A mão dos EUA por trás do golpe de estado nas Honduras
27 de Julho de 2009. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

O primeiro dos dois artigos que se seguem foi retirado de um texto de Eva Golinger publicado inicialmente a 15 de Julho no blogue dela. Golinger, uma advogada venezuelano-americana de Nova Iorque, já escreveu vários livros sobre a intervenção norte-americana contra o regime de Chávez na Venezuela, o mais recente dos quais é Bush vs. Chávez: Washington’s War on Venezuela [Bush contra Chávez: A Guerra de Washington contra a Venezuela] (2007, Monthly Review Press). Reproduzimos o seu breve resumo dos argumentos que está incluído no texto integral colocado em inglês e espanhol em «Postais da Revolução». O segundo artigo foi retirado de uma peça de Linda Cooper e James Hodge publicada inicialmente a 14 de Julho no jornal norte-americano National Catholic Reporter. Os artigos completos também foram reproduzidos na página na internet da revista norte-americana Monthly Review.

Washington e o golpe de estado nas Honduras

• O Departamento de Estado teve conhecimento prévio do golpe.

• O Departamento de Estado e o Congresso norte-americano financiaram e aconselharam os intervenientes e as organizações que participaram no golpe de estado nas Honduras.

• O Pentágono treinou, formou, comandou, financiou e armou as forças armadas hondurenhas que levaram a cabo o golpe de estado e que continuam a reprimir pela força o povo das Honduras.

• A presença militar dos EUA nas Honduras, que ocupam a base militar de Soto Cano (Palmerola), autorizou o golpe de estado através da sua cumplicidade tácita e da recusa em retirarem o seu apoio aos militares hondurenhos envolvidos no golpe.

• O Embaixador dos EUA em Tegucigalpa, Hugo Llorens, coordenou o afastamento do poder do Presidente Manuel Zelaya, em conjugação com o Secretário de Estado Adjunto Thomas Shannon e com John Negroponte, que trabalha actualmente como conselheiro da Secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton.

• Desde o primeiro dia em que ocorreu o golpe, que Washington se tem referido a «ambas as partes» envolvidas e à necessidade de «diálogo» para o restabelecimento da ordem constitucional, legitimando assim os líderes do golpe ao considerá-los como intervenientes iguais em vez de criminosos violadores dos direitos humanos e dos princípios democráticos.

• O Departamento de Estado tem-se recusado a classificar legalmente os acontecimentos nas Honduras como «golpe de estado». Não suspendeu nem congelou a sua ajuda económica ou comercial às Honduras e não tomou nenhuma medida para efectivamente pressionar de facto o regime.

• Washington manipulou a Organização dos Estados Americanos (OEA) de forma a ganhar tempo, permitindo assim que o regime do golpe se consolidasse e debilitasse a possibilidade de regresso imediato do Presidente Zelaya ao poder, como parte de uma estratégia ainda em vigor que visa simplesmente legitimar de facto o regime e desgastar os hondurenhos que ainda resistem ao golpe.

• A Secretária de Estado Clinton e os seus porta-vozes deixaram de falar no regresso do Presidente Zelaya ao poder depois de terem designado o presidente costa-riquenho Oscar Arias como «mediador» entre o regime do golpe e o governo constitucional; e agora, o Departamento de Estado refere-se ao ditador que ilegalmente tomou o poder durante o golpe, Roberto Micheletti, como «presidente interino em exercício».

• A estratégia de «negociar» com o regime do golpe foi imposta pela administração Obama como forma de desacreditar o Presidente Zelaya – culpando-o por provocar o golpe de estado – e de legitimar os líderes do golpe.

• Membros do Congresso dos EUA – Democratas e Republicanos – organizaram uma visita de representantes do regime do golpe das Honduras a Washington, recebendo-os com honras em diferentes arenas da capital dos EUA.

• Apesar do facto de originalmente ter sido o Senador Republicano John McCain a coordenar a visita dos representantes do regime do golpe a Washington, através de uma empresa de lóbi ligada ao seu gabinete, o Cormac Group, agora, o regime ilegal está a ser representado por um lobista de topo e advogado de Clinton, Lanny Davis, que está a usar o seu poder e influência em Washington para obter uma aceitação global – que atravesse as divisões entre partidos – do regime do golpe das Honduras.

• Otto Reich e um venezuelano chamado Robert Carmona-Borjas, conhecido pelo seu papel como advogado do ditador Pedro Carmona durante o golpe de estado de Abril de 2002 na Venezuela, ajudou a preparar as bases do golpe contra o Presidente Zelaya das Honduras.

• A equipa designada por Washington para definir e ajudar a preparar o golpe de estado nas Honduras também incluía um grupo de embaixadores norte-americanos recentemente destacados para a América Central, peritos nos esforços de desestabilização contra a revolução cubana e Adolfo Franco, ex-administrador do programa de «transição de Cuba para a democracia» da US AID.

Ninguém duvida que há impressões digitais de Washington por toda a parte no golpe de estado contra o Presidente Manuel Zelaya, que teve início a 28 de Junho passado. Muitos analistas, escritores, activistas e mesmo presidentes têm denunciado esse papel. Apesar disso, a maioria concorda em desculpar a Administração Obama de qualquer responsabilidade no golpe de estado hondurenho, culpando em vez disso os resquícios da era Bush-Cheney e os falcões da guerra que ainda permanecem nos corredores da Casa Branca. A evidência mostra que embora seja certo que estão envolvidos os «suspeitos» do costume que levaram a cabo os golpes e as actividades de desestabilização na América Latina, existem amplas provas que confirmam o papel directo da nova administração de Washington no golpe hondurenho.

Os EUA continuam a treinar soldados hondurenhos

Numas controversas instalações em Fort Benning, Geórgia [EUA] – anteriormente conhecida como Escola das Américas (SOA) do exército norte-americano – continuam a ser treinados oficiais hondurenhos, apesar das alegações da administração Obama de ter cortado os laços militares com as Honduras após o seu presidente ter sido derrubado a 28 de Junho, soube o National Catholic Reporter.

Um dia depois de um general do exército treinado na SOA ter desalojado o Presidente hondurenho Manuel Zelaya sob a ameaça de armas, o Presidente Barack Obama declarou que «o golpe de estado não era legal» e que Zelaya continuava a ser o «presidente democraticamente eleito».

O Acto de Apropriações de Operações Estrangeiras requer que a ajuda militar e o treino dos EUA sejam suspensos quando um país sofre um golpe militar, e a administração Obama indicou que esses passos teriam sido dados.

Porém, Lee Rials, oficial de relações públicas do Instituto do Hemisfério Ocidental para a Cooperação de Segurança, o sucessor da SOA, confirmou segunda-feira que oficiais hondurenhos continuavam a ser treinados na escola.

A escola treinou 431 oficiais hondurenhos entre 2001 e 2008, e previa treinar cerca de 88 durante este ano, disse Rials, que não pôde fornecer os seus nomes.

O general que derrubou Zelaya – Romeo Orlando Vásquez Velásquez – formou-se por duas vezes na SOA, que os críticos têm apelidado de «Escola dos Golpes» porque treinou muitos dos líderes de golpes de estado, incluindo dois outros diplomados hondurenhos, o General Juan Melgar Castro e o General Policarpo Paz García. Vasquez não é o único diplomado da SOA que está ligado ao actual golpe ou que trabalha para o governo de facto. Entre outros estão [segue-se uma lista descritiva de dois generais e três coronéis].

O actual treino de hondurenhos em Fort Benning não é a única evidência de ligações militares EUA-Honduras não quebradas desde o golpe.

Uma outra ligação foi descoberta pelo Padre Maryknoll Roy Bourgeois, fundador do SOAW [Observatório da SOA] quando estava numa missão de descoberta de factos às Honduras na semana passada. [O SOAW, que tem organizado várias acções contra a Escola das Américas, levou a cabo a 25 de Julho um protesto contra a intervenção norte-americana nas Honduras, na sede do Comando Meridional do Exército dos EUA na Florida – ver soaw.org.]

Bourgeois – acompanhado de dois advogados, Kent Spriggs e Dan Kovalik – visitou a base aérea de Soto Cano/Palmerola, a noroeste de Tegucigalpa, onde está estacionada a Equipa Conjunta Bravo do Comando Meridional dos EUA.

«Havia helicópteros a voar por todo o lado e nós falamos com o oficial norte-americano responsável, o Sargento Reyes» sobre a relação EUA-Honduras, disse Bourgeois. «Perguntámos-lhe se alguma coisa tinha mudado desde o golpe e ele disse que não, nada».

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese