Maoistas iranianos: «Queriam luta? Vamos à luta!»
15 de Junho de 2009. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Reproduzimos de seguida um folheto publicado a 15 de Junho pelo Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista). O título é um desafio ao regime.

Revolta, situação revolucionária, uma explosão do ódio sentido por milhões de pessoas em todo o país: não interessa o que se chama aos recentes acontecimentos. O que interessa é que entrámos num novo período. Muitas pontes foram derrubadas e em muitas esferas já não há forma de regresso ao passado. Os rapazes e as raparigas que corajosamente lutam nas ruas reflectem o descontentamento e a fúria de três gerações. Os rostos estão ensanguentados e os corpos feridos, mas ninguém fala em retirada nem em rendição. Mercenários armados até aos dentes e manadas de lúmpenes vagueiam pelas ruas. Mas ninguém lhes presta qualquer atenção. Os pais acompanham os seus filhos nas ruas. O choque inicial e a desmoralização estão a desaparecer rapidamente.

Nas mentes de milhões de pessoas, a vergonha da farsa eleitoral da República Islâmica do Irão [RII] desacreditou «a possibilidade de mudança e correcção do regime a partir de dentro» muito mais rápida e efectivamente que qualquer debate e argumentação política. A principal facção assumiu um sério risco com isto. E agora, muitos dos jovens rebeldes estão a pensar em formas de realmente se libertarem do regime.

Houve ontem um claro exemplo disso na resposta dos estudantes a Zahra Rahnavard [casada com Mir-Hossein Mousavi], que tinha ido à universidade [de Teerão] para os acalmar: «Nós não viemos combater pela presidência de Mousavi, viemos derrotar o golpe e esmagar o sistema dos ditadores».

Essa facção está a tentar impor as suas próprias grilhetas nas mentes das pessoas ao tentar popularizar o slogan «Alá é grande» e ao adoptar a cor verde [símbolo do Islão]. Tenta canalizar a energia e a imaginação do povo para a fossa das suas próprias negociações com o «Líder» e com a facção dominante. Esta situação coloca uma tarefa urgente sobre os ombros de todos os jovens, mulheres e trabalhadores corajosos e conscientes: que participem nas batalhas de rua com palavras de ordem e comunicados e que ajudem a alargar e a aprofundar ao máximo as perspectivas e as aspirações das massas populares. Isto é a pré-condição para continuarem a evitar as vias erradas que as diferentes facções da classe dominante estão a tentar fazer que as pessoas tomem. As palavras de ordem da revolta devem ir mais longe que as palavras de ordem limitadas e vulgares que visam os ditadores – Ahmadinejad e Khamenei – e a sua infâmia e deve-se acrescentar outras palavras de ordem apropriadas:

Somos mulheres e homens de guerra. Querem luta? Vamos à luta!
Não queremos uma monarquia islâmica!
Não queremos uma república islâmica!
Não queremos o domínio islâmico!
Canhões, tanques e basiji [milícias] já não nos intimidam!
A única via para a libertação é a perseverança e a persistência!
Pobreza, corrupção, desemprego = república islâmica!
Não queremos o véu obrigatório!

A aresta afiada da insurreição visa o bando criminoso de Ahmadinejad e dos principais encenadores por trás dele (um sector dos grandes capitalistas, dos chefes do exército e dos serviços secretos e um sector do clero xiita). Mas será um grande erro reduzirmos todo o sistema aos putschistas de hoje. Todas as facções deste sistema de estado, incluindo os «reformistas», passaram 30 anos no crime e no roubo. O facto de os lobos estarem agora a atacar as gargantas uns dos outros não altera de forma nenhuma a natureza antipopular dessas facções. Mas a brecha dentro da República Islâmica não tem precedentes. Perturbou a coerência interna do regime e debilitou-o face ao povo. A demonstração de força de Ahmadinejad & Companhia é um sinal de desespero.

As pessoas devem aproveitar ao máximo o enfraquecimento do estado e dar-lhe golpes efectivos. As mulheres, os jovens, os operários e os professores devem conquistar reivindicações e direitos com as suas próprias mãos. Por exemplo, as mulheres podem acabar na prática com o véu obrigatório e formar células e encarregarem-se de liderar as lutas das mulheres pela sua libertação. Os estudantes de esquerda podem e devem formar um quartel-general de coordenação da comunicação a nível nacional, para divulgar as notícias da luta e as suas próprias directivas e slogans e para os popularizar de uma forma generalizada. Não podemos deixar que Mousavi e a facção reformista se tornem no quartel-general da luta das massas. Se essa facção se tornar a «representante» do povo, isso será um golpe muito pesado na actual vaga libertadora. Precisamos do nosso próprio quartel-general revolucionário. Esse quartel-general activo, mesmo que pequeno, pode tornar-se na base para uma organização de estudantes de âmbito nacional. Os operários de várias fábricas, de Ahvaz a Haft Tapeh, Karaj, Arak e Tabriz, podem formar rapidamente as células iniciais de uma organização de operários e tornar-se na voz geral do povo contra a República Islâmica. Ao proporem slogans e reivindicações correctos, eles podem tornar-se na verdadeira voz do povo e afastar o pensamento do povo «tanto de Mousavi como de Ahmadinejad» e explicar que «tanto Mousavi como Ahmadinejad» são exactamente a RII cuja experiencia temos tido durante os últimos 30 anos.

A anterior geração de comunistas e militantes da libertação pode representar um importante papel nestas duas tarefas: em primeiro lugar, têm a tarefa de elevar as perspectivas do povo dos estreitos horizontes reformistas e, em segundo lugar, transformar os vínculos iniciais que se estão a desenvolver nas ruas e no calor da luta em laços de longa duração em células e em várias redes. Não há dúvida nenhuma que o núcleo activo e a força de combate deste projecto político revolucionário avançado devem ser compostos por jovens estudantes e operários, nas universidades, nos bairros e nas fábricas.

As pessoas têm que saber que Mousavi, Khatami, Rafsanjani e toda a facção «reformista» do regime em geral estão a negociar por trás dos bastidores com o «Líder» e os chefes do exército e dos serviços secretos para impedirem o colapso de toda a estrutura da RII face à ira popular. As pessoas têm que saber que há movimentações por trás dos bastidores entre os chefes da RII e as potências regionais e mundiais (como a China, a UE, a Turquia e os EUA), com o objectivo de pôr um fim pacífico aos «acontecimentos». A principal preocupação dos EUA é iniciar negociações com a RII para resolver os seus problemas no Afeganistão e no Paquistão. No seu importante discurso no Egipto – onde chegou a elogiar o véu islâmico –, Barack Obama salientou que não tem nenhum problema com uma república islâmica. No momento actual, os EUA não são favoráveis a uma «ruptura» com a estrutura de governo da RII.

De tudo isto, pode-se retirar uma importante e decisiva conclusão: o povo começou a perceber o seu poder. Esse poder precisa de organização. A consciência das pessoas está a evoluir rapidamente. A sua compreensão pode e tem que crescer e chegar à perspectiva do derrube da RII e de fazer uma verdadeira revolução, que concentre os sonhos reprimidos e os desejos da maioria das pessoas do Irão.

No seu discurso na Praça Vali Asr, Ahmadinejad chamou «escumalha» às massas que se ergueram e disse que «o rio límpido do povo» os afastará! Este tipo de conversa significa que a luta que está a decorrer é séria e que, se a quisermos levar até ao fim, precisamos de nos prepararmos. O regime e as suas várias facções têm os seus próprios centros políticos para decisões políticas, desenvolvimento de slogans e manipulação do povo. O povo precisa dos seus próprios centros para analisar a situação política e definir políticas que elevem a consciência e continuem a nossa própria luta.

O regime tem os seus generais e quartéis-generais para a acção militar e de informações para reprimir as massas. O povo deve ter o seu próprio quartel-general para a coordenação, a solidariedade e a organização das nossas próprias forças.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese