Protegendo o G20: A inoportuna morte de Ian Tomlinson
8 de Abril de 2009. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Poucas horas depois de ter sido publicada a edição de ontem do nosso Serviço Noticioso, a névoa que rodeia a morte de Ian Tomlinson durante os protestos contra o G20 foi levantada por um vídeo entregue ao jornal Guardian por um banqueiro de Nova Iorque, que disse ter assistido aos protestos «por curiosidade». O vídeo, em conjunto com um crescente número de relatos de testemunhas oculares, estabelece agora claramente que a polícia atacou Tomlinson sem aviso nem provocação, atirando-o brutalmente para o chão, onde foi deixado sem assistência, e que ele morreu momentos depois. (O vídeo está largamente disponível no YouTube, e as declarações das testemunhas nos sítios internet do Guardian e outras.)

Os factos conhecidos são os seguintes: Tomlinson, de 47 anos, tinha saído do quiosque onde vende jornais no bairro financeiro de Londres e foi à vizinha estação de metro de Bank, onde às 19h lhe foi negada a entrada por um cordão policial. Tentou então ir para casa pelas ruas cheias de manifestantes, polícias e transeuntes. O vídeo mostra então claramente Tomlinson às 19h15, a afastar-se de um grupo de polícias de choque, de costas para eles, a olhar para baixo e com as duas mãos nos bolsos. Subitamente, um dos policiais aproxima-se de Tomlinson por trás, parece golpeá-lo com uma moca na parte de trás das pernas e depois empurra-o com as duas mãos para o chão. Tomlinson cai rigidamente e, de facto, as testemunhas dizem que foi tão rigidamente que «ricocheteou» no pavimento. Ficou aí no chão durante alguns segundos, protestando com o grupo de polícias, antes de um manifestante o ajudar a pôr-se de pé. As testemunhas dizem que então Tomlinson cambaleou, mas que parecia entorpecido, com os olhos vidrados. Momentos depois, apenas 50 metros mais à frente, caiu e morreu.

Quarta-feira à noite, pouco depois da morte de Tomlinson, porta-vozes da polícia fizeram uma breve comunicação aos jornalistas, na qual esconderam qualquer referência ao contacto com Tomlinson, dizendo que se tinham oferecido para lhe prestar ajuda médica e alegando que os manifestantes tinham interferido nos seus esforços para salvarem a sua vida. Essas mentiras descaradas foram uma tentativa de voltar a realidade de pernas para o ar, como se tivessem sido os valentes polícias a tentarem salvar um espectador inocente ameaçado por manifestantes insensíveis. Pelo contrário, a verdade está agora aí para todos a verem: brutais arruaceiros manejadores de bastões e em uniforme brutalizando uma pessoa que abandonam e que é então ajudada por manifestantes. Um jornalista da ITV relatou agora que um membro da sua equipa noticiosa tinha tentado ajudar Tomlinson depois de ele ter caído, mas que fora afastado por uma carga de bastões policiais, e que depois um outro membro da equipa noticiosa tinha reportado o infortúnio de Tomlinson à polícia mas fora repelido.

Algumas pessoas poderiam pensar que, dada a exposição de como a polícia mentiu escandalosamente a seguir ao seu assassinato de Jean Charles de Menezes, o jovem brasileiro que foi atingido 7 vezes na cabeça à queima-roupa pela polícia metropolitana pouco depois dos atentados de Julho de 2005 em Londres, ela pensaria duas vezes antes de mentir novamente, tão cedo e de uma forma tão descarada. Mas o que é que na realidade aconteceu na sequencia desse assassinato? Qual foi o resultado de todas as investigações e audições subsequentes realizadas por todas as comissões independentes e tribunais sobre o assassinato de Menezes pela polícia? Nem um único polícia passou um dia na prisão ou foi sequer despromovido – de facto, o chefe da operação, Cressida Dick, foi mesmo premiado com uma promoção. Assim, porque é que eles não haveriam de mentir novamente para encobrirem mais um dos seus actos sangrentos?

Depois da divulgação do vídeo, Peter Smyth, presidente da Federação da Polícia Metropolitana, deu à Rádio 4 a explicação de que, «num dia assim... surge inevitavelmente algum confronto físico. Às vezes não é claro, para um agente da polícia, quem são os manifestantes e quem não são. Eu sei que é uma generalização, mas qualquer pessoa nessa parte da cidade nesse momento seria assumida como parte do protesto.» O que é que isto pode querer dizer senão que se Tomlinson tivesse sido de facto um manifestante, então teria sido muito razoável para a polícia atacá-lo por trás, atirá-lo ao chão e matá-lo! E tomem nota: não foi um touro soldado raso apanhado desprevenido, foi o porta-voz profissional da polícia, instruído e treinado para uma grande apresentação à comunicação social. Será de admirar porque é que para tanta gente eles sejam conhecidos como «porcos»!?

E quanto à própria comunicação social? Será que ela se atirou avidamente à história, tentando investigar a verdade, atormentada pela forma como tinha repetido pura e simplesmente as mentiras da polícia no de caso de Menezes, uma após outra? Pelo contrário, uma vez mais, tal como após o assassinato de Menezes, a versão policial dos acontecimentos dominou o éter, com o Daily Telegraph a alegar raivosamente que Tomlinson tinha morrido «depois de ter sido apanhado entre a turba» (o que é muito verdade, se se perceber quem realmente é a «turba»).

Uma das razões pela qual a polícia pode ter decidido mentir assim tão descaradamente em circunstâncias onde poderia ter previsto que seria apanhada foi evitar a explosão de indignação que certamente se teria seguido no dia seguinte, o dia da própria reunião do G20. Com milhares de manifestantes já nas ruas, poderosas forças estavam indubitavelmente muito decididas a que este crucial ajuntamento imperialista se iria realizar numa atmosfera sem que fosse perturbada por factos menores como arruaceiros governamentais a assassinar cidadãos inocentes nas ruas. Os eventos que rodeiam a morte de Ian Tomlinson revelam uma verdade inevitável: aquilo contra o qual os protestos do G20 estavam é um sistema desumano protegido por um estado que assume uma forma democrática parlamentar, mas que é na essência uma ditadura de uma classe que usa todas as instituições sob o seu controle, da polícia à comunicação social, para impor os seus interesses. O que muito nos diz sobre para onde nos leva este sistema é que a palavra usada pela polícia britânica para descrever a sua táctica de encurralar as massas e de as empurrar para uma saída estreita, «kettling» [meter numa chaleira], é o mesmo termo que foi usado pelos nazis na II guerra mundial para descrever essa mesma táctica que eles usaram contra os judeus no Gueto de Varsóvia.

A comunicação social está agora cheia de apelos à calma e à necessidade de equilíbrio e de ninguém se «apressar a tirar conclusões». Um dos principais apresentadores de notícias da BBC preocupou-se com «é claro que alguns manifestantes usarão o que aconteceu como vara para baterem na polícia», Uma vez mais, a realidade é virada do avesso: aos olhos de uma estação pública que se vangloria da sua «imparcialidade», mesmo depois de se saber a verdade sobre a morte de Tomlinson, não é o facto de a polícia bater nos manifestantes que é o problema, mas sim os manifestantes baterem na polícia!

Tal como muitos dos arruaceiros em uniforme parceiros dele, o polícia apanhado a atacar Tomlinson no vídeo tinha a cara e o distintivo de identificação tapados, pelo que a sua identidade ainda não é conhecida. Durante os protestos, os polícias recusaram-se repetidamente a se deixarem identificar individualmente. Isto constrói o seu sentido de impunidade e fornece aos manifestantes uma mensagem de que não devem ter nenhuma ilusão de haver recurso contra a brutalidade policial, pelo que devem prestar atenção! A BBC tem um programa semanal chamado Crimewatch que mostra crimes não resolvidos e apela ao público para avançar e ajudar a polícia a capturar os criminosos. Não prendam a vossa respiração à espera que eles venham a recriar esse local do crime e a apelar ao público para apanhar esse possível assassino!

A polícia primeiro recusou os pedidos de uma investigação, mas agora que surgiu o vídeo foi decidido que a polícia da Cidade de Londres o iria investigar, com a Comissão Independente de Queixas da Polícia [IPCC] a supervisionar. Como se ter a polícia a investigar-se a si própria já não fosse suficientemente ultrajante, trata-se da mesma IPCC cuja investigação do caso de Menezes terminou com o polícia a ficar em liberdade. Os responsáveis já estão a dizer que será difícil investigar porque não foi recolhida nenhuma prova no local no dia em que Tomlinson morreu. Há todas as razões para concluir que o que irá acontecer não seja uma investigação mas sim um encobrimento, tal como o encobrimento do assassinato de Menezes. As pessoas que querem justiça para Ian Tomlinson não podem confiar neste sistema, antes precisam urgentemente de construir um movimento de resistência que interpele a polícia como assassinos que são e que exponha qualquer tentativa de encobrimento dos seus crimes.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese