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| Rebeldes na
Praça Tiananmen em 1989 com uma foto de Mao Tsétung. O homem à
esquerda traz consigo o Livro Vermelho de Citações do Presidente Mao
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Era um porco a andar sobre as patas traseiras. Sim, era o Squealer. Um pouco desajeitadamente, como se não estivesse habituado a suportar o seu peso considerável naquela posição, mas com perfeito equilíbrio, passeava pelo pátio. Logo a seguir, saiu pela porta da casa uma longa fila de porcos, todos a caminhar sobre as patas traseiras (...) E, no fim, ouviu-se um tremendo ladrar de cães (...) e surgiu o próprio Napoleão, majestosamente erecto, lançando olhares arrogantes para um e outro lado, com os cães saltitando à sua volta. Na pata trazia um chicote. – George Orwell, Animal Farm [O Triunfo dos Porcos em Portugal / A Revolução dos Bichos no Brasil].
É difícil pensar num acontecimento político que tenha sido objecto de uma tão errada interpretação no Ocidente que a manifestação de Tiananmen e a sua brutal repressão pelo governo chinês. Esquecendo as políticas da revolução chinesa, tornando num acto de fé a crença de que as «Reformas» de Deng Xiaoping trouxeram um grande benefício à China e de que os chineses apenas estavam a pedir mais reformas, os observadores e analistas ocidentais viram o que queriam ver: uma reedição oriental da rejeição do comunismo na Europa de Leste.
A falência da análise ocidental é visível na caótica confusão semântica, que agora degenerou em total distorção, das suas descrições das facções políticas na China pós-revolucionária: «Radicais», «Conservadores», «Reaccionários», «Linha Dura», as etiquetas e a sua utilização têm sido trocadas e alteradas de uma forma atordoante. A facção dominante na China, que é melhor chamar denguista, tem, claro, contribuído deliberadamente para a confusão com a sua própria camuflagem verbal camaleónica, apresentando-se primeiro como apoiantes de Mao Tsétung contra aqueles a quem chamavam inimigos dele e deles, o «Bando dos Quatro»; e depois de consolidado o poder que tomaram no golpe de estado de 1976, actuando no sentido de repudiarem a Revolução Cultural para rejeitarem tacitamente o próprio Mao – segundo eles, um «louco solitário» durante os últimos 19 anos da sua vida; e, por fim, Deng, para justificar a sua repressão, é visto a papaguear a linguagem dos seus próprios atormentadores durante a Revolução Cultural e a rotular as suas vítimas de «contra-revolucionários».
As chaves para a clarificação desta confusão estão disponíveis. As mais detalhadas, precisas e sofisticadas estão nos textos dos «maoistas» da China, mas para os que acham suspeitas essas fontes, O Triunfo dos Porcos serve. As lições morais esópicas dessa grande fábula política são duas: que as revoluções nascem infectadas com o vírus da contra-revolução, ou seja, que os que lideram a estruturação de uma sociedade revolucionária podem tornar-se numa classe em que a sua destruição serve os seus próprios interesses; e que nesta era histórica a contra-revolução sempre se apresentará como a continuação da revolução. Usando as palavras de Orwell, na revolução chinesa os «porcos» tomaram o poder em finais dos anos 70 e instituíram políticas de restauração e regressão que inverteram progressivamente os sucessos das três décadas anteriores; e, claro, no mundo «humano» fora da Quinta, essas «Reformas» e as ridículas imitações humanóides dos porcos, no golfe ou nos coches de rodeio, foram entusiasticamente aplaudidas.
Não se sabe se Mao alguma vez soube da existência de O Triunfo dos Porcos, mas certamente que ele o viveu.
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| Barricadas num
bairro de Pequim bloqueiam os camiões do Exército em Maio de 1989 |
Nesse cenário, os camponeses deporiam as armas com que tinham feito a revolução, pegariam de novo nas suas foices e enxadas e labutariam como desde sempre até que os benefícios da modernização começassem a pingar para o sector rural. E mesmo nessa altura, haveria outros níveis de filtragem: uma renascente classe de camponeses ricos e de potenciais proprietários aliados aos interesses urbanos teria que ser a primeira a beneficiar para que a agricultura pudesse gerar os excedentes necessários à modernização industrial.
Para os maoistas, o objectivo era construir uma sociedade que servisse os interesses dos camponeses e dos operários, cujo número aumentaria rapidamente à medida que a China se industrializasse. Em relação aos camponeses, a confiança de Mao em que eles tivessem um entusiasmo potencialmente inesgotável pelo socialismo foi confirmada pela extraordinariamente comprimida saga dos anos 50 que levou a China rural de uma agricultura de pequena propriedade e que a distribuição de terras tinha expandido e revigorado – e que Mao reconheceu como a via de regresso à estagnação e à pobreza para a maioria – até às fases primitivas e posteriormente sofisticadas de cooperação e, com o acelerar do passo, para as quintas colectivas e as recém-concebidas comunas populares, com todo o seu enorme potencial de desenvolvimento sustentado, global e flexível.
É este triunfo, com um aumento secular da produção agrícola que retirou da pobreza a maioria dos camponeses – digamos, 60 por cento – nuns meros 25 anos, que os denguistas têm tido que negar e desmentir para provarem a sua falsa alegação de que herdaram de Mao uma estratégia agrícola fracassada e que tiveram que introduzir as suas Reformas para salvarem uma economia à beira do colapso. Os crédulos especialistas ocidentais, muito dispostos a reconhecer os «Reformadores» e que tão ansiosos estavam em aprender com eles, alegraram-se por aceitarem essas formulações.
No início dos anos 50, tornou-se evidente que a estratégia de crescimento a todo o custo para o desenvolvimento da China, que iria inverter o impulso igualitário da revolução e pôr em risco a recém-conquistada independência económica do país, tinha apoiantes leais na liderança comunista. Os maoistas reconheceram que a estratégia a que eles chamaram a «Via Capitalista» levaria a uma vaga de prosperidade rural de tipo injecção rápida e aceitaram que isso criaria uma poderosa motivação entre muitos camponeses; mas previram que os seus efeitos benéficos seriam de curta duração, conseguidos à custa dos factores de crescimento de longo prazo que a colectivização tinha introduzido na economia rural.
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| Manifestação
de trabalhadores em Pequim, em Junho de 1989 |
A Revolução Cultural foi o contra-ataque dos maoistas contra essa classe emergente, cuja hostilidade à revolução podia ser deduzida das suas políticas, embora isso, claro, tenha sido negado na sua retórica. Embora à primeira vista parecesse que a Revolução Cultural tinha tido sucesso na consolidação e no avanço dos princípios e práticas igualitárias que serviam o socialismo, o poder da direita denguista no Partido Comunista não foi destruído, apenas tinha feito uma retirada táctica. Por volta de meados dos anos 70, a Revolução Cultural estava na defensiva e a direita ressurgia. Em 1976, ano da sua morte, Mao foi citado a dizer aos quadros da China: «Vocês estão a fazer a revolução socialista e ainda não sabem onde está a burguesia. Está no próprio Partido Comunista – os que estão no poder e seguem a via capitalista. Os seguidores da via capitalista mantêm-se na via capitalista.»
E realmente mantiveram-se. Passado apenas um mês após a morte de Mao, eles atacaram, num clássico golpe de estado pretoriano. A Unidade 8341 do EPL [Exército Popular de Libertação], encarregue da segurança da liderança nacional, foi usada contra a esquerda e aí começou a grande regressão da China, a sua Restauração. Tal como Mao tinha previsto, assim que a direita obtivesse todo o poder na liderança do partido, a purga da esquerda seria facilmente conseguida e a China poderia ser obrigada a «mudar de cor». Mao também previu que as políticas da «via capitalista» mostrariam ser um atalho para a catástrofe no país, levando-o ao colapso económico e à desordem social. Isso demorou apenas uma década.
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| Os operários
juntam-se aos estudantes na Praça Tiananmen. A faixa diz: «Chegámos!».
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As «Reformas», que tão constantemente têm sido aplaudidas pelos apoiantes ocidentais de Deng Xiaoping, deixaram a China a enfrentar um longo período de divisão e agitação. O novo exército modelo de Deng já não podia ser usado com êxito como instrumento de coerção do governo para a China no seu todo, e o processo de desintegração política que então começou não podia ser prontamente invertido. Os problemas que Pequim enfrentava eram enormes e sem solução, mesmo antes de os estudantes terem ido para a Praça Tiananmen: não só uma economia fora de controlo e uma moeda ameaçada por uma inflação acelerada mas também, mais mortífera que tudo o resto, uma grave escassez de cereais que era a consequência directa da descolectivização da agricultura. A China iria precisar de um governo coerente e efectivo com o apoio de um povo unido para traçar o rumo para a sobrevivência nacional atravessando as correntes rápidas para onde as «Reformas» a levaram. Tal como está, tendo como únicas alternativas um governo repressivo do exército ou os desafios pela força que podem levar a uma guerra civil, a China enfrenta um inevitável regresso à desordem, à fragmentação e à pobreza das massas de que a sua revolução já a tinha libertado.
| Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese |