Gaza: Os objectivos políticos dos dois lados e os possíveis resultados desta guerra
12 de Janeiro de 2009. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Gaza sofreu terríveis vítimas civis durante a «primeira fase» da agressão israelita, o bombardeamento aéreo de uma das zonas mais densamente povoadas do mundo. À medida que as tropas terrestres israelitas se preparavam para a «segunda fase», o número de mortos e feridos crescia enormemente, tal como a percentagem de vítimas civis entre o número total de mortos e feridos. A 11 de Janeiro, as crianças com menos de 16 anos e as mulheres eram 40% das vítimas, segundo o pessoal médico de Gaza (Al-Jazeera, BBC). Muitas famílias não ousavam percorrer as ruas para levar os seus mortos aos hospitais.

Atrocidades intoleráveis

À medida que o exército israelita juntava tanques, morteiros e atiradores especiais às armas que estavam a ser usadas contra Gaza, eles começaram a cometer atrocidades ainda mais horrendas que as dos bombardeamentos iniciais. Entre elas contam-se:

• Três bombardeamentos de escolas geridas pela ONU que estavam a ser usadas como abrigos para civis. Os morteiros israelitas mataram mais de 40 pessoas no exterior de uma escola no campo de refugiados de Jabalya. As forças armadas israelitas tinham sido informadas das coordenadas geográficas dessas escolas. O responsável pela agência das Nações Unidas de ajuda aos refugiados (UNWRA) em Gaza refutou as alegações israelitas de que a escola tinha sido usada pelo Hamas e pediu uma investigação de crimes de guerra. Israel respondeu divulgando um vídeo que supostamente mostra combatentes do Hamas no edifício, mas depois teve que admitir que a gravação era de 2007, quando a UNWRA ainda não estava a usar a escola (Haaretz, 9 de Janeiro).

• O bombardeamento de casas em Zeitun, perto da Cidade de Gaza. As tropas israelitas cercaram a zona, construindo barreiras de terra e mantendo as equipas de salvamento do lado de fora durante quatro dias. Quando os paramédicos conseguiram entrar, a 7 de Janeiro, encontraram numa das casas destruídas quatro crianças meio mortas que se agarravam aos cadáveres das suas mães no meio dos escombros.

• Num armazém, encontraram os corpos de cerca de 25 membros da família alargada Samouni, 10 adultos e os restantes crianças. As tropas israelitas destruíram cinco das suas casas e depois disseram-lhes que procurassem abrigo no edifício inacabado. Alguns deles foram escoltados até lá por soldados israelitas. Quando um pequeno grupo se aventurou a sair no dia seguinte para trazer outros familiares, foram atingidos por um tanque. De seguida, uma outra bomba ou um projéctil atingiu o telhado. Quando os sobreviventes saíram, com bandeiras brancas improvisadas e gritando em hebraico «Estamos com crianças», os soldados israelitas dispararam sobre eles. Os soldados deram depois os primeiros socorros a algumas das crianças, mas mantiveram detidos alguns adultos nas suas posições de tiro, usando-os como escudos humanos. Não muito depois de ter chegado a coluna de ajuda organizada pelo Comité Internacional da Cruz Vermelha, os disparos da artilharia israelita forçaram-nos a fugir sem procurarem mais corpos (podem ter sido mortos cerca de 70 dos 100 membros da família). Há relatos de que alguns dos feridos ficaram para trás.

• Atiradores especiais israelitas foram filmados a disparar sobre ambulâncias e pessoal médico a pé que tentavam chegar aos feridos e mortos que estavam nas ruas. A Organização Mundial de Saúde contabilizou 21 trabalhadores médicos mortos até 12 de Janeiro (Telegraph da Grã-Bretanha, 8 de Janeiro; Independent, 10 de Janeiro; Gabinete da ONU para a Coordenação das Questões Humanitárias).

• A ONU suspendeu temporariamente as colunas de ajuda que transportavam bens de emergência para Gaza porque os israelitas dispararam sobre algumas delas e mataram três motoristas, embora o exército israelita tivesse verificado os camiões ao atravessarem a fronteira. Um tanque matou o motorista de uma empilhadora, enquanto ele carregava materiais para uma dessas colunas. O Comité Internacional da Cruz Vermelha também suspendeu as operações quando as tropas israelitas dispararam sobre uma coluna que transferia doentes de cuidados intensivos para o Egipto, de novo após o exército israelita ter autorizado os veículos a viajar (Independent, 9 de Janeiro).

• A Amnistia Internacional acusou os israelitas de forçarem «frequentemente» civis a permanecer no rés-do-chão das suas casas enquanto eles usavam os andares superiores como posições de atiradores especiais ou postos de observação durante longos períodos. Também acusou o Hamas de disparar contra os invasores a partir de casas, mas refutou as alegações israelitas de que isso justificava atacar civis: «O exército está bem consciente de que normalmente os atiradores abandonam a zona depois de terem disparado e que, na maioria dos casos, qualquer ataque de represália contra essas casas irá atingir civis», disse um director da Amnistia.

• Quando questionado na Al-Jazeera (11 de Janeiro) para confirmar ou negar os relatos de que o seu governo estava a usar bombas de fósforo branco em Gaza, o porta-voz israelita Mark Regev confirmou-as implicitamente ao alegar que o seu governo não estava a usar nenhuma arma proibida pelo direito internacional e que, de qualquer forma, também as forças da Nato estão equipadas com essa substância e têm planos para a usar (como os EUA fizeram em Falluja, no Iraque). Embora seja verdade que as convenções internacionais não proíbem o uso dessas bombas incendiárias para iluminação ou produção de fumo de forma a esconder as movimentações das tropas, o seu uso contra seres humanos é ilegal, sobretudo contra civis, porque elas deitam fogo a tudo o que tocam até que o fósforo deixe de arder. As ofuscantes plumas brancas que eram visíveis sobre a Cidade de Gaza nas televisões de todo o mundo foram uma constatação do que os hospitais locais relatavam: que os israelitas estavam a queimar carne humana.

Estas atrocidades não são apenas efeitos colaterais inadvertidos do ataque de Israel ao Hamas, o que por si só já seria um crime, uma vez que Israel está assumidamente a tentar matar todas as pessoas associadas de qualquer forma, armadas ou não, ao governo eleito de Gaza. Elas são parte integrante da estratégia que guia a guerra de Israel: o castigo colectivo de toda a população de Gaza para enfraquecer a influência do Hamas. Israel está a tentar fazer vergar ou destruir o Hamas, mas está a fazer mais que isso. Está a tentar dar uma lição aos habitantes de Gaza: submetam-se ou morrem. Neste sentido, os massacres de Israel em Gaza servem o mesmo objectivo que o bloqueio de ano e meio, antes de se ter iniciado a agressão em massa.

Que objectivos servem estas atrocidades?

Todas as guerras e acções armadas visam atingir objectivos políticos. O objectivo central e de longo prazo de Israel mantém-se inalterado em relação ao que procurava antes desta guerra: «Os palestinianos devem ser ensinados a compreender nos mais profundos recantos da sua consciência que são um povo derrotado» (Moshe Yaalon, em 2002, então chefe de pessoal das forças armadas israelitas, citado pelo Professor Rashid Khalidin, International Herald Tribune, 9 de Janeiro de 2009).

Ao mesmo tempo, é impossível compreender-se a ferocidade de Israel sem se ter em conta o contexto mais vasto. Muitos comentadores disseram que o Ministro israelita da Defesa, Ehud Barak, começou por resistir à pressão de outros membros do seu governo para invadir Gaza, embora, quando se decidiu fazê-lo, o tenha feito com todas as consequências (“Ending the war in Gaza” [«Acabar com a guerra em Gaza»], Grupo Internacional de Crise [ICG], 5 de Janeiro de 2009). O jornal The New York Times escreveu: «Barak nunca levou o Hamas tão a sério quanto muitos outros o fizeram, considerando-o um desafio estratégico relativamente pequeno cujos projécteis e acumulação de armas poderiam ser tolerados durante algum tempo de forma a permitir resolver problemas maiores... ‘Os seus olhos estão focados no Irão’, salientou Gilead Sher, que foi chefe de pessoal de Barak quando ele foi primeiro-ministro há uma década trás. ‘O Hamas e o Hezbollah preocupam-no em grande parte devido ao Irão’.» (NYT, 9 de Janeiro de 2009).

Ao atacar o muito mais fraco e geograficamente isolado Hamas, Israel quer vingar-se e provar o seu poder depois das humilhantes derrotas que sofreu às mãos do movimento islâmico Hezbollah na sua invasão do Líbano em 2006. «Para Israel, era importante não só persuadir o Hamas mas outras pessoas na região de que o movimento islamita não conseguiria obter concessões através da violência — que não era igual a Israel» (Grupo internacional de Crise).

Israel não cumpriu as condições do seu cessar-fogo com o Hamas, de abrir as fronteiras de Gaza a alimentos e outros bens, porque não quis que a organização islâmica mostrasse aos palestinianos que conseguia governar apesar da oposição israelita. Quando, por vingança, o Hamas deixou que fossem lançados alguns foguetes, e depois quando em Dezembro o Hamas respondeu a um ataque israelita disparando mais alguns, naquilo a que o Grupo de Crise chamou de tentativa armada de obter uma posição negocial mais forte, Israel sentiu que tinha que provar que só ele tinha o monopólio da utilização da violência. A questão é esta, independentemente do que decida fazer a seguir — quer Telavive aceite um cessar-fogo que possa enfraquecer o Hamas mas que o deixe sobreviver, com medo que mais ninguém consiga refrear os palestinianos como o faz esse grupo islâmico, que é a solução defendida pelo ICG, quer, como avisa o ICG, «a dinâmica da guerra... empurre a tarefa muito mais para a frente».

O Hamas tem os seus próprios objectivos políticos nesta guerra. Nunca sonhou sequer em derrotar militarmente Israel nesta altura. Provavelmente só precisa de sobreviver para obter uma vitória política, reforçando a sua posição de liderança de qualquer possível resistência palestiniana. Na análise do ICG, Israel enfrenta a contradição de que quanto mais ataca o Hamas, mais este reforça a sua posição política. Isto pode levar Israel a parar nalgum momento antes do fim, ou pode levá-lo a lutar por uma solução mais drástica.

De qualquer forma, desde o início que a decisão israelita de atacar Gaza visava causar vítimas civis. Um antigo conselheiro sénior do ministério israelita da defesa disse ao Grupo de Crise: «Israel decidiu desempenhar o papel de cão raivoso em nome de uma futura prevenção». O facto de estes massacres fazerem parte de uma estratégia pensada a sangue-frio apenas faz com que eles sejam ainda mais criminosos.

O que partilham os EUA e Israel

Como admite arrogantemente o governo dos EUA, este agiu de forma a impedir um cessar-fogo até que se concretizassem os objectivos de Israel. Se e quando acabar este ataque em particular, os EUA e Israel continuarão a tentar atingir esses objectivos de novas formas. Os objectivos de guerra de Israel são partilhados pelos EUA, que também partilham a infâmia das mortes infligidas com armas e munições norte-americanas. Entre esses objectivos estão a protecção do estado judaico, o único posto avançado inteiramente fidedigno dos EUA numa região cuja população ferve de indignação. Entre eles também se incluem o confronto com o fundamentalismo islâmico e a República Islâmica do Irão. Isto é uma necessidade central da cruzada dos EUA para imporem de uma forma mais integral a sua vontade na região e obterem uma hegemonia mundial incontestada nas frentes políticas e económicas que até agora se têm esquivado à única superpotência do mundo.

O apoio desavergonhado dos EUA a Israel significa que também partilha os riscos inerentes a esta guerra: que «inflamará a região e de que o Irão retirará vantagem», como disse um líder do Hamas ao ICG. O Hamas está apenas a ser tão lógico no seu pensamento quanto Israel, tanto no que diz respeito à sua aceitação da existência de Israel nas actuais condições do mundo, como nas suas esperanças daquilo que Israel teme, uma mudança radical da situação do mundo.

O Grupo de Crise, uma organização internacional de aconselhamento cujo objectivo é manter a actual ordem mundial, o que inerentemente significa o sistema económico e político imperialista que lhe está subjacente, teme cinicamente que as mortes de civis possam resultar em «danos políticos (uma polarização e radicalização regional, desacreditando ainda mais quaisquer ‘moderados’ ou qualquer ‘processo de paz’… O que é necessário é uma solução diplomática tipo Líbano.»

Certamente que qualquer solução diplomática será tão directamente dirigida contra o povo palestiniano quanto esta guerra o tem sido. Israel não pode resolver o seu «problema palestiniano» sem vagas atrás de vagas de opressão e crueldade. Por isso, independentemente de quais sejam as condições, parece possível uma maior «radicalização». A forma que possa assumir essa radicalização — que objectivos políticos e que ideologia a guiará — é uma questão crítica para o futuro do povo palestiniano e da região. Isto também se aplica à crescente ira radical que temos visto nos protestos em todo o continente.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese