Um olhar para o que está por trás da violência no Quénia
18 de Fevereiro de 2008. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

Cartaz chinês de apoio à luta dos povos oprimidos do mundo

A encarniçada luta interna dentro das classes dominantes quenianas sobre quem governará sobre o povo durante os próximos cinco anos representa de forma nenhuma os interesses dos quenianos pobres de qualquer dos mais de 40 grupos étnicos do país. Contudo, tal como aí ocorreu nas últimas eleições, os líderes dos diferentes partidos políticos rapidamente atacaram os sectores das massas de origens étnicas diferentes das em parte correspondentes à sua base eleitoral. Isso desencadeou uma espiral de violência e uma cadeia de eventos contraditórios que muitas vezes colocaram as massas populares pobres umas contra as outras, em devastadoras cenas de pilhagem, incêndios e carnificina que, ao fim de um mês, deixaram mais de mil pessoas mortas. Que eram sobretudo quenianos pobres que nada tinham em comum com esses líderes.

Os comentadores imperialistas ocidentais exprimiram uma grande surpresa perante o facto de aquele que eles consideravam ser o seu posto avançado mais estável e pacífico na África Oriental ter podido explodir da forma violento que o fez após as eleições presidenciais e legislativas do final de Dezembro de 2007. Mas essa explosão social não surgiu do nada. Não só as massas quenianas têm sido alvo regular da violência do estado, incluindo as pelo menos 500 pessoas mortas no ano anterior às eleições, como a ira que rebentou depois de o actual governo de Mwai Kibaki ter falsificado a sua “vitória”, precisamente quando muita gente tinha depositado as suas esperanças numa mudança, se tinha vindo a acumular há décadas ao longo de inúmeras linhas de fractura política e social. Há a faísca e há as causas subjacentes. Tratou-se de um barril de pólvora assente sobre uma pobreza crónica, desemprego, falta de habitação, alojamentos sobrelotados e imundos bairros de lata com poucas infra-estruturas.

Dois terços dos três milhões de habitantes de Nairobi, capital do Quénia, vivem em dez poluídos bairros de lata. Só no conhecido bairro de lata de Kibera, vivem um milhão de pessoas apinhadas a dez minutos do reluzente centro financeiro da cidade. Mas, apesar da sua numerosa classe média educada e dos seus centros urbanos, o Quénia ainda é um país agrícola. Setenta por cento da população está envolvida em actividades relacionadas com a agricultura, a maioria com minúsculas parcelas de terra. Uma grande parte continua sem terra ou trabalha como trabalhadores agrícolas mal pagos nas grandes plantações de café, chá ou outras, propriedade de quenianos ricos ou colonos brancos que produzem para exportação. No Quénia, onde a esperança de vida é de 48 anos, mais de 60% das pessoas sobrevive com 1 a 2 dólares por dia. A pressão pela terra tem-se intensificado devido à escassez de emprego – o desemprego está acima dos 40%. Vários meses antes, relatos provenientes de simpatizantes revolucionários no Quénia previam que as eleições activariam essa explosão, e outros mostravam que se não tivessem sido as eleições, teria sido outra coisa qualquer:

“A situação [em Junho de 2007] está a ficar fora de controlo. É como se as pessoas se estivessem a revoltar umas contra as outras depois de terem sido maltratadas pelos nossos supostos líderes; e está a ficar mais sórdida, porque eles nos catalogam como criminosos, quando o sistema sabe que é um problema social e económico. Além dos bandos, estão-se a formar outros grupos em nome da protecção dos seus interesses, sobretudo relacionados com a questão da terra e com contornos tribais. Claro que tudo isto está a ser relacionado com as eleições, mas só o tempo o dirá. Espero que haja forma de controlar os nossos jovens de uma maneira estruturada e de os convencer que há outra forma.”

De facto, parece que a violência foi em parte espontânea e em parte organizada – de ambos os lados. O estado queniano tem governado com uma mão particularmente brutal desde a independência, apesar da sua recente reputação como uma espécie de modelo democrático em África desde que Kibaki tomou o poder em 2002. Depois das eleições de Dezembro, o seu governo mudou imediatamente para uma base de “segurança nacional”, proibindo manifestações públicas (sobretudo para frustrar a oposição), amordaçando parcialmente a comunicação social e, acima de tudo, dando rédea solta às forças policiais e especiais para atacarem o povo, incluindo ordens para “atirar a matar”. Conhecidos bandos da etnia kikuyu foram vistos a usar uniformes policiais e armas da polícia. O exército foi mobilizado. Na parte ocidental do país, soldados pró-Kibaki vindos do Uganda e disfarçados de polícias quenianos foram vistos a disparar sobre pessoas consideradas apoiantes da oposição. No início de Janeiro, jovens que viviam no bairro de lata etnicamente misto de Kibera – do qual era deputado o outro principal candidato presidencial, Raila Odinga, de etnia luo, e onde irromperam manifestações e combates violentos – arrancaram os carris dos caminhos-de-ferro que vão de Kibera a Kampala. Eles explicaram que não queriam que o governo trouxesse os soldados do Uganda para os matar. Nesse dia, a polícia de Kibaki abateu seis desses jovens.

Embora o roubo das eleições por Kibaki tenha claramente desencadeado a violência e a gigantesca expansão dos protestos, também parece provável, segundo os relatos vindos do Quénia, que até certo ponto as forças da oposição, agrupadas sobretudo em torno do Movimento Democrático Laranja (ODM), se tinham preparado para a possibilidade de Odinga poder vir a ser derrotado. Além dos núcleos de jovens semiorganizados, nesta situação depressa emergiram outros grupos em que o espancamento indiscriminado de outras pessoas com base na sua etnia foi abertamente encorajado inicialmente pelos principais líderes, os quais se envolveram directamente numa brutal rivalidade e esperaram que as massas os seguissem como peões num combate por procuração.

Os idiomas nacionais do Quénia são o inglês e o suaíli. Dos cerca de 40 diferentes grupos étnicos, este conflito opôs sobretudo luos e kalenjins contra kikuyus, e vice-versa (respectivamente, 13%, 12% e 22% da população). Kibaki é um kikuyu. O seu antecessor, Daniel Arap Moi, era um kalenjin. O seu opositor Odinga é um luo. Um aspecto importante da corrupção e do capitalismo burocrata concentrado no estado neocolonial é a “tradição” do patrocinato, em que se contratam as pessoas da sua própria etnia e se fazem favores, se concede dinheiro e contratos, bem como os importantes privilégios da sombriamente organizada aquisição de terras, aos que têm os meios e as ligações certas. Desde a era colonial e os seus devastadores efeitos na população kikuyu que habita as províncias centrais, os kikuyus tornaram-se na coluna vertebral do movimento de independência nacional, um sector que veio a tornar-se no núcleo dominante do novo estado neocolonial e dependente do capital imperialista. Desde a liderança vendida de Jomo Kenyatta, primeiro presidente do Quénia, que tem prosperado uma “elite Kenyatta” baseada nos kikuyus. Eles tomaram os órgãos centrais do poder e os centros urbanos e foram recompensados com grandes lotes de terra. Assim, foi demasiado fácil para a oposição alimentar o ressentimento das massas não-kikuyus de que “os kikuyus têm dominado o Quénia há demasiado tempo e com isso o seu espólio – agora é a nossa vez”, tal como a igualmente simplista reacção comunal contra elas entre os kikuyus, incitada por Kibaki e o seu poder militar estatal e organizações tipo máfia. As diferenças de classe dentro desses grupos étnicos, as relações de poder e o ABC de quem explora e oprime as massas populares pobres de todas as origens étnicas – são propositadamente distorcidos e escondidos pelos dois lados.

A crise política rapidamente se tornou numa crise social, assumindo dimensões humanitárias tanto nas zonas rurais como urbanas e intensificando muitos dos próprios problemas que tinham posto as pessoas umas contra as outros. Correspondentes no Quénia Ocidental escreveram: “A cidade está paralisada... as crianças não vão à escola porque não é seguro e mesmo andar na rua é um problema... não há comida nenhuma, nem dinheiro e é muito caro viajar...” Os poucos veículos públicos nas ruas e o reduzido acesso aos combustíveis significaram que as tarifas dos transportes dispararam. Agora, os bens essenciais tornaram-se escassos e triplicaram de preço. As empresas (incluindo a moribunda indústria do turismo) fecharam e deixaram milhares de pessoas sem emprego, enquanto muitos milhares de outras pessoas viram os seus meios de subsistência desaparecerem nas chamas quando as suas pequenas quintas e colheitas foram incendiadas, ou as suas bancas de vendas e as suas mercadorias foram pilhadas ou destruídas. Os camponeses luos do Quénia Ocidental que fazem a colheita do chá nas propriedades à volta de Nairobi foram perseguidos e disseram-lhes para irem para “casa”. Muitas pessoas nunca tinham estado nas suas supostas “terras ancestrais”. Mais de um quarto de milhão de pessoas foram expulsas e deslocadas à medida que uma ideologia retrograda tomou conta de bairros étnicos em consolidação e de zonas rurais que até certo ponto se tinham tornado etnicamente mistas devido a várias vagas de migração durante um século e às engrenagens do capital. A classe dominante não conseguiu impedir esse processo reaccionário de reorganização da sociedade que ela própria desencadeou e que ficou fora do seu controlo. Até ao momento, tem respondido sobretudo com mais repressão.

