Musharraf: Outro lacaio imperialista que cai
25 de Agosto de 2008. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

O regime de nove anos de Parvez Musharraf, considerado pelos EUA e outros imperialistas ocidentais como um “importante aliado” na sua chamada guerra ao terrorismo, chegou ao fim. Ele demitiu-se a 18 de Agosto para evitar a vergonha de um resultado político que já não tinha força suficiente para impedir: o governo de coligação que tomou posse no início deste ano tinha chegado a um consenso para demitir o presidente por alegadas violações da constituição, entre as quais a imposição do estado de emergência em Novembro passado e o afastamento de 60 juízes. Inicialmente, Musharraf fingiu ignorar, mas depressa verificou que tinha sido abandonado por todos os seus antigos amigos.

Mesmo os EUA esquivaram-se a vir em sua salvação. Parecia que o seu prazo de validade tinha expirado. O que os EUA e a Grã-Bretanha fizeram por ele, porém, foi forçar o actual governo paquistanês a conceder-lhe a maneira possível de saída segura do confuso e perigoso universo político do Paquistão que raramente esteve disponível para outros líderes nos últimos 61 anos, desde a fundação do país.

Façamos um pequeno resumo dos antecedentes: Em 1958, um golpe militar derrubou o governo do primeiro Presidente do Paquistão, Iskander Mirza, que foi forçado a exilar-se em Londres. O seu sucessor, o General Ayub Khan, que perdera credibilidade após a guerra de 1965 com a Índia, demitiu-se e entregou o controlo ao General Yahya Khan, o qual foi afastado do governo após a guerra de 1971 com a Índia em que o derrotado Paquistão perdeu a região que se viria a tornar no Bangladesh. Depois dessa guerra, Zulfiqar Ali Bhutto, líder do Partido Popular do Paquistão, tornou-se primeiro-ministro, mas o seu mandato foi interrompido por um golpe de estado liderado pelo General Zia ul-haq, o qual o enforcou em Abril de 1979. O General Zia governou durante 11 anos e deu aos EUA uma importante ajuda durante a Guerra Fria, antes de morrer num misterioso acidente aéreo. Dos dois primeiros-ministros civis dos anos 90, um, Nawaz Sharif, foi afastado pelo golpe de estado do então General Musharraf. Sharif esteve perto de ser executado mas acabou por ser enviado para o exílio. A outra, Benazir Bhutto, filha de Zulfiqar Ali Bhutto e líder oficial da oposição no momento do golpe, também foi enviada para o exílio. Regressou em 2007 e foi assassinada em Janeiro passado. Musharraf não conseguiu ultrapassar a esperança de vida dos seus antecessores. Se, devido a protecção dos EUA e da Grã-Bretanha, ele conseguir manter-se vivo e não ser preso nem exilado, terá escapado ao destino da maioria deles.

Esses líderes confrontaram-se com uma saída abrupta não só devido aos seus fracassos e à sua extrema natureza reaccionária, mas também devido ao seu extremo servilismo em relação ao sistema imperialista e à situação excepcional para que esse sistema empurrou o Paquistão. Isso deveu-se, em parte, às condições históricas da sua criação e à sua posição geopolítica. Porém, o papel que o Paquistão tem representado ao serviço dos imperialistas ocidentais tornou essa situação ainda mais frágil e volátil.

O Paquistão foi criado em 1947, após a saída dos britânicos da Índia. Antes de partirem, os colonialistas criaram deliberadamente uma situação que asseguraria que poderiam continuar a interferir nas questões regionais durante décadas. A guerra entre muçulmanos e hindus que se seguiu, com algumas dos piores massacres sectários da história mundial, não foi acidental. O seu resultado foi a divisão da Índia e a criação do Paquistão, com base não numa qualquer existência real como nação distinta mas sobretudo em bases religiosas. Isso foi um importante factor na instabilidade política que tem infestado o Paquistão desde então.

Musharraf enfrentou pouca oposição de massas quando tomou o poder em Outubro de 1999. Os governos civis de Benazir Bhutto e Nawaz tinham representado as mesmas classes reaccionárias que os generais e tinham mostrado não ser menos brutais ou corruptos. Eles tinham seguido o mesmo caminho de rastejamento perante os interesses dos EUA e outros imperialistas ocidentais. Por isso, a maioria das massas não viu nenhuma necessidade de apoiar qualquer dessas forças. Mas a indiferença das massas rapidamente se transformou num gigantesco ódio a Musharraf. E, no momento em foi obrigado a demitir-se, os resultados desastrosos do seu governo eram óbvios para toda a gente.

A situação económica do Paquistão está num dos seus piores momentos. Mesmo os investidores estrangeiros estão a abandonar o Paquistão face à deterioração da segurança. Diz-se que a inflação está acima dos 20%. A bolsa de valores de Carachi tem-se afundado e a rupia [paquistanesa] perdeu um quarto do seu valor durante o último ano. Os conflitos esporádicos entre o exército e os fundamentalistas islâmicos baseados na Província da Fronteira Noroeste, ao longo da fronteira com o Afeganistão, escalaram para uma guerra que até agora tem corrido mal para o exército. Até recentemente, os atentados suicidas e outros ataques dos islamitas não eram considerados um problema importante no Paquistão, mas o aumento acentuado dessas actividades durante os últimos 12 a 18 meses tornou o país num dos lugares mais violentos do mundo. Um atentado bombista a 21 de Agosto numa fábrica de munições perto de Islamabad matou 63 pessoas e feriu muitas mais. Tem sido referido como o pior ataque do género que o Paquistão alguma vez testemunhou.

O Paquistão é acusado de ajudar os talibãs a combaterem o governo do Afeganistão, os EUA e as outras forças invasoras da NATO. Depois de muitos esforços dos EUA para melhorarem as relações entre o Paquistão e a Índia, elas voltaram a deteriorar-se. A questão de Caxemira está a tornar-se uma vez mais numa fonte de conflito. Nova Deli e a CIA têm acusado o Paquistão de envolvimento no atentado bombista frente à embaixada da Índia em Cabul, em Julho, que matou 40 pessoas. Além disso, embora possa haver unidade entre as forças políticas dominantes para se livrarem de Musharraf e se oporem à Índia, aparte isso, elas estão profundamente divididas.

Musharraf e a era da “guerra ao terrorismo”

Há sete anos, antes de os EUA e os seus aliados terem invadido o Afeganistão, o Paquistão parecia muito mais estável que hoje. Mas, na realidade, durante as décadas anteriores, os EUA já tinham impregnado o Paquistão com a crise que agora emergiu.

Durante a Guerra Fria, o Paquistão foi a sede dos jihadistas islâmicos que lutaram contra a ocupação soviética do Afeganistão e um centro de recrutamento de jovens muçulmanos vindos de todo o mundo para combaterem a seu lado. A intervenção da CIA e a ajuda financeira e militar norte-americana aos jihadistas eram canalizadas através do Paquistão. A situação do país ficou cada vez mais ligada à guerra do Afeganistão. Se a isto se acrescentar os cerca de quatro milhões de afegãos que se refugiaram no Paquistão durante as três últimas décadas e os milhões que ainda aí vivem ou têm familiares no Paquistão, essa ligação torna-se ainda mais forte.

Musharraf estava no poder na altura do 11 de Setembro de 2001 e do desencadeamento pelos EUA da chamada guerra ao terror. Estes acontecimentos contribuíram tanto para a sua capacidade de consolidar o seu poder como para a sua queda final.

Após o 11 de Setembro, o Paquistão foi forçado a representar um papel central na invasão do Afeganistão. Um outro General, o Secretário de Estado norte-americano Colin Powell, deu-lhe a escolher: “Ou você está connosco ou contra nós”. O adjunto de Powell disse a um adjunto de Musharraf o que lhe aconteceria se ele fizesse a escolha errada: o Paquistão “deveria estar preparado para ser bombardeado de regresso à Idade da Pedra” (Da autobiografia de Musharraf, In the Line of Fire [Na Linha de Fogo]).

A resposta de Musharraf e das classes dominantes paquistanesas não foi porém directa. Participar na guerra liderada pelos EUA contra o Afeganistão e os talibãs levaria o Paquistão na direcção oposta àquela que tinha seguido nas duas décadas anteriores. Ajudar os jihadistas islamitas tinha fortalecido o Paquistão no seu conflito com a Índia, incluindo dando-lhe aquilo a que os militares paquistaneses chamavam “profundidade estratégica” em caso de uma guerra total com a Índia; a influência do Paquistão sobre o regime talibã aumentou o seu peso regional. Tomar partido pelos EUA neste novo conflito ameaçou acabar com o que as classes dominantes do Paquistão sentiam ter obtido durante anos de investimento. Mas também havia outro problema. Durante todos esses anos, elas tinham mobilizado as massas à volta do Islão e agora estavam a pedir-lhes que agissem contra esses mesmos “irmãos muçulmanos” que tinham ajudado a dar legitimidade ao seu regime.

Musharraf acabou por apareceu na televisão nacional para fazer um longo discurso para justificar essa nova abordagem e tentar convencer as poderosas forças fundamentalistas do Paquistão. O seu argumento final foi que “o Paquistão está primeiro”, querendo dizer que o país não tinha outra alternativa senão cooperar com os EUA na sua pirueta contra os combatentes fundamentalistas que os EUA tinham inicialmente ajudado a financiar e organizar. Com isso, Musharraf transformou-se a si próprio no mais importante “aliado não-NATO” dos EUA. A recompensa foram 12 mil milhões de dólares em ajuda dos EUA, sobretudo para fortalecer o exército paquistanês. Porém, o resultado real não foi o fortalecimento das classes dominantes do Paquistão mas sim a sua debilitação. Durante anos, o Paquistão exportou para outros países vizinhos uma guerra de base islâmica; agora, começou a importá-la.

Durante o regime de Musharraf, enquanto ajudava os EUA a invadir e ocupar o Afeganistão, bem como a prender centenas de membros da Al-Qaeda no Paquistão, o seu papel nessa guerra foi controverso. Enquanto durante anos as autoridades norte-americanas, até ao próprio Presidente Bush, insistiam que Musharraf era um inestimável aliado, havia inúmeros relatos que indicavam que o seu governo estava a permitir que os talibãs se reorganizassem dentro do Paquistão. De facto, alguns relatos diziam que o exército paquistanês não só estava a fechar os olhos a essas actividades, como também estava a apoiá-las activamente. Apesar dos protestos do regime de Karzai em relação a essa questão, durante muito tempo os EUA pareceram ignorar esses relatos. A princípio, as autoridades norte-americanas fingiram que nada desse género estava realmente a acontecer; depois atribuíram a culpa a elementos do exército paquistanês ou da poderosa agência de inteligência militar (ISI), supostamente a actuar independentemente. Apenas após os talibãs terem conquistado uma posição considerável e se terem tornado numa ameaça mais perigosa à ocupação da NATO eles começam a mostrar-se preocupados. (Está fora do âmbito deste artigo analisar por que razão os EUA mantiveram o seu apoio a Musharraf e ao exército paquistanês nessas condições. Mas é difícil acreditar que os EUA não estavam conscientes da situação.)

O fim de Musharraf

Em paralelo com o ressurgimento dos talibãs, que forçou os EUA a levarem mais a serio a ajuda paquistanesa aos talibãs, Musharraf estava a ficar cada vez mais impopular no país. Uma das razões foi a sua participação na “guerra ao terror”. Outra foram as manobras para assegurar o seu poder pessoal como chefe do exército, do estado e do governo, em violação da Constituição do Paquistão que tinha sido escrita para servir as suas classes dominantes. Ele fez-se reeleger presidente do país quando ainda era chefe do exército, não cumprindo as suas promessas de abandonar um desses dois lugares. Ele estava bastante consciente da instabilidade política crónica do país que tinha implicado que muitas vezes os dois lugares fossem ocupados em conjunto. Chegou mesmo a declarar o estado de emergência em Novembro do ano passado e a afastar 60 juízes, entre os quais o Juiz Principal Mohammed Iftikhar Chaudhery, por temer que eles pudessem declarar ilegal a sua presidência. Musharraf já antes, em Maio de 2007, tinha tentado demitir Chaudhery mas, devido aos firmes protestos dos advogados que desfrutavam de um largo apoio popular, teve que recuar. Washington apoiou todos os actos despóticos de Musharraf e insistiu que se tratavam de questões puramente “internas”, ao mesmo tempo que elogiavam o general como aliado insubstituível.

Durante o último ano e meio, a economia do Paquistão tornou-se desastrosa e cambaleou devido a crises políticas umas atrás das outras. A posição de Musharraf estava a debilitar-se e estava a ser cada vez mais difícil que ele se conseguisse salvar. Por fim, a Grã-Bretanha e os EUA tentaram arquitectar um acordo de partilha de poder entre Musharraf e Benazir Bhutto. Quando ela foi assassinada durante a sua campanha para uma maioria parlamentar e o lugar de primeira-ministra sob a presidência de Musharraf, o resultado foi mais agitação política e uma maior aversão das massas. A vergonhosa derrota dos partidos pró-Musharraf nas eleições de Fevereiro passado e a formação de um governo de coligação entre o Partido Popular do Paquistão (liderado por Asif Ali Zardari, o viúvo de Bhutto) e a Liga Muçulmana (de Nawaz Sharif) tornaram inegável o seu isolamento político. O novo líder do exército, Ashfaq Kayani, também se distanciou de Musharraf. Os EUA enviaram um general de topo para se reunir com ele e pareciam ter concluído que o seu aliado chave era o exército paquistanês, e não Musharraf pessoalmente.

Isso foi o início do fim. Os responsáveis norte-americanos começaram a questionar publicamente a utilidade de Musharraf e mesmo a interrogarem-se, no que diz respeito à “guerra ao terror”, se Musharraf era parte da solução ou do problema. A reunião de finais de Julho deste ano entre representantes da Casa Branca e do novo primeiro-ministro do Partido Popular do Paquistão também parecia estar relacionada com o futuro de Musharraf. Quando, apenas alguns dias mais tarde, responsáveis dos serviços secretos norte-americanos confirmaram publicamente o envolvimento dos serviços secretos paquistaneses no atentado contra a embaixada indiana em Cabul, isso foi um sinal de que o seu destino estava hermeticamente selado. Não muito depois disso, os dois partidos governamentais paquistaneses chegaram a um acordo para o acusarem.

Contudo, os EUA e a Grã-Bretanha não podiam simplesmente derrubá-lo. Tinham que continuar a controlar a situação. Foi revelado que Sir Mark Lyall Grant, um diplomata sénior britânico envolvido na obtenção de um acordo entre Musharraf e Bhutto o ano passado, teria negociado um outro acordo entre Musharraf e o governo de coligação na primeira quinzena de Agosto. Musharraf foi convencido a demitir-se em troca da promessa de uma saída segura do lugar (The New York Times, 15 de Agosto, e BBC, 20 de Agosto).

Musharraf saiu da mesma maneira que entrou – como lacaio imperialista. Ele não teve outra alternativa senão participar na “guerra ao terror” e, quando perdeu o apoio dos imperialistas, não teve outra alternativa senão partir. Porém, durante os últimos nove anos, não só as massas populares ficaram numa situação muito pior e a deteriorar-se, como também a posição das classes dominantes do país, dependentes dos imperialistas, tanto no país como na região, foi consideravelmente debilitada. Um Paquistão instável ficou muito mais instável, e essa região hostil ficou ainda mais hostil. Ao mesmo tempo que, devido à guerra no Afeganistão, a Índia e o Irão ficaram aí mais poderosos e influentes, o Paquistão perdeu toda a sua influência no Afeganistão e isso também aumentou a crise da sua classe dominante. Assim, o legado de Musharraf e o preço que o Paquistão tem que pagar pelo seu servilismo aos EUA é a agitação actual e ainda mais no futuro, tanto na política e como em todos os outros aspectos da sociedade paquistanesa.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese