As boas notícias da Tunísia
17 de Janeiro de 2011. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Manifestação em Tunes a 14 de Janeiro de 2011 onde foram gritadas palavras de ordem contra o Presidente Ben Ali. (Foto: Christophe Ena/AP)

Num mundo penosamente em falta de boas notícias e num Médio Oriente que parecia estar a ficar cada vez mais negro, irrompeu um raio de luz na Tunísia.

Em vez de aceitarem continuar a ser esmagadas e passivas, as massas populares tomaram a iniciativa e derrubaram um odiado chefe de estado que há muito governava o país em benefício da França, de outras potências europeias e dos EUA, um homem que foi apoiado por todos eles até ao último minuto. Embora os acontecimentos da Tunísia não sejam como, por exemplo, os do Iraque e do Afeganistão, onde os EUA têm sofrido sérios revezes militares, trata-se de um movimento onde nenhum reaccionário tem a hegemonia, pelo menos até agora.

Isto é raro no mundo de hoje, onde demasiadas vezes os imperialistas e os reaccionários islâmicos monopolizam o palco político. Estes acontecimentos trouxeram esperança não só aos tunisinos mas também a milhões de outras pessoas fartas da insuportável situação que esmaga a região e o globo.

Por isso, os tunisinos enfrentam uma situação muito difícil à medida que aqueles que impõem esta ordem mundial e os seus actuais e possíveis futuros subalternos e aliados tunisinos manobram para voltar a pôr o génio – o povo – dentro da garrafa.

Em menos de um mês, os acontecimentos atingiram uma cadência tão vertiginosa que cada dia trazia novas e inesperadas situações. A rolha começou a saltar a 17 de Dezembro último na cidade de Sidi Bouzid. A polícia tinha confiscado a fruta e os legumes que Mohamed Bouazizi, um desempregado de 26 anos, estava a vender na rua. Quando os seus esforços para protestar através dos canais legais se revelaram infrutíferos, ele deitou fogo a si próprio frente ao edifício do governo local. As forças de segurança atacaram os estudantes locais que se manifestaram responsabilizando o regime pela morte do jovem.

Isto teve um profundo eco numa sociedade onde as escolas superiores têm vindo a produzir em massa um grande número de licenciados que raramente encontram emprego numa economia subordinada ao investimento estrangeiro, particularmente ao turismo e à produção com baixos salários de vestuário e calçado para exportação. Inicialmente, o movimento de protesto foi mais forte nas cidades mais desfavorecidas das regiões do centro e ocidente do país. Em finais de Dezembro, milhares de pessoas manifestaram-se na capital e noutras cidades do litoral em defesa do jovem de Sidi Bouzid. A reivindicação de empregos rapidamente se tornou num movimento pelo derrube do regime.

O movimento atraiu as classes educadas – uma greve de 95 por cento dos advogados do país e uma manifestação a 6 de Janeiro de centenas deles frente ao palácio do governo em Tunes deu-lhe ímpeto. Mas também envolveu grande parte da sociedade tunisina, incluindo várias classes, com pouca diferenciação política. Em Janeiro, sobretudo durante a segunda semana, os protestos tornaram-se mais antagónicos. Os manifestantes montaram barricadas e retaliaram contra as forças de segurança. Em Ettadhamen-Minihla, nos subúrbios operários de Tunes, as massas atacaram edifícios governamentais. Os seus gritos de «Não temos medo, não temos medo, só temos medo de deus» revelavam tanto uma nova disposição de ousadia e determinação como a persistência de ideias tradicionais. Pela primeira vez, o exército foi mobilizado em várias cidades. Durante os dias seguintes, muitas dezenas de pessoas foram mortas em confrontos com a polícia.

Os manifestantes enfrentam a polícia em Tunes, a 14 de Janeiro de 2011. (Foto: Christophe Ena/AP)

Depois de ter começado por menosprezar as multidões como «terroristas», o Presidente Zine el Abidine Ben Ali começou a tentar salvar o seu regime oferecendo-lhes concessões. Visitou o quarto de hospital onde agonizava o jovem que se tinha imolado. A 12 de Janeiro demitiu o Ministro do Interior, alegando que as ordens para disparar sobre as pessoas no funeral de Bouazizi e noutras manifestações tinham sido dadas nas suas costas. No dia seguinte, prometeu não se voltar a candidatar às eleições de 2014. Mas isso só tornou os protestos ainda mais desafiadores. A 14 de Janeiro, ele fugiu, aparentemente depois de o chefe do estado-maior do exército o ter aconselhado – ou ordenado – a ele se ir embora.

Como seu último acto, Ben Ali disse a um leal esbirro de longa data, o seu primeiro-ministro Mohammed Ghannouchi, para o substituir como chefe de estado. Isso não era aceitável para os manifestantes. Numa tentativa desesperada de revestir o novo governo com uma capa de estado de direito, os tribunais declararam que o presidente do parlamento Fouad Mebazaa, um esbirro de Ben Ali, deveria tornar-se o chefe de estado, ao abrigo da constituição que Ben Ali tinha criado. Mebazaa deu a volta e nomeou o ex-primeiro-ministro como novo primeiro-ministro.

Tal como as coisas estão agora, a situação é complexa. A polícia e a milícia armada que constituíam o gang pessoal de Ben Ali têm estado a usar as suas armas para beneficiarem do seu leal serviço através da pilhagem. As suas acções de retaguarda, entre as quais tiros furtivos sobre as multidões, têm tido um efeito político (talvez intencional). Isto tem feito crescer uma exigência popular de ordem – fazendo emergir comités de autoprotecção de bairro – e tem ajudado a dividir os que agora querem a estabilidade dos ainda insatisfeitos.

Os relatos indicam que Ben Ali recrutou os membros da milícia entre pequenos criminosos e os polícias são no mínimo arruaceiros extorsionários, para além do seu papel de principal força de imposição da repressão e tortura. O exército prendeu o ex-Ministro do Interior e o chefe de segurança de Ben Ali e acusou-os de fomentarem a violência para prolongarem a instabilidade política.

Ao mesmo tempo, o exército também está a tentar fazer com que o povo desista. Embora as forças armadas tenham sido afastadas das ruas durante um breve período pouco antes da abdicação e fuga de Ben Ali, supostamente porque não quiseram usar os seus tanques e blindados contra as multidões, elas regressaram em força. A 17 de Janeiro foi anunciado um «governo de unidade» em que as seis principais pastas pertenciam a membros experientes do partido do governo e três outras altas posições ministeriais foram atribuídas aos partidos da oposição legal do tempo de Ben Ali. Vários milhares de pessoas, entre as quais muitos membros dos sindicatos, juntaram-se frente ao Ministério do Interior para gritarem que o novo governo não satisfazia as aspirações do povo. Foram atacados com bastões, canhões de água, gás lacrimogéneo e tiros de aviso.

A tristeza das capitais ocidentais

Esta alegre explosão do povo tunisino trouxe tristeza e uma profunda preocupação aos governos ocidentais. Em nenhum outro local isso foi mais verdadeiro que em França, onde o Presidente Nicholas Sarkozy convocou uma reunião de emergência do seu gabinete para planear o que fazer após a queda de Ben Ali.

Como têm detalhado abundantemente o jornal Le Monde e outros órgãos de comunicação social, a França apoiou Ben Ali até ao último minuto. (Ver a página do Facebook intitulada «Ben Ali Wall of Shame» [«O Muro da Vergonha de Ben Ali»] – diz-se que mais de um terço dos 10 milhões de habitantes da Tunísia tem acesso ao Facebook e ao Twitter.) No início da sua presidência em 2008, Sarkozy distinguiu o tirano tunisino com uma super-delegação que incluiu a Sra. Sarkozy e sete ministros. O chefe do FMI Dominique Strauss-Kahn, que espera vir a ser o próximo candidato presidencial do Partido Socialista na oposição, visitou a Tunísia para publicitar a sua economia como «modelo para os países emergentes». Vários ministros do governo francês fizeram declarações de apoio a Ben Ali durante os últimos dias deste. No dia anterior à fuga de Ben Ali, a Ministra do Interior de Sarkozy, Michelle Alliot-Marie, ofereceu-se para enviar a polícia francesa para «partilhar as capacidades francesas» e treinar os seus congéneres tunisinos a enfrentarem «situações de segurança». Embora na sua declaração para consumo do público francês ela tenha acrescentado que a polícia devia preservar a ordem e respeitar os direitos democráticos, a versão oficial da sua declaração omitia esta segunda parte, provavelmente porque poderia incentivar os opositores a Ben Ali. Em Tunes, as pessoas comentaram que a última coisa de que precisavam para combaterem um «estado policial» era a polícia francesa.

Numa manifestação em Tunes a 8 de Janeiro, as pessoas exigem a libertação das pessoas presas em anteriores protestos. (Foto: Hassene Dridi/AP)

Quando o avião privado do presidente em fuga se aproximou de Paris, Sarkozy aparentemente deu ordens para que não fosse autorizado a aterrar. Aos familiares de Ben Ali que estavam à espera dele num hotel de luxo no parque de diversões da Euro Disney foi-lhes pedido que partissem. Por fim, foi a Arábia Saudita que deu abrigo a Ben Ali, provavelmente para grande alívio da França. Um líder da Frente Nacional fascista criticou duramente Sarkozy por ele estar a trair um grande amigo pessoal e um amigo da França.

Poderia dizer-se que o acordo básico que manteve Ben Ali no poder durante tanto tempo foi que a França o autorizava a ele e sobretudo à família da esposa dele que enriquecessem de uma forma obscena desde que ele executasse eficazmente o seu papel de gestor dos interesses da França na Tunísia – de uma forma não muito diferente de um banco ou qualquer outra grande empresa. Ao tentar proteger o agente da França, Sarkozy estava a continuar a política de todos os presidentes franceses antes dele, de direita e de esquerda.

As ligações da Tunísia à França não são só financeiras. De facto, outras potências europeias (e em especial a Itália) e os EUA também têm ganho com a escravização da Tunísia no mercado mundial e com a explosão económica durante o regime de Ben Ali. Mas também há ligações políticas e culturais que tornaram a Tunísia particularmente flexível a Paris e portanto importante para os esforços regionais e globais da França.

A França tornou a Tunísia num «protectorado» ao invadi-la em 1881, e controlou-a directamente até 1957. Mas, ao contrário por exemplo da Argélia, que os capitalistas franceses consideravam parte integrante do seu país e que por isso teve que conquistar a sua independência através de uma longa e árdua guerra, a Tunísia ficou independente sem uma luta violenta (o que também teve algo a ver com a guerra que nessa altura decorria na muito maior Argélia), e passou rápida e facilmente para o modo neocolonial. O seu primeiro presidente, Habid Bourguiba, também foi um «amigo íntimo da França» desde a independência até 1987, quando o velho senil foi derrubado pelo seu chefe de segurança, o chefe militar Ben Ali.

Os EUA não viam Ben Ali como o seu homem da mesma forma que a França o via, mas Washington não ficava muito atrás no seu apoio. Os «Tunileaks» (os telegramas da embaixada norte-americana em Tunes para o Departamento de Estado dos EUA divulgados pela WikiLeaks) são muito reveladores quanto a este aspecto. Um relatório do embaixador norte-americano disperso numa série de telegramas detalha o grau quase surrealista com que a família de Ben Ali usava o seu poder para acumular riquezas pessoais, de tal forma que «50 por cento da elite económica» é constituída por membros da família dele e sobretudo da família da esposa dele. Isto era visto como tornando o regime mais frágil do que seria se tivesse uma classe dominante com uma base mais alargada. Contudo, as principais reclamações do embaixador centram-se em torno do facto de Ben Ali não apoiar iniciativas norte-americanas que poderiam atenuar as ligações do país à França, sobretudo nos campos educativo e cultural.

Os telegramas salientam que, embora a Tunísia seja pequena e sem muita influência regional, é particularmente útil aos EUA em termos das suas ligações informais a Israel e da sua recusa a apoiar os palestinianos, mesmo nas formas puramente retóricas e hipócritas tão prezadas por alguns outros regimes árabes. O embaixador também exprimia a sua apreciação pelas roupagens ocidentalizadas do regime (como a sua adopção de lei francesa da família, que incluiu a proibição da poligamia) e pelo seu aparente sucesso no estrangulamento do fundamentalismo islâmico. Por estes motivos, ao mesmo tempo que continuava a exprimir preocupação com o que é visto como fraquezas auto-infligidas do regime, um telegrama mais recente aconselhava o Departamento de Estado dos EUA a «ignorar as críticas públicas» e a manter os esforços para fortalecer a influência norte-americana no país no contexto de um apoio a Ben Ali.

Mas a Secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton teve a mesma boa sorte ao pronunciar um discurso em que apelou à reforma dos governos árabes no dia anterior à queda de Ben Ali, e o Presidente Barack Obama foi o primeiro chefe de estado a saudar os desenvolvimentos. Sob o disfarce de «promover a democracia» os EUA irão provavelmente tentar reforçar a sua influência na Tunísia e no mundo árabe no decurso da actual turbulência política.

Jovens tunisinos enfrentam as forças de segurança
em Regueb a 9 de Janeiro de 2011.
(Foto: Abu Omar/AP)

Apesar disto, a turbulência no Médio Oriente é algo contra o que a França, os EUA e todas as grandes potências estão unidas. A Tunísia não tem o mesmo valor estratégico para os EUA que outros «amigos» como o Egipto, a Argélia e a Jordânia, como o salientam os telegramas diplomáticos, mas o que aí irrompeu coloca em perigo regimes que são cruciais para a manutenção do controlo regional norte-americano. Não é por acaso que o foco do discurso de Clinton foi a necessidade de fortalecer os regimes árabes na mão dos EUA de forma a isolarem a República Islâmica do Irão.

Os sinais de luz e os perigos da actual situação

A melhor coisa sobre os acontecimentos na Tunísia foi que, por uma vez, o próprio povo avançou e tornou-se na força motriz na base dos acontecimentos. Como salientou um comentador reaccionário de Washington, mesmo que os interesses norte-americanos e ocidentais não estejam em si mesmo necessariamente ameaçados pela queda de Ben Ali, esses interesses poderiam ser postos em perigo pelo facto de ele ter sido derrubado por uma insurreição popular e não ter sido deixado sair em paz numa transição suave do tipo que caracterizou o fim dos regimes fascistas do Chile de Pinochet e da Espanha de Franco (Anne Applebaum, Washington Post, 17 de Janeiro de 2011).

Muitos comentadores têm dito que a ausência de um forte movimento islâmico é uma razão para o Ocidente não estar mais preocupado com o que aí está a acontecer e não tentar intervir mais directamente. Na realidade, até agora não tem havido muitas oportunidades ou meios para o Ocidente o fazer. Mas também é verdade que é muito positivo que esta insurreição tenha sido capaz, pelo menos até agora, de se afastar da mortal dinâmica que tem mantido as condições de luta noutros países limitada à capitulação aberta ao imperialismo perante um movimento fundamentalista islâmico reaccionário que não rompe verdadeiramente com o sistema imperialista, mesmo quando abala a ordem imperialista.

Os comentadores têm comparado os acontecimentos na Tunísia à queda do Xá do Irão em 1979. Aí, o processo revolucionário teve a vantagem de um muito maior período de agitação e luta política antes de ter sido aniquilado pela instauração da odiada República Islâmica de hoje. Quando os EUA e a Grã-Bretanha já não conseguiam manter o Xá no poder, decidiram que um regime islâmico no Irão seria preferível a alternativas incertas e talvez revolucionárias, embora mais tarde provavelmente tenham lamentado isso. No caso da Tunísia, não é impossível que os EUA tenham retirado essas lições e decidido puxar a corda a Ben Ali antes de a situação se tornar ainda mais ingovernável.

Examinando explicitamente a situação tunisina do ponto de vista da defesa dos interesses norte-americanos, o académico Steven A. Cook escreveu no sítio internet do Conselho Norte-Americano para as Relações Externas: «Saber se os líderes militares [tunisinos] são democratas ou não, não é a questão central; em vez disso, a sua preocupação parece ser que o despudor, a corrupção e as práticas de um dos piores estados policiais do Médio Oriente acabaram por ser uma ameaça à coesão e à estabilidade social». Cook ignora deliberadamente o facto de regimes da região dependentes dos EUA como o Egipto matarem e torturarem muitos mais gente que a Tunísia. Provavelmente ele queria dizer que Ben Ali governava um dos estados da região mais capazes de mostrar a sua capacidade de abafar quase completamente a oposição durante 27 anos – até há um mês atrás, quando essas «práticas» deixaram de resultar. Mas a sua caracterização do papel do exército tunisino é tanto precisa como exprime o ponto de vista do imperialismo norte-americano.

Embora vários clãs estejam a disputar o espólio, o exército tunisino sempre foi e ainda é a espinha dorsal de um estado comprador [dependente do imperialismo] e o último garante de toda uma ordem económica, social e ideológica dominada pelo imperialismo. De facto, dada a situação geopolítica do país, tem poucas outras razões para existir. Se o exército abandonou Ben Ali e se tem tentado distanciar dos seus torturadores e carcereiros, é porque isso é melhor para desempenhar esse papel. E é por isso que um dos telegramas divulgados pelo WikiLeaks salienta a importância do apoio norte-americano à «neutralidade» do exército tunisino perante as disputas entre a «elite económica».

Protestos numa rua de Regueb a 9 de Janeiro. (Foto: Abu Omar/AP)

É impossível prever que concessões às reivindicações populares se pode sentir forçado a conceder o exército por trás dos governos da Tunísia e até que ponto essas concessões podem ter êxito – ou não – a acalmar a ira popular. É muito possível que eles tenham que vir a permitir um maior espaço de debate político e que a vontade popular se venha a exprimir mais que o habitual. Mas é absolutamente certo que as forças armadas tunisinas e os imperialistas se concentrarão em preservar o actual poder de estado.

A comunicação social está agora a alegar que esta é a primeira revolução árabe. Uma razão por que isso é falso é que, até agora, isto não foi uma revolução, no sentido exacto, no sentido de provocar uma alteração fundamental das relações sociais, políticas e económicas, ou mesmo de uma completa mudança de regime. Mas devem ser retiradas lições de insurreições anteriores que derrubaram monarquias feudais (Egipto e Sudão, Iraque) e repúblicas neocoloniais (Síria). Por exemplo, embora em certos momentos os EUA tenham sido algo favoráveis ao nacionalismo de Gamal Nasser no Egipto, na medida em que desafiava o domínio britânico e francês no Médio Oriente, o objectivo dos EUA era tornarem o Egipto numa neocolónia norte-americana. Da mesma forma, embora os golpes de estado militares na Síria e no Iraque, com as suas roupagens nacionalistas, tenham criado problemas a algumas potências ocidentais, nenhum destes países viveu uma libertação.

Também há o exemplo da vizinha Argélia nos anos 80, onde inicialmente os EUA e o Ocidente apoiaram as reformas políticas para a criação de um regime comprador com uma base mais alargada e estável, e depois deixaram-no cair quando se tornou claro que elementos islâmicos iam ganhar as eleições. Isto ajudou a criar dez anos de conflitos sangrentos e inteiramente reaccionários em que tanto o regime como os fundamentalistas massacraram muitos milhares de pessoas e em que ambos os lados visaram especificamente os intelectuais. O facto de muitos argelinos se terem sentido encurralados e mortalmente ameaçados pelo regime comprador e pelos seus fanáticos opositores religiosos representou um importante papel no abafar das lutas populares que agitaram a Argélia nos anos 80. De facto, essa experiência teve uma grande influência na criação de um estado de depressão política no mundo árabe.

A comunicação social também se tem deleitado a disseminar a expressão «Revolução de Jasmim», na esperança de que a agitação tunisina siga o caminho das «revoluções coloridas», não violentas (da parte do povo) e totalmente não revolucionárias nos países do ex-bloco soviético, a mais recente das quais na Ucrânia, que nada trouxeram a não ser decepção, desilusão e um novo mergulho na passividade das pessoas. Isso é uma possibilidade, e aquela pela qual aqueles que impõem a ordem mundial farão o seu melhor para que vença, mas que neste momento não é a única.

O povo tunisino tem todas as razões para estar feliz e orgulhoso, mas não serve de nada fingir que não enfrenta gigantescos obstáculos. Os imperialistas e as várias variantes de reaccionários menores vão interagir com o movimento popular de formas complexas e talvez imprevisíveis, tentando fechar a porta que o povo abriu com a sua luta e sacrifício.

É longe de ser certo, mas há razões objectivas para esperar que os inimigos do povo tunisino não irão conseguir consolidar o seu controlo durante algum tempo, e que esta situação continuará a inspirar e incitar outras pessoas e a constranger os esforços regionais dos reaccionários, sobretudo se o movimento que derrubou Ben Ali se desenvolver de uma forma que dê expressão aos interesses independentes e revolucionários do povo em oposição aos dos imperialistas e do seu sistema. O mundo precisa de mais portas abertas como a que o povo tunisino nos deu, e precisa de passos em frente para o outro lado.

(Incitamos os leitores a traduzirem e fazerem circular este artigo na internet. Esperamos que os nossos leitores na Tunísia e outros lugares nos enviem as suas opiniões e nos ajudem a mantermo-nos informados e habilitados a comentar. news@aworldtowin.org)

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese