O Partido Comunista Maoista e as eleições em Itália
21 de Abril de 2008. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

O seguinte artigo da edição de Março da revista Proletari Comunisti (Proletários Comunistas) explica o ponto de vista do Partido Comunista Maoista de Itália sobre as recentes eleições gerais realizadas em Itália.

As eleições foram antecipadas em dois anos porque foi aprovada no parlamento uma moção de censura que derrubou o partido de “centro-esquerda” de Romano Prodi. O núcleo do apoio a Prodi, recentemente fundido no Partido Democrático, vinha de uma amálgama de sectores de dois partidos agora defuntos, o reformista Partido Comunista e o direitista Partido Democrata Cristão que governou a Itália durante a maior parte do período após a II guerra mundial. Nas eleições de Abril para um novo parlamento, a coligação dita de “centro-direita” liderada por Silvio Berlusconi ganhou a maioria ao “centro-esquerda”, agora liderado pelo presidente da Câmara de Roma, Walter Veltroni, um antigo membro do Partido Comunista que diz tomar como modelo o político norte-americano Robert Kennedy e que é frequentemente comparado a Barack Obama. Muitos dos principais observadores (como a BBC) disseram que haver nenhuma diferença significativa entre os programas apresentados pelos dois concorrentes.

Berlusconi, que foi primeiro-ministro por duas vezes e cujo novo Partido do Povo da Liberdade inclui os continuadores do partido fascista de Benito Mussolini, é o principal magnata de Itália e controla a comunicação social. Supõe-se que o novo governo que em breve ele formará inclua importantes ministros da Liga do Norte, um partido que embora baseado numa parte da Itália onde os trabalhadores imigrantes têm criado uma grande riqueza, é mais conhecido pela sua posição violentamente anti-imigrante. Logo após ter tomado posse, Berlusconi disse que a Itália devia “fechar as suas fronteiras e abrir campos para os imigrantes levados para o crime.”

A queda do governo de Prodi foi, em primeiro lugar, o resultado da crise de apoio que se expandiu e aprofundou entre as fileiras dos trabalhadores e das massas populares. As políticas desse governo seguiram o mesmo curso que as de Berlusconi no que diz respeito às medidas económicas e sociais, às questões internas e à política externa. Todas as grandes expectativas, incluindo as encorajadas pelo apoio dado a esse governo pelos partidos que supostamente representam os interesses dos trabalhadores, foram defraudadas. No passado dia 20 de Outubro, um milhão de pessoas participaram numa manifestação de rua organizada pelo Partido da Refundação Comunista [um sector do velho Partido Comunista que não se juntou aos Democratas Cristãos no Partido Democrático, e que é um partido parlamentar que continua a reivindicar os símbolos comunistas, ao mesmo tempo que apoia o centro-esquerda] para pressionar o governo, para que este possa ganhar apoio e confiança. Mas os acordos alcançados nas questões das pensões e da segurança social e a Lei das Finanças que se lhes seguiu traíram imediatamente essa confiança. O governo já tinha esvaziado a sua reserva de apoio nas questões da democracia e da paz, bem como nas da construção de uma nova base da Nato em Vicenza, da ocupação do Afeganistão [onde a Itália tem vários milhares de tropas], do “pacote de segurança”, etc.

Esse enfraquecimento do governo de Prodi levou os patrões e as suas várias máfias a considerarem esse governo inadequado. O “Caso Mastella” [o Ministro da Justiça de Prodi obrigado a demitir-se em Janeiro devido a um escândalo de corrupção] foi apenas o mais recente de uma série de episódios que poderiam ter provocado o seu colapso. Porém, esse caso trouxe à luz do dia a arrogância de casta que também caracterizou o governo de Prodi. A ronda de aplausos no parlamento em defesa de Mastella por quase toda a maioria de centro-esquerda, que se juntou à oposição de centro-direita, alargou o seu distanciamento das massas e intensificou a crise de credibilidade do governo.

As forças oficiais da esquerda parecem patéticas e ridículas quando argumentam que até agora o governo tinha “agido mal” em relação às massas – uma verdadeira admissão de culpa – mas que exactamente quando ia começar a “agir bem”, fizeram-no cair. Além da crise de apoio, surgiu uma contradição interna com o nascimento do Partido Democrático e a ascendente liderança de Veltroni. Isso mostrou à burguesia que havia uma hipótese de políticas ainda mais de direita. Através da convergência Berlusconi/Veltroni, eles poderão marchar ainda mais depressa para um governo e um estado “fortes”. Por isso, estas súbitas eleições são uma jogada necessária para a formação de um governo mais adequado à classe dominante. Um jogo de enganos com um objectivo conhecido: os votos não decidirão a forma de governo mas apenas a sua composição.

Desmontar todas as ilusões eleitorais entre os trabalhadores e as massas populares continua a ser a principal tarefa dos genuínos comunistas, agora mais que nunca. A crise de apoio entre as massas encontrou expressão em importantes movimentos de luta. Até agora, eles não tiveram uma representação ou o peso político necessário para verdadeiramente produzirem uma crise “da esquerda” e um novo cenário em que os trabalhadores e as massas possam influenciar de uma forma determinante a formação do governo, o seu programa e o equilíbrio de forças com o estado e os patrões.

O próximo governo, independentemente de quem ganhe a competição Berlusconi/Veltroni, marchará a um passo cada vez mais acelerado para a construção daquilo a que nós chamamos, em termos simples, um regime de fascismo moderno e um estado policial.

Dizemos fascismo moderno porque o cimento ideológico, cultural e programático que une os partidos que competem entre si para o governo é a sua aceitação da primazia absoluta da ditadura capitalista, o seu profundo anticomunismo, um novo sistema corporativista [o modelo de sociedade de parceria governo-sindicatos desenvolvido no tempo de Mussolini] de relações industriais e as mudanças reaccionárias propostas para a Constituição [uma constituição adoptada logo após a II guerra mundial, a que Berlusconi chama “demasiado soviética” por causa da influência na sua escrita do Partido Comunista, que nessa altura era uma poderosa voz porque tinha liderado a resistência armada ao regime de Mussolini durante a guerra], para retirar os elementos vindos da Resistência.

É um fascismo “moderno”, um fascismo adaptado à Itália, à Europa e ao sistema mundial de 2008, como o que existe nos EUA imperialistas ou que avança de uma forma nitidamente delineada na França de Sarkozy.

O nexo íntimo entre a construção desse regime e o estado policial é demonstrado pela forma como eles transformam as lutas sociais em problemas de ordem pública e adoptam “pacotes de segurança” para armarem o estado, procurando erguer uma aura de sacralidade em torno das forças repressivas e canalizar para uma forma totalitária de estado o adubo reaccionário que eles extensamente espalham entre as massas.

A ideologia reaccionária do estado está em oposição a todas as questões da luta social e política: a vida nas fábricas, bem como o problema do lixo [o lixo não recolhido atingiu proporções de crise em Nápoles] ou os direitos das mulheres e dos imigrantes. A concorrência eleitoral entre os principais partidos não é entre duas soluções alternativas mas entre o pessoal político que irá aplicar a única solução realmente oferecida.

Para se definir o papel dos comunistas em relação a estas eleições e a esta fase política, precisamos de começar com os factores avançados que agora surgem na luta de classes, os movimentos proletários e de massas durante o governo de Prodi.

Os trabalhadores que rejeitam os acordos sobre as pensões e o estado-providência e alguns sectores avançados da luta salarial que já não estão sob o controle dos sindicatos oficiais, a insurreição de Nápoles e da Campânia [a queima de enormes pilhas de lixo e os protestos de massas contra os depósitos de lixo propriedade da Máfia e impostos pelo governo nos bairros urbanos e nas regiões à sua volta – para acabar com esse movimento, o governo de Prodi enviou o mesmo agente policial responsável pela repressão das manifestações anti-G8 de Génova], a manifestação das mulheres a 24 de Novembro [em defesa do aborto e outros direitos], as manifestações contra a repressão, as diferentes formas de resistência na esfera cultural – tudo isto forma um movimento híbrido e ainda frágil, mas que é um importante terreno de acumulação de forças para um genuíno movimento de oposição que ganhará força de cada vez que se separar dos dois pólos burgueses, de cada vez que mostrar uma outra política baseada numa perspectiva diferente, num programa diferente, um movimento que também se oponha ao populismo reaccionário e à anti-política da pequena burguesia.

Unir esse movimento de luta, implementar a liderança proletária sob diferentes formas, desenvolver uma frente única baseada na organização autónoma e independente das massas para apoiar a estratégia e as tácticas de uma “guerra” prolongada no confronto com a burguesia e com os seus dois pólos – é este o papel dos comunistas e das vanguardas militantes dos trabalhadores que se distinguem de duas abordagens actualmente nefastas.

A primeira está a participar nas eleições com a sua lista própria de candidatos. Longe de facilitar a entrada dos proletários no “teatro miniatura da política” ou de aí representar os problemas das massas, essa abordagem traz a confusão, a marginalização e a corrupção ideológica. Para usar a metáfora do “teatro miniatura”, ela reduz o movimento proletário e de massas a um papel de “figurante”.

O outro perigo igualmente nefasto vem das formas anarquistas-economicistas ou neo-populistas de fuga das actuais tarefas políticas. Para forjarmos no fogo da luta de classes as ferramentas necessárias ao desenvolvimento da luta de classes – um partido comunista de um novo tipo, a unidade de classe, a frente única de oposição – mesmo o processo eleitoral específico exige palavras de ordem apropriadas que forneçam uma única bandeira a todo o movimento de oposição e uma liderança que concretize o papel autónomo da classe operária e dos proletários. As palavras de ordem “Nem centro-direita nem centro-esquerda, por um governo dos trabalhadores!” servem esse objectivo.

É importante que este slogan conquiste as fileiras da classe operária e se torne numa referência para todo o movimento de oposição. Nesta campanha eleitoral, não basta dizer: “Luta sim, voto não”. Precisamos de popularizar entusiasticamente o slogan de um “outro governo” que expresse uma diferente perspectiva sobre o governo, o estado e a política. Um outro poder.

O slogan do “governo dos trabalhadores” também ajuda a propagar hoje as soluções comunistas para os problemas da vida diária experimentados pelos proletários e pelas massas populares, a perspectiva do poder proletário, do socialismo e do comunismo.

Por isso, o trabalho dos comunistas visa unir, fortalecer e alargar a actual oposição aos dois pólos burgueses, transformando-a numa base de oposição ao novo governo que resultará das eleições.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese