Sri Lanka: A luta tâmil e as suas lições
14 de Setembro de 2009. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

O texto que se segue é uma versão de um artigo mais longo assinado por Ravindran e publicado na edição de 12 de Agosto de 2009 da revista indiana People's Truth [Verdade do Povo] nº. 7 (bannedthought.net). a nossa redução e edição alterou de certa maneira o ênfase, mas a perspectiva fundamental do artigo tal como é aqui apresentado continua a ser a do autor. As estatísticas da população, os números de tropas e outros factos relativos ao Sri Lanka têm sido referidos por várias fontes com uma grande variação; retivemos os números dados neste artigo. Os comentários entre parênteses são nossos.

Não há dúvida nenhuma que o exército do Sri Lanka obteve uma importante vitória militar sobre os Tigres de Libertação do Tamil Eelam (LTTE na sigla em língua inglesa). Como é que uma das forças de guerrilha mais poderosas do mundo pode ter sofrido uma tal derrota?

A origem da reivindicação do Tamil Eelam

Cerca de um quinto dos 17 milhões de habitantes da ilha são tâmiles e um pouco menos de três quartos são cingaleses. Os tâmiles residem em grande parte no norte e leste e nas plantações das encostas centrais, enquanto os cingaleses residem no sul, no oeste e também no centro. Quando os colonos britânicos saíram do Ceilão em 1948, entregaram o poder aos compradores [capitalistas dependentes do imperialismo] cingaleses. As classes dominantes cingalesas consideravam a ilha do Sri Lanka como terra exclusiva dos cingaleses e o povo tâmil como «estranhos» a subjugar e assimilar dentro dos confins de um estado cingalês budista unitário. [A maioria dos tâmiles descendem do povo daquilo que é agora a Índia meridional e vivem na ilha há milhares de anos. Os outros foram trazidos no século XIX do estado do Tamil Nadu, na Índia meridional, pelos colonialistas britânicos para trabalharem nas plantações de chá nas encostas centrais da ilha. Os cingaleses, que também chegaram à ilha em tempos antigos, são originários do norte da Índia.]

A promulgação da Lei de Cidadania de 1949 deixou mais de um milhão de trabalhadores agrícolas tâmiles de origem indiana sem direitos e sem pátria. Em 1956, o cingalês foi proclamado único idioma oficial do Ceilão e o governo introduziu outras medidas de reforço do chauvinismo cingalês e budista. Em 1972, o Ceilão foi rebaptizado Sri Lanka [Lanka é o nome cingalês da ilha; Sri quer dizer «santo»] e o budismo recebeu o estatuto privilegiado de religião do país. Essas medidas antagonizaram e alienaram ainda mais os tâmiles.

Ameaçados pelo crescente chauvinismo patrocinado pelo estado, os partidos tâmiles formaram a Frente Única Tâmil (TUF, mais tarde rebaptizada TULF). Na península de Jaffna, no norte do país, um pequeno grupo de jovens formou uma organização militante que mais tarde se viria a chamar Tigres de Libertação do Tamil Eelam. Era liderada por Velupillai Prabhakaran, de 17 anos. [Prabhakaran foi o líder dos LTTE até à sua morte em Maio de 2009. O Tamil Eelam refere-se a uma projectada pátria tâmil no norte e leste da ilha. Eelam é a palavra tâmil para ilha.]

Em 1974, os chauvinistas cingaleses, em conluio com a polícia cingalesa, atacaram os participantes na prestigiosa Conferência Internacional da Cultura Tâmil em Jaffna, matando nove tâmiles e ferindo muitos mais. A discriminação do estado contra os tâmiles atingiu o seu cume com a introdução da «padronização», a qual nega oportunidades iguais aos estudantes tâmiles na admissão às universidades. Essa medida não só negou aos tâmiles o acesso ao ensino superior e ao emprego como também visava afastar gradualmente os tâmiles de lugares na administração pública, na polícia e no exército.

Em 1976, a TULF aprovou a «Resolução de Vaddukoddai» para o estabelecimento do «Estado livre, soberano, laico e socialista do Tamil Eelam, com base no direito à autodeterminação». A TULF concorreu às eleições gerais de 1977 com as palavras de ordem de um Estado Tamil Eelam separado. Os tâmiles votaram esmagadoramente, mais de 90 %, num Eelam separado. Não foi senão um referendo às aspirações e ao direito à autodeterminação dos tâmiles, de uma forma pacífica. Mas os chauvinistas cingaleso-budistas recusaram-se a reconhecer os direitos e as aspirações dos tâmiles; em vez disso, desencadearam mais violência patrocinada pelo estado para esmagarem os seus genuínos direitos.

Numa tentativa de esmagar a identidade tâmil e a sua história, a Biblioteca Pública de Jaffna, que continha uma colecção muito rara de mais de 95 mil volumes de livros, entre os quais muitos manuscritos insubstituíveis e culturalmente importantes em tâmil, foi queimada [em 1981] pelas forças armadas do Sri Lanka, sob a direcção de dois ministros. O mês de Julho de 1983 (o chamado «Julho Negro») testemunhou o pior massacre de uma série de pogroms anti-tâmil executada de uma forma muito planeada. Não ocorreu apenas no norte e leste do Sri Lanka, onde os tâmiles são a maioria, mas também em todo o país. Mais de 4000 pessoas foram mortas e milhares ficaram sem casa. As suas propriedades foram ou saqueadas ou destruídas, eliminando assim os seus meios de sustento. Mesmo nas prisões, os presos tâmiles foram brutalmente mortos e os seus olhos arrancados. Mais de 150 mil pessoas fugiram do Sri Lanka para a Índia e para países ocidentais como refugiados.

Este incidente foi o ponto decisivo na luta pela autodeterminação do povo do Tamil Eelam. O povo tâmil perdeu a sua fé na «democracia parlamentar» do Sri Lanka, a qual visava consolidar a hegemonia cingaleso-budista na ilha. A luta mudou de não violenta e pacífica para uma luta armada. Milhares de jovens aderiram às várias organizações militantes. Inicialmente, foram treinados militarmente na Índia com o apoio do governo indiano, dado que os expansionistas indianos (então sob o domínio do social-imperialismo [falso socialismo e verdadeiro imperialismo] soviético) queriam usar a questão para pressionar o governo do Sri Lanka (então sob o domínio dos EUA) a alinhar com as suas reivindicações expansionistas.

Em Julho de 1983, os LTTE desencadearam um ataque aos militares no Norte do país, matando 13 soldados. Isto marcou o início da guerra civil, ou melhor, de quatro guerras civis interrompidas por períodos de conversações de paz.

Em poucos anos, os LTTE tornaram-se na organização mais proeminente a representar a luta por um Eelam separado; nesse processo, eles esmagaram violentamente as outras organizações [tâmiles], [defendendo que] quase todas elas se tinham tornado agentes dos governos da Índia ou do Sri Lanka.

A guerra civil e as conversações de paz

O primeiro processo de paz começou em 1985, devido à intervenção dos expansionistas indianos. Os LTTE e outros grupos militantes participaram nas conversações, abandonando a reivindicação de um estado soberano separado para os tâmiles e avançando com as reivindicações de que os tâmiles deveriam ser reconhecidos como nacionalidade e que a região norte e leste do Sri Lanka deveria ser considerada uma única entidade, a pátria do Tamil Eelam, cujo direito à autodeterminação, incluindo o direito a se separar, deveria ser reconhecido. As conversações fracassaram devido à recusa do governo do Sri Lanka a aceitar as genuínas aspirações dos tâmiles.

Mas os governos da Índia e do Sri Lanka assinaram em Julho de 1987 o Acordo Índia-Sri Lanka, sem qualquer representação ou participação do povo do Tamil Eelam ou dos militantes que faziam a guerra de libertação nacional. Em vez disso, os expansionistas indianos, que tinham autorizado os grupos militantes a montar bases no estado indiano do Tamil Nadu e lhes tinham fornecido armas, munições e treino militar, impuseram-lhes o acordo. O governo indiano enviou uma força de manutenção de paz com l40 mil tropas para as zonas norte e leste do Sri Lanka, uma vez que o Acordo Índia-Sri Lanka assegurava os interesses estratégicos da Índia. O governo do Sri Lanka concordou em que «Trincomalee ou qualquer outro porto do Sri Lanka não seria disponibilizado a nenhum país para uso militar de uma forma prejudicial aos interesses da Índia».

O papel desempenhado pelo governo indiano gerou suspeitas nas mentes dos que genuinamente lutavam pela libertação nacional. Eles sentiam que o governo indiano os tinha traído e apunhalado pelas costas. A relação entre a Índia e os LTTE piorou ainda mais enquanto ainda decorriam as conversações de paz. Em Outubro de 1988, a marinha do Sri Lanka capturou um barco e prendeu 17 homens dos LTTE, entre os quais altos dirigentes. Os LTTE pediram ao governo indiano que interviesse e obtivesse a sua libertação. Em protesto contra o papel dúbio desempenhado pela Índia, o tenente-coronel Thileepan, líder da ala política dos LTTE, iniciou uma greve de fome e morreu na sequência dela. Mas o governo indiano apoiou tacitamente o governo do Sri Lanka, o qual começou a deslocar os detidos para Colombo [a capital]. Na sequência disso, todos os quadros dos LTTE na prisão suicidaram-se em massa, o que desencadeou protestos e confrontos. As conversações de paz sucumbiram e a guerra civil recomeçou.

O governo do Sri Lanka pediu às forças indianas que esmagassem a rebelião. O exército indiano esperava que a sua ofensiva durasse apenas algumas semanas. Mas, ao contrário das suas expectativas, eles ficaram atolados na guerra, perdendo mais de 1700 homens e com mais milhares deles feridos ou mutilados. Por fim, em Março de 1990 foram humilhantemente forçados a retirar.

Em Abril de 2000, o complexo militar da Passagem do Elefante, que há 17 anos separava a península de Jaffna do resto da ilha de Vanni, caiu inteiramente nas mãos dos LTTE. Cerca de 40 mil tropas do Sri Lanka em Jaffna foram cercadas pelos LTTE e ficaram numa situação terrível. Não tinham outra alternativa senão renderem-se ou serem aniquilados. Isso só não aconteceu devido à intervenção dos governos da Índia e dos EUA. O governo indiano ameaçou abertamente os LTTE para que não avançassem, ou enfrentariam sérias consequências. Enviou mesmo a sua força naval em socorro dos soldados do Sri Lanka. Não estando preparados para enfrentarem as ameaças dos governos da Índia e dos EUA, os LTTE não avançaram.

Perante a incapacidade das classes dominantes do Sri Lanka de imporem uma solução militar à questão nacional do povo tâmil, a Frente de Unidade Nacional [UNF], de base cingalesa, concorreu e arrebatou as eleições de 2001 com uma plataforma de paz. Com a mediação da Noruega, um processo de paz foi reiniciado em Dezembro de 2001. Os LTTE concordarem com uma solução federal para a questão do Tamil Eelam, cedendo em relação à sua anterior posição de um Tamil Eelam separado, e avançaram com uma proposta de uma Autoridade Interina de Auto-Governo (ISGA). Por seu lado, o governo também concordou, pela primeira vez, numa solução federal, que ia além da devolução mínima do poder aos tâmiles que antes propunha. Os Tigres propuseram que a ISGA fosse inteiramente controlada pelos LTTE e detivesse o poder na região nordeste. Os chauvinistas cingaleso-budistas do sul do Sri Lanka ergueram-se num grande protesto, disseram que o governo da UNF estava a entregar a região nordeste aos LTTE e pressionaram o governo a não formalizar o acordo de paz. Em vez disso, foi declarado o estado de emergência a pedido da classe dominante da Índia e dos seus lambe-botas.

Apesar de não ter conseguido chegar a nenhuma solução para a questão nacional e de não ter havido nenhum progresso nas conversações de paz, o cessar-fogo continuou em vigor até Julho de 2006, altura em que tomou posse um novo governo no Sri Lanka que iniciou uma nova ofensiva contra os LTTE, com o apoio económico, militar e político de países amigos, em particular a Índia e a China. Além disso, o governo criou uma divisão nos LTTE e atraiu para o seu lado o traidor ao povo do Tamil Eelam, Karuna. Isso não só debilitou consideravelmente os LTTE na região leste como também expos muitos segredos militares dos LTTE, até então desconhecidos do governo. A partir de 2006, as forças governamentais avançaram gradual mas continuamente e capturaram as zonas controladas pelos LTTE, uma após outra.

O papel da Índia

A intervenção indiana no Sri Lanka foi motivada por mais que a sua importância geopolítica. Na sua ávida cobiça, também estão interessados na pilhagem de todo o Sri Lanka. De 1990 a 1996, as exportações da Índia para o Sri Lanka aumentaram 556 por cento. Em 1998, um Acordo bilateral de Comércio Livre concedeu isenção total de impostos aos bens importados da Índia, cujo comércio com o Sri Lanka deu então um salto. Os investimentos da Índia, que estavam em 16º lugar em 2000, subiram para o 4º lugar em 2005. Em 2002, a Índia impediu a tentativa de Colombo de levar o gigante chinês do petróleo, Sinopec, para o Sri Lanka, pressionou a entrega à Indian Oil Corporation do armazenamento de petróleo bruto de Trincomalee e assinou um acordo para o investimento de cerca de 75 milhões de dólares em 35 anos na instalação de mais de 100 tanques de petróleo. Em troca, concordou em fornecer toda a ajuda militar ao Sri Lanka na sua guerra contra os LTTE. Também ajudou a marinha do Sri Lanka a vigiar os movimentos dos Tigres do Mar na zona do Oceano Índico e no fornecimento de informações,

Seja quando «apoiou» o Tamil Eelam ou quando se lhe opôs, esta questão apenas foi uma ferramenta que a Índia usou contra o Sri Lanka. Antes de 1987, representou o papel de «ajudar» a luta do Eelam contra os governantes chauvinistas do Sri Lanka para aí aumentar a sua influência. Assim que obteve o controlo, esse «salvador» tornou-se no seu oposto e ajudou os governantes do Sri Lanka a derrotarem os LTTE. Eliminar os LTTE não só ajuda a manter a «paz» no Sri Lanka mas também no Tamil Nadu, dado que os sentimentos nacionais são sempre hostis para a Índia, que é uma prisão de nacionalidades.

O papel desempenhado pela chamada comunidade internacional

O Sri Lanka tem uma localização estrategicamente muito importante no Oceano Índico, o qual abraça 47 países e várias grandes ilhas. A China e os EUA (aliados da Índia) são os principais países que competem pelo controlo dessa região. Os EUA têm uma base naval e aérea em Diego Garcia. A Índia, além das suas próprias zonas à volta do Oceano Índico, também tem uma considerável influência sobre as Maldivas. A China tem uma base nas ilhas de Coco, perto de Myanmar.

O Oceano Índico é uma via marítima vital através da qual passam metade da carga mundial de contentores, um terço da sua carga bruta e dois terços das suas remessas de petróleo. As suas águas sustêm um pesado tráfico de produtos petrolíferos.

Os EUA assinaram em 2007 com o Sri Lanka um Acordo de dez anos para a Aquisição e Cruzamento de Serviços (ACSA). Prevê, entre outras coisas, o fornecimento de provisões logísticas e instalações de reabastecimento. Os EUA já têm umas instalações da emissora Voz da América em Trincomalee, as quais podem ser usadas para vigilância. Quando a Índia se envolveu inicialmente na guerra civil do Sri Lanka, era aliada da URSS. Desde então, as equações internacionais mudaram e a Índia actua hoje como principal comparsa dos EUA nesta região.

O acesso aos recursos energéticos é um factor muito crítico para a continuação do crescimento económico chinês. Por isso, a China aumentou os seus esforços para garantir vias marítimas e rotas de transporte que são vitais para o seu abastecimento de petróleo. Tem sido um importante fornecedor de financiamento e armamento ao governo do Sri Lanka e está a fazer importantes investimentos na economia do Sri Lanka, criando uma grande preocupação ao eixo EUA-Índia.

Estes foram os principais países que abordaram a questão nacional tâmil no Sri Lanka tendo em conta os seus interesses estratégicos geopolíticos e económicos. Os imperialistas norte-americanos fizeram grandes protestos de uma «crise humanitária» quando o exército do Sri Lanka estava prestes a terminar a guerra. Nunca tomou qualquer medida para fazer terminar a guerra mais cedo, nem mesmo quando a partir de Setembro de 2008, a guerra se tornou num genocídio em que mais de 50 mil civis foram mortos. Os seus uivos sobre as violações dos direitos humano e o derramar de lágrimas de crocodilo não passam de uma ameaça velada ao governo do Sri Lanka para que não faça nada de prejudicial aos interesses dos EUA – i.e., tem que manter a China à distância.

A China não só forneceu armamento sofisticado e ajuda aos chauvinistas cingaleses como também gorou os esforços de sequer ser aprovada uma resolução do Conselho de Segurança da ONU a condenar o Sri Lanka pelo assassinato de milhares de civis. A Índia também representou o mesmo papel. Não só se opôs à resolução como também pressionou alguns outros países a votarem contra ela. A ONU quase passou um cheque em branco ao governo do Sri Lanka. De facto, a ONU aprovou uma resolução de elogio à vitória do governo do Sri Lanka sobre os «terroristas» dos LTTE.

A derrota dos LTTE e as suas lições

É natural que a derrota de uma força militante tão poderosa possa criar uma certa dose de desespero entre todas as pessoas que têm apoiado/simpatizado com essa luta. Por isso, é muito necessário que se compreendam as razões da sua derrota para que se retirem lições para todos os movimentos nacionais em todo o mundo e também para as forças que levam a cabo lutas armadas na Índia e no Sul da Ásia.

Os seguintes pontos podem ser os principais a serem tidos em consideração:

a) Os LTTE foram uma organização militante que liderou uma guerra de libertação nacional durante mais de três décadas. Apesar disso, a sua ideologia e base de classe era de natureza burguesa. Devido a isso, não conseguiam fazer uma distinção clara entre os amigos e os inimigos do seu acarinhado objectivo de um Tamil Eelam. As suas relações com os tâmiles do Eelam [no norte e leste do país], com os muçulmanos que habitam o nordeste do Sri Lanka e que também fazem parte do Tamil Eelam, com os tâmiles que habitam as plantações do centro do Sri Lanka, com o povo cingalês, com os tâmiles da Índia que deram todo o tipo de apoio à causa do Tamil Eelam, com os partidos burgueses no estado indiano do Tamil Nadu, com o governo indiano e com os imperialistas – a sua abordagem e as suas relações com todas essas diversas forças estavam contaminadas por uma perspectiva burguesa. Não tomavam em consideração as diferenças de classe entre as classes dominantes e as massas oprimidas quando lidavam com o chauvinismo cingaleso-budista e chegavam a atacar as massas trabalhadoras cingalesas. Isso deu grandes oportunidades às classes dominantes do Sri Lanka, que já floresciam no chauvinismo, para incitarem pogroms anti-tâmil e cometerem atrocidades contra os tâmiles a pretexto de estarem a «proteger» a nação cingalesa e para desviarem as massas cingalesas dos seus verdadeiros problemas. Embora, devido ao predomínio de sentimentos chauvinistas, possa não ter sido [sempre] possível ganhar a simpatia das massas cingalesas para a luta por uma pátria separada do Tamil Eelam, essa luta deveria ter evitado a morte de gente inocente.

Mesmo nas suas relações com os tâmiles da Índia, não tinham em conta as diferenças de classe. Para sermos mais precisos, assumiam uma posição de apoio à burguesia quando havia um conflito entre as massas operárias e a burguesia. Da mesma forma, concentraram-se mais em obter o apoio da burguesia indiana e dos seus partidos no Tamil Nadu do que se esforçaram em obter o apoio das vastas massas nesse estado indiano. Essas vastas massas – operários, camponeses, estudantes, jovens, pequena burguesia e intelectuais – deram voluntariamente o seu apoio aos sentimentos nacionais tâmiles e apoiaram a justa causa de uma pátria separada para os tâmiles. O povo do Tamil Nadu, os revolucionários e outras forças democráticas estenderam sem vacilações o seu apoio à luta do Eelam. Mas os LTTE chegaram a dar instruções estritas aos seus quadros para não estabelecerem nenhuma ligação com as organizações maoistas da Índia. O mesmo aconteceu a nível internacional. Os LTTE construíram entre a diáspora tâmil uma forte rede em todo o mundo. Mas não fizeram nenhuma tentativa séria nem de construir relações próximas com pessoas ou organizações em luta nem de obter o seu apoio. Em vez disso, concentraram-se em assegurar o apoio dos governos imperialistas ou de pessoas influentes nesses governos. Não era só uma atitude de exclusivismo nacional mas, mais que isso, era uma perspectiva de classe que realçava a burguesia mais que o povo.

Ideologicamente, os LTTE eram muito claros que o marxismo-leninismo-maoismo era hostil aos seus interesses. Houve uma altura em que usaram as palavras de ordem de um «Tamil Eelam Socialista». Mas, passado pouco tempo, retiraram-nas, dado que isso ia contra os seus interesses de classe.

b) Os LTTE iniciaram a sua luta armada de libertação nacional como força de guerrilha, apenas com um punhado de activistas empenhados. Qualquer organização que lute pela tomada do poder político tem que tomar território ao inimigo e que estabelecer o seu governo e do seu povo.

Durante estes 25 anos desde o início da guerra civil, os LTTE mantiveram sempre algum território sob seu controlo. Dentro do seu território, os LTTE tinham um governo paralelo. Tinham estruturas como as judiciais, uma polícia, impostos, estacões de televisão e rádio, finanças e bancos, imigração, comércio, agricultura, etc. Militarmente, os LTTE tinham crescido de uma força de guerrilha de 30 membros em 1983 para um exército convencional permanente com milhares de tropas. Tinham brigadas de infantaria, brigadas femininas, unidades de comandos e divisões especializadas de colocação de minas, de atiradores de precisão, de disparo de morteiros e artilharia, de resistência a tanques, de carros blindados, etc. Os Tigres também tinham uma divisão naval conhecida como Tigres do Mar e eram a única força de guerrilha do mundo que tinha uma divisão aérea, os chamados Tigres do Ar. Os LTTE tinham muitas unidades marítimas e um pequeno número de pequenas aeronaves. Antes do início da IV Guerra do Eelam em Julho de 2006, os LTTE retinham sob seu controlo 16 mil quilómetros quadrados do território do norte e leste do Sri do Lanka e mantinham a sua própria administração civil e militar nessas zonas. Depois disso e durante um período de quase três anos, começaram a perder gradualmente o controlo do território.

Em todo este período, os LTTE apegaram-se a ao seu estilo de guerra de posições, apesar de estarem a perder território e cada vez mais debilitados e vulneráveis aos ataques inimigos. Mesmo então, não mudaram o seu método de guerra de posições de volta à guerra de guerrilha. O princípio da guerra de posições é o de que mantendo ou capturando posições se obtém a vitória na guerra. Uma vez perdida essa vantagem é uma futilidade manter esse método, fornecendo assim ao inimigo mais oportunidades de concentrar os seus ataques nas restantes posições. Em vez de ampliarem a zona de operações e adoptarem métodos de guerrilha quando o inimigo estava a concentrar o seu ataque, foram retirando as suas forças e o seu povo para uma zona cada vez menor. Essa táctica era suicida porque não tinham suficiente margem de manobra. A flexibilidade de mudar de uma forma de guerra para outra, conforme as condições e as necessidades da guerra, não foi adoptada pelos LTTE, apesar de terem desenvolvido a guerra do nada até ao seu nível mais elevado.

Com uma vasta experiência de diferentes formas de guerra – guerra de guerrilha, guerra móvel e guerra de posições – porque é que hesitaram? Estariam à espera de que, com o cada vez maior número de vítimas civis, a comunidade internacional – os imperialistas e o governo indiano –fossem forçar o governo do Sri Lanka a parar a guerra genocida? Mas, como vimos antes, todos esses reaccionários estavam mais interessados em defender os seus próprios interesses e nenhum deles estava realmente preocupado com o sofrimento do povo ou em ajudá-lo a obter uma honrosa solução contra a opressão nacional.

c) Durante as últimas três décadas, os LTTE levaram a cabo uma firme luta de libertação nacional contra o governo do Sri Lanka. Embora essa luta fosse dirigida contra as classes dominantes compradoras do Sri Lanka, também era objectivamente dirigida contra o imperialismo. Mas os LTTE nunca tiveram nenhuma orientação ou programa anti-imperialista nessa luta de libertação nacional. O seu programa para um Tamil Eelam independente e auto-suficiente visava obter um estado separado das classes dominantes compradoras do Sri Lanka e não da exploração e opressão imperialistas.

d) À medida que a guerra de libertação do Eelam se transformou de guerra de guerrilha em guerra de posições, a sua dependência de armas modernas e sofisticadas aumentou imensamente. Para o seu fornecimento, dependia principalmente dos países imperialistas e do mercado internacional de armas. Em consequência disso, negociava com membros dos escalões do poder nesses países. Percebendo isso, o governo do Sri Lanka liderado pelo Presidente Mahinda Rajapaksa usou com êxito os seus canais diplomáticos para impedir o fornecimento de armas. Da mesma forma, também restringiu os fundos destinados à luta do Eelam vindos dos expatriados na Europa e na América do Norte. Essa dependência dos países imperialistas fragilizou os LTTE quando esses países ajudaram o fascista Rajapaksa na «guerra ao terrorismo». A auto-suficiência, não só nas questões económicas e políticas mas também nos abastecimentos militares, é muito importante para as guerrilhas que combatem as classes dominantes reaccionárias.

e) Os LTTE tinham uma abordagem errada da questão da frente única. Não unificaram todas as forças que podiam ser unidas contra o inimigo comum. De facto, a sua abordagem era contra a união de todas as forças que combatem o exército do Sri Lanka. Na sua luta por uma posição de domínio e liderança, não só eliminaram outros grupos militantes pequeno burgueses, a maioria dos quais se tornaram agentes dos governos do Sri Lanka ou da Índia, mas também genuínas forças que lutam por um Tamil Eelam separado. Ou lhes pediam para pararem as suas actividades nas zonas tâmiles ou executavam-nos sumariamente.

f) As diferenças regionais entre as três regiões do Tamil Eelam, ou seja, Jaffna, Wanni e a região leste, e em particular entre o norte e o leste, não foram tidas em conta. Isto permitiu que traidores como Karuna utilizassem esses sentimentos regionais e virassem os habitantes da região leste contra os LTTE.

g) Devido a uma actuação errada face aos muçulmanos, os LTTE antagonizaram a comunidade muçulmana, que integra o Tamil Eelam. A expulsão forçada em Outubro de 1990 de 28 mil muçulmanos de Jaffna, abandonando todos os seus pertences, afectou seriamente a luta pelo Tamil Eelam. As classes dominantes, sempre à espera de uma oportunidade para dividirem o povo, utilizaram isso e criaram uma clivagem permanente entre tâmiles e muçulmanos. As elites muçulmanas comprometeram-se com as classes dominantes do Sri Lanka e afastaram da luta um sector considerável da população muçulmana.

h) A abordagem dos LTTE era a de que «Os Heróis fazem a história», em vez da formulação maoista de que «O povo faz a história». Com base nela, adoptaram métodos burgueses de desenvolvimento da guerra, em vez dos métodos maoistas de desenvolvimento de uma Guerra Popular. Numa perspectiva burguesa típica, os LTTE não armaram as massas na sua guerra contra o exército do Sri Lanka, apesar de as massas terem sofrido os horrores de três décadas e meia de guerra civil. Não assimilaram a verdade histórica e a experiência dos povos em luta em todo o mundo, de que é o povo e só o povo o verdadeiro criador da história e de que qualquer luta, não importa quão militante e prolongada, que disso divirja enfrentará inevitavelmente a derrota.

Mesmo passados dois meses após o fim da guerra, mais de 300 mil tâmiles continuam a elanguescer nos NFZs [campos controlados pelo governo]. Ainda hoje, nem a comunicação social independente nem as agências internacionais de ajuda humanitária estão autorizadas a visitá-los. As notícias que saem destes campos narram as horríveis condições que os tâmiles são forçados a suportar. Os jovens, rapazes e raparigas, são sistematicamente separados dos seus familiares, e desaparecem sem deixar rasto. Os seus repetidos pedidos para serem mandados de volta às suas terras ainda não foram aceites. Comida, água, cuidados de saúde e outras necessidades básicas não estão a ser fornecidos às pessoas. O governo de Rajapaksa está a planear converter as zonas tâmiles em colonatos cingaleses, na linha dos sionistas na Palestina. O Chefe do Exército do Sri Lanka, Sarath Fonseka, declarou abertamente que os tâmiles deviam estar prontos a viver como cidadãos de segunda classe no Sri Lanka.

Os tâmiles, aprendendo com os seus erros, estão destinados a lutar até alcançarem o seu objectivo de se libertarem, não só da opressão e perseguição nacional, mas também da exploração e opressão de classe. Todos os progressistas, democratas e revolucionários da Índia e do mundo continuam a apoiar a justa luta do povo tâmil do Sri Lanka por uma pátria separada.