Eleições norte-americanas: Barack Obama, a “melhor face” para o imperialismo norte-americano?
10 de Março de 2008. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

O seguinte artigo foi publicado na edição de 3 de Fevereiro do Revolution, órgão do Partido Comunista Revolucionário dos EUA (revcom.us). Apareceu em conjunto com outro artigo que expunha Hillary Clinton, a rival de Barack Obama para a nomeação presidencial do Partido Democrata, por, entre outras coisas, defender a supremacia branca, incluindo nos seus ataques a Obama.

Num artigo na edição de Dezembro da revista The Atlantic, o comentador Andrew Sullivan defende que Barack Obama deve ser o próximo presidente dos Estados Unidos (“Adeus a Tudo Isso: Porque é Que Obama É Importante”, Dezembro de 2007). Sullivan escreve que um programa de “consenso” (da classe dominante) para uma guerra sem fim e um aumento da repressão continuará em efeito independentemente de quem for o presidente. Ele desafia o leitor a escolher quem melhor poderá implementar tudo isto face a um isolamento global e a uma profunda hostilidade interna. E, ao fazê-lo, ele esclarece o verdadeiro papel das eleições nesta sociedade.

Quem estiver disposto a conhecer uma defesa de Obama vinda de um membro da classe dominante, deve continuar a ler.

Educação Cívica I: O vosso voto no presidente “tem pouco a ver com” decisões políticas fundamentais

Em primeiro lugar, uma nota sobre as credenciais de Andrew Sullivan: Sullivan escreve colunas para o jornal New York Times e a revista Time e é um participante regular em talk shows políticos. É um editor sénior da revista The Atlantic. O principal legado político de Sullivan foi a sua estadia como editor da revista The New Republic onde ele contou entre os seus grandes feitos a promoção do livro The Bell Curve [A Curva em Forma de Sino], um livro pseudocientífico completamente ridículo mas altamente influente que alegava que os negros são geneticamente inferiores aos brancos. A revista The New Republic sob a sua direcção representou um papel chave para – nas suas palavras – “ajudar a torpedear os planos da administração Clinton para uma cobertura universal de saúde”. Sendo um conservador com diferenças em relação ao fundamentalismo cristão (Sullivan é abertamente homossexual), ele invoca Ronald Reagan e Margaret Thatcher como modelos.

E sim, ele está a apoiar Barack Obama à presidência.

Muito no início do artigo de Sullivan, ele invoca e revela um pequeno segredo da classe dominante: o vosso voto “tem pouco a ver com” decisões políticas fundamentais.

Escutem Sullivan: “A lógica por trás da candidatura de Barack Obama”, escreve ele, “tem pouco a ver com as suas propostas políticas, as quais estão muito perto das dos seus rivais democratas e que, com poucas excepções, se situam firmemente dentro das convenções da nossa política.”

Sullivan lista, muito extensivamente, como essas “convenções da nossa política” se colocam ao próximo presidente, independentemente de quem ele for. A guerra no Iraque? Isso “tem uma dinâmica própria que manterá a ocupação até à próxima década”. “Todos os potenciais presidentes”, escreve Sullivan, “assumiram um compromisso para com uma evolução em aberto no Afeganistão e para com uma rígida aliança com Israel”. E Sullivan nem sequer coloca na lista como “questões” muitas das mais notórias afrontas que enfurecem as pessoas – do abandono dos pobres e negros de Nova Orleães à xenofobia e ao reino de terror contra os imigrantes. A palavra “tortura” nunca aparece no seu artigo.

Embora a concretização de Sullivan sobre o “consenso em evolução” da classe dominante já seja suficientemente mau, ela também inclui aquilo que é provavelmente um desejo da sua parte. Por exemplo, ele postula que esse “consenso” inclui a autorização do aborto no primeiro trimestre – algo que os principais candidatos republicanos juraram eliminar. Mas a revelação mais fundamental aí feita não é a de que as políticas de Obama são iguais às de todos os outros candidatos “credíveis” (que o são), mas a de que realmente não interessa quais são as suas políticas.

Subjacente à afirmação de Sullivan de que a candidatura de Obama (ou qualquer outra) tem “pouco a ver com as suas propostas políticas” está uma verdade mais profunda que não é reconhecida por Sullivan, embora defina todo o enquadramento que ele de facto reconhece. A questão fundamental aqui é que quem quer que seja eleito presidente dos Estados Unidos preside a um sistema capitalista-imperialista que tem a sua própria lógica e qualquer presidente que tente ir contra isso será rapidamente “sobreposto” pelo sistema de uma forma ou de outra. Para dar apenas um exemplo: Se alguém for eleito presidente e tentar retirar as forças militares norte-americanas de todos os 130 países com bases dos EUA, esse plano será “sobreposto” de uma forma ou de outra pelo aparelho de estado capitalista (através de um “aviso” dos conselheiros da classe dominante, uma demissão, um “escândalo” ou de outra forma). Porquê? Porque o domínio global do capital norte-americano é projectado e imposto por essas bases militares. Esse domínio imperialista do mundo é, por sua vez, fundamental para o padrão de vida relativamente elevado e a estabilidade social nos EUA. Se um presidente tentasse fechar todas as bases militares dos EUA no mundo, isso seria incompatível e causa de uma severa ruptura da economia imperialista norte-americana e da sua sociedade.

Tendo clarificado que estas eleições “têm pouco a ver com as propostas políticas [de Obama]” e “ainda menos com a sua genealogia ideológica”, Sullivan chegue à defesa de Obama e, ao fazê-lo, roga ao leitor a cumplicidade para com crimes terríveis.

“A mais eficiente recriação dos EUA desde Reagan”

Obama, alega Sullivan, é “a mais eficiente recriação potencial dos Estados Unidos desde Reagan. Uma recriação destas não é trivial – é central para uma efectiva estratégia de guerra. A guerra ao terror islamita, no fim de contas, tem duas vertentes: tem tanto uma função de poder violento como de poder suave.” (Com “poder violento” Sullivan quer dizer força militar; com “poder suave” quer dizer dimensões não-militares de “conquista de corações e mentes” – em conjunto com o uso, ou ameaça de uso, do poder militar.)

Escolher se Obama, Clinton, Edwards, McCain ou qualquer outro seria de facto a mais eficiente arma de “poder suave” da “guerra ao terror” é escolher quem dará a melhor face à verdadeira fonte do pior terror global – o imperialismo norte-americano. Voltemos à realidade por um momento e reflictamos sobre os horrores trazidos pela “guerra ao terror”: um milhão ou mais de iraquianos mortos; cinco milhões de iraquianos desalojados das suas terras ou do seu país; o Afeganistão em ruínas ou controlado pelos talibãs ou pelos senhores da guerra fundamentalistas islâmicos e plantadores de droga alinhados com os EUA; as câmaras de tortura, de Bagram no Afeganistão às celas secretas na Europa: a entrega de detidos ao Egipto, à Síria e à Arábia Saudita para mais torturas patrocinadas pelos EUA; detenções sem julgamentos; Guantânamo; e um mundo encurralado numa horrível polarização entre a agressão, o saque e o terror imperialistas norte-americanos e o fundamentalismo islâmico reaccionário que é simultaneamente alvo e, sob muitas formas, produto da “guerra ao terror”.

O elogio de Obama ao [ex-presidente dos EUA] Ronald Reagan merece uma nova reflexão no contexto do artigo de Sullivan. Sullivan defende especificamente que Obama pode vir a ser o mais eficiente presidente a projectar o poder dos EUA em todo o mundo, desde Reagan.

A infame piada de Reagan: “Caros americanos, tenho o prazer de vos dizer que assinei hoje legislação que banirá a Rússia para sempre; começamos a bombardear daqui a cinco minutos”, concentra o seu papel na história. Ao mesmo tempo que agitava horríveis armas nucleares, ele armava arruaceiros para desencadearem terror, da Nicarágua ao Afeganistão, de El Salvador e da Guatemala a Angola e Moçambique. Reagan promoveu uma guerra entre o Iraque e o Irão que ceifou as vidas de um milhão de pessoas e apoiou o governo do apartheid na África do Sul e o estado racista de Israel – quando ambos reprimiam brutalmente rebeliões internas de povos oprimidos dentro das suas fronteiras.

Desde que rebentou a controvérsia sobre as suas declarações pró-Reagan a um jornal do Nevada, Obama tem tentado “clarificar” o que quis dizer. Reexaminemos as suas declarações.

Na entrevista ao Reno Gazette-Journal, Obama disse: “Ronald Reagan mudou a trajectória da América de uma forma que Richard Nixon não fez e de uma forma que Bill Clinton não fez. Ele colocou-nos num rumo fundamentalmente diferente porque o país estava preparado para isso. Acho que eles sentiam que com todos os excessos dos anos 60 e 70 o governo tinha crescido e crescido, mas não havia muito sentido de responsabilidade em termos de como estava a funcionar. Acho que ele captou o que as pessoas já estavam a sentir. Que era: ‘queremos clareza, queremos optimismo, queremos um regresso àquela sensação de dinamismo e empreendedorismo que tinha estado a faltar.”

Mais tarde, Obama “clarificou” as suas observações dizendo que “tinha passado toda a vida a lutar contra a política de Ronald Reagan”, ao mesmo tempo que não desmentia os seus anteriores comentários. Mas, como vimos, as eleições não têm realmente nada a ver com “políticas”. Aquilo a que Obama chama “excessos” dos anos 60 foram na realidade grandes lutas que não chegaram suficientemente longe. E permanece a questão de que tanto Sullivan como o próprio Obama estão a invocar o legado de Reagan em termos de promoção de um bom sentimento de “clareza” e “optimismo” sobre os crimes do imperialismo norte-americano.

Ninguém que se oponha ao terrível rumo que segue este país deveria querer participar numa campanha para fazer isso.

Dois cenários

Ao promover Obama para presidente, Sullivan coloca um par de cenários muito pesados. Escreve Sullivan: “Considere-se isto como hipotético. Estamos em Novembro de 2008. Um jovem muçulmano paquistanês está a ver televisão e vê que este homem, Barack Hussein Obama, é a nova face da América. Numa única imagem simples, o poder suave da América aumentou, não um pouco, mas bastante... Se quiséssemos a mais rude mas mais efectiva arma contra a diabolização da América que alimenta a ideologia islamita, a face de Obama aproxima-se disso. Ela prova que eles estão enganados sobre o que é a América, de uma forma que nenhuma palavra o poderia fazer.”

Isto é uma defesa de quem poderá ser a melhor face da infindável guerra imperialista, dos assassinatos em massa e da tortura. Por que raio iria alguém querer participar na escolha de quem possa ser o melhor a impor isso às pessoas?

E Sullivan alega que Obama não só é a melhor face para a “guerra ao terror” em todo o mundo, mas também uma face excepcionalmente credível para a repressão interna. O que aconteceria, pergunta Sullivan, se houvesse “outro ataque tipo 11 de Setembro”. Ele alega que “é difícil imaginar uma repetição da súbita unidade e solidariedade dos dias a seguir ao 11 de Setembro, ou uma efusão de apoio de aliados e vizinhos. É muito mais fácil imaginar uma ainda mais amarga disputa sobre quem seriam os responsáveis (além dos culpados) e uma profunda suspeita em relação a um governo forçado a impor mais restrições a viagens, comunicações e liberdades civis. O actual presidente seria incapaz de gerar confiança, já para não falar de apoio, de metade do país num momento desses. Ele poderia mesmo ser acusado de ter provocado qualquer ataque que tivesse surgido.”

O contexto aqui é uma discussão sobre quem seria melhor, no caso de “outro ataque tipo 11 de Setembro” (ou, poder-se-ia acrescentar, da alegação pelo governo de um ataque “planeado”), a implementar aquilo a que Sullivan chama eufemisticamente de “mais restrições a viagens, comunicações e liberdades civis”.

Neste mesmo momento, um número não conhecido de pessoas está em “listas de vigilância” secretas, proibidas de viajar de avião. A mais maciçamente intrusiva vigilância da história da humanidade monitoriza os nossos telefonemas e a nossa navegação na internet e tornaram ilegal a um bibliotecário dizer-nos que o governo está a verificar os livros que levantamos. O presidente pode encarcerar qualquer pessoa, por qualquer motivo, a qualquer momento, sem recurso a qualquer coisa que se assemelhe a um julgamento credível. E Sullivan alega que Obama seria o melhor a implementar uma ainda maior repressão fascista.

Uma vez mais: Por que raio iria alguém querer participar na escolha de quem possa ser o melhor a impor isso às pessoas?

A intensificação da “guerra civil” interna

Sullivan enquadra a sua defesa de Obama no contexto daquilo a que ele chama uma “guerra civil intensificada e não violenta”. Um conflito “sobre cultura, sobre religião e sobre raça”.

, de facto, um profundo conflito nos EUA sobre cultura, religião e raça. Não se caracteriza pela não-violência, mas por uma violência unilateral. A supremacia branca, que numa época anterior era imposta por turbas e cordas de linchamento (e repare-se no regresso das cordas), é hoje imposta nas zonas interiores das cidades pelas armas da polícia. A guerra de culturas religiosas é levada a cabo através de violentos ataques não só a clínicas de aborto, mas também aos que nelas trabalham. E a sociedade está tão impregnada pela violência contra as mulheres sob a forma de violações e violência doméstica contra as mulheres que é uma parte invisível da “cultura”.

Também há uma polarização no topo da sociedade, entre a classe dominante. Por um lado, o núcleo à volta de Bush (e, falando genericamente, as forças da classe dominante cujos programas são enunciados ou representados pelo Partido Republicano) está numa missão – no sentido literal religioso de muitas formas – para refazer radicalmente o mundo do pós-“Guerra Fria” e desfazer o “contrato social” que mais ou menos tem mantido a coesão da sociedade norte-americana há gerações. Do outro lado, estão forças da classe dominante que actuam no mesmo enquadramento, mas que temem fazê-lo rápido demais, abertamente demais e que isso de certa forma estilhace a sociedade (geralmente caracterizadas pelos líderes do Partido Democrata).

Uma orientação significativa do artigo de Sullivan inclui o seu conselho sobre como gerir o conflito no topo da classe dominante, incluindo o seu descontentamento com o estilo e a abordagem de Bush (entre as reclamações de Sullivan está a de que Bush é “incapaz de nuances”). Mas aqui concentrar-nos-emos no argumento de Sullivan de que Obama não só é a melhor face para a guerra imperialista norte-americana, mas também para resolver a “guerra civil” interna.

Obama, escreve Sullivan, pode levar “a América a – finalmente – ultrapassar a debilitadora e autoperpetuadora disputa familiar da geração Baby Boom que há muito nos submerge a todos nós”. E Obama pode acabar com “a guerra dentro da América que prevalece desde o Vietname e que mostra perigosos sinais de se estar a intensificar”.

A perspectiva de Sullivan é de que o melhor caminho para os que têm medos e reservas em relação ao rumo que as coisas estão a tomar é adoptarem muito do enquadramento definido por Bush e defenderem a moderação dentro dele. Sullivan vê os Baby Boomers (o termo que ele usa repetidamente para o legado dos anos 60) como um obstáculo ao forjar de um rumo razoável dentro do “consenso em evolução”. No seu artigo, ele alega que os que se opõem à “guerra ao terror” dos EUA e às invasões do Afeganistão e do Iraque “acham que os ataques do 11 de Setembro são uma resposta legítima a décadas de política externa dos EUA”.

É importante aprofundar esta distorção. As mais poderosas vozes de oposição à “guerra ao terror” nunca alegaram que o 11 de Setembro era uma “resposta legítima” à política externa dos EUA. Elas defendem que a “guerra ao terror” é imoral, ilegal e ilegítima; e que as próprias pessoas têm que forjar uma nova forma de avançarem na oposição tanto ao McWorld como à Jihad. Por exemplo, o Manifesto da organização World Can’t Wait [O Mundo Não Pode Esperar], assinado por milhares de pessoas, incluindo muitos actores conhecidos, autores, activistas políticos e outros, começa com: “O VOSSO GOVERNO, com base em mentiras ultrajantes, está a levar a cabo uma guerra assassina e totalmente ilegítima no Iraque, com outros países na sua mira. O VOSSO GOVERNO está a torturar abertamente pessoas e a justificar isso.” (O Manifesto está disponível em worldcantwait.org.) Milhões de pessoas neste país interrogaram-se, e muitas mais se deveriam interrogar, “Porque é que eles nos odeiam tanto?”

Distorcer essa interrogação e essa oposição da forma como Sullivan o faz – alegando que essa oposição acha “legítimos” os ataques do 11 de Setembro – ajusta-se ao enquadramento estabelecido pelo mantra de Bush de que “Ou estão connosco ou estão com os terroristas”.

Sullivan – e, encaremos isso, ele está a descrever com precisão aquilo que Obama é – alega que Obama pode isolar “os Baby Boomers” e fazer com que a América ultrapasse todas essas coisas dos anos 60. E aqui é de novo invocado o legado de Reagan, não – de facto – por Sullivan, mas pelo próprio Obama que recentemente salientou a capacidade de Reagan de “transformar aquilo que nós pensamos sobre nós próprios como país de uma forma fundamental...”

Como escrevemos a semana passada, na sequência da cultura rebelde dos anos 60, “Reagan apareceu com o seu sorriso de come-merda e risinho de vendedor, ao mesmo tempo que mobilizava uma base social fascista disposta a intimidar toda a gente, narcotizou todos os que estavam no meio, e efectivamente silenciou e marginalizou todos os que representavam alguma coisa decente.” (Ver o artigo de Toby O'Ryan “ ‘Grandeza Americana’ – E Porque é Que Obama e Reagan Estão Realmente Juntos”, em inglês, em revcom.us.) Neste contexto, a constante invocação de Obama de que “não há uma América liberal, não há uma América conservadora, só há os Estados Unidos da América...” pode ser entendida como um apelo a uma unidade nacional patriótica – uma unidade com os mais terríveis crimes cometidos pela única superpotência do mundo.

E devemos perguntar de novo: Por que raio iria alguém querer “resolver” desta forma as guerras de cultura da sociedade?

Sullivan não foca muito nesse artigo o grande fosso social devido à opressão dos negros (e de outras nacionalidades oprimidas). (A relação entre a campanha de Obama e a supremacia branca está fora do âmbito deste artigo, mas podemos salientar aqui que nesse artigo Sullivan descreve “a campanha de Obama para a América branca: cortês, sorridente e sem movimentos bruscos”.) Sullivan fala da questão da ascensão do fundamentalismo religioso cristão teocrático. No método típico do seu artigo, Sullivan define o fosso social devido à religião em termos que marginalizam o laicismo e a plena separação entre igreja e Estado, referindo-se a um conflito entre “americanos tementes a Deus e hippies ateus defensores da paz”.

Sullivan defende um maior papel da religião na sociedade e no governo do que tem sido a norma até Bush. A escolha, diz Sullivan, é entre a “exploração crua por Bush e Rove da lealdade sectária e do zelo religioso” e um maior papel da religião que fique perto disso. Sullivan escreve: “Não se pode liderar os Estados Unidos sem se ter um pé tanto nos campos religiosos como nos laicos.” Quaisquer que sejam as intenções de Sullivan, a perspectiva de se ceder um maior papel à religião e se denegrir a cultura laica (esses “hippies ateus”) entrega a superioridade moral aos fascistas cristãos. Obama e Hillary Clinton (e, antes dela, Bill Clinton) também têm promovido a ilusão de que ao se ceder terreno aos fundamentalistas cristãos se pode moderá-los ou acalmá-los. É neste contexto que encaixa o ramo específico das convicções cristãs de Obama, segundo Sullivan, embora ele reconheça que também Hillary Clinton se está a esforçar por se posicionar para se acomodar à ascensão do fundamentalismo cristão.

Do que nós realmente precisamos

Subjacente à alegação de Sullivan de que Obama é o melhor candidato para gerir todos estes conflitos no sentido que a classe dominante quer dar às coisas está um reconhecimento explícito de que há uma aguda polarização na sociedade norte-americana que pode ficar fora de controlo – “a guerra dentro da América que prevalece desde o Vietname e que mostra perigosos sinais de se estar a intensificar”.

Esta intensificação da situação não irá pura e simplesmente “cair” em nada bom para as massas. A fúria global contra os EUA está longe de ser suficiente para resultar em algo de positivo. É isso que acontece nos EUA e é isso que acontece no mundo. Nos EUA, a fúria contra o rumo das coisas pode assumir, e para muitos já está a assumir, a forma de uma agregação à volta do fascismo cristão patriótico e de uma atracção pelos “bons velhos tempos” da indiscutida supremacia branca e do apoio simplista, tipo “os bons contra os maus”, às guerras dos EUA. No resto do mundo, demasiadas pessoas oprimidas e enfurecidas olham para o beco sem saída reaccionário do fundamentalismo islâmico como “resposta” ao imperialismo.

Mas o aparecimento de uma verdadeira e visível oposição a todo o rumo que este país está a tomar, defendendo e partindo dos interesses da humanidade, pode forjar uma nova polarização dentro dos EUA e criar um clima muito melhor para o aparecimento de movimentos progressistas e revolucionários em todo o mundo e pode mesmo criar aberturas, e forças, para uma mudança revolucionária nos EUA.

Trabalhar para isso é algo que vale a pena fazer. E é muito mais realista que colocar a nossa fé numa candidatura e num processo que contribui para dar “a melhor face” a um mundo de horrores!

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese