Wael Zuaiter era, ao que parece, o tipo de intelectual que raramente se voltou a ver. Palestiniano, nascido em meados dos anos 30, estudou filosofia e literatura árabe em Bagdad e passou a última década da sua curta vida em Roma, onde se tornou fluente em italiano, bem como em francês e inglês. Aí, fez amizade com muitos dos mais importantes escritores da Europa. Levou consigo um dos principais romancistas de Itália, Alberto Morávia, numa volta pelo Médio Oriente e pela Palestina. Entusiasta da música clássica e da poesia, conhecia de cor A Divina Comédia de Dante. O seu projecto intelectual mais dilecto foi a tradução de árabe para italiano de As Mil e Uma Noites (também conhecidas como As Noites Árabes em inglês e noutros idiomas europeus). Zuaiter foi abatido a tiro em Outubro de 1972 sob a escada do seu prédio por 12 balas de pistolas de calibre .22 equipadas com silenciadores.
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| Emily Jacir
(Foto: Sarah Shatz 2008) |
Jacir diz que durante muitos anos pensou em Zuaiter e no significado da sua vida e morte. Nascida em 1970, ela cresceu em Belém (na Cisjordânia palestiniana), na Arábia Saudita, em Roma e em vários lugares nos EUA. Hoje em dia, descreve-se a si própria dizendo que vive entre Ramallah, na Cisjordânia, e Brooklyn, em Nova Iorque. Quando, ainda criança, anunciou à família que quando crescesse queria ser artista, a família avisou-a que os israelitas também a iriam matar.
Hoje em dia, Jacir é a mais conhecida artista palestiniana da sua geração. Uma versão do seu trabalho sobre a vida de Zuaiter ganhou o Prémio Leão de Ouro para artistas com menos de 40 anos na Bienal de Veneza em 2007. Por ser uma das quatro obras de arte listadas para o Prémio de Fotografia Deutsche Borse 2009, atribuído na Alemanha, essa obra está agora exposta na Galeria dos Fotógrafos, em Londres, até 12 de Abril. No final de 2008, ela ganhou o Prémio Hugo Boss atribuído de dois em dois anos pelo Museu Guggenheim de Nova Iorque, o que a coloca ao lado dos mais reconhecidos artistas contemporâneos. Isso deu agora origem a uma exposição a solo de uma outra versão no Guggenheim, até 15 de Abril.
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| Emily Jacir
(Foto: Sarah Shatz 2008) |
Não é de pouca monta que esta exposição esteja a ser exibida – por coincidência, pouco após a invasão israelita de Gaza – num importante museu de Nova Iorque, uma cidade onde uma atmosfera pró-sionista sufoca tanto os intelectuais não-judaicos como os judaicos, bem como outras pessoas. O jornal The New York Times reconheceu a sua importância com uma entrevista de antestreia com a artista, embora tenha sido conjugada com um acto de assassinato de carácter centrado em questionar se o passado de Jacir a tornava autenticamente palestiniana ou não, uma questão também levantada numa carta ao editor, depois seguido de um ataque à qualidade artística da própria exposição assim que ela abriu. Na Grã-Bretanha, onde a oposição ao terrorismo intelectual sionista tem sido mais persistente, o jornal Daily Telegraph, por exemplo, tem sido muito mais objectivo – e, para o melhor e para o pior, a exposição muito menos controversa. (“Border Crossings Between Art and Life” [«Travessias de Fronteira entre a Arte e a Vida»] e “Material for a Palestinian's Life and Death” [«Material para a Vida e a Morte de um Palestiniano»], New York Times, 1 e 13 de Fevereiro de 2009; “Emily Jacir: pieces of a life” [«Emily Jacir: fragmentos de uma vida»]; Daily Telegraph, 23 de Fevereiro de 2009. Ver também “Her dark materials” [«Os negros materiais dela»], The National – Abu Dhabi, 10 de Julho de 2008.)
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| Atravessar Sudra
(um registo de ir e vir do trabalho) Emily Jacir, 2002 |
É amargamente irónico, embora não incomum entre imigrantes, que Jacir agora viva e mesmo que tenha sucesso no país mais responsável pelo facto de a sua família ter tido sequer necessidade de abandonar a sua terra, neste caso os EUA, o principal suporte militar, político e financeiro do estado ocupante de Israel. A sua obra não esconde estas e outras contradições – constrói-se sobre eles. De onde vimos (2002-03) foi inicialmente produzida sob a forma de livro para que pudesse circular na Palestina e no estrangeiro antes de ser feita uma versão para exibição nos EUA. Regista a concretização de pequenos actos que ela pediu a 30 palestinianos que vivem no estrangeiro e na Cisjordânia e que estão impossibilitados de desfrutar do privilégio que ela tem de viajar pela sua própria pátria com um passaporte norte-americano. Entre esses actos estava jogar futebol com o primeiro rapaz que encontrou numa certa aldeia, beijar uma velha mãe, caminhar numa rua específica, comer um prato favorito, acender uma vela num lugar especial, etc. Uma instalação áudio sem título para uma exposição ocorrida o ano passado em Jerusalém reproduz os agora desaparecidos sons dos motoristas dos táxis partilhados da cidade que gritavam os destinos aos passageiros que se dirigiam a Amã, Beirute e Damasco. Essas cidades eram antes um pequeno passeio, mas são agora inalcançáveis de carro a partir de Jerusalém e, para a maioria dos palestinianos, tão inacessíveis como um outro planeta.
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| Memorial às 418
Aldeias Palestinianas Destruídas, Despovoadas e Ocupadas por Israel em
1948 Emily Jacir, 2001 |
Os palestinianos, sobretudo as mulheres, anunciam as delícias sexuais que estão dispostos a negociar a troco do que querem obter, na linguagem exagerada, porno softcore, machista e muitas vezes racista de todos os anúncios dessa secção e de outras iguais e omnipresentes, em que as «Princesas Negras» e as «Belezas Peitudas» oferecem o que têm – os seus corpos – em troca do que precisam – os meios para o tipo de vida que procuram. Visto no seu contexto pretendido, a obra é tão universal como o é sobre o sofrimento dos palestinianos. Ilumina as obscenas relações predominantes entre homens e mulheres nos países ricos, bem como no terceiro mundo, e as trocas iguais entre pessoas desiguais que são uma das características definidoras do mundo actual no seu todo (e do próprio capitalismo).
Este tem sido um tema fundamental no trabalho de Jacir desde a primeira obra que lhe trouxe atenção internacional, Change/Exchange (1998), que documenta o processo em que ela trocou repetidamente 100 dólares iniciais pelo seu equivalente noutras divisas, até que uma troca justa mas desigual às taxas oficiais a deixou com nada mais que cansaço e um punhado de moedas. Outras obras escarnecem um mundo em que a transacção de bens chega a todo o lado ao mesmo tempo que se erguem fronteiras para manter algumas pessoas do lado de fora.
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| Saída (Belém) -
Emily Jacir, 2003 |
Mas o verdadeiro problema do crítico é que a sua própria política – a qual, sendo mais simpática para Israel, é assumida como certa como se não fosse nenhuma política – o cega para o conteúdo do trabalho de Jacir. Isso leva-o a concentrar-se em perguntar se Wael Zuaiter teve ou não alguma coisa a ver com o massacre de Munique que presumivelmente justificasse o seu assassinato e assim invalidasse a obra de Jacir, embora o próprio NYT, no artigo acima citado, saliente que as organizações palestinianas negaram que ele estivesse envolvido «e que relatos posteriores de jornalistas de investigação também tenham levantado dúvidas do seu envolvimento nessas mortes». O resultado é o tratamento dessa arte como se fosse uma interpretação de um jornalista de investigação ou sobretudo um protesto pelo assassinato de um inocente. Isso está longe de ser o seu tema principal, o que é provavelmente a razão por que a própria Jacir se afasta de qualquer declaração conclusiva sobre o envolvimento de Zuaiter.
Como ela insiste na entrevista, o seu trabalho não é sobre a sua política nesse tipo de sentido directo – não é o tema e não serve um programa em concreto. Ela parece querer fazer arte que tenha significado no futuro, quando as questões actuais já não forem oportunas e forem mesmo esquecidas, uma arte que as futuras gerações, num mundo totalmente diferente e melhor, não verão como objectos arqueológicos mudos mas sim como algo que lhes diz alguma coisa.
Qualquer pessoa sincera que examine seriamente Materiais Para Um Filme chegará à conclusão que as escolhas de Jacir e os temas que elas insinuam nos dão muito sobre que pensar. Vale a pena ponderar porque é que ela coloca As Mil e Uma Noites no centro da sua definição do seu tema, a figura de Zuaiter tal como ela decidiu representá-lo. O tema global que enquadra essa colecção de histórias retiradas de contos populares persas pré-islâmicos, indianos, árabes (incluindo judaicos) e norte-africanos tem a ver com uma jovem simples apanhada num casamento forçado e potencialmente fatal que ilude o marido, um rei brutalmente misógino.
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| Casa - Emily
Jacir, 2003 |
É caricato apercebermo-nos que, com este conteúdo, a sua exposição esteja no Guggenheim ao lado do actual campeão de vendas do museu, «A Terceira Mente: Os Artistas Norte-Americanos Contemplam a Ásia», que não se refere a nenhuma parte do Oriente, mas sim à ascensão à respeitabilidade do misticismo religioso entre os intelectuais ocidentais. É um exercício sobre o que o autor Said chamou Orientalismo, uma construção do Ocidente sobre um imaginário Outro oriental sobre o qual pode projectar as suas próprias fantasias para servir os seus próprios interesses colonialistas e imperialistas. Essa exposição, deve dizer-se, contém muita «arte não extraordinária» e unidimensional, a propaganda budista Zen. Este tipo de coisas faz-nos sentir ainda mais a falta de intelectuais como Zuaiter e Said.
A contradição que Jacir trabalha – a traição do Iluminismo pelo Ocidente – merece todo o tipo de explorações. Como já outros escreveram, trata-se de uma questão complexa porque o próprio Iluminismo era contraditório. A própria ascensão do capitalismo que afastou a autoridade absoluta da religião e promoveu a ideia de que tudo é cognoscível através da razão e da ciência, também, nas palavras de Marx, «surgiu a escorrer sangue de todos os poros» com o saque da Ásia e da América Latina e a escravização dos africanos. Essa contradição só pode ser resolvida através da ascensão a um nível mais elevado, com uma perspectiva que tanto se comprometa inteiramente com a libertação da humanidade como seja científica.
Continuamos a ver hoje o Ocidente a espalhar a sua própria religião e os ideais do Iluminismo como justificações para invadir e ocupar o Iraque e o Afeganistão e outras formas de domínio imperialista, um manto para um sistema imperialista obsoleto que leva a cabo uma guerra contra os seus opositores – infelizmente – actualmente mais influentes e muitas vezes mais apaixonados, os fundamentalistas islâmicos de mentalidade medieval. Se o Materiais Para Um Filme de Jacir é, de alguma forma, um clamor contra esta situação, nós só podemos concordar com ela.
(A arte e os textos de Jacir são fáceis de encontrar na internet, incluindo em electronicintifada.net e em universes-in-universe.org. Porém, muitas vezes as descrições e mesmo os vídeos e as fotografias não fazem inteira justiça à possibilidade de se experimentar o seu trabalho e os seus aspectos formais, por vezes indispensáveis, como a apresentação ironicamente limpa e organizada que apenas traz para primeiro plano o mundo sujo e caótico que ela criticamente abraça.)
| Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese |