Itália: Espancamentos, tortura, assassinatos – tudo é bom contra os manifestantes
17 de Novembro de 2008. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

O último dos três julgamentos contra a polícia de Génova devido aos seus selváticos espancamentos dos manifestantes anti-G8 em 2001 acabou como os outros dois: com a absolvição de todos os oficiais acusados de liderar os ataques e com os agentes condenados por terem realmente espancado sentenciados a penas clementes que nunca terão de cumprir.

O ataque policial aos manifestantes que passavam a noite na escola Diaz foi um dos mais brutais que a Europa viu em muitos anos. Cerca de 300 homens mascarados e em uniforme de combate irromperam pela escola pouco antes da meia-noite de 21 de Julho de 2001. Enxameando todos os quatro andares, estavam decididos a espancar toda a gente que encontrassem. Todas as 93 pessoas que eles prenderam estavam feridas, 61 delas seriamente, 26 tão mal que tiveram de ser hospitalizadas. Três delas ficaram em coma. Muitas estavam a dormir nos seus sacos-cama quando foram acordadas por bastões que choviam nas suas cabeças. Outras que foram capturadas de pé receberam ordens para se ajoelharem para que lhes pudessem bater nas cabeças. Os polícias invertiam muitas vezes as suas mocas em forma de T para puderem bater-lhes com o manípulo em forma de martelo.

Dois jovens estudantes alemães relataram o que lhes aconteceu:

“Eles tinham-se escondido no armário de limpeza do andar superior. Ouviram a polícia a aproximar-se, batendo com os bastões contra as paredes das escadas. A porta do armário abriu-se. (Niels) Martensen foi puxado e espancado por uma dúzia de agentes em semicírculo à sua volta. (Lena) Zuhlke correu pelo corredor e escondeu-se na casa de banho. Os agentes da polícia viram-na e puxaram-na pelas tranças (dreadlocks).”

“No corredor, atiraram-se a ela como cães a um coelho. Foi espancada em toda a cabeça e depois pontapeada por todos os lados no chão, sentindo as costelas a colapsar. Foi arrastada contra a parede onde um agente lhe deu uma joelhada na virilha enquanto outros continuavam a acoitá-la com os seus bastões. Ela deslizou pela parede abaixo e eles continuaram a bater-lhe no chão. ‘Pareciam estar a gostar e, quando eu gritei de dor, parecia que lhes dava ainda mais prazer’.”

“Os agentes da polícia encontraram um extintor e esguicharam a espuma sobre as feridas de Martensen. A sua companheira foi arrastada pelos cabelos e atirada escada abaixo com a cabeça para baixo. Por fim, arrastaram Zuhlke para o átrio do rés-do-chão onde tinham agrupado dezenas de presos de todos os cantos do edifício, numa confusão de sangue e excrementos. Atiraram-na para cima de duas outras pessoas. Elas não se moviam e Zuhlke perguntou-lhes lentamente se estavam vivas. Não responderam e ela aí ficou, de costas, impossibilitada de mover o braço direito e impossibilitada de impedir o braço esquerdo e as pernas de se agitarem, com sangue a sair das feridas na sua cabeça. Um grupo de agentes da polícia passou por ela e cada um levantou o lenço que lhes escondia as identidades, baixou-se e cuspiu na sua cara.” (Nick Davies, “A sangrenta batalha de Génova”, Guardian, 17 de Julho de 2008)

No julgamento que terminou a 13 de Novembro, 16 dos acusados, incluindo os três principais oficiais que lideraram o ataque, foram absolvidos com base em que os seus homens estavam fora de controlo. Um deles, o superintendente adjunto da polícia Pietro Troiani, também foi acusado de introduzir os cocktails Molotov que a polícia exibiu à comunicação social depois do ataque, para contrariar a afirmação de a escola estar a ser usada como centro de treino de tácticas não-violentas. Essas duas bombas desapareceram misteriosamente em custódia policial, acabando assim efectivamente com a acusação contra ele.

Os restantes acusados, 13 agentes de grau inferior, foram condenados a penas que variam entre um mês e quatro anos. Eles têm a sua liberdade garantida porque as autoridades arrastaram o processo e devido a uma amnistia atribuída a pessoas acusadas e não condenadas antes de uma certa data – uma medida destinada a salvar da prisão o próprio primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, acusado de corrupção.

Um julgamento semelhante em Julho passado terminou numa vitória para os 45 polícias, agentes prisionais e um médico acusados de tortura em massa de presos no centro de detenção de Blozaneto, onde acabou por ficar a maioria dos presos durante os protestos. Nenhum dos agentes de grau inferior envolvidos foi acusado, supostamente, segundo os seus superiores, por não poderem ser identificados. A “falta de provas” libertou 30 dos acusados. O chefe de segurança foi condenado a cinco anos e oito meses e o médico da prisão, considerado um dos mais brutais torturadores, a 14 meses, penas que nunca serão cumpridas pelas mesmas razões que as do julgamento mais recente. Uma das acusações foi a de que o pessoal médico tinha cosido as feridas sem usar anestesia. A Itália não é um país signatário da Convenção Europeia sobre a Tortura e não tem nenhuma lei específica contra ela, pelo que “abuso” era a máxima acusação legal disponível.

Durante os protestos antiglobalização de Julho de 2001, um polícia disparou e matou Carlo Guiliani, um manifestante de 23 anos acusado de se estar a preparar para atirar uma lata de lixo contra um veículo blindado da polícia. Um juiz anulou as acusações contra o agente ao decidir que a bala que matou Guiliani tinha sido desviada da sua trajectória por uma pedra voadora, pelo que o atirador não poderia ser considerado responsável. As gravações em vídeo mostram-no a visar o jovem.

Todas as acusações contra os presos na escola Diaz – incluindo muitos dos delitos sérios de posse de armas originados nos cocktails Molotov que os polícias mais tarde admitiram terem sido trazidos por eles, bem como alguns óculos de natação, canivetes e uma garrafa de loção de bronzear – acabaram por ser abandonadas. Mas muitos dos manifestantes anti-G8 presos nesses dias foram condenados a penas de prisão. Em Novembro de 2007, 25 manifestantes italianos foram condenados a penas que foram até 11 anos. Em Junho de 2008, uma mulher francesa acusada de subir ao cimo de uma cerca de segurança foi condenada a cinco meses.

Muitos jornalistas e observadores políticos têm salientado o cheiro a fascismo neste caso. Testemunhas disseram que a polícia gritava repetidamente “Viva il Duce” e outros slogans ligados ao regime fascista de Benito Mussolini durante a II guerra mundial. Eles também forçaram as suas vítimas a repetir “Uno, due, tre, viva Pinochet”, uma referência ao ditador militar instalado pelos EUA no Chile, Augusto Pinochet. Isto porém, não é uma questão que envolva apenas agentes da polícia. O actual governo de Berlusconi, tal como o que estava no poder na altura da cimeira dos G8, inclui membros de topo dos partidos herdeiros do de Mussolini. Gianfranco Fino, o anterior líder do declaradamente neofascista MSI, vice-primeiro-ministro nessa altura, e agora ministro dos negócios estrangeiros de Itália, estava na sede da polícia de Génova durante esses sangrentos acontecimentos, segundo as notícias da comunicação social. Na sequência do recente julgamento, o Ministro da Defesa, outro dito “pós-fascista”, lamentou que tivessem sido tomadas quaisquer medidas, mesmo que simbólicas, contra qualquer dos polícias envolvidos, os quais foram “tratados pouco generosamente”, queixou-se ele depois de ter elogiado os juízes por terem rejeitado a “teoria da conspiração” de que não estavam a agir por sua própria iniciativa.

Mas se historicamente são as forças fascistas que encabeçam os ataques, elas parecem ter sido deixadas à solta pelo topo e que depois lhes foi dada cobertura pela maioria das principais forças políticas de Itália. Parece que foi tomada uma decisão ao mais alto nível para julgar e pôr fim ao “povo de Seattle”, como eram chamados em Itália os manifestantes antiglobalização, um movimento que atingiu o seu pico mais elevado nesse verão em Génova, em que 300 mil pessoas marcharam contra uma ordem mundial injusta. A oposição parlamentar, na sua maior parte, alinhou nessas decisões, com vários graus de queixumes.

Na realidade, embora a política específica de Itália tenha certamente estado em jogo nesta sangrenta agressão, nessa altura foi implícita e explicitamente aprovada por todas as democracias ocidentais, cujos líderes partilhavam o horror de Berlusconi ao movimento antiglobalização. Na altura, um porta-voz do primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, que se distinguiu tanto como principal social-democrata da Europa como principal aliado estrangeiro do presidente norte-americano George W. Bush, disse à comunicação social: “A polícia italiana tinha um trabalho difícil de fazer. O primeiro-ministro acha que fizeram o seu trabalho.”

Os martelos dos juízes concluíram agora o trabalho iniciado pelas mocas da polícia: combinando violência, democracia parlamentar e o “domínio da lei” para imporem a ditadura da classe dominante imperialista capitalista”.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese