Os campos de prisioneiros tâmiles no Sri Lanka – a situação actual
14 de Setembro de 2009. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Um responsável da ONU no Sri Lanka relatou que continuam a ser mantidos quase 300 mil tâmiles em campos de detenção controlados pelos militares (BBC, 11 de Setembro). Cerca de 250 mil estão encarcerados em Menik Farm, no norte do Sri Lanka, o maior dos principais centros de detenção do país para tâmiles. Diz-se que a maioria dos detidos são pessoas que fugiram aos combates no norte do país antes da derrota dos Tigres Tâmiles em Maio. A agência da ONU para os refugiados diz que desde então só cerca de 2000 tâmiles foram libertados e autorizados a regressar às suas aldeias natais, a maioria dos quais, embora não todos, crianças e velhos.

A política governamental é considerar todos os homens e mulheres tâmiles como potenciais «terroristas». O «escrutínio» a que diz estar a submeter os presos dos campos já dura há meses, com apenas uma pequena minoria a ter sequer promessas de libertação em breve. O futuro que os governantes do Sri Lanka estão a planear para os tâmiles pode ser vislumbrado no recente anúncio de que mesmo com o fim dos combates as forças armadas crescerão de 200 para 300 mil membros e que serão construídas novas bases militares no norte da ilha, antiga praça-forte dos Tigres.

Esta repressão está a ser implicitamente aprovada pela «comunidade internacional» sob a liderança dos EUA. O FMI perdeu pouco tempo a aprovar um novo financiamento ao governo do Sri Lanka. Para saber mais sobre o contexto internacional, incluindo o envolvimento dos EUA, ver o SNUMAG de 25 de Setembro de 2009.

O texto que se segue é um relato de Aliya Moghal, da Fundação Médica [MF] de Auxílio às Vítimas da Tortura, com sede na Grã-Bretanha (torturecare.org.uk), com data de 27 de Julho. A situação pouco parece ter mudado desde então.

Em primeiro lugar, eles eram cativos de um conflito em que a sua liberdade e segurança lhes foi retirada a cada instante. Neste momento, uma enorme parte da população tâmil do Sri Lanka encontra-se de novo aprisionada, na sua maior parte afastada da vista pública e completamente desprotegida.

O conflito pode ter terminado oficialmente, mas a batalha para se chegar às vítimas ainda não. As agências humanitárias, a comunicação social e mesmo a Cruz Vermelha, a todas elas tem sido negado acesso aos campos controlados pelos militares, onde está a elanguescer um número de civis calculado em 300 mil, em condições perigosamente depauperadas e hostis.

O governo do Sri Lanka continua a dizer que irá reagrupar as pessoas actualmente internadas, descrevendo a sua luta contra os Tigres Tâmiles como «uma operação humanitária para garantir a segurança do povo da zona». Mas a realidade é muito diferente.

A ONU acusou o governo do Sri Lanka de estar a levar a cabo «uma guerra sem testemunhas». Embora as pessoas que continuam encerradas nos campos estejam impedidas de falar, os depoimentos das que foram afortunadas em sobreviver fornecem um amplo testemunho do agravamento da crise humanitária.

Desde 2006, altura em que o processo de paz acabou por ser abandonado e o norte do Sri Lanka foi uma vez mais assolado pelo conflito, vagas de sobreviventes têm procurado a ajuda da Fundação Médica de Auxílio às Vítimas da Tortura. Em 2005, antes da re-escalada do conflito, registámos apenas 50 pessoas. Em 2008, esse número quase tinha quadruplicado para 187.

Histórias de violações, abusos sexuais, queimaduras com ferros em brasa e longos períodos de prisão solitária são comuns. Todas as partes do conflito, dos Tigres de Libertação do Tamil Eelam (LTTE) à polícia e aos grupos paramilitares, têm estado implicados. O exército do Sri Lanka é particularmente notório pelo seu apetite pela tortura. Contudo, o exército tem evadido qualquer investigação dos seus actos durante a guerra e, desde então, nos campos controlados pelos militares que estão agora a funcionar no norte.

Um dos muitos rapazes tâmiles que sobreviveu ao notório Campo Joseph em Vavuniya, controlado pelos militares, está preocupado com o destino que pode ter tido a sua família, que ele foi forçado a deixar para trás quando fugiu do Sri Lanka o ano passado. Ele foi detido pelos militares durante uma das muitas rusgas que as autoridades fazem em zonas controladas pelos Tigres Tâmiles, seleccionando jovens independentemente de terem tido ou não qualquer envolvimento activo com os LTTE.

Ele foi espancado e abusado sexualmente quase diariamente durante os dois meses em que esteve detido. Nunca foi autorizado a sair da cela vazia em que foi mantido, mas ele recorda vividamente ouvir os gritos de outros tâmiles, em particular mulheres, a serem torturados.

Há apenas uma semana atrás, ele falou com um amigo íntimo que ainda está detido num campo militar no norte, que lhe falou sobre a vida nos campos cercados por arame farpado, onde não há praticamente comida nenhuma e onde as pessoas são tratadas como animais: «Os tâmiles estão a morrer e a desaparecer, isto é um genocídio que o governo está a ajudar a fazer e ninguém ergue um dedo para ajudar enquanto o nosso povo está a ser abatido.»

«Precisamos que o mundo inteiro pressione o governo do Sri Lanka para que permita o acesso a países estrangeiros, caso contrário, a maioria das pessoas estará morta antes que alguém as chegue a ver. Eles devem dar acesso à zona de guerra para se ver quantas pessoas aí foram enterradas e se testemunhar o que há tanto tempo tem sido a vida no meio de toda esta destruição.»

«Não acredito em nada do que o governo diz agora sobre proteger os tâmiles – depois da experiência por que eu passei quando nem sequer cometi nenhum crime, não posso acreditar neles agora.»

Qualquer aspiração que a geração mais jovem de tâmiles tivesse de ter empregos, carreiras e famílias, parece perdida para eles. As suas únicas memórias são de violência e guerra. Se for para lhes darem uma hipótese de reconstruírem o futuro, «o mundo deve ser autorizado a ver e os tâmiles devem ser libertados dos campos e autorizados a voltarem às suas casas».

Mas os exilados na Grã-Bretanha só ouvem histórias de horror nos telefonemas de pessoas do Sri Lanka e nas mensagens retransmitidas pela comunidade tâmil na Grã-Bretanha, de jovens sequestradas dos campos e de sugestões de que o exército ainda tem a intenção de aniquilar a população tâmil.

Uma outra rapariga recorda a brutalidade dos campos, a incessante tortura em que, durante mais de dois meses, foi chicoteada com canas, mantida em prisão solitária, queimada com cigarros e sufocada com uma bolsa encharcada em petróleo. Ela também está cheia de medo, pensando no que pode ter acontecido à sua família, com quem não teve nenhum contacto desde que o ano passado fugiu para a Grã-Bretanha:

«Outras mulheres que foram presas ao mesmo tempo que eu ainda estão nos campos, quem sabe quantas ainda vivem e quantas estão mortas.»

Exilados do seu país e temendo que as suas famílias estejam aprisionadas nos campos ou pior que isso, um pequeno grupo de tâmiles associou-se num grupo terapêutico estabelecido na MF para formar vínculos entre pessoas cujas ligações a todos os que eles consideram queridos foram cortadas pela guerra.

De longe, o que galvaniza a sua coragem, mais que qualquer outra coisa, é a sua determinação em se oporem às tentativas do governo do Sri Lanka de negar os relatos de tortura e maus-tratos. Diz um rapaz:

«Há tanta gente como nós, nós não somos os únicos, e mesmo assim a comunidade internacional não sabe realmente a verdade». Diz uma outra mulher: «Isto aconteceu-me realmente, porque é que o governo não sabe disto?»

Com o povo do Sri Lanka cada vez mais cortado do mundo exterior, é agora mais importante que nunca que o mundo exterior exija ser autorizado a entrar, a fornecer a ajuda que é tão obviamente necessária e a ver a realidade não censurada.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese