Irão: Algumas questões sobre o incidente na Universidade de Zanjan
30 de Junho de 2008. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Os acontecimentos na Universidade de Zanjan, no Irão, chocaram todo o país há duas semanas atrás. Não porque as pessoas não soubessem do tipo de corrupção e dos abusos que ocorrem por trás dos códigos islâmicos impostos pelo regime, mas porque esse incidente concentra a essência da República Islâmica. Os acontecimentos subsequentes também foram chocantes e para além do que os iranianos, que estão bem familiarizados com a lógica do regime islâmico, poderiam acreditar.

Uma estudante foi suficientemente corajosa para desafiar todas as ameaças do chamado comité disciplinar e das autoridades universitárias. Ela recusou-se a ceder perante as suas exigências e, pelo contrário, ajudou a recolher provas para demonstrar a corrupção e a actuação abusiva do vice-chanceler da Universidade, Hassan Madadi. Foi posta a circular uma gravação áudio dele a fazer-lhe exigências sexuais. Dezenas de milhares de pessoas viram o vídeo gravado num telemóvel e colocado no YouTube que mostra os estudantes a prendê-lo, a entregá-lo às autoridades e a exigir que ele seja acusado (http://uk.youtube.com/watch?v=01NPJ5McQW4).

As pessoas comunicaram umas com as outras por SMS e por telefone. Uma vez mais, não porque as pessoas não soubessem – muitas sabiam da dimensão deste tipo de corrupção nesse regime – mas porque se alegraram por sentirem que desta vez este criminoso tinha sido apanhado com a mão na massa e que ele e o governo não conseguiriam escapar.

Essas notícias enfureceram os estudantes e 3000 participaram nos protestos. Uma vaga de solidariedade e apoio surgiu de outros estudantes universitários. As autoridades universitárias, que estavam numa posição enfraquecida, tentaram impedir essas manifestações, fazendo falsas promessas em resposta às reivindicações dos estudantes. Por fim, os membros da Associação Islâmica estudantil, ligada a “reformadores” como o ex-presidente Muhammad Khatami, estavam determinados a usar esses acontecimentos a seu favor na sua luta entre facções dentro do estado, empenhados em impedirem o movimento estudantil de sair fora do seu controlo e em desenvolverem o seu próprio programa faccioso no governo.

Mas o que chocou ainda mais as pessoas surgiu depois de terminadas as manifestações, quando o Ministro da Ciência e do Ensino Superior, Ali Zahedi, alegou que o vídeo não provava nada e o procurador de Zanjan afirmou que expor um “pecado” é pior que o próprio pecado. Dificilmente alguém deixaria de perceber o que eles pretendiam. Não demorou muito até a estudante que ousou expor esse responsável abusador ser ela própria presa e acusada de ligação ilícita!

A lei islâmica requer que dois homens adultos testemunhem esses abusos – uma exigência tão pouco prática que esses abusos não podem nunca ser provados. A lógica islâmica é clara: as mulheres são culpadas e são a fonte do pecado, pelo que, qualquer que seja o pecado, é a mulher que deve estar em falta. O facto de o pecado ter ocorrido e ela ser uma mulher é prova suficiente para ela ser presa. Desta forma, as posições de criminoso e vítima são invertidas.

Este acontecimento mostra que o regime islâmico está decidido a prosseguir as suas políticas antimulheres, mesmo face a um escândalo com provas tão sólidas e inegáveis. Isto também mostra que a mais brutal opressão das mulheres é um importante pilar da República Islâmica do Irão. É por isso que dizemos que este incidente revela, de uma forma concentrada, a essência do regime islâmico.

Protestos estudantis na Universidade de Zanjan, Irão

As estudantes, que constituem a maioria da população universitária iraniana, estão regularmente sujeitas ao assédio e às ameaças do comité disciplinar e do Gabinete Harasat (Guardião) das Universidades. O Harasat é uma unidade instalada em cada universidade que age como aparelho de informações e segurança, uma vez que, supostamente, não são permitidas as forças regulares de segurança no campus. Eles monitorizam regularmente o comportamento e as actividades dos estudantes e mesmo dos professores no campus e nas salas de aula. Eles criaram uma atmosfera repressiva e fascista nas universidades e são muito odiados pelos estudantes.

A ironia é que enquanto os responsáveis do Ministério da Ciência e do Ensino Superior e das universidades nunca se cansam de usar toda a sua criatividade para emitirem todo o tipo de regras e regulamentos invulgares e altamente detalhados de controlo do vestuário e maquilhagem e das relações entre os estudantes dos dois sexos e intimam os estudantes a comparecer perante o comité disciplinar e chegam mesmo a expulsá-los por violarem os códigos islâmicos de cobertura do corpo ou por comportamento não-islâmico, ao mesmo tempo, um vasto leque de responsáveis e autoridades universitárias e, em particular os responsáveis do Harasat, usam o seu poder para abusarem sexualmente das estudantes. Estes dois aspectos poderão parecer contraditórios mas a origem dos dois comportamentos é a mesma: a vontade de controlarem e oprimirem as mulheres. O governo faz o seu melhor para proteger esses criminosos, não só para defender os seus arruaceiros como, e mais importante, porque a opressão das mulheres é um importante pilar de todo o sistema. Para dar outro exemplo, é assim que os grupos islâmicos armados do Afeganistão fazem pressão sobre as mulheres. Eles sequestram as adolescentes e violam-nas pelo “pecado” de irem à escola ou por não seguirem o código islâmico de cobertura do corpo.

No Irão, muitos desses responsáveis são ex-membros dos Pasdaran e da Basij (as forças armadas privadas do regime islâmico, os Guardas Revolucionários e a milícia), recém-seleccionados. Depois da guerra Irão-Iraque, eles receberam graus académicos, não por terem frequentado aulas, mas como recompensa pelos seus serviços na guerra e na “revolução” islâmica, ou por serem membros de um dos bandos que instauraram a República Islâmica do Irão. Todos os docentes universitários progressistas foram afastados durante a chamada revolução cultural do início dos anos 80. Nos últimos anos, toda uma nova colheita de académicos não considerados suficientemente islâmicos foi uma vez mais afastada. Em resultado disso, as universidades caíram nas mãos dos funcionários e docentes mais fundamentalistas e ligados ao Islão, que têm abusado do seu poder sobre os estudantes, de muitas formas diferentes, incluindo exigir-lhes sexo.

Esta islamização das universidades colocou ainda mais pressão sobre os estudantes e, em particular, aumentou a opressão das estudantes. Por outro lado, as mulheres têm tido cada vez mais vários tipos de comportamentos rebeldes e desafiantes e participam frequentemente em actos políticos contra o estado e os responsáveis nomeados pelo estado. Elas tornaram-se numa componente importante de todos os movimentos estudantis, apesar das condições desfavoráveis e das restrições e limitações à sua participação.

O que enfureceu as pessoas, mais que qualquer outra coisa, acerca do incidente na Universidade de Zanjan, foi que esse tipo de incidentes não é raro. Como diz o panfleto da Organização 8 de Março que acompanha este artigo, têm sido revelados casos semelhantes noutras universidades, como na Universidade de Sahand em Tabriz e na Universidade de Razi em Kermanshah e noutros lugares. O que torna este caso diferente é que os estudantes recolheram provas inegáveis e expuseram-nas às pessoas antes de o regime ter conseguido controlar a circulação das notícias.

Mas, ao mesmo tempo, tem havido inúmeros casos que não têm sido denunciados. O medo do estigma social e, mais importante, o medo de serem acusadas de praticarem pecados ou terem relações sexuais ilícitas, tem impedido as vítimas de sequer falarem sobre isso aos seus amigos ou familiares mais chegados. Shadi Sadr, uma advogada iraniana e activista em casos semelhantes, escreveu num artigo: “Tenho encontrado frequentemente ficheiros de casos que descrevem mulheres que foram vítimas de ameaças, abusos sexuais e mesmo violação. Depois de fazerem queixa por violação, elas são violadas de novo por um processo legal longo e difícil que lhes traz ainda mais sofrimento. Elas não só descobrem que estão impedidas de provar os abusos sexuais ou as violações, como acabam elas próprias por ser acusadas e punidas pela lei porque se diz que elas confessaram ter tido relações sexuais fora do casamento, um fim que infelizmente pode ser o que espera a estudante de Zanjan”. (Newsletter na língua farsi da Universidade Técnica Amir Kabir, 20 de Junho)

O que é dramático é que os abusos, as ameaças e o assédio das forças de segurança e dos responsáveis, sobretudo nas universidades, têm levado muitas estudantes ao suicídio. Segundo uma notícia da edição em língua farsi da Deutsche Welle (Voz da Alemanha, 23 de Junho), o chefe do Gabinete Harasat do Ministério da Ciência e do Ensino Superior disse que dos 28 suicídios de estudantes universitários desde o início do ano novo iraniano a 21 de Março, 21 foram de mulheres. A mesma fonte relatou: “A 16 de Abril deste ano, um estudante de doutoramento que estudava Química na Universidade Shahid Beheshti suicidou-se com cianeto; quatro dias depois um estudante de Hamadan suicidou-se; e, no mês seguinte, em Isfahan, uma estudante de medicina suicidou-se dois dias depois de ter sido detida e acusada de violar os códigos islâmicos do vestuário. No início do ano, uma outra estudante da universidade de Damghan, no nordeste do país, enforcou-se no seu dormitório. A 11 de Junho deste ano, em Malayer, uma cidade a 320 quilómetros a ocidente da capital Teerão, suicidou-se uma estudante. O comité disciplinar da Universidade tinha-a suspenso durante um período por relações sexuais ilícitas.” Segundo a mesma fonte, na província oriental de Sistan e Baluchistão, uma outra estudante também se suicidou ingerindo comprimidos.



A ira das pessoas face às notícias sobre a Universidade de Zanjan ainda fervilhava quando começou a circular uma fotografia que exibia o corpo maltratado de uma estudante da Universidade de Lahijan, no noroeste do Irão, que se atirara do quarto andar da faculdade de engenharia, onde se situa o gabinete Harasat. Partiu o coração dos milhões de pessoas que a viram em várias páginas Web, incluindo http://www.autnews.eu/archives/1387,04,00010088. Foi ainda mais doloroso quando, na Universidade de Sistan e Baluchistão, uma segunda estudante também se suicidou. E sabemos que estes suicídios nem foram os primeiros nem serão os últimos.

Mas, felizmente, não foi isso o que fez a estudante assediada e ameaçada da Universidade de Zanjan. Os seus actos corajosos puderam expor os criminosos responsáveis antimulheres e o sistema que os defende, e isso desencadeou um extraordinário movimento estudantil.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese