Sri Lanka: Lições da derrota dos Tigres Tâmiles
15 de Novembro de 2010. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

O seguinte artigo, originalmente intitulado «A Liquidação dos Tigres de Libertação do Tamil Eelam (LTTE): Lições Pagas Em Sangue», foi escrito pelo Camarada Surendra, do Partido Comunista do Ceilão – Maoista. Foi ligeiramente editado para publicação.

O assassinato do líder dos Tigres de Libertação do Tamil Eelam (LTTE), Velupillai Pirapaharan, trouxe o fim a uma fase do desenvolvimento da luta de libertação nacional tâmil. Há muitas lições cruciais a aprender com esta experiência, lições pagas em sangue. É imperativo que aprendamos com elas com uma profunda perspectiva científica, se quisermos prosseguir na via da libertação do povo do Lanka.

As origens da reivindicação de um estado tâmil separado

A reivindicação a um estado separado do Tamil Eelam surgiu como resposta à Constituição de Soulbury, escrita pelos britânicos antes da independência em 1948 como base para transferirem o poder de estado para a classe dominante capitalista compradora sua lacaia local. Essa constituição foi estabelecida com base no sistema Westminster de governo parlamentar, experimentado e testado durante séculos na Grã-Bretanha como a forma mais efectiva de enganar, dividir e dominar os trabalhadores e as massas e nacionalidades oprimidas, fortalecendo ao mesmo tempo o poder de estado da classe dominante capitalista. A democracia parlamentar funciona como forma de levar as pessoas a acreditarem que são soberanas ao decidirem os seus verdadeiros representantes políticos, e portando a sua vida e o seu futuro.

A verdade é que este sistema os priva do poder político de decidirem a sua vida e o seu futuro. Com efeito, em todo o mundo, este sistema de governo foi delineado para esconder a ditadura das classes dominantes capitalistas. Neste sistema, as massas exploradas e oprimidas são obrigadas a escolher entre partidos capitalistas que se revezam a exercer o poder de estado de forma a perpetuarem o sistema capitalista e a exploração e opressão em que ele se baseia.

Com esse objectivo, os britânicos introduziram o sistema de representação parlamentar baseado no sufrágio universal dos adultos e no princípio de «um homem, um voto». Este princípio assegurou à maioria cingalesa da população (74 por cento) e à nação cingalesa budista (64 por cento) o exercício da hegemonia maioritária sobre todas as outras nações, nacionalidades e comunidades étnico-religiosas, ao mesmo tempo que fortalecia a ditadura da sua lacaia classe dominante capitalista compradora predominantemente cingalesa. Na constituição foi incluído o artigo 29 para garantir os direitos dos tâmiles e outras «minorias». Porém, esse artigo não tinha nenhum poder jurídico. A jurisdição desse artigo foi negada pelo próprio Conselho Privado [da Rainha] da potência colonial britânica, quando este foi chamado a decidir sobre a Lei da Cidadania Indiana e Paquistanesa, que tinha sido aprovada em 1948 por uma maioria cingalesa de dois terços do parlamento burguês. Esta lei aboliu os direitos de voto da nacionalidade tâmil de Hill Country – descendentes dos trabalhadores agrícolas que tinham sido recrutados pelo Raj britânico da Índia e levados para o Ceilão para servirem como trabalhadores contratados nas plantações de chá –, negou-lhes a cidadania e declarou-os «apátridas».

Os tâmiles tinham feito contribuições muito significativas para a luta pela independência. O Congresso da Juventude (Tâmil) de Jaffna, liderado por pessoas proeminentes como Handy Perimpanayagam, foi o primeiro a emitir um apelo à unidade nacional com base no slogan de SWARAJ – ou seja, a independência total do Ceilão em relação aos britânicos. O Congresso liderou o primeiro boicote às eleições gerais realizadas ao abrigo da nova Constituição. Isto aconteceu numa altura em que D. S. Senanayake e os seus parceiros compradores rastejavam por uma autonomia limitada com a continuação do controlo colonial britânico. Porém, a classe dominante compradora conseguiu marginalizar essa genuína luta anti-imperialista. Devemos recordar que Arunachalam Ponnambalam, Presidente fundador do Congresso Nacional do Ceilão, fez campanha pelos direitos da nacionalidade tâmil de Hill Country Malayaga. É patentemente claro que essa geração da liderança tâmil esteve na vanguarda da tentativa de construção de um estado-nação democrático.

Foi em resposta à traição nacional e à discriminação que equivalia a subjugação que o Partido Federal avançou com a reivindicação de um estado separado do Tamil Eelam, com uma forma federal de governo, sob a liderança de S. J. V. Chelvanayagam. Essa reivindicação surgiu em nome dos «tâmiles do Ceilão» que coabitam o nordeste do país e foi efectivamente sabotada de dentro pela burguesia compradora tâmil liderada pelo Congresso Tâmil de Todo o Ceilão que preferiu partilhar o poder de estado com a classe dominante compradora de predominância cingalesa.

A política da burguesia compradora cingalesa

A classe dominante compradora cingalesa, que ficou representada pelo Partido Nacional Unificado (UNP) e pelo Mahajana Eksath Peramune, mais tarde transformados no Partido da Liberdade do Sri Lanka (SLFP), alternaram em entusiasticamente levarem a cabo a tarefa de erguer um estado capitalista comprador-burocrata de hegemonia cingalesa budista. Essa classe dominante introduziu uma política abertamente chauvinista cingalesa de discriminação e subjugação de todas as outras nacionalidades e comunidades. Em 1956, foi introduzida uma política «Só para Cingaleses» que enraizou o idioma cingalês como única língua oficial. Dezenas de milhares de tâmiles perderam os seus empregos no sector público devido a essa política da língua.

Finalmente, em 1972, num governo de coligação com o trotskista Partido Lanka Sama-Samaja (LSSP) e o revisionista Partido Comunista do Sri Lanka, o SLFP aprovou a «Constituição Republicana» que introduziu o budismo como religião dominante e o cingalês ainda mais como único idioma oficial. Como parte dessa «cingalização», o Ceilão foi rebaptizado de Sri Lanka.

Esse governo também introduziu uma política de «padronização» que limitou na prática o acesso dos tâmiles ao ensino superior. A liderança burguesa tâmil, que se tinha envolvido em alianças eleitorais com o UNP ou o SLFP com base em promessas de atenção às reivindicações tâmiles, foi traída por todos os governos sucessivos. O Congresso Literário Tâmil Internacional foi atacado, morrendo doze participantes. Estes acontecimentos acumulados fizeram crescer a militância da juventude tâmil. O falecido líder dos LTTE, Velupillai Pirapaharan, subiu ao palco da história ao assassinar o Presidente da Câmara de Jaffna por este ter tentado encobrir esse crime. O ano de 1976 foi um momento decisivo. Todos os partidos políticos e organizações militantes tâmiles aprovaram a Resolução de Vaddukodai que declarava uma luta comum por um estado separado do Tamil Eelam. A Frente Única de Libertação Tâmil (TULF) foi formada para implementar constitucionalmente esse mandato.

Todos os esforços dos governos no poder para atenderem, mesmo cosmeticamente, as queixas tâmiles foram repetidamente sabotados pela oposição parlamentar burguesa que incentivou o chauvinismo cingalês, do qual resultaram as formas mais selváticas de violência comunal anti-tâmil patrocinada pelo estado em todo o país. Nas eleições gerais de 1997, a Frente Única de Libertação Tâmil voltou a ser o principal partido de oposição, com um mandato para lutar constitucionalmente por um estado separado. A TULF burguesa aceitou escassas reformas sob a forma de Conselhos de Desenvolvimento Distrital (DDC), em substituição de um estado separado. As eleições para os DDC, realizadas em 1981, foram abertamente manipuladas e Jaffna, a capital do norte, foi incendiada por vândalos cingaleses e pelas forças armadas mobilizadas pelo estado. A biblioteca de Jaffna ardeu, destruindo cerca de 95 mil livros e documentos de valor insubstituível, dado que era o repositório da herança intelectual e cultural tâmil. Isso foi uma forma de genocídio cultural cometida contra a nação tâmil.

A 6ª Emenda da Constituição foi aprovada por uma maioria de 5/6 do parlamento. Essa emenda baniu pura e simplesmente a reivindicação a um estado separado, com uma possível punição de até 20 anos de prisão e confiscação de todos os bens móveis por qualquer actividade ligada a essa reivindicação. A TULF perdeu a sua posição de principal oposição parlamentar. Todos os meios constitucionais de prosseguir a luta pela autodeterminação nacional ficaram bloqueados. Face a esses ataques conjugados à nação tâmil, vários grupos militantes desencadearam a luta armada pela autodeterminação nacional. O estado deu às forças armadas seis meses para eliminar esse problema e elas empenharam-se numa violenta ofensiva contra a juventude tâmil.

O Julho Negro de 1983 testemunhou uma forma ainda mais horrenda de terrorismo patrocinado pelo estado contra o povo tâmil. Como vingança pela morte de 13 soldados pelos LTTE, 53 presos políticos tâmiles que estavam detidos em segurança máxima foram brutalmente massacrados por presos cingaleses inflamados pelo álcool e armados com facas e espadas fornecidas por sacerdotes do estado. Isto foi acompanhado de uma bestial ofensiva comunal em que os tâmiles foram publicamente violados, queimados, retalhados e pilhados, enquanto as forças de segurança do estado ficavam de guarda. O Presidente Executivo da República declarou que essa vingança por parte dos cingaleses era justificada.

Emerge uma nova geração tâmil

Essa forma de repressão e subjugação nacional do estado resultou no nascimento de uma nova geração de militantes tâmiles, trazendo diversas perspectivas e ideologias políticas e agendas – e mercadores e apoiantes. A Ala de Investigação e Análise (RAW) dos serviços indianos de informações penetrou algumas das principais forças militantes pequeno-burguesas tâmiles, incluindo os LTTE. De Indira Gandhi, então Presidente da Índia, aos governantes políticos do estado indiano do Tamil Nadu, traficantes de droga e negociantes de armas, todos eles competiram por influenciar os principais grupos militantes. As facções governantes indianas deram refúgio e treino militar e financiaram cada um dos seus favoritos. Esses grupos, em troca, disputavam a influência de todo o tipo de agentes do imperialismo mundial e do hegemonismo indiano.

Desde o início que o novo movimento nacional tâmil emergente foi dominado por forças de classe burguesas e pequeno-burguesas. A disputa e a rivalidade pela supremacia foram promovidas pelas várias potências e agentes que disputavam a influência sobre o movimento nacional tâmil e sobre a política do país.

Nessa mortífera disputa, os LTTE emergiram como a força mais implacável, eliminando e subjugando todas as outras organizações. A maioria das outras organizações militantes tâmiles transformou-se em agentes paramilitares e cúmplices do estado, na guerra pela eliminação dos LTTE. Os LTTE mantiveram-se como única força que decidiu levar a cabo o mandato da nação tâmil para obter o direito à autodeterminação nacional sob a forma de um estado separado, através de uma luta armada contra o estado.

Durante os 25 anos da luta armada, os LTTE obtiveram algumas vitórias militares espectaculares e conquistaram terreno politico. Na guerra de guerrilhas, na guerra de posições e na guerra convencional, os LTTE resistiram ao poderio combinado do exército da Índia e das forças armadas do Sri Lanka, quando a Índia mobilizou o seu exército para ajudar a resolver a questão. As chamadas Forças Indianas de Manutenção da Paz (FIMP) tornaram-se nas Forças Indianas para Matar o Povo. Os LTTE ganharam o respeito do mundo devido à sua ousada vontade política e à sua inflexível capacidade militar para enfrentarem o estado indiano e o quarto maior exército do mundo.

Estabeleceram um estado de facto no nordeste do país, operando os seus próprios ministérios, bancos, polícia, tribunais, colecta de impostos, etc. Os LTTE dispunham mesmo da sua própria frota naval. Embora banidos em países importantes como os EUA, Grã-Bretanha, França, Canadá, Austrália, Índia e Sri Lanka como «implacável organização terrorista», no que diz respeito a negociações, as potências mundiais e o estado do Sri Lanka eram forçados a dar aos LTTE um reconhecimento de facto como principal força representativa da causa tâmil. Tinham o apoio de literalmente milhões de tâmiles que viviam no estrangeiro – tanto tâmiles do Sri Lanka, muitos dos quais tinham tido que fugir e procurar refúgio noutros países e que tinham sofrido perdas irreparáveis dos seus entes queridos e dos seus bens, como de tâmiles e outras pessoas de outros países. Construíram mesmo uma força aérea rudimentar própria, com a qual desafiaram os céus e assestaram alguns golpes fatais ao estado.

A liquidação dos LTTE

Agora, os LTTE estão militarmente liquidados e a sua liderança dizimada pelo estado. Os esforços para fazer renascer a organização a partir de diferentes centros da diáspora não parecem ter nenhuma profundidade crítica e científica na sua análise das razões para esta derrota militar decisiva. De uma forma ainda mais grave, parecem estar a apelar à própria comunidade internacional das potências imperialistas-reaccionárias para que ouça o seu lamento de genocídio e a persuadir essa comunidade a alterar a sua política dúplice e fatalmente traiçoeira em relação à sua luta por um estado separado. Por outras palavras, os que desejam fazer renascer os LTTE ainda estão agarrados à mesma ideologia e política nacionalista burguesa que levou a essa liquidação em primeiro lugar!

Num sentido muito sério, os LTTE não tinham qualquer hipótese. O novo regime liderado pelo Presidente Mahinda Rajapakse reviu toda a abordagem política da questão nacional. Negou categórica e simplesmente a questão nacional tâmil, rejeitando qualquer reivindicação à nacionalidade e ao estado tâmil e impôs inequivocamente a supremacia cingalesa budista como princípio dominante. A guerra contra os LTTE foi declarada guerra patriótica de libertação nacional. Este chauvinismo oficial revigorado e inequívoco injectou uma nova vida e alma nas forças armadas do estado, predominantemente cingalesas, que acreditaram que estavam a lutar e a morrer para salvar a sua pátria – apresentada como país exclusivo da nação cingalesa budista – da ameaça mortal do «terrorismo separatista». Com base nesse slogan, a vasta maioria do povo cingalês e outros povos foram mobilizados para o esforço de guerra. A tendência da maioria foi para pôr um ponto final à ideologia e à política do «terrorismo separatista».

O novo regime conseguiu impor este programa de guerra porque estava aliado aos partidos políticos chauvinistas mais radicais – o Jathika Hela Urumaya (JHU), constituído por sacerdotes budistas, e o Janatha Vimukthi Peramune (JVP), que alega ser «o único, grau 01, o mais puro de todos os partidos socialistas» – e ao trotskista Partido Lanka Sama Samaja (LSSP) e ao revisionista Partido Comunista do Sri Lanka. A bandeira pseudo-vermelha foi conjugada com o fascismo. Desta forma, o regime foi abençoado e a guerra sancionada pelos dois lados – os chauvinistas extremistas cingaleses budistas e os traidores abertamente colaboracionistas de classe da «esquerda».

As mais altas autoridades religiosas do clero budista (Maha Sangha) invocaram bênçãos para as forças armadas do estado e sancionaram o novo regime com uma legitimidade «messiânica». A guerra contra os LTTE foi apresentada como a continuação das guerras «históricas» de libertação nacional contra os invasores dravídicos. Mahinda Rajapakse foi apresentado como descendente da linhagem do heróico rei Duttagamani que matou o «usurpador» tâmil Elara num combate directo e unificou a terra e a «raça» sob a bandeira do budismo cingalês! Todo o aparelho ideológico do estado, incluindo a comunicação social, as escolas, os templos e a máquina administrativa do estado, foi lançado com um fervor concertado para alimentar a histeria de guerra.

A ditadura abertamente terrorista da burguesia

Esta nova doutrina militar iria ser reforçada por um novo e mais elevado nível de exercício de uma ditadura abertamente terrorista do regime dominante comprador-capitalista – e do seu estado. Essa política foi levada a cabo com a doutrina da cumplicidade que permitia às forças armadas e outros agentes paramilitares agirem livremente, sabendo que não seriam responsabilizados nem pelo estado, nem pelo povo nem por nenhuma das dúplices instituições, comissões ou conselhos internacionais de direitos humanos. Tratou-se de uma política de desencadear o poder repressivo reaccionário do estado para levar a cabo uma guerra total e sem restrições contra os «inimigos declarados do estado» enquanto traidores à pátria. Na essência, isso era uma política de consolidar a ditadura hegemónica cingalesa compradora capitalista parasitária e encharcada em sangue.

Foram assassinados em pleno dia membros tâmiles do parlamento, alguns em zonas de alta segurança do estado. Foram assassinados trabalhadores humanitários tâmiles. Foram perseguidos e mortos estudantes tâmiles. Os advogados que apareciam a defender os «terroristas» eram listados no sítio internet do Ministério da Defesa como traidores. As instituições da comunicação social que não seguiam a linha do estado eram atacadas por ministros do governo em pleno dia. Foram espancados ou mortos membros da comunicação social que divergiam, ou se recusavam a concordar. Todos os que defendiam uma solução política democrática para a questão nacional eram apresentados colectivamente como traidores.

A nova doutrina militar foi formulada em termos de «nenhuma preocupação com os danos colaterais», quer fossem a morte e a repressão de civis inocentes, a humilhação das pessoas, a militarização da ordem social, o fim dos direitos humanos e democráticos, a catástrofe humanitária ou qualquer outra dessas preocupações «humanitárias».

A comunidade internacional de potências imperialistas/neo-coloniais e reaccionárias e as suas várias agências, comissões e conselhos internacionais de direitos humanos, todas elas agiram de acordo com essa política, com as adequadas doses de preocupação com os direitos humanos e a lei humanitária, só para salvarem a sua pele e a sua legitimidade aos olhos do mundo. Nem os políticos corruptos do Tamil Nadu, nem os milhares de milhões de dólares de simpatia e apoio da diáspora internacional tâmil, nem a sofisticada cadeia logística internacional, nem sequer as aspirações nacional-democráticas da nação oprimida tâmil que se tinham concentrado temporariamente nos LTTE, poderiam resistir à nova doutrina, linha e estratégia militar do imperialismo, tal como foram concretizadas pelo Estado do Sri Lanka. O regime sabia que tinha encurralado politicamente os LTTE de uma forma final e decisiva e estava aí para retaliar militarmente de uma vez por todas.

Fazer o balanço da experiência

O novo regime fez o balanço de duas décadas de experiência militar com os LTTE e adoptou uma nova doutrina, linha e estratégia militar. Esta nova síntese não foi produzida por nenhum «génio» a liderar um laboratório local de planeamento e estratégia. Foi o produto do esforço colectivo de mestres da morte e da destruição em massa: a CIA, a Mossad israelita, a CRU indiana e os militares do Sri Lanka. Essas forças juntaram-se para absorver uma nova e valiosa experiência na dizimação do «terrorismo» através de uma guerra genocida de desgaste e aniquilação.

Essa cooperação resultou na modernização dos serviços de informações e da estrutura de espionagem, juntamente com uma melhoria qualitativa das armas hi-tech de morte e destruição em massa combinadas com ataques de precisão, que incluíam atentados com mira laser, juntamente com a utilização de incessantes bombardeamentos aéreos como forma de aterrorizar as populações. A nova doutrina combinou elementos da guerra de guerrilhas e da guerra de posições, tácticas de penetração profunda e ataques cirúrgicos a alvos militares chave. O inimigo era atacado e destruído através de uma política de três ramificações, de cerco e destruição, pouco a pouco, por terra, mar e ar, até literalmente sangrar até à morte. Tinham aprendido a lição. Esta seria uma guerra de desgaste e aniquilação, em vez de ser uma guerra pelo território. Isto representava uma importante alteração de paradigma. Envolvia uma política de aterrorizar as massas até à submissão muda, silenciar a comunicação social através do terror, assassinato e intimidação, monopolizar o acesso à informação, proibir toda e qualquer política alternativa ou de oposição sob pena de eliminação, através do exercício de uma ditadura abertamente terrorista do estado comprador – e do seu regime – sem abrandamento nem limites.

A questão é: Então, porque é que uma força que representava tão intransigentemente o mandato popular da libertação nacional sofreu uma tão impiedosa e brutal liquidação militar pelo estado? Há um pretenso truísmo que diz que qualquer força que represente a justiça e lute pela libertação dos oprimidos terá a história do seu lado. Bem, parece que essa história desempenhou um papel sujo, desapiedado e cruel na luta de libertação nacional tâmil.

A verdade é que a vontade subjectiva não é, de forma nenhuma, um substituto da ciência. Todo o heroísmo e martírio, todo o sacrifício do povo, todo o poder da tecnologia, nunca resultarão numa genuína libertação. Qualquer pessoa que partilhe um sonho de liberdade e independência deve ficar angustiada com esta questão e fazer um esforço consciente para aprender com estas lições, pagas com o sangue do povo trabalhador e sofredor, para que os erros e insuficiências nunca tenham que ser repetidos. Para isso, teremos que nos empenhar numa dissecação cirúrgica crítica da linha ideológica, política, estratégica e militar e da prática dos LTTE. Isso é uma tarefa complexa e este artigo não é um balanço definitivo. Visa encorajar o pensamento crítico e científico sobre a via da emancipação da humanidade dos horrores e crimes do imperialismo.

A linha e a prática dos LTTE

Este artigo tem discutido até agora como é que o novo regime assumiu o controlo e que os LTTE não tinham qualquer hipótese contra essa estratégia combinada imperialista internacional de contra-insurreição. Porém, a liquidação dos LTTE tem que ser analisada sobretudo em termos da sua base interna de classe e da linha ideológica, política, estratégica e militar que aplicaram. As forças e condições externas só podem actuar sobre uma base interna.

A verdade é que a linha ideológica, política, estratégica e militar dos LTTE tinha uma vulnerabilidade fatal. Não se pode combater e derrotar um inimigo mais poderoso nas próprias condições deste. A verdade é que o estado contrapôs toda a sua destrutiva força físico-tecnológica contra os LTTE. Era muito superior em número de homens (cerca de 200 mil membros das forças armadas contra no máximo 20 mil); adquiriu armamento hi-tech e tinha superioridade em terra, mar e ar. Tinha o apoio do imperialismo mundial e de potências regionais como a China, Índia, Paquistão, Malásia e Tailândia. Embora durante muito tempo os LTTE tenham mostrado uma superioridade militar aplicando princípios da guerra de guerrilhas que combinavam de uma forma verdadeiramente criativa com uma guerra posicional e mesmo convencional, política e ideologicamente estavam a combater no terreno do inimigo. Política e ideologicamente, os LTTE mantiveram-se aprisionados dentro do sistema e pagaram o preço final. Há que ter uma superioridade filosófica, ideológica e política sobre o inimigo, quando se quer manter a superioridade estratégica de longo prazo, obter ganhos militares e avançar para a vitória. O êxito de uma luta revolucionária de libertação depende da sua base filosófico-ideológico-teórica.

A base filosófico-ideológica dos LTTE era uma combinação ecléctica de base feudal-burguesa. Os LTTE foram buscar a sua perspectiva e inspiração a lendas e mitos históricos que glorificavam a civilização Dravida-Damila e à tradição da guerra e do sacrifício heróico. Esta é uma das razões por que a luta de libertação nacional liderada pelos LTTE teve, e tem, uma tão poderosa ressonância entre os tâmiles de todo o mundo. Os LTTE acreditavam num culto do super-herói, glorificavam a mitologia tribal-feudal da invencibilidade, acreditavam em mortes suicidas como forma de martírio e libertação espiritual. Infelizmente, essa ideologia não tinha espaço para as massas levarem a cabo uma luta revolucionária para se libertarem a si próprias.

A ideologia e a política dos LTTE desenvolveram-se durante a sua formação inicial no período de 1976-1980 a partir de uma perspectiva romântica pequeno-burguesa e depressa se transformaram numa perspectiva de classe nacionalista burguesa. Nessa fase, combinaram aspectos tanto da burguesia nacional como da burguesia compradora. Tinham uma importante orientação anti-feudal e anti-castas, mas não souberam derrubar nem reformular a ordem social feudal-colonial prevalecente. As mulheres eram respeitadas e desempenharam um papel chave na luta armada, mas isso não queria dizer que as mulheres se tenham libertado das grilhetas da opressão feudal e do sistema patriarcal. Quiseram desenvolver uma economia nacional racional e auto-suficiente. Porém, no seu principal aspecto que definia a sua essência de classe, os LTTE transformaram-se num classe compradora burguesa que dependia do imperialismo e dos estados reaccionários da região para levarem a cabo a sua luta pela libertação nacional, em vez de mobilizarem as massas para obterem uma genuína independência e liberdade democrática.

Os LTTE nunca tiveram uma perspectiva internacionalista anti-imperialista que situasse a sua luta no contexto da luta pela libertação dos povos do mundo. Mas, não podemos culpar os LTTE apenas devido à sua ideologia nacionalista burguesa. A traição colaboracionista de classe do movimento dito de «esquerda» no sul também foi um importante factor que levou os LTTE a adoptarem essa ideologia. Num sentido fatal, o que começou como uma reivindicação de autodeterminação nacional do povo de língua tâmil, que incluía tanto a nação tâmil oprimida do nordeste como as nacionalidades muçulmanas e tâmil de Hill Country, transformou-se exclusivamente numa luta de libertação nacional da nação tâmil oprimida.

Ao mesmo tempo que a questão do povo tâmil de Hill Country era abandonada, a nacionalidade muçulmana acabou por ser visada como inimiga. Cerca de 40 mil famílias muçulmanas – à volta de 100 mil muçulmanos oprimidos – foram violentamente expulsas do norte sob ordens dos LTTE. Não há dúvida que as condições externas desempenharam um papel nessa transformação. O estado estava a tentar manipular elementos muçulmanos contra os LTTE. O estado promoveu vários grupos armados para dividirem e atacarem os LTTE por dentro. Os guardiães muçulmanos domésticos estavam na linha da frente dessa estratégia. A forma correcta de lidar com uma política destas é ganhar as vastas massas muçulmanas oprimidas numa frente comum de luta para expor e isolar o estado. A transformação num movimento de libertação comprador-capitalista nacionalista exclusivamente tâmil e extremamente estreito deveu-se sobretudo à evolução do carácter de classe interno dos LTTE.

Em quem se basear?

Não há dúvida nenhuma que o estado foi o factor gerador da política de terror e que desencadeou um terror selvático contra as massas a um nível mais sistemático e sistémico que os LTTE. Como vingança, os LTTE também praticaram uma forma extrema de terrorismo contra a população civil. Essa linha alienou-os das vastas massas cingalesas e muçulmanas, mas também de alguns sectores das massas tâmiles. É verdade que o estado tinha conseguido mobilizar um amplo sector das massas cingalesas contra o Movimento Nacional Tâmil e contra os LTTE, que a chamada «esquerda» tinha traído a luta nacional tâmil e se tinha tornado em agente e defensora do estado. Contudo, não era verdade que as massas cingalesas oprimidas não pudessem ser influenciadas a simpatizar e mesmo a apoiar a luta de libertação nacional tâmil, caso esta também representasse a libertação das massas cingalesas oprimidas. De qualquer forma, uma força de libertação nunca se deve degenerar ao nível do seu inimigo. Não pode usar o terror contra as massas como política. O inimigo nunca pode ser a razão da nossa própria degeneração.

A linha política dos LTTE baseava-se no heroísmo de uma vanguarda de elite dedicada, conjugado com o poder destrutivo da tecnologia, em vez de libertar a energia revolucionária criativa das massas. De facto, a necessidade e a capacidade das massas oprimidas nunca foram mobilizadas para combaterem os seus opressores e as suas condições de opressão e para conseguirem uma verdadeira libertação. A iniciativa histórica das massas exploradas e oprimidas foi efectivamente suprimida.

Em vez de mobilizarem as massas, os LTTE ficaram dependentes das potências regionais e imperialistas para lhes entregarem a libertação. Fizeram todo o tipo de acordos com os políticos do Tamil Nadu e com os «facilitadores» de negociações noruegueses que actuavam em nome dos EUA. Também fizeram acordos com a classe dominante do Sri Lanka, a ponto de terem sido subornados para assegurarem que o candidato de oposição seria derrotado nas eleições presidenciais e abrirem assim caminho à vitória do actual presidente – que depois tudo fez para os dizimar.

Os LTTE acreditavam que, no momento crucial, a Índia interviria para parar a guerra e forçar o governo do Sri Lanka a negociar. Acreditavam que os políticos do Tamil Nadu podiam pressionar Nova Deli a intervir a seu favor. Contudo, os políticos do Tamil Nadu só estavam a tentar explorar a imagem dos LTTE para recolherem alguns votos e Nova Deli continuou a fornecer apoio diplomático e militar ao estado do Sri Lanka para levar a cabo a guerra. O Paquistão e a China juntaram-se-lhes com um generoso apoio militar, numa tentativa de contrabalançarem a crescente influência estratégica dos EUA e da Índia na região asiática. Algumas potências imperialistas ocidentais e o Japão tentaram influenciar o estado do Sri Lanka a acabar com a guerra genocida, dado que lhes estava a causar embaraço. Os EUA, a União Europeia, a Noruega e o Japão foram os auto-nomeados co-patrocinadores do chamado «processo de paz». Mas esses esforços foram postos de lado pelo regime, à medida que prosseguia na dizimação dos LTTE, a um colossal custo em mortes, destruição e deslocação da população civil.

Ao mesmo tempo, os EUA asseguravam-se que teriam um papel chave no esforço de guerra do Sri Lanka para garantir o controlo estratégico da ilha. No decurso da guerra, os EUA (e Israel) continuaram a fornecer armamento e equipamento avançado, treino de combate às forças armadas, capacidades avançadas e equipamento de recolha de informações e apoio político-diplomático a essa «guerra contra o terror». No decurso da guerra, os EUA exploraram a oportunidade para assinarem um «Acordo de Aquisição e Serviços Comuns» com o estado do Sri Lanka, através do qual os EUA obtiveram livre acesso a todas as instalações militares da ilha. Foi desta forma que o regime super-patriótico levou a cabo a guerra contra os LTTE para defender a pátria.

A linha organizativa dos LTTE resultava da sua linha ideológica e da sua política burguesa nacionalista. Os LTTE estavam organizados como um centro de comando militar altamente hierárquico. Eram um caso de extremo centralismo burocrático onde nenhuma divergência interna – nem externa – era tolerada. Os LTTE não desenvolveram um partido político onde houvesse lugar à discussão interna e a um debate que forjasse uma linha ideológica e uma política correctas. A frente política era uma mera máquina para servir o exército e os objectivos militares.

No fim, em absoluto desespero, quando estavam a ser cercados e eliminados por incessantes vagas de ataque por terra, mar e ar, os LTTE ficaram reduzidos a forçar a população civil de Vanni (a região do norte do Sri Lanka que foi o berço dos LTTE) a ficar aprisionada no fogo cruzado para que lhes fornecessem protecção humanitária. Há relatos de terem disparado e matado quem tentava fugir para salvar a vida. As forças armadas do estado, claro, não se preocuparam com as vítimas civis e avançaram, bombardeando essa zona de tréguas. Os civis foram literalmente mantidos reféns por ambos os lados, e milhares deles foram mortos durante esse processo, incluindo velhos, mulheres e crianças.

O estado conseguiu passar incólume por esse tipo de guerra genocida porque alegou que os LTTE estavam a impedir a população civil de procurar refúgio saindo de lá. Forneceram a cobertura e as credenciais para a alegação de que o estado foi forçado a recorrer a medidas extremas para «libertar o povo tâmil das engrenagens fascistas dos LTTE»! A amarga lição é que, no final, apesar de toda a audácia da vanguarda de elite, apesar de todas as espectaculares vitórias militares obtidas, apesar de todos os imensos sacrifícios feitos, apesar de toda a imaginação criativa para fazer a guerra contra uma força imensamente superior, a linha ideológica, política e militar dos LTTE mostrou ser fatalmente inadequada.

Conclusão

Se não virmos e analisarmos cientificamente o mundo, então não poderemos ter êxito na sua transformação. Se não situarmos a libertação de um país ou nação específicos no contexto da missão histórica de emancipação da humanidade das grilhetas da ignorância e da escravidão ligadas à sociedade de classes, então as nossas lentes serão imperfeitas e a história ensinar-nos-á uma lição amarga e cruel. A lição essencial a ser aprendida do sangue que foi derramado é a de que só a via da revolução proletária iluminada pela ciência do Marxismo-Leninismo-Maoismo, dirigida por uma Partido Comunista de vanguarda, à frente de um exército popular de libertação e liderando uma frente única de todas as forças anti-feudais e anti-imperialistas com o objectivo de esmagar o poder de estado – a ditadura da classe dominante capitalista compradora-burocrata – no contexto de fazer avançar a revolução mundial, rumo à alvorada de um mundo comunista que vise emancipar a humanidade da escravidão da sociedade de classes, pode libertar a infinita iniciativa, criatividade e ousadia das massas para levarem a cabo uma luta revolucionária – incluindo a guerra de classes revolucionária – para finalmente derrotar e enterrar o sistema imperialista e obter a libertação.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese