Gaza: A oscilar no extremo
24 de Novembro de 2008. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Na forma de tortura favorita dos Estados Unidos, a tortura da água (waterboarding), o objectivo é levar a vítima à beira da morte e, então, muitas vezes – mas nem sempre – recuar apenas ligeiramente, para que os executores não possam ser acusados de assassinato, embora tenham imposto um sofrimento excruciante. É isto que Israel está a fazer aos habitantes de Gaza, não um de cada vez, mas a uma escala massiva, mantendo-os no limiar da fome.

A 24 de Novembro, enquanto grande parte de Gaza continuava sem electricidade, com as suas unidades hospitalares de cuidados intensivos indefesas, forçadas a escolher entre usar o combustível para fornecer água potável ou bombear os esgotos para o mar, e com a fome em massa a apenas alguns dias de distância, Israel abriu a torneira apenas ligeiramente. Uma coluna de cerca de 45 camiões que transportavam comida e outros bens essenciais foi autorizada a entrar em Gaza a partir do Egipto e algum combustível entrou por um oleoduto vindo de Israel, no outro extremo de Gaza. Depois, Israel fechou novamente a torneira.

A quantidade de alimentos entregue foi apenas essencialmente a suficiente para, em condições normais, alimentar Gaza durante três dias. “Israel continua a fazer pingar os bens e nunca entrega o suficiente. É literalmente uma existência do dia-a-dia.” – disse um jornalista da Al-Jazeera. A última remessa de alimentos, numa quantidade semelhante, fora na semana anterior, e a anterior cerca de duas semanas antes.

Quando o estado sionista terminou a sua ocupação e controlo militar directo de Gaza em 2005, manteve o controlo total das fronteiras terrestres, marítimas e aéreas dessa faixa de deserto. Israel enviou escavadoras blindadas para destruírem os pomares de fruta de Gaza, bloqueou o seu porto de pesca, cortou os fornecimentos a fábricas e outros negócios e retirou à maioria dos habitantes de Gaza o direito a trabalharem noutros lugares ou mesmo a saírem. Em resultado disso, cerca de um milhão dos 1,5 milhões de habitantes de Gaza depende da distribuição de alimentos da ONU. Os centros da principal agência da ONU fecharam as portas em meados de Novembro por falta de fornecimentos. Uma outra agência disse que continuaria a distribuir pacotes de grão, farinha, açúcar e óleo durante mais algumas semanas. Os funcionários da ONU não esperavam nenhuma melhoria nesta situação. “Pura e simplesmente não é suficiente”, disse um porta-voz da UNWRA à agência noticiosa Reuters sobre as breves aberturas da fronteira.

Claramente, a política israelita é manter desesperados os habitantes de Gaza.

Mas esta situação não é estacionária. Está a deteriorar-se. Um relatório parcialmente divulgado, mas ainda secreto, da Cruz Vermelha Internacional “descreve o ‘devastador’ efeito do cerco que Israel impôs depois de o Hamas ter tomado o controlo em Junho de 2007 e salienta que a dramática queda dos padrões de vida desencadeou uma alteração da dieta alimentar, o que a longo prazo prejudicará a saúde de quem vive em Gaza e tem resultado em alarmantes deficiências em ferro, vitamina A e vitamina D” (Independent, 15 de Novembro).

O relatório salienta “a progressiva deterioração da segurança alimentar de até 70% da população de Gaza” e adverte que, com a maioria das famílias a viver em “níveis de sobrevivência”, vivendo sobretudo de derivados de farinha, açúcar e óleo e frequentemente sem combustível para cozinhar os cereais, “a desnutrição crónica tem uma permanente tendência ascendente e as deficiências em micronutrientes são uma fonte de grande preocupação”.

Os objectivos políticos por trás do cerco de Israel não são segredo nenhum: fazer vergar a população de Gaza às intenções sionistas. Mesmo face a isso, a actuação de Israel é ilegal: os seus responsáveis dizem que “as fronteiras estão fechadas por causa da continuação dos disparos de foguetes”. (Reuters, 18 de Novembro). Este castigo colectivo de todos os habitantes de Gaza – devido a um punhado de ataques com foguetes às dunas de areia israelitas e ocasionalmente à cidade de Ashkelon, perto de Gaza – é contrário à IV Convenção de Genebra. Mas é claro que nenhum governo ocidental deseja ver os responsáveis israelitas juntarem-se aos sérvios e africanos que estão a ser julgados por crimes de guerra no Tribunal Internacional de Haia.

Os EUA e as potências europeias aprovam a actuação de Israel porque aprovam os seus objectivos: esmagar a resistência palestiniana e em particular enfraquecer o Hamas, o partido fundamentalista islâmico que ganhou as eleições parlamentares de 2006 que Israel e os seus apoiantes esperavam que fosse a mais flexível Organização de Libertação da Palestina a ganhar. As democracias ocidentais apoiam o castigo colectivo dos habitantes de Gaza por causa dessa votação.

Ao mesmo tempo, a situação é complexa. O Hamas está mais interessado no domínio islâmico que na autodeterminação palestiniana, já para não falar em libertação. O ritmo do estrangulamento alternado de Gaza por Israel segue o das negociações alternadas entre Israel e o Hamas, bem como entre Israel e a OLP. A “acalmia” de longo prazo (a suspensão da actividade armada) que o Hamas acordou com Israel foi interrompida no início de Novembro quando Israel atacou Gaza e matou membros do Hamas que supostamente estavam a escavar um túnel através da fronteira. Alguns observadores crêem que os dois lados estão a tomar acções armadas para exercerem pressão um sobre o outro com vista a mais negociações.

Além disso, com ou sem o Hamas, a política israelita é explicitamente forçar o Egipto a assumir um maior controlo sobre Gaza e talvez, nalgum ponto, assimilá-la, aliviando Israel desse fardo e vergonha. O Egipto e Israel têm negociado para trás e para a frente o controlo dessa parte da Palestina desde a fundação do estado sionista. O regime de Hosni Mubarak, que tem o apoio dos EUA, usa as suas tropas como guardas prisionais que impedem os palestinianos de fugirem ou os bens de entrarem.

Numa outra, pouco conhecida mas extrema, demonstração da vontade e capacidade de Mubarak para impor os interesses sionistas, o ano passado, os guardas fronteiriços egípcios, actuando a pedido de Israel, atingiram a tiro e espancaram até à morte pelo menos três dezenas de candidatos a imigrantes africanos que atravessavam o deserto perto da fronteira israelita, segundo um relatório de 12 de Novembro da organização Human Rights Watch. Um deles era uma mulher grávida. Os guardas fronteiriços egípcios abateram a tiro um homem africano a 24 de Novembro, a 28ª morte registada até agora este ano, oficialmente porque ele tentou fugir quando foi descoberto. As autoridades explicaram que a ausência de qualquer documento encontrado no seu corpo era prova das suas intenções criminosas – as de entrar furtivamente em Israel e pedir asilo. Tem-se especulado que, tal como muitas das outras vítimas assassinadas, ele era do Sudão, da Etiópia ou da Eritreia.

Se um único israelita for magoado em resultado dos actos de um palestiniano, eclode todo o inferno, a população palestiniana é castigada e a “comunidade internacional” considera isso justo. Mas Israel e o regime de Mubarak podem matar todos os africanos que quiserem e nenhum governo ou meio de comunicação social ocidental sequer reparará. A mesma aprovação tem sido concedida ao assassinato lento (e frequentemente assassinatos instantâneos) dos palestinianos por Israel – o Ocidente nem sequer se incomodou em fazer um protesto formal contra a decisão de Israel de proibir jornalistas, médicos, académicos e uma delegação de diplomatas europeus de entrarem em Gaza para investigarem as condições locais.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese