Dançar sob a ameaça de armas
15 de Setembro de 2008. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

“Qualquer pessoa que esteja familiarizada com as fotografias de arquivo do Holocausto recordar-se-á das imagens de nazis a obrigar judeus a dançarem num gueto, enquanto eles se riem escarnecedoramente”.

Este comentário foi feito pelo blogger israelita Richard Silverstein a propósito de um incidente ocorrido a 7 de Setembro no aeroporto internacional de Telavive. A companhia de dança Alvin Ailey, de Nova Iorque, chegava para um espectáculo que ia dar numa das principais salas de Israel, a primeira paragem numa digressão por seis países para celebrar o quinquagésimo aniversário da conhecida companhia afro-americana de dança de Nova Iorque.

Abdur-Rahim Jackson, um dançarino decano, passava pela segurança com o resto dos artistas. Nesse momento, foi afastado para o lado e levado para uma sala reservada.

O problema, disse-lhe a polícia de segurança, era o nome dele. “Eu expliquei-lhes”, disse depois Jackson, “que o meu pai se tinha convertido ao Islão e deu-me este nome. Eles perguntaram-me repetidamente qual era o nome do meu pai, qual era o nome da minha mãe e porque é que eles me tinham dado este nome.” Um agente de segurança disse-lhe que ele devia mudar o nome dele.

Mas eles ainda não tinham acabado. Disseram-lhe que os dados de passageiro dele, fornecidos antes do voo, o passaporte dele, o prestígio dele no campo da dança, o facto de viajar com artistas, as fotografias dele nos panfletos da companhia de dança, etc., não eram suficientes. Se ele quisesse entrar em Israel, disseram-lhe eles, teria de dançar para eles, ali mesmo na sala de interrogatório, rodeado de polícias escarnecedores. Contra sua vontade, e muito transtornado e envergonhado, disse ele depois, ele fê-lo (Agência Associated Press, 9 de Setembro).

Foi então interrogado por um segundo grupo de agentes – e, de novo, obrigado a dançar. Após cerca de uma hora de humilhação, libertaram-no.

O incidente foi notícia em Israel, por razões erradas. Jackson, de facto, não é nem nunca foi muçulmano e a noiva dele, embora possa ser classificada como negra por funcionários zelosos, é judia. A família israelita dela estava à espera no aeroporto. Apesar disso, os responsáveis israelitas recusaram-se obstinadamente a fazer comentários, e muito menos a pedir desculpas.

O blogger Silverstein salientou: “Talvez não ascenda ao mesmo nível de humilhação [que a conhecida fotografia do gueto polaco]. Mas isso só foi assim porque os agentes israelitas sabiam que ele era um cidadão norte-americano. Podem estar certos de que se tivesse sido um dançarino árabe israelita, o tratamento teria sido muito pior.” (richardsilverstein.com)

Muito pior: Mohammed Omer, um jovem de 24 anos de Gaza, foi um dos dois vencedores do Prémio Martha Gellhorn de Jornalismo de 2008 (partilhado com Dahr Jamail). O apoio governamental internacional, incluindo o de diplomatas holandeses que viajaram para o ir buscar, forçou Israel a deixá-lo sair de Gaza para que ele pudesse assistir a cerimónia de entrega do prémio em Londres. Omer tornou-se jornalista quando era adolescente, depois de uma escavadora israelita ter esmagado a sua casa enquanto a sua família ainda estava dentro dela, ferindo gravemente a sua mãe. Apesar disso, segundo um antigo embaixador holandês, “ele é uma voz moderadora, que apela aos jovens palestinianos a não buscarem o ódio, mas sim a procurarem a paz com Israel” (www.johnpilger.com, 2 de Julho).

Mas, tal como aconteceu com o dançarino Jackson, Israel não se preocupa em saber se alguém realmente constitui ou não uma ameaça. Eles têm um sistema para impor. Como parte disso, ninguém entre os que eles consideram sub-humanos está autorizado a considerar-se tão bom quanto a raça dominante. Nem nenhum dos agentes da raça dominante pode alimentar a ideia de que aqueles em cuja opressão se baseia a sua identidade são seres humanos. A manutenção ou queda do seu sistema depende, em última análise, das armas, mas essa ideologia é essencial para a sua sobrevivência.

Quando Omer tentou voltara a entrar em Israel pela Ponte de Allenby, vindo da Jordânia, viajando de novo com um diplomata holandês para sua protecção, oito agentes do Shin Bet (a Gestapo israelita) cercaram-no e exigiram o dinheiro do seu prémio. Um deles colocou uma arma na cabeça de Omer. Eles despiram-no violentamente e obrigaram-no a manter-se nu em pé. Riram-se quando ele protestou dizendo que era um ser humano. Após doze horas sem água, comida ou uma casa de banho, ele vomitou e desmaiou. Então, os agentes do Shin Bet usaram os seus polegares para remexer por baixo dos seus olhos e nos nervos debaixo das suas orelhas e pisaram a sua garganta para lhe cortar a respiração – métodos de tortura concebidos para não deixarem marcas. A sua escolta diplomática holandesa esteve à espera durante todo esse tempo. Talvez tenha sido por isso que ele acabou num hospital e não morto.

Antes de o torturarem, eles obrigaram-no a dançar.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese