Os protestos contra o “Cristival” na Alemanha: “Levem de volta as vossas trevas”
12 de Maio de 2008. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Um grande evento cristão evangélico chamado “Cristival” [Christival] que decorreu no início de Maio em Bremen, na Alemanha, foi confrontado com protestos organizados por uma “coligação anti-sexista” de organizações de mulheres, grupos de esquerda e autonomen (frequentemente jovens anarquistas vestidos de negro) que se opõem à opressão das mulheres e dos homossexuais e às “trevas” das crenças e da moralidade religiosa.

Essa “festa da crença”, como se definiu o Cristival, tinha-se realizado antes em 1976, 1988, 1996 e 2002. O seu objectivo é promover o evangelismo cristão entre os jovens europeus. Nisso tem todo o apoio do governo alemão. Foi patrocinado pela Ministra da Família, Ursula von der Leyen, e recebeu 250 000 euros (quase 400 000 dólares) de dinheiros públicos. Muito desse “evento cristão do ano”, como lhe chamou o seu principal organizador, centra-se na tentativa de restabelecer o papel tradicional das mulheres e da família, com seminários específicos de oposição ao aborto e à homossexualidade como contrários ao “plano de deus”. A ideia é marcar com um selo santificado e permanente as relações entre homens e mulheres e todas as relações de género, pessoais e de amor, tal como elas existiam no passado, como único modelo aceitável para o futuro. Isso é anticientífico e asfixiante, e é exactamente o que os manifestantes e muitas outras pessoas não podem nem irão aceitar.

Os grupos de mulheres, organizações de lésbicas e homossexuais e outros grupos anti-racistas e progressistas iniciaram os cinco dias de protestos com várias manifestações e acções a 30 de Abril, no local do festival e noutros lugares de Bremen. Centenas de autonomen interromperam o concerto da noite de abertura. Alguns tentaram invadir o palco. Uma das manifestações ocorreu frente à estação central de comboios da cidade, onde muitos participantes estavam a chegar vindos de outras cidades alemãs. Uma manifestação convocada por lésbicas reuniu cerca de 1000 pessoas de todas as idades. As palavras de ordem em defesa dos direitos das mulheres e dos homossexuais foram o denominador comum. Os oradores de um comício realizado a 3 de Maio no centro da cidade declararam com maior profundidade as razões por que se opunham ao conteúdo político do Cristival e também se opunham à sua mensagem religiosa. A polícia prendeu cerca de 20 mulheres por tentarem entrar num seminário antiaborto e exporem os seus objectivos misóginos.

O evento incluiu 225 seminários e workshops planeados para propagarem a moralidade religiosa, com o aspecto não escondido de apoio à opressão das mulheres e oposição à homossexualidade. Dois dos seminários previstos, um sobre o aborto intitulado “O Sexo é uma Ideia de Deus – O Aborto Também?” e outro sobre a homossexualidade intitulado “Compreender a Homossexualidade – Uma Oportunidade de Mudança” – geraram raiva e oposição entre diferentes grupos de pessoas, em particular nos que se opõem à opressão das mulheres e à discriminação dos homossexuais. Isso deu origem a uma pressão pública e a uma discussão no Bundestag (o parlamento federal alemão), com objecções de vários parlamentares, incluindo um proeminente membro homossexual do Partido dos Verdes. Os organizadores acabaram por ser forçados a anular o seminário sobre a homossexualidade, mas insistiram em manter no programa o seminário antiaborto.

É significativo que o Cristival tenha tido início em 1976, quando as forças religiosas tradicionais de muitos países começaram a tentar voltar para trás a recusa a aceitar a moralidade tradicional e os papéis opressivos de homens e mulheres que foi parte da sublevação da juventude ocidental (incluindo, claro, a Alemanha) a meio de uma revolta revolucionária global com muitas frentes contra o velho mundo. Esse início coincidiu com o enfraquecimento desses movimentos e com a perda do poder revolucionário do proletariado na China, bem como com as tentativas imperialistas ocidentais para se prepararem para uma guerra contra a igualmente reaccionária (e já não socialista) União Soviética, reabilitando a religião como pilar ideológico nesse conflito entre impérios. Embora muitos factores poderosos tenham contribuído para a ascensão da religião durante as últimas décadas, também é verdade que as classes dominantes capitalistas nos países imperialistas ocidentais muito fizeram para promover essa tendência, como é exemplificado por este festival que não é exactamente um produto de um entusiasmo espontâneo de sentimentos baseados na fé. De facto, tem havido um agudo declínio de audiência desde a edição de 2002 em Kassel, participada por 22 000 pessoas, em contraste com as 16 000 deste ano, apesar da enorme campanha de publicidade. O principal objectivo do festival é inverter o declínio da atracção da religião entre os jovens alemães, atestado pelo declínio na frequência das igrejas das duas principais correntes cristãs (não-evangélicas) do país, acentuando o seu carácter de carnaval (“Cristival”) para atrair os jovens.

Havia claramente um sentimento entre muitos dos jovens que vieram para se oporem ao programa político reaccionário do evento de também rejeitarem todas as tentativas das autoridades e dos governantes do país de imporem uma moralidade hipócrita e a ideologia das “trevas”. Estes protestos foram uma indicação da sede entre muitas pessoas e sobretudo os jovens para a luta no domínio das ideias entre diferentes perspectivas do mundo. Eles também salientaram a necessidade de se trazer o conhecimento científico, comunista, para conquistar uma nova geração que já está a tentar, o melhor que pode, resistir a uma ideologia reaccionária e retrógrada.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese