China: O verdadeiro significado do massacre na Praça Tiananmen em 1989
8 de Junho de 2009. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Rebeldes na Praça Tiananmen em 1989 com uma foto de Mao Tsétung. O homem à esquerda traz consigo o Livro Vermelho de Citações do Presidente Mao

O seguinte artigo, originalmente intitulado «China: Estado fascista declara o fim da via capitalista», foi escrito pelo professor de História da Universidade de Oxford Neville Maxwell e publicado na revista Um Mundo A Ganhar nº 14 de 1989 (www.aworldtowin.org). A integração da China no sistema capitalista mundial fez com que o país não tivesse seguido o tipo de caminho linear rumo «ao colapso económico e à desordem social» previsto neste artigo, mas a análise e a crítica acerbada dos desenvolvimentos na China após a morte de Mao em 1976 e o massacre de estudantes na Praça Tiananmen em 1989 permanecem basicamente correctas e muito pertinentes.

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Era um porco a andar sobre as patas traseiras. Sim, era o Squealer. Um pouco desajeitadamente, como se não estivesse habituado a suportar o seu peso considerável naquela posição, mas com perfeito equilíbrio, passeava pelo pátio. Logo a seguir, saiu pela porta da casa uma longa fila de porcos, todos a caminhar sobre as patas traseiras (...) E, no fim, ouviu-se um tremendo ladrar de cães (...) e surgiu o próprio Napoleão, majestosamente erecto, lançando olhares arrogantes para um e outro lado, com os cães saltitando à sua volta. Na pata trazia um chicote. – George Orwell, Animal Farm [O Triunfo dos Porcos em Portugal / A Revolução dos Bichos no Brasil].

É difícil pensar num acontecimento político que tenha sido objecto de uma tão errada interpretação no Ocidente que a manifestação de Tiananmen e a sua brutal repressão pelo governo chinês. Esquecendo as políticas da revolução chinesa, tornando num acto de fé a crença de que as «Reformas» de Deng Xiaoping trouxeram um grande benefício à China e de que os chineses apenas estavam a pedir mais reformas, os observadores e analistas ocidentais viram o que queriam ver: uma reedição oriental da rejeição do comunismo na Europa de Leste.

A falência da análise ocidental é visível na caótica confusão semântica, que agora degenerou em total distorção, das suas descrições das facções políticas na China pós-revolucionária: «Radicais», «Conservadores», «Reaccionários», «Linha Dura», as etiquetas e a sua utilização têm sido trocadas e alteradas de uma forma atordoante. A facção dominante na China, que é melhor chamar denguista, tem, claro, contribuído deliberadamente para a confusão com a sua própria camuflagem verbal camaleónica, apresentando-se primeiro como apoiantes de Mao Tsétung contra aqueles a quem chamavam inimigos dele e deles, o «Bando dos Quatro»; e depois de consolidado o poder que tomaram no golpe de estado de 1976, actuando no sentido de repudiarem a Revolução Cultural para rejeitarem tacitamente o próprio Mao – segundo eles, um «louco solitário» durante os últimos 19 anos da sua vida; e, por fim, Deng, para justificar a sua repressão, é visto a papaguear a linguagem dos seus próprios atormentadores durante a Revolução Cultural e a rotular as suas vítimas de «contra-revolucionários».

As chaves para a clarificação desta confusão estão disponíveis. As mais detalhadas, precisas e sofisticadas estão nos textos dos «maoistas» da China, mas para os que acham suspeitas essas fontes, O Triunfo dos Porcos serve. As lições morais esópicas dessa grande fábula política são duas: que as revoluções nascem infectadas com o vírus da contra-revolução, ou seja, que os que lideram a estruturação de uma sociedade revolucionária podem tornar-se numa classe em que a sua destruição serve os seus próprios interesses; e que nesta era histórica a contra-revolução sempre se apresentará como a continuação da revolução. Usando as palavras de Orwell, na revolução chinesa os «porcos» tomaram o poder em finais dos anos 70 e instituíram políticas de restauração e regressão que inverteram progressivamente os sucessos das três décadas anteriores; e, claro, no mundo «humano» fora da Quinta, essas «Reformas» e as ridículas imitações humanóides dos porcos, no golfe ou nos coches de rodeio, foram entusiasticamente aplaudidas.

Não se sabe se Mao alguma vez soube da existência de O Triunfo dos Porcos, mas certamente que ele o viveu.

Barricadas num bairro de Pequim bloqueiam os camiões do Exército em Maio de 1989

O Partido Comunista da China dividiu-se quase imediatamente após a sua vitória em 1949. A coligação de classes que Mao tinha reunido e que esmagou o regime do decadente Kuomintang dividiu-se sobre o futuro caminho da China, no que à primeira vista pareciam ser meras diferenças de prioridades. Mas as diferenças eram de facto absolutas. Para os denguistas (cujo primeiro líder foi Liu Shao-qui) a tarefa preeminente era a de fazer da China um poderoso estado moderno, e os líderes naturais – e os seus principais beneficiários – desse processo seriam inevitavelmente a burocracia, aliada à intelligentsia, reforçada por elementos da velha ordem e apoiada por qualquer amigo que pudessem ganhar no estrangeiro. Numa palavra, uma nova burguesia – mas uma burguesia que deveria ser controlada, estritamente se necessário, pelo Partido Comunista.

Nesse cenário, os camponeses deporiam as armas com que tinham feito a revolução, pegariam de novo nas suas foices e enxadas e labutariam como desde sempre até que os benefícios da modernização começassem a pingar para o sector rural. E mesmo nessa altura, haveria outros níveis de filtragem: uma renascente classe de camponeses ricos e de potenciais proprietários aliados aos interesses urbanos teria que ser a primeira a beneficiar para que a agricultura pudesse gerar os excedentes necessários à modernização industrial.

Para os maoistas, o objectivo era construir uma sociedade que servisse os interesses dos camponeses e dos operários, cujo número aumentaria rapidamente à medida que a China se industrializasse. Em relação aos camponeses, a confiança de Mao em que eles tivessem um entusiasmo potencialmente inesgotável pelo socialismo foi confirmada pela extraordinariamente comprimida saga dos anos 50 que levou a China rural de uma agricultura de pequena propriedade e que a distribuição de terras tinha expandido e revigorado – e que Mao reconheceu como a via de regresso à estagnação e à pobreza para a maioria – até às fases primitivas e posteriormente sofisticadas de cooperação e, com o acelerar do passo, para as quintas colectivas e as recém-concebidas comunas populares, com todo o seu enorme potencial de desenvolvimento sustentado, global e flexível.

É este triunfo, com um aumento secular da produção agrícola que retirou da pobreza a maioria dos camponeses – digamos, 60 por cento – nuns meros 25 anos, que os denguistas têm tido que negar e desmentir para provarem a sua falsa alegação de que herdaram de Mao uma estratégia agrícola fracassada e que tiveram que introduzir as suas Reformas para salvarem uma economia à beira do colapso. Os crédulos especialistas ocidentais, muito dispostos a reconhecer os «Reformadores» e que tão ansiosos estavam em aprender com eles, alegraram-se por aceitarem essas formulações.

No início dos anos 50, tornou-se evidente que a estratégia de crescimento a todo o custo para o desenvolvimento da China, que iria inverter o impulso igualitário da revolução e pôr em risco a recém-conquistada independência económica do país, tinha apoiantes leais na liderança comunista. Os maoistas reconheceram que a estratégia a que eles chamaram a «Via Capitalista» levaria a uma vaga de prosperidade rural de tipo injecção rápida e aceitaram que isso criaria uma poderosa motivação entre muitos camponeses; mas previram que os seus efeitos benéficos seriam de curta duração, conseguidos à custa dos factores de crescimento de longo prazo que a colectivização tinha introduzido na economia rural.

Manifestação de trabalhadores em Pequim,
em Junho de 1989

Durante a década de 50 e sobretudo após os primeiros anos da década de 60, em que a facção denguista do Partido teve oportunidade de introduzir, cautelosamente, aquilo que mais tarde conseguiria impor como sendo «as Reformas», Mao desenvolveu uma análise das políticas dos seus opositores que prosseguiu para um diagnóstico da sua afiliação de classe. Por volta de meados dos anos 60, os maoistas tinham concluído que estava a emergir na China uma nova burguesia e que os camponeses e operários que constituíam a vasta maioria da sociedade estavam envolvidos numa relação de conflito – de classe – com os burocratas que formulavam as políticas que moldavam as suas vidas e com os grupos ligados ou com pontos comuns com a burocracia: os profissionais, os intelectuais, os quadros do partido – sobretudo os dos níveis mais elevados – e as suas famílias.

A Revolução Cultural foi o contra-ataque dos maoistas contra essa classe emergente, cuja hostilidade à revolução podia ser deduzida das suas políticas, embora isso, claro, tenha sido negado na sua retórica. Embora à primeira vista parecesse que a Revolução Cultural tinha tido sucesso na consolidação e no avanço dos princípios e práticas igualitárias que serviam o socialismo, o poder da direita denguista no Partido Comunista não foi destruído, apenas tinha feito uma retirada táctica. Por volta de meados dos anos 70, a Revolução Cultural estava na defensiva e a direita ressurgia. Em 1976, ano da sua morte, Mao foi citado a dizer aos quadros da China: «Vocês estão a fazer a revolução socialista e ainda não sabem onde está a burguesia. Está no próprio Partido Comunista – os que estão no poder e seguem a via capitalista. Os seguidores da via capitalista mantêm-se na via capitalista.»

E realmente mantiveram-se. Passado apenas um mês após a morte de Mao, eles atacaram, num clássico golpe de estado pretoriano. A Unidade 8341 do EPL [Exército Popular de Libertação], encarregue da segurança da liderança nacional, foi usada contra a esquerda e aí começou a grande regressão da China, a sua Restauração. Tal como Mao tinha previsto, assim que a direita obtivesse todo o poder na liderança do partido, a purga da esquerda seria facilmente conseguida e a China poderia ser obrigada a «mudar de cor». Mao também previu que as políticas da «via capitalista» mostrariam ser um atalho para a catástrofe no país, levando-o ao colapso económico e à desordem social. Isso demorou apenas uma década.

Os operários juntam-se aos estudantes na Praça Tiananmen. A faixa diz: «Chegámos!».

O problema, do ponto de vista dos denguistas, era que se o Partido Comunista fosse usado para enterrar o socialismo, mudaria para algo muito diferente e tornar-se-ia num partido estalinista ou mesmo fascista. Os estudantes de Tiananmen sabiam, tal como a maioria dos chineses, que o Partido se tinha tornado corrupto e distante, e talvez também acreditassem que tinha ficado impotente e irrelevante. Eles esqueceram-se que Deng já tinha concluído muita da «profissionalização» que pretendia fazer no exército, para que deixasse de ser um «exército popular de libertação», guardião da moral e dos valores sociais, e que aprendesse a marchar à ganso e a obedecer, como qualquer outra força do terceiro mundo.

As «Reformas», que tão constantemente têm sido aplaudidas pelos apoiantes ocidentais de Deng Xiaoping, deixaram a China a enfrentar um longo período de divisão e agitação. O novo exército modelo de Deng já não podia ser usado com êxito como instrumento de coerção do governo para a China no seu todo, e o processo de desintegração política que então começou não podia ser prontamente invertido. Os problemas que Pequim enfrentava eram enormes e sem solução, mesmo antes de os estudantes terem ido para a Praça Tiananmen: não só uma economia fora de controlo e uma moeda ameaçada por uma inflação acelerada mas também, mais mortífera que tudo o resto, uma grave escassez de cereais que era a consequência directa da descolectivização da agricultura. A China iria precisar de um governo coerente e efectivo com o apoio de um povo unido para traçar o rumo para a sobrevivência nacional atravessando as correntes rápidas para onde as «Reformas» a levaram. Tal como está, tendo como únicas alternativas um governo repressivo do exército ou os desafios pela força que podem levar a uma guerra civil, a China enfrenta um inevitável regresso à desordem, à fragmentação e à pobreza das massas de que a sua revolução já a tinha libertado.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese