Líbia: O que o Ocidente quer
14 de Março de 2011. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Apesar da retórica deles sobre democracia, os EUA, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália e outras potências ocidentais não deram acolheram verdadeiramente bem a «primavera árabe» e isso tem uma razão de ser: a maior parte dos alvos da ira popular têm sido governantes e regimes que essas potências viam como estando ao serviço dos interesses delas, incluindo a Líbia.

Agora, os imperialistas ocidentais estão a proteger esses mesmos interesses em novas condições e, nalguns casos, como na Líbia, através de outros meios: não necessariamente tentando manter regimes que lhes foram úteis, mas sim tentando garantir que qualquer novo regime seja tão bom ou mesmo melhor para eles.

É errado reduzir uma análise dos objectivos deles ao facto de estarem pura e simplesmente à procura de mais riquezas petrolíferas, uma vez que há considerações estratégico-imperiais mais vastas. Mas é surpreendente que os dois países mais ansiosos por uma intervenção ocidental na guerra civil na Líbia, a França e a Grã-Bretanha, também tenham sido os mais ansiosos por restabelecerem relações com o regime de Khadafi e aqueles cujas companhias petrolíferas poderão vir a ser as maiores ganhadoras nesse país. Quanto aos seus interesses mais gerais, essas duas antigas grandes potências coloniais do Médio Oriente estão também a tentar recuperar alguma da sua antiga influência regional e algumas das prerrogativas que lhes foram usurpadas pelos EUA, ainda que ao mesmo tempo actuem mais ou menos em aliança com os Estados Unidos.

No mesmo palácio presidencial em que recebeu Muammar Khadafi numa das maiores visitas de estado dos últimos anos, o presidente francês Nicholas Sarkozy recebeu agora os enviados do Conselho Nacional de Transição [CNT], que alega falar em nome da oposição líbia em geral, Sarkozy anunciou que a França reconhecia o CNT como único representante legítimo do povo líbio.

Em termos diplomáticos, esse foi um acto extremamente invulgar dado que normalmente o reconhecimento diplomático é concedido a governos e não a movimentos, e o CNT não alega ser um governo. Além disso, a decisão da França de assumir para si própria a decisão de quem quer a governar a Líbia é o tipo de neocolonialismo quase indisfarçado que a levou a arriscar-se a «perder a Tunísia» (como temem alguns políticos franceses) tratando abertamente o agora defunto regime de Ben Ali como se fosse um funcionário local nomeado por Paris.

A pressa de Sarkozy em abraçar o CNT líbio – em grande parte liderado por homens que até há apenas algumas semanas atrás eram figuras chaves do regime de Khadafi – só teve igual nos seus pedidos de ataques aéreos para os colocar no poder tão depressa quanto possível.

O frenético posicionamento de Sarkoy foi em parte para consumo interno. A pressa em bombardear árabes no estrangeiro conjuga-se com os seus esforços domésticos para erguer uma frente anti-imigrantes (árabes). Mas algum do desespero parece vir de ver os EUA a ofuscarem ainda mais a influência francesa nas suas antigas esferas de influência no Médio Oriente e na África negra.

Embora não tenha ido integralmente até onde foi Sarkozy no pedido literal de deitar bombas na residência de Khadafi (Le Monde, 11 de Março de 2011), o primeiro-ministro britânico David Cameron foi indiscutivelmente o primeiro a pedir uma acção militar, sob a forma da imposição de «zonas de exclusão aérea». A Grã-Bretanha não foi menos apressada que a França. Foi o primeiro país a enviar soldados para a Líbia, um grupo de comandos SAS cuja missão, oficialmente rotulada de «diplomática», nunca foi explicada. Se eles estavam lá apenas para estabelecer contacto com o CNT, como foi alegado, podiam ter ido a Paris em vez de andarem furtivamente no deserto até algumas forças anti-Khadafi os terem prendido. Parece que o objectivo dos comandos era fazer um reconhecimento político e militar encoberto para ajudarem a planear as acções britânicas na Líbia oriental controlada pelos rebeldes.

«Líderes árabes a matarem o seu próprio povo» – quando o Ocidente deixa que isso aconteça e quando o não deixa

O tipo de regime que todos os governos ocidentais querem impor na Líbia está à vista nos regimes escolhidos para as visitas de emergência do Secretário norte-americano da Defesa Robert Gates, do ministro dos negócios estrangeiros da Grã-Bretanha William Hague e de outros altos responsáveis dos EUA e da Grã-Bretanha durante os últimos meses, e sobretudo durante as últimas semanas. Além do Egipto, estiveram três monarquias – Kuwait, Omã e Barém – e o Iémen, com cujos líderes o enviado real britânico Príncipe André recentemente se reuniu por três vezes.

Em Dezembro passado, a Secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton elogiou o governo do Barém pelo seu «compromisso [...] para com o caminho democrático». O que ela decidiu ignorar, aparte o facto de o país ser uma monarquia absoluta, é que a família real sunita nega à maioria da população xiita os direitos políticos, empregos e privilégios outorgados à minoria sunita. Inicialmente, o movimento de protesto que emergiu em Fevereiro deste ano limitou-se a apelar a uma monarquia constitucional, mas a reacção do Rei Hamad fez com que muitas pessoas, xiitas e sunitas, passassem a achar que ele tinha que sair. Os manifestantes montaram um acampamento na Praça da Pérola na capital, Manama. A 17 de Fevereiro, a polícia atacou, disparou sobre as tendas e matou sete pessoas, algumas das quais estavam a dormir. (Ver "A revolution paused" [«Uma revoluçao em pausa»], merip.org)

Isso não esmagou o movimento de oposição. A 13 de Março, quando os manifestantes tentaram bloquear o bairro financeiro da cidade, nas maiores manifestações até então, a polícia atacou novamente com gás lacrimogéneo, balas de borracha e bastões. Mas as multidões resistiram e retomaram a praça. Nesse mesmo dia, o norte-americano Gates veio para se reunir com a família real. No dia seguinte, uma coluna de 150 carros blindados e outros veículos que transportavam 1500 soldados da Arábia Saudita e outras monarquias de estados do Golfo entrou no Barém para apoiar a família real e impedir que a insurreição se expandisse. Embora Gates possa de facto ter pedido ao rei que fizesse algumas reformas para salvar o seu regime, como ele alega, é inconcebível que os EUA não tenham nada a ver com a acção saudita.

No Iémen, também a 13 de Março, as forças de segurança do Presidente Ali Abdullah Saleh atacaram os manifestantes acampados nos terrenos da Universidade de Sanaa que exigiam a demissão de Saleh. Atiradores furtivos da polícia posicionados nos telhados dispararam sobre a multidão, ao mesmo tempo que outros membros não fardados das forças de segurança atacavam os manifestantes com balas, bastões e gás lacrimogéneo e arruaceiros à paisana os atacavam com facas. Cerca de 1200 manifestantes ficaram feridos, 250 deles com gravidade, segundo relatos não confirmados da oposição, além dos sete mortos do dia anterior.

Porque é que é errado os manifestantes serem atacados e mortos na Praça Verde de Tripoli, na Líbia, mas não na Praça da Pérola no Barém ou na Praça Tahir de Sanaa, no Iémen? Onde é que estão os apelos a uma acção internacional para salvar vidas árabes?

A Quinta Frota da Marinha de EUA está estacionada no Barém. Como revelou um telegrama diplomático norte-americano divulgado pelo WikiLeaks, há comandos e aviões não tripulados norte-americanos a combater no Iémen em secreta conivência com o governo de Saleh.

Como pode qualquer dos governos ocidentais que apoiam e armam os regimes do Barém e do Iémen alegar estarem preocupados com os direitos e a segurança das pessoas na Líbia?

No que diz respeito ao uso de uma combinação de balas, subornos e religião para esmagar a revolta, ou um governo absoluto e hereditário, Khadafi não fica nada atrás da família real saudita. Esses governantes medievais e fundamentalistas podem vangloriar-se de serem ainda mais retrógrados que a República Islâmica do Irão, sobretudo no que diz respeito à situação das mulheres. Segundo o colunista do jornal Independent Robert Fisk, os EUA querem que os sauditas forneçam armas e outros apoios ao CNT líbio. Foi a liderança saudita da Liga Árabe que a levou a pedir uma zona de exclusão aérea. Os responsáveis norte-americanos acolheram essa decisão como sendo uma bênção árabe a tudo o que o Ocidente venha a fazer.

Mas a prova mais forte de que o que os EUA querem no Médio Oriente não é nenhuma forma de democracia mas sim o controlo por todos os meios necessários, é Israel.

Afinal de contas, os milhões de palestinianos não conseguem votar sobre se querem ou não que alguns sionistas expulsem a maior parte deles de Israel e que depois colonizem grande parte da Cisjordânia que supostamente lhes foi deixada.

Como podem os EUA, que consideram Israel o seu principal bastião no Médio Oriente e a Arábia Saudita um aliado essencial, que invadiram o Iraque com resultados tão desastrosos para o povo iraquiano e que aí continuam a manter tropas de ocupação para terem a palavra final sobre o que aí acontece, que apoiaram Mubarak até quase ao último minuto e que continuam a tentar manter o povo egípcio sob o controlo do exército de Mubarak (muito mais disposto a permitir alguma forma de eleições que levante o estado de emergência e dê plenos direitos políticos às pessoas), serem agora autorizados a alegarem que se preocupam com os direitos dos árabes e as vidas árabes na Líbia?

O Ocidente nunca deixou de intervir na Líbia

Os EUA têm intervindo na Líbia sob várias formas ao longo dos anos. Impuseram sanções económicas durante o período em que Khadafi era uma dor de cabeça para Washington e em que, em 1986, numa tentativa de assassinato, bombardearam uma das residências dele e mataram uma filha bebé.

Mesmo quando, desde então, alinhavam com a Grã-Bretanha no restabelecimento gradual de relações com Khadafi, os EUA também parece ter explorado outras opções. Em 2009, muito antes de Sarkozy se ter encontrado com ele, os EUA estavam a cortejar gente como o chefe do desenvolvimento económico do governo de Khadafi, Mahmoud Jabril, agora principal representante estrangeiro do CNT. Num telegrama diplomático secreto para Washington (revelado graças ao WikiLeaks), o embaixador norte-americano na Líbia descreveu Jabril como «um intelectual sério que ‘percebe’ a perspectiva dos EUA».

Ao contrário da Grã-Bretanha, França e Itália (que inicialmente se opuseram à mudança de um regime muito favorável aos seus interesses), os EUA têm poucos interesses económicos na Líbia. Consideram a Líbia não como um actual ou potencial bem estratégico, mas como uma distracção em relação ao seu trabalho de protecção e consolidação das suas próprias principais alavancas de poder na região.

Mais basicamente, como potência dominante do mundo (em aliança e em rivalidade com os outros imperialistas), os EUA têm interesses mais vastos e mais prolongados a considerar. Isto está relacionado com o facto de os EUA terem que vir a suportar o grosso do provável fardo de qualquer intervenção militar séria, mas esta não é a sua única consideração.

Ironicamente, embora os principais alvos das sublevações e revoltas populares no Médio Oriente tenham sido activos dos EUA e regimes favoráveis aos interesses dos EUA, os EUA têm tido algum êxito a fingirem que estão acima de tudo isto. Embora os EUA tivessem sido a principal força, na sua maior parte, por trás da construção e perpetuação da ordem política reaccionária da região, isso até agora não se tem reflectido o suficiente nas reivindicações desses movimentos, nem na consciência de muitos dos participantes. Isto tem sido particularmente o caso da Líbia, onde certamente não foram os EUA e outros imperialistas ocidentais a pôr o regime de Khadafi no poder e onde, pelo contrário, tiveram décadas de fricção com ele. (Esta é provavelmente uma das razões para os EUA terem exigido a renúncia dele muito mais cedo e muito mais vigorosamente que o fizeram a Mubarak).

Liderar uma intervenção militar contra Khadafi pode funcionar contra os interesses e a influência dos EUA. O regime dele não tem um apoio reduzido entre alguns sectores da pequena parte relativamente privilegiada da população do país. Uma intervenção ocidental num país colonizado durante décadas – um país onde um grande número de pessoas inicialmente recebeu bem as promessas de Khadafi de acabar com a humilhação nacional e onde o Ocidente mostrou o seu cinismo ao opor-se a Khadafi quando ele lhes causava problemas e depois aceitando-o quando ele se curvou aos interesses deles – poderia tornar consideravelmente melhores as condições políticas para Khadafi. E ainda mais se a intervenção for liderada pelo país que ainda ocupa o Iraque, que pode nunca deixar de apoiar Israel e que traçou uma linha vermelha quanto a qualquer ameaça ao domínio da família real Saudita.

Embora os principais líderes do CNT líbio tenham apelado a uma zona de exclusão aérea e a bombardeamentos aéreos, não ousaram pedir uma intervenção mais profunda. Outras vozes anti-Khadafi têm-se oposto fortemente a isso. Nas manifestações em Benghazi e noutras praças-fortes dos insurgentes, havia pessoas que levavam faixas gigantes escritas em inglês, e que por isso eram para o mundo ver, que diziam: «Não à intervenção estrangeira – Os líbios podem ser eles próprios a fazê-lo».

Embora fosse ridículo confundir Khadafi com os talibãs, uma das consequências involuntárias da ocupação do Afeganistão pelos EUA foi o ressuscitar da sorte política dos talibãs, que estava em queda, ao fazer com que muita gente passasse a acreditar que as suas únicas opções reais eram ou o apoio às tropas estrangeiras que humilham e matam o povo afegão ou o apoio aos talibãs e aos seus aliados que combatem os ocupantes.

Uma tal polarização na Líbia seria desastrosa para o movimento popular e iria irradiar efeitos políticos negativos em toda a região. Mas também seria muito mau para os EUA na Líbia e em geral.

Para que é que servem as zonas de exclusão aérea

Em primeiro lugar, uma zona exclusão aérea não seria implementada, em nenhum caso, sem derramamento de sangue nem sem extensas vítimas civis. Como salientou o Secretário norte-americano da Defesa William Gates, o estabelecimento de uma zona de exclusão começa com o bombardeamento dos aviões, aeroportos, centros de comando e controlo do outro lado e por aí adiante. A sua implementação requer a utilização de mísseis, bombas e outras armas altamente explosivas. As zonas de exclusão aérea impostas no Curdistão iraquiano no tempo de Saddam resultaram, entre 1998 e 2000, na morte de pelo menos 300 pessoas, 200 delas civis (Washington Post, 16 de Junho de 2001).

Em segundo lugar, pelo menos até agora, o regime de Khadafi não tem usado o seu poder aéreo para metralhar e bombardear civis de uma forma extensiva. Nem os aviões de guerra nem sequer os helicópteros foram decisivos na maioria das acções militares. O regime tem usado sobretudo tanques, artilharia, camiões e homens para ganhar as batalhas.

Se os EUA e outros imperialistas ocidentais quiserem derrubar um regime e instalar outro, provavelmente terão que enviar tropas terrestres. As zonas de exclusão aérea impostas pelos EUA na ex-Jugoslávia e no Iraque levaram a bombardeamentos aéreos nos dois países, os quais, por sua vez, basicamente prepararam o caminho para a entrada dos soldados.

É exactamente isso que os EUA querem evitar, bem como alguns dos aliados de Washington.

Porém, há limites inferiores nesta complexidade. Tal como para os EUA e seus parceiros de crime a seu última preocupação não é se um regime é eleito ou abertamente despótico mas sim se serve os interesses imperialistas deles, no que diz respeito à guerra o seu critério final não é se haverá civis e soldados mortos, mas sim se a guerra é necessária para atingirem os seus objectivos.

Qualquer pessoa que pense que os EUA podem entrar numa guerra sem massacrar pessoas deveria olhar para o Afeganistão, só para as últimas semanas: segundo responsáveis locais, os ataques aéreos da NATO mataram 74 civis na província de Kunar. Muitas crianças foram hospitalizadas com queimaduras graves. (O comandante-chefe norte-americano General David Patraeus alegou que os pais tinham mergulhado os filhos em água a ferver para «criarem vítimas de um incidente»). Um helicóptero norte-americano abriu fogo sobre dez crianças que andava à procura de lenha nessa mesma província e mataram nove delas. E uma patrulha da NATO disparou e matou em Kandahar um ancião primo do presidente afegão Hamid Karzai, aparentemente porque qualquer afegão que saia de casa à noite é suspeito.

Sempre que um invasor tenta impor a sua vontade a um povo, acaba por considerar esse povo no seu todo como potencial inimigo.

Os EUA já estacionaram ao largo da Líbia um grupo de ataque encabeçado por um porta-aviões (com tropas treinadas para desembarques, bem como aviões), um destroyer, dois navios de guerra equipados com mísseis e um submarino nuclear. Também têm bases aéreas na vizinha Itália, que já foram usadas para bombardear a Sérvia. Está a levar a cabo voos de vigilância com AWACS 24 horas por dia. Outros países estão a deslocar para aí as suas peças letais para garantirem que ficam com uma fatia do saque – o Canadá enviou imediatamente uma fragata.

Há certamente o perigo de que, para porem fim a uma instabilidade que se pode espalhar, para afirmarem o seu lugar de comando entre os exploradores do mundo e para mostrarem o seu poder e determinação na região, os EUA venham a soltar esse poder de fogo assassino. Mas, quer o façam quer não, os governantes dos EUA usarão certamente a sua melhor violência para satisfazerem os seus próprios interesses imperialistas e não os do povo líbio, e para negarem ao povo líbio o direito a decidir o futuro do seu país.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese