita gente.

Mas, e se tudo o que os políticos dizem for verdade, que «a economia britânica», o sistema capitalista cujo «sucesso» na Grã-Bretanha se tem baseado em centenas de anos de exploração e opressão de uma grande parte do mundo, se tudo isso já não pode funcionar sem severas medidas para milhões de britânicos comuns? Ao mesmo tempo, se houvesse mais pessoas a compreender que um tal sistema não tem de existir, será que a sua resistência não seria ainda mais forte?

Muita gente acredita que isto é apenas o começo. Um outro leitor do Independent comentou: «Isto é a fúria de uma nação que está a dizer ‘Basta!!’ e é absolutamente legal [...] e é melhor que eles comecem a prestar atenção antes que seja demasiado tarde. O tsunami social e político está a chegar!!»

Quer estas palavras mostrem vir a ser ou não uma profecia, um desejo ou algo intermédio, é provável que o descontentamento que tanta gente tem em relação à actual situação política e a fúria perante a crescente injustiça não só irá encorajar um número cada vez maior de pessoas a resistirem mas também a ponderarem e a debaterem a questão de se saber se as coisas realmente têm de ser assim ou não.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese