Perfurações de petróleo em águas profundas: Desastre atrás de desastre
20 de Setembro de 2010. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

O poço petrolífero da BP no Golfo de México que estava a vomitar veneno desde Abril foi oficialmente declarado «morto» a 19 de Setembro. Mas, tal como os mortos-vivos dos filmes de terror que se levantam repetidamente para atacarem os vivos, uma estrutura petrolífera de águas profundas atrás de outra regressam para enfrentar a humanidade.

A estrutura Deepwater Horizon, alugada pela BP, estava a perfurar à procura de petróleo e gás nos solos oceânicos a 1,5 quilómetros abaixo do nível da água e as suas tubagens estendiam-se por mais 4,8 quilómetros debaixo de terra. Perfurar nestas condições é particularmente perigoso. As pressões envolvidas são enormes. A entrada do poço, localizada a grande profundidade no fundo do mar, é de muito difícil acesso em caso de falha no funcionamento das válvulas concebidas para equilibrarem essas pressões. Foi isso que aconteceu com a Deepwater Horizon. Quando o petróleo e o gás começaram a brotar descontroladamente do poço, o gás subiu rapidamente até à superfície e explodiu, matando 11 trabalhadores e atirando a estrutura para o fundo do oceano.

Este tipo de poços era pouco comum até há 15 anos atrás. Durante os últimos anos, as companhias petrolíferas começaram a fazer esforços para irem cada vez mais e mais fundo a um ritmo espectacular, à medida que começaram a secar os poços mais antigos em águas menos profundas.

Os desafios que estes poços apresentam não têm precedentes. As estruturas flutuantes e as plataformas estacionárias estão frequentemente localizadas longe da costa, pelo que o equipamento de combate a incêndios e de salvamento não podem ser rapidamente deslocados. No Golfo do México, os furacões atingem regularmente a superfície com vagas gigantes e ventos fortes, mas as correntes subaquáticas e os deslizamentos de lama não são menos destrutivos. As temperaturas a essas profundidades, pouco acima do ponto de congelação, podem solidificar o gás natural em perigosos cristais de hidratos.

A perfuração em águas profundas tornou-se mais possível nos anos 90 com o desenvolvimento de novas tecnologias. Contudo, antes do desastre da BP, as companhias petrolíferas e os governos que supostamente as regulam escolheram não ter em conta estes novos factores de risco. «A nossa capacidade de gerir riscos não acompanhou a nossa capacidade de explorar e produzir em águas profundas», disse Edward Chow, um ex-executivo da indústria petrolífera que é agora membro sénior do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (The New York Times, 31 de Agosto de 2010).

O Departamento norte-americano do Interior declarou, ou melhor dito, apostou, que essas perfurações eram seguras com base nas relativamente poucas explosões ocorridas entre 1979 e 2009, sem ter tido em conta as dificuldades sem precedentes e os danos que daí podem resultar se de facto ocorrer uma explosão. Mas, tendo em conta a crescente complexidade das condições de perfuração, por um lado, e a proliferação desses poços (mais de 4000 nas águas profundas do Golfo), por outro, um desastre não só era possível como era quase inevitável.

Pior, muito pior, é o seguinte: agora que ocorreu um desastre numa estrutura de águas profundas, com consequências de longo prazo que apenas agora estão a começar a ser estudadas, em vez de ter aprendido a lição e agir de acordo com isso, a indústria petrolífera e os governos estão a continuar e mesmo a expandir as operações globais em águas profundas.

Apesar da explosão da estrutura da BP, a Royal Dutch Shell continua a operar no Golfo do México a plataforma marítima mais profunda do mundo. A estrutura Perdido foi concebida para perfurar 35 poços durante as próximas duas décadas. Desde o acidente de Abril, o Golfo já viu chegarem novos navios que podem fazer furos a mais do dobro da profundidade abaixo do nível do mar que a Deepwater Horizon (3,6 quilómetros). Só duas das 33 estruturas de águas profundas que aí estavam a operar abandonaram a zona.

Em todo o globo, há actualmente cerca de 50 operações de perfuração em águas ultra-profundas, a profundidades de mais de 2,3 quilómetros, metade delas geridas pela Transocean, a proprietária da Deepwater Horizon. Além do Golfo do México e do Mediterrâneo, tem perfurações em mares perto da Noruega, Escócia, Brasil, Angola, Nigéria, Índia, Malásia e Indonésia. E há mais estruturas como a Deepwater Horizon em construção. Apesar de toda a má publicidade, as publicações da indústria não estão à espera que essa empresa ou outras como ela percam muito negócio.

Responsáveis governamentais da Nigéria e do Gana declararam-se inicialmente preocupados após o derrame da BP, mas esses países não adiaram nenhum dos projectos em curso.

A Noruega decidiu avançar e leiloar 94 dos 100 novos lotes de perfuração nas águas da sua plataforma continental. A norueguesa Statoil, a principal empresa da Escandinávia, é a maior empresa de petróleo e gás marítimo do mundo. É uma grande investidora no Golfo do México, bem como em campos de petróleo e gás numa dúzia de outros países.

A Dinamarca autorizou uma empresa escocesa a perfurar numa zona apelidada de «Corredor de Icebergs» no Mar Árctico, perto da Gronelândia. Activistas ambientais da Greenpeace a bordo do navio Esperanza velejaram até à plataforma para atraírem a atenção do mundo para o perigo para o mar e os vários tipos de espécies de baleias, ursos polares, focas, tubarões e pássaros para quem essa zona é a sua casa. Embora, para impedi-los, o governo dinamarquês tenha enviado um navio de guerra, comandos em lanchas rápidas e uma flotilha policial, vários manifestantes conseguiram escalar uma torre da estrutura. Ficaram aí pendurados durante dois dias antes de o frio árctico os ter forçado a descer para as mãos das autoridades, que os prenderam a 19 de Setembro.

Entretanto, no Congresso Mundial da Energia em Montreal, outros 60 apoiantes da Greenpeace cobriram-se de petróleo para realizarem uma «Festa de Praia da Maré Negra» para salientarem «a urgente necessidade de o mundo avançar para além do petróleo».

Para as companhias petrolíferas, para os governos dependente dos rendimentos do petróleo e de facto para todo o sistema capitalista monopolista em que os lucros das indústrias do petróleo e da combustão do petróleo representam um papel tão central, a possibilidade de voltar a haver um outro desastre num poço petrolífero como o de Abril passado ou mesmo pior é ultrapassada pela certeza de que há enormes lucros que não se concretizarão se não prosseguirem as perfurações em águas profundas e que, se alguém hesitar, os outros certamente se apressarão e os esmagarão.

Neste momento, muitas das reservas petrolíferas mundiais conhecidas mas não exploradas estão localizadas a grande profundidade sob o mar. Mas o que está em jogo é mais que apenas a questão da oferta e da procura desse bem. Esses campos petrolíferos no fundo do mar representam uma parte da Natureza cuja propriedade está disponível a quem a agarrar. Quem irá ou não ficar com ela terá muito a ver com a determinação do futuro dos aglomerados do capital e das nações em que eles estão enraizados.

Esta concorrência económica de expansão-ou-morte entre empresas e países está interligada a factores militares. Os países usam o seu poder militar para protegerem e expandirem os seus lucros às custas uns dos outros, mesmo que a concorrência ocorra de formas complicadas, como por exemplo a subjugação de países como o Iraque, em parte para manterem afastados outros grandes e pequenos imperialistas e nem sempre através de conflitos armados directos entre as potências imperialistas. Ao mesmo tempo, o controlo do petróleo (e o dinheiro que com ele se pode fazer) também é um importante factor estratégico em si mesmo no que diz respeito à concorrência entre as nações capitalistas.

Por exemplo, a China está actualmente a desenvolver o seu poderio naval para reforçar as suas reivindicações ao Mar do Sul da China, rico em petróleo e gás (e também um ponto de passagem de muitos dos abastecimentos mundiais de energia). Os EUA têm respondido com a realização de exercícios navais provocatórios ao largo da China. Isto tem a ver com algo mais que o lucro imediato. Estes conflitos têm muito a ver com a capacidade dos EUA manterem o seu império mundial.

Um recente artigo académico na revista Science (10 de Setembro de 2010) concluiu que os actuais glutões de combustíveis fósseis (centrais de energia a carvão, fábricas alimentadas a gás, carros, etc.) só por si irão adicionar um total de cerca de 496 gigatoneladas de dióxido de carbono (CO2) à atmosfera durante os próximos 50 anos. Os autores calculam que isto levará os níveis de CO2 para 430 ppm e a um aquecimento global de 1,4 graus celsius em média acima da era pré-industrial. Estes níveis estão perto do limiar das alterações climáticas desastrosas e as estimativas podem ser demasiado baixas segundo um artigo sobre esse estudo na revista Scientific American e segundo outros cientistas.

Porém, o ponto central do estudo é não defender que o perigo das alterações climáticas tem sido exagerado. Pelo contrário, os autores concluem que, tomada no seu todo, a actual infra-estrutura energética constitui uma forma de investimento, ou de capital, por assim dizer, cuja própria existência é um enorme obstáculo à mudança e um poderoso incentivo económico à sua expansão, em vez da redução da expansão da economia dependente do CO2.

É exactamente isto que estamos a ver com a expansão das perfurações em águas profundas e ultra-profundas, apesar do risco agora provado de acidentes desastrosos, já para não falar no actual e claramente não-acidental desastre do aumento dos gases de estufa na atmosfera.

Um sistema baseado no lucro privado, na apropriação privada da riqueza socialmente produzida pelo povo trabalhador do mundo e da própria natureza, um sistema movido pela concorrência capitalista e por considerações de curto prazo, pura e simplesmente não consegue evitar que cause a devastação hoje ou pior amanhã. Um sistema socialista cujos objectivos mais elevados sejam os interesses da humanidade e a preservação do planeta iria e irá estar decidido a encontrar as formas de resolver estes problemas.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese