11 de Fevereiro: 31 anos após a queda do Xá do Irão

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 8 de Fevereiro de 2010, aworldtowinns.co.uk

O 11 de Fevereiro marcou o 31º aniversário de uma revolução abortada – uma revolução iniciada para pôr fim politicamente a uma monarquia reaccionária, despótica e economicamente dependente do imperialismo ocidental, e em particular dos imperialistas norte-americanos. O povo ergueu-se na esperança de obter a liberdade e a independência. Mas os fundamentalistas islâmicos apoderaram-se da liderança dessa grande luta e contaminaram o movimento popular com ideias islâmicas.

Durante os 37 anos de domínio do Xá e sobretudo após o golpe de estado de 1953 apoiado pela CIA que o levou de volta ao poder, os comunistas e outras forças revolucionárias estiveram sob severa pressão da Savak, os serviços secretos do Xá. As organizações comunistas eram ilegais e a Savak visava para tortura e execução qualquer pessoa com a mais leve inclinação comunista. Ao mesmo tempo, os fundamentalistas islâmicos eram livres de propagar as suas ideias usando a religião dominante do país e mesmo de se organizarem nas dezenas de milhares de mesquitas de todo o país.

O clero teve tradicionalmente boas relações com o monarca reinante porque os clérigos globalmente têm tradicionalmente feito parte da classe dominante.

A princípio, o Aiatola Rouhollah Khomeini preocupou-se com o perigo de os clérigos ficarem isolados do palácio e dos seus cortesãos. Ele emitiu constantes avisos contra aqueles a quem ele acusava de conspirarem para separarem os cortesãos dos clérigos. Mas, no início dos anos 60, voltou-se contra o Xá, embora não contra a instituição da monarquia, por causa da chamada “Revolução Branca” do Xá. Não porque ela era uma falsa revolução nem porque fazia parte dos planos imperialistas de uma maior integração do país na economia ocidental dominante e na órbita política ocidental, mas sim porque Khomeini temia que as mulheres pudessem conquistar o direito de votarem e serem eleitas e que elas pudessem (apenas potencialmente) obter alguns direitos contrários às retrogradas ideias feudais e islâmicas. Foi isto que desencadeou a sua inimizade com o Xá.

Quando Khomeini se tornou no líder dessa revolução, as verdadeiras reivindicações do povo, que tinham tornado possível essa revolução, passaram a ser irrelevantes. O passado e os verdadeiros objectivos de Khomeini não eram conhecidos da maioria das pessoas. Muitos dos que os conheciam não se preocuparam; tudo aquilo com que estavam preocupados era o derrube do Xá. Muitas pessoas acreditavam que só podiam avançar “passo a passo” e que a unidade incondicional contra o Xá era o primeiro passo. Muitas outras pessoas não quiseram dividir uma coisa que viam como sendo as fileiras unidas do povo. Acreditavam que toda a gente se devia unir sob a liderança de Khomeini e do clero, caso contrário isso causaria danos ao movimento popular. Durante os meses e semanas antes da revolução, Khomeini e outros dirigentes islâmicos não vacilaram em prometer liberdade para todos e uma vida melhor para os pobres, para enganarem o povo.

As potências imperialistas ocidentais, que estavam preocupadas com os seus interesses no Irão e na região, reuniram-se na conferência de Guadalupe. Decidiram chegar rapidamente a acordo com os representantes dos dirigentes islâmicos e com o Aiatola Khomeini. Afastaram o Xá e aprovaram o poder dos islamitas.

Khomeini subiu ao poder, a revolução foi traída e as promessas foram rapidamente rasgadas, mas isso foi apenas o começo. Não só a liberdade e a independência se revelaram ter sido falsas promessas, como mesmo os direitos então existentes das pessoas começaram a ser suprimidos.

As mulheres foram o primeiro alvo. Os ataques aos direitos das mulheres começaram menos de um mês após Khomeini ter chegado ao poder. A 8 de Março de 1979, as mulheres levaram a cabo protestos históricos contra a ofensiva reaccionária. Khomeini recuou, mas apenas temporariamente. Os ataques aos direitos das mulheres continuaram até o hijab (véu) se ter tornado obrigatório, primeiro nos locais de trabalho e depois em público. Essa tendência continuou até à aprovação de leis que permitem que as mulheres sejam apedrejadas até à morte e muitas outras práticas contra as mulheres. As minorias nacionais oprimidas como os curdos, os turquemenos, os árabes e os baluchis, que durante anos tinham lutado contra o Xá, foram brutalmente reprimidas pelos “pasdaran” (“Guardas Revolucionários”) e pelas forças armadas do regime islâmico. Os estudantes, que tinham levado a cabo uma gloriosa luta contra o Xá, foram o alvo seguinte do novo regime islâmico. O regime fechou todas as universidades durante quase dois anos, em nome de uma “revolução cultural” para purgar todas as universidades dos comunistas e de outras ideias não-islamitas.

Ao mesmo tempo, na pirâmide do poder, surgiram algumas lutas no seu topo. Khomeini e o clero já tinham começado a purgar as suas fileiras de elementos e tendências que pudessem não estar inteiramente de acordo com as ideias fundamentalistas de Khomeini. Abul-Hassan Bani Sadr, o primeiro presidente do Irão durante o regime islâmico, foi demitido e todos os seus apoiantes foram afastados do governo e do exército. Ele teve que fugir do país. Algumas pessoas como Mehdi Bazargan, o primeiro chefe de governo após a revolução, foram completamente afastadas dos círculos do poder.

Embora os comunistas e outras forças revolucionárias tenham sido sempre perseguidos, depois de 20 de Junho de 1981 tornaram-se no alvo de um ataque sistemático dos recém-formados serviços secretos. Não demorou muito até dezenas de milhares de dirigentes, quadros, membros e apoiantes das organizações comunistas e revolucionárias serem presos. Foram torturados de uma forma horrível e executados. Isto continuou ao longo dos anos 80. No Verão de 1988, milhares de presos políticos, a maioria dos quais estava a cumprir penas de prisão, foram executados após julgamentos que duraram apenas alguns minutos perante juízes assassinos.

A partir de Julho de 1981, a União de Comunistas Iranianos, precursora do actual Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista), começou a transferir uma parte importante das suas forças para as florestas da província de Mazendaran, no norte do país. Formaram uma organização militar chamada Sarbedaran, que quer dizer “os que estão dispostos a dar as suas vidas pela sua causa”, organizaram uma insurreição armada para resistir e combater esse brutal ataque aos direitos do povo. Finalmente, a 25 de Janeiro de 1982, após algumas acções militares vitoriosas, a Sarbedaran entrou na cidade de Amol, tomando de surpresa as forças reaccionárias. Numa luta heróica durante à qual se juntaram muitos elementos das massas, a Sarbedaran infligiu pesados golpes às forças do regime. Então, o regime mobilizou reforços de Teerão e de outras províncias. A Sarbedaran, que tinha perdido o seu principal comandante militar, teve que se retirar de Amol a 27 de Janeiro.

A insurreição de Amol foi derrotada militarmente e o reinado de terror contra os revolucionários continuou. Mas o seu impacto político foi enorme e deixou uma memória amarga nas mentes dos governantes islamitas que nunca se esqueceram dela. No aniversário deste ano, o Aiatola Khamenei falou perante um grupo de 4000 apoiantes do regime na província de Mazendaran (onde se situa Amol). O Aiatola Ahmad Jannati, chefe do Conselho de Guardiães, foi a Amol falar e ameaçar as pessoas. A insurreição de Amol também foi um dos tópicos dos sermões das orações de sexta-feira na maioria das cidades, entre as quais Sanadaj (no Curdistão), Babol (Mazendaran) e outras.

Vale a pena mencionar que, de 31 de Outubro de 1981 a 3 de Agosto de 1989, Mir Hussein Mousavi foi o primeiro-ministro do regime. Agora que uma vez mais o movimento popular está em ascensão, devido aos conflitos internos dentro do regime Mousavi apareceu como líder da oposição. Embora haja enormes diferenças entre o que o povo quer e o que Mousavi e os seus parceiros querem, ainda há quem diga que o principal é afastar primeiro Ahmadinejad e Khamenei. Há quem acredite que possamos afastar primeiro Khamenei apoiando-nos em Mousavi e depois outros como Mousavi, e algumas pessoas acreditam que se deve ter uma abordagem passo a passo, e que o primeiro passo é afastar Khamenei ou, segundo outros, Ahmadinejad.

Mas a experiência da revolução iraniana mostra que essas estratégias não irão resultar no tipo de mudança de que as pessoas precisam.

Agora, neste 11 de Fevereiro, no aniversário da insurreição popular de 1979, o povo iraniano está uma vez mais a planear protestar nas ruas de Teerão e de outras cidades do país. Querem trazer de volta a revolução que esses ladrões lhes roubaram.