Muitas pessoas odeiam essa poderosa dinâmica que as coloca contra pessoas com quem normalmente convivem, e há relatos de indivíduos que se opuseram à violência étnica gratuita e tentaram impedir os brutais e desvairados actos de violência contra os seus próprios amigos e vizinhos de outras origens. Mas não há nenhum vestígio de uma força revolucionária organizada que tenha conseguido dar um exemplo diferente e estabelecer uma posição diferente.

As ilusões numa mudança através de eleições presidenciais nacionais

Poucos minutos depois de se ter declarado vencedor, o Presidente Kibaki precipitou-se, como num golpe de estado, a reabilitar-se e a seleccionar posições governamentais chave para os seus parceiros. O anúncio surpresa da Comissão Eleitoral Queniana (KEC), pró-Kibaki, de que a contagem dos votos tinha mudado radicalmente a favor de Kibaki nos momentos finais (com o número de votos a ultrapassar o de eleitores registados e outras irregularidades) gerou um alerta de “jogo sujo”, de que o governo tinha roubado as eleições, impedindo as pessoas de elegerem um candidato alternativo de sua livre escolha, na realidade, um candidato que tinha feito campanha a favor do fim da corrupção e de dar o justo quinhão a toda a gente. Como escreveu um correspondente em Nairobi, “o povo queniano sentia-se enganado, com os seus direitos negados e a democracia atirada janela fora. Os quenianos saíram às ruas em massa...”

Este sentimento deve ser dividido por factos contraditórios: por um lado, é provável que os apoiantes do ODM tenham sido defraudados de uma clara vitória de Odinga. E há relatos que indicam que provavelmente houve manipulação de votos nas zonas de forte influência tanto de Kibaki como de Odinga. Enquanto a classe dominante se recusa a arriscar fazer uma recontagem ou repetir as eleições, os intermediários da ONU e a maioria dos governos ocidentais (excepto George Bush, que se apressou a legitimar Kibaki) mais ou menos aceitaram que Odinga estava à frente com uma margem que ia até 2%. Além disso, o ODM conquistou 99 lugares nas eleições legislativas realizadas em simultâneo, tornando-se no maior partido, em comparação com o Partido de Unidade Nacional de Kibaki que apenas conquistou 43 lugares.

Um passeio por Kibera, um ano antes de explodir
18 de Fevereiro de 2008. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

Kibera é um dos maiores bairros de lata perto de Nairobi. Um residente local e activista político de Kibera que aí nasceu fez-nos uma reveladora visita guiada em Fevereiro de 2007, após o Fórum Social Mundial de Nairobi. Kibera estende-se ao longo de sete quilómetros e alberga mais de um milhão de pessoas, embora os residentes digam que o governo repete constantemente que aí vivem 500 000 pessoas de forma a minimizar a sua incrível densidade e as suas intoleráveis condições.

À primeira vista, quase não se consegue entender porque é que os residentes não se insurgem todos os dias, de tão congestionado, imundo e desprovido de serviços básicos de saúde e saneamento que é esse lugar. O nosso amigo disse-nos que é um milagre que nunca tenha havido grandes surtos de cólera. O governo estava a construir nas colinas alguns blocos de cimento de apartamentos de dois andares com preços inatingíveis, numa zona tampão entre o bairro de lata e os subúrbios ricos (ainda habitados por muitos colonos brancos) do outro lado. Os residentes de Kibera pagam renda aos proprietários locais do bairro, muitos dos quais são de origem núbia sudanesa, trazidos para o Quénia para combaterem os Mau Mau. Os residentes têm que pedir autorização mesmo para alterarem as paredes de metal ondulado ou de lama comprimida. Nessas estruturas vivem 6 a 8 famílias, muitas vezes apenas com um ou dois quartos para cada seis a dez pessoas. Embora haja táxis colectivos chamados matatus que percorrem as estradas em todas as direcções, muitos trabalhadores poupam dinheiro tomando diariamente um atalho, andando pelos carris dos caminhos-de-ferro desde Kibera até à zona industrial a sul de Nairobi.

Pequenas igrejas cristãs tipo latas salpicam os bairros de lata. O nosso guia disse-nos que quase todas as semanas abria uma nova igreja, sempre que um autodenominado pregador descobrisse que conseguia cobrar numa dada congregação. A maioria delas parecia ser uma variante dos Pentecostais, que se multiplicam e espalham muito rapidamente nessa parte do continente. Também existiam algumas igrejas católicas mais estabelecidas que tinham escolas primárias. Ele disse-nos que os responsáveis e os funcionários das igrejas também vivam nos bairros de lata. A mesquita local, também com a forma de caixote, foi aparentemente muito financiada pela comunidade asiática que vive nas zonas das classes médias e altas a norte de Nairobi. Perguntei se eles normalmente introduziam dinheiro nos bairros de lata e ele disse-me que não. Ele pensava que a visibilidade das várias igrejas podia ter algo a ver com a forma como a raiva e a revolta era controlada e anulada.

As actividades comerciais variam de sapatos em cima de colchas a prateleiras esvaziadas em pequenas lojas de madeira, a salões de cabeleireira e a minúsculos restaurantes, alguns entre paredes, outros ao ar livre. As rendas duplicam ou triplicam se as cabanas estiverem perto dessas ruas comerciais. Aparentemente, a maioria dos residentes tem acesso à electricidade, havendo alguns que pagam e cobram aos outros por “derivações”, enquanto outros se envolvem em desvios mais de “comércio livre”. Aos nossos pés estavam vários milhões de sacos de plástico misturados com a lama endurecida e as pedras que as pessoas tinham que enfrentar para subirem até às casas das ruas mais interiores. Havia antes um “rio” que atravessava a zona. Agora está cheio de lixo e detritos. Encheu-nos de raiva para com as autoridades ver as crianças brincarem aí ou mesmo tentarem lavar-se ou beber. Algumas torneiras fornecem a água regular de Nairobi, que mesmo muitos habitantes locais de toda a zona de Nairobi fervem antes de beber.

Algumas linhas persistentes de hastes de milho são cultivadas à volta dos limites do bairro e as muito raras árvores que existem são sobretudo bananeiras.

Fomos parar ao que parecia ser um terreno desocupado, muito invulgar num denso bairro de lata onde todos os centímetros são utilizados para algum fim e as pessoas contaram-nos a história da luta contra o despejo de uma família que não conseguia pagar a renda. Acabou com os residentes locais a queimarem completamente o terreno – se os despejados não podiam aí viver, então ninguém podia – e a transformarem-no num pequeno e sujo “campo de jogos” que tem sido protegido dos “promotores” que gostariam de apagar esse símbolo da sua luta. O nosso guia garantiu-nos que, apesar da aparência de tolerância e calma, havia um barril de pólvora por baixo da superfície. O problema, para os governantes do Quénia, é que embora Kibera seja o maior bairro de lata, mais de dois milhões dos habitantes urbanos de Nairobi estão a viver em 10 outros bairros semelhantes espalhados pelos arredores da cidade.

Por outro lado, quem representam de facto esses candidatos da classe dominante? Quão diferente é o Quénia de outros países oprimidos em que os políticos capitalistas burocratas que controlam o estado e estão ligados de perto aos interesses imperialistas sempre conseguiram obter o seu poder político através de eleições, no sentido de que este ou aquele representante dessa classe está destinado a ganhar? Independentemente de o fazerem com razoabilidade ou não, isso é bastante secundário para a classe que está no poder. Embora a corrupção seja um sintoma do problema será realmente o cerne da questão? As eleições são sempre competições entre diferentes sectores das classes reaccionárias, não entre os poderosos e aqueles sobre os quais eles governam. Elas são o meio através do qual esta burguesia burocrata e os seus aliados chegam ao poder político e o negam às massas que eles dominam. Isso ocorre frequentemente em cooperação – mas às vezes em conflito – com as forças políticas mais tradicionais e semifeudais. O Quénia tem todas as armadilhas democráticas de uma neocolónia-modelo ao serviço dos interesses imperialistas, com o apoio de uma forte força policial, de um exército e de várias forças paramilitares especiais: uma constituição, um parlamento recentemente actualizado para um estatuto multipartidário e uma presidência poderosa (sem primeiro-ministro). Além do papel de comandante supremo, o presidente pode dissolver o parlamento, controlar os tribunais quanto ao essencial e designar a comissão eleitoral que irá contar os seus votos!

Cada uma das instituições que reflectem o chamado “regime legal” tão altamente elogiado no Ocidente, que tem governado e reprimido as massas através de um aparelho de estado centralizado e repressivo desde a independência, está em disputa na actual crise política. Muitos escritores quenianos que se opõem ao “jogo sujo” nas eleições, mesmo os progressistas que reconhecem as classes sociais e dissecam os problemas por baixo da superfície, desejam reformar esses instrumentos que eles vêem a funcionar de um forma mais polida no “Norte” global, para os tornarem aparentemente mais transparentes e democráticos, como se isso garantisse que as pessoas teriam alguma forma de poder político verdadeiro, ou como se isso mudasse a natureza do estado e do seu domínio de classe sobre e contra os pobres.

Uma das razões por que as pessoas comuns e mesmo muitos intelectuais radicais se sentem impotentes é que não vêem nenhuma base material para romperem com o actual sistema ou para que as próprias massas se possam tornar num exército politizado da revolução em vez da reacção. A Revolução de Nova Democracia, proposta por Mao como fase que leva ao socialismo nos países sob domínio imperialista, defende exactamente isto: construir um novo tipo de democracia – e um estado radicalmente diferente – baseado num tipo completamente diferente de poder político, liderado pela classe operária em aliança com os camponeses e outros sectores e atraindo em cada vez maior número as mais vastas massas na governação e transformação da sociedade. Tomar a terra e entregá-la aos que a trabalham e que podem alimentar as massas e desenvolver a nação nessa base. Isto torna-se na base material em que pode ser criada uma sociedade independente – que se tenha afastado das mandíbulas gotejantes do imperialismo –; mas a revolução de nova democracia e a terra a quem a trabalha ainda terão por base o capitalismo. Para não se tornarem num novo sistema de exploração, têm que abrir as portas ao socialismo e ao comunismo, os quais continuam a luta por dar o poder às massas sem poder e eliminar as ideias e as relações sociais retrogradas, sobretudo a perspectiva de cada um só se favorecer a si próprio, ignorando o que acontece aos outros, que o capital promove enquanto suga o sangue das pessoas para assegurar a sua sobrevivência.

Os representantes políticos da classe dominante queniana

Quem é esta classe que continua a re-“eleger-se” a si própria enquanto promete constantemente mais democracia? Não por coincidência, as três principais famílias presidenciais desde a independência – as de Jomo Kenyatta, Daniel Arap Moi e Mwai Kibaki – são sem dúvida os maiores proprietários de terra arável do Quénia. Essas famílias não só são membros proeminentes da oligarquia dominante, como estão entre as mais ricas, tendo acumulado fortunas com a sua posição parasitária no estado, o acesso ao capital externo, os investimentos empresariais e, não menos, com o muito dinheiro da ajuda humanitária externa que entra continuamente para ajudar a “manter o Quénia estável”. O desprezado tirano Moi cometeu uma lista infinita de crimes durante o seu domínio repressivo que durou 24 anos, graças à força bruta e ao apoio ocidental. Além da corrupção bizarra e descarada, ele é lembrado sobretudo pelo seu tratamento desumano de toda a oposição – seja dos direitos humanos, seja mesmo do multipartidarismo. No início dos anos 90, Moi armou guerreiros do seu grupo étnico kalenjin para matarem mais de 1500 pequenos camponeses – sobretudo kikuyus, mas também luos e luhyas – no Vale do Rift que eles ocupavam, enquanto 300 mil outros foram deslocados ao longo de um período de três anos. Esta manipulação pelo estado das divisões étnicas de forma a desestabilizar e a manter o poder é clássica e coloca em perspectiva os acontecimentos de maior escala de Janeiro de 2008.

Um activista político em Nairobi escreveu que, depois de Kibaki ter finalmente arrancado o poder a Moi em 2002, tendo feito uma campanha de promessas de transparência e mais democracia, o seu governo também tentou impedir os esforços pelos direitos humanos, declarando-os uma questão resolvida. Em vez de combater a corrupção, Kibaki também foi proeminente em vários escândalos que envolveram acordos internacionais, bem como no reforço da sua própria elite kikuyu.

Um escritor, P. T. Zeleza, referiu-se à “promiscuidade” da classe política queniana: “A maioria dos principais membros dos partidos políticos dominantes serviu tanto os governos de Moi como os de Kibaki. A sua política não difere de uma forma significativa.” Os dois principais candidatos presidenciais actuais, Mwai Kibaki e Raila Odinga, pertencem ambos à classe dos milionários do Quénia, mas representam sectores de certa forma diferentes da elite dominante. Tanto Kibaki como Odinga foram acusados de questionáveis vendas de terras. O ODM de Odinga é na realidade uma coligação de três correntes políticas ligeiramente diferentes, mas no seu conjunto é constituído por algumas das pessoas mais ricas do país. A própria família de Odinga é proprietária de uma produtora de melado, a Spectre International, bem como de uma multinacional petrolífera e de uma companhia mineira de diamantes. Embora seja uma pessoa muito rica, Odinga, educado na antiga Alemanha de Leste, defendeu o “poder popular” na sua campanha eleitoral, usando as suas credenciais de filho do movimento de independência e líder pró-soviético Oginga Odinga. Os discursos de Raila Odinga falavam na profunda pobreza e nos problemas sociais do Quénia e defendiam um novo começo para a nação. Milhões de quenianos comuns e da classe média tinham investido muitas esperanças em que ele limpasse a corrupção como prometera e introduzisse as reformas democráticas e as liberdades há muito desejadas. Embora Odinga seja um luo, construiu uma coligação contra o partido de Kibaki baseado na “mudança” e atravessando linhas étnicas. Por outras palavras, muitos kikuyus, que em geral formavam grande parte da base de apoio de Kibaki, votaram ao lado de outros não-luos por essa “mudança” e por Odinga. Parte do que os atraiu foi que ele prometeu salvar as pessoas do sistema e do seu actual servidor principal, Kibaki. Mas, como todos os demagogos, fê-lo sem armar as pessoas com uma compreensão das engrenagens do sistema e, em vez disso, mexendo na ira das massas contra a sua exclusão do “bolo nacional” segundo critérios étnicos. Como disse um escritor pan-africanista: “Em vez de construir o poder popular, está a consolidar a democracia neoliberal, usando as massas como tropas de choque” contra o seu oponente.

Os programas dos candidatos são, porém e quanto ao essencial, notavelmente semelhantes, tendo por base a continuação da dependência económica do Ocidente e ao seu serviço, em nome do “desenvolvimento”. Isto significa, entre outras coisas, que a produção agrícola, por exemplo, fica destinada à exportação e ao mercado mundial em vez de às próprias necessidades do país. Dois terços das flores e dos legumes do Quénia são vendidos para a Europa e são a segunda maior fonte de divisas externas, depois da enorme indústria do turismo de safaris. Kibaki reivindica uma taxa de crescimento de 6% desde que chegou ao poder. Como salientaram inúmeros comentadores no Quénia, esta taxa de crescimento traduz-se na realidade num crescente fosso entre ricos e pobres. Além do pequeno estrato de super-ricos no topo da pirâmide de riqueza, também alguns sectores da classe média têm beneficiado com as relações íntimas do Quénia como o imperialismo e com o desenvolvimento desigual que isso gerou, enquanto os outros são cada vez mais marginalizados.

Terra, colonialismo e dividir para reinar

O aspecto étnico deste conflito entre as massas é inseparável da ainda não resolvida e muito aguda questão da terra que há muito existe no Quénia e que esteve no centro da luta pela independência nacional contra a Grã-Bretanha.

Depois de os britânicos terem chegado no final do século XIX, eles deslocaram os pastores nómadas – kalenjins e massais – dos terrenos férteis das terras altas centrais do Quénia que formam parte do longo Vale do Rift, designando essa zona de “Terras Altas Brancas”, e tornando-as terras agrícolas de primeira qualidade para as suas herdades coloniais. A minúscula zona a que os massais foram confinados continua a alimentar o seu ressentimento contra os grandes proprietários do Rift e os kalenjins, os quais foram empurrados para o Quénia Ocidental, na vizinhança do Lago Victoria, e têm invadido repetidamente a zona do Rift para expulsarem camponeses kikuyus. O povo kikuyu era tradicionalmente constituído por cultivadores que viviam no Monte Quénia e nas zonas centrais. Por isso, entraram em confronto directo com os britânicos, os quais, como nalgumas das suas outras colónias, criaram Reservas Nativas para os camponeses kikuyus, bem como outras menores para os luos na província de Nyanza, a oeste, e para os lamu na costa leste.

Os britânicos criaram um sistema de chefes e líderes que antes não faziam parte da organização social kikuyu, para os dividirem e criarem um sector em que pudessem confiar. Esses súbditos leais recrutavam trabalhadores agrícolas para as plantações dos colonos e recolhiam o infame “imposto de palhota” introduzido nas colónias britânicas para forçar os camponeses independentes ao trabalho assalariado ou para posições semiproletárias e para facilitar a tomada das suas terras à medida que a economia colonial se expandia.

No início dos anos 50, tinha crescido um movimento entre os camponeses sem-terra, os ocupantes de terras expulsos das herdades europeias e outros estratos, baseado em grande parte mas não exclusivamente entre os kikuyus do Quénia Central. A insurreição “Mau Mau” de 1952 a 1960 surgiu das reivindicações gémeas da terra e da libertação do domínio britânico. Foi brutalmente reprimida, com dezenas de milhares de mortos e centenas de milhares de detidos e torturados nos “campos de trabalho” britânicos.

O famoso grito do Quénia, Uhuru! (Liberdade! em swahili) soou em todas as colónias europeias em África que lutavam pela libertação nacional nos anos 60. Rapidamente o refrão se transformou em “Ainda não Uhuru”, à medida que os sonhos do Quénia pela independência política se tornaram em pouco mais que uma transição formal para o controlo da burguesia compradora. Os nomes das ruas acabaram por ser alterados para incluírem alguns dos mais conhecidos heróis nacionalistas, mas a história dos Mau Mau foi distorcida e efectivamente enterrada. Os presos políticos sobreviventes sofriam nas prisões de Moi. Os que se tornaram parte da traição de Jomo Kenyatta depois de os colonialistas o terem libertado em 1959, e que assumiram um papel solícito de líderes carismático da transição neocolonial do domínio directo britânico, foram generosamente recompensados depois da independência formal em 1963. Algumas herdades europeias foram vendidas de volta ao governo a preços de mercado (com a Inglaterra a ficar com a melhor parte), tornando possível oferecer à “elite de Kenyatta”, como era chamada, terras a valores nominais, bem como inúmeros outros privilégios. Alguns camponeses pobres e arrendatários kikuyus expulsos pelos novos proprietários formaram sociedades de aquisição cooperativa e compraram pequenos lotes de terra no Vale do Rift (que os kalenjins consideram ser a sua terra), respondendo ao apelo populista de Kenyatta (sobretudo aos kikuyus) do “regresso à terra”. Porém, com o passar do tempo, muitos pequenos camponeses de todos os grupos étnicos foram expulsos das terras para os bairros de lata periurbanos de Nairobi e de outras cidades, ou para os grandes povoados de cabanas de cidades rurais como Nakura, onde ocorreram alguns dos recentes confrontos violentos.

Apenas cerca de 17% da superfície do Quénia é apropriada a uma agricultura dependente da chuva. Os outros 80% são terras áridas ou semiáridas. A maioria das pessoas tem acesso a menos de um hectare e mais de 13% não tem terras. Em 2008, a distribuição da propriedade da terra por classe e etnia não se tinha alterado muito desde a independência há 45 anos. Uma pequena classe de grandes proprietários controla mais de 65% das terras aráveis do Quénia, segundo a Aliança da Terra do Quénia. A maioria das propriedades de cultivo de chá e café à volta de Nairobi pertencem à mesma classe política que se senta no parlamento, hoje ou nalgum momento desde a independência. Além disso, entre os 30 000 colonos brancos que ficaram (em conjunto com os 32 000 britânicos expatriados que regressaram para viver no Quénia), várias centenas ainda detêm grandes áreas de terra ou controlam herdades em conjunto com homens de negócios quenianos. O fedor das relações sociais tipo apartheid da era colonial é de certa forma mascarado pela elite, mas não é difícil senti-lo no mundo de luxo das herdades propriedade de brancos e nas reservas privadas de jogo: um proeminente proprietário, descendente de uma das principais famílias aristocráticas britânicas, atingiu a tiro e matou dois quenianos que atravessaram a sua propriedade, no período de um ano. Apesar da afronta das massas, ele foi libertado pelos tribunais por duas vezes. Também há vários proprietários árabes ausentes e vários “empreendedores” que vivem no Médio Oriente ou noutros lugares.

Embora a posição relativamente privilegiada dos kikuyus, que tem as suas raízes materiais em que alguns sectores kikuyus estão ligados ao governo central e a circuitos chave da economia, incluindo um dos seus pilares – a propriedade da terra – muitos dos camponeses do Vale do Rift são pequenos produtores, alguns ao nível de subsistência. Muitos kikuyus pobres também moram nos bairros de lata, nos povoados rurais e próximo das herdades de flores e outros produtos de exportação, como trabalhadores agrícolas.

Também há um significativo grau de separação entre as massas africanas e os indianos, sobretudo os da classe média, os quais, como comerciantes, desenvolveram um controlo sobre sectores inteiros do comércio, tornaram-se proprietários urbanos e banqueiros e detêm posições chave no desenvolvimento do turismo da costa do Oceano Índico do Quénia, com um papel na desapropriação do povo lamu local. Alguns tornaram-se homens de negócios milionários, como o dono de uma enorme cadeia de supermercados, e também se juntaram à política partidária dominante.

Uma “paz” obtida pelos imperialistas?

O Quénia é um importante posto avançado regional militar e político do Ocidente e em particular dos imperialistas britânicos e norte-americanos. Com modernas instalações portuárias e aeroportuárias, ocupa uma posição geoestratégica chave perto do Oceano Índico e do Corno de África. Foi um importante palco da interferência dos EUA na região contra os movimentos influenciados pela União Soviética durante a Guerra Fria. O Quénia tem aceitado cada vez mais representar um importante papel na “guerra contra o terrorismo” dos EUA. Às ordens dos Estados Unidos, tropas quenianas impediram submissamente os somalis de entrar no país durante o recente conflito. O Quénia também é o refúgio de inúmeras ONGs e agências humanitárias internacionais e de organismos da ONU e anfitrião de missões e igrejas cristãs estrangeiras.

Durante as últimas semanas, os imperialistas europeus e norte-americanos intervieram rapidamente para estabelecerem as regras da luta pelo controlo do estado concentrada nestas eleições. Embora as situações quase não sejam as mesmas, e as suas próprias mãos estejam cobertas do sangue das massas desses países, os governos ocidentais, através dos EUA, Grã-Bretanha, UE e ONU, já anunciaram que “não deixarão o Quénia seguir o caminho do Ruanda ou da Somália”, com o que parecem querer dizer uma guerra civil aberta.

À medida que os imperialistas enviavam os seus negociadores (Rice e Annan, etc.) para obterem a “paz” e a “partilha do poder”, com o aparecimento de instituições democratizadoras de forma a consolidarem um estado fragmentado e melhor silenciarem sobretudo os estratos educados das massas, eles, em conjunto com os seus parceiros compradores locais no Quénia, deviam olhar para o espelho: a crueldade das últimas semanas é apenas tão cruel quanto o próprio sistema que eles constantemente tentam reforçar e justificar.

E, à medida que tentam fazer o balanço do tremendo fardo de traição do movimento independentista, alguns jovens revolucionários estão a olhar para a forma de se libertarem completamente deste sistema de predadores – um sistema que mantém as pessoas pobres e agarradas às gargantas umas das outras. O que será necessário para se vislumbrar uma sociedade inteiramente diferente e revolucionária em que uma genuína libertação nacional seja um primeiro passo real, em vez da mera independência formal que foi uma forma de dividir ainda mais – e de dominar – os oprimidos?

Este artigo beneficiou grandemente do contributo de vários correspondentes no Quénia, bem como de inúmeros colunistas e sobretudo do serviço noticioso pan-africano Pambazuka, do Zeleza Post e de vários académicos da Universidade de Nairobi.


Dinheiro de sangue para as rosas quenianas do Dia dos Namorados
18 de Fevereiro de 2008. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

A comunicação social mundial, incluindo o Nairobi Standard numa das suas colunas de 14 de Fevereiro, respirou de alívio, supostamente em nome da nação, porque as rosas quenianas iriam chegar aos mercados e às lojas europeias de flores a tempo desse dia de festa crucial inventado para transformar o amor em muito dinheiro.

Imaginemos agora que és uma trabalhadora comum de uma herdade floricultora numa dessas lucrativas indústrias hortícolas que enchem os bolsos dos colonos brancos ricos e dos empresários quenianos que se instalaram à volta do Lago Navaisha, no Vale do Rift, a apenas duas horas de Nairobi. Reparaste que algures entre 60 e 100 mil pessoas como tu, a maioria das quais pessoas sem terra vindas de outras zonas rurais, mas algumas vindas das favelas e dos povoados à volta das cidades, foram recolhidas e deslocadas para essa zona com promessas de empregos. Elas são de muitas origens étnicas e zonas geográficas diferentes mas, até ao mês passado, isso não tinha muita importância – vocês eram todos pobres e explorados pelos mesmos proprietários.

Aquelas pessoas que foram efectivamente contratadas para uma das várias herdades floricultoras que circundam o lago podem estar alojadas em povoados de cabanas, ou nas filas e filas de alojamentos colectivos de betão, logo à saída do local de trabalho. Outras esperam à frente das herdades em filas para o trabalho do dia, na esperança de ganharem algum dinheiro temporário. Algumas montaram bancas de feira ou vendem pequenas pirâmides de tomates, cebolas, batatas e outros produtos locais ao longo da estrada junto às vastas estufas. Tu não sabias que ias trabalhar o dia todo com pesticidas e fertilizantes tóxicos, sem nenhuma protecção. Mas milhares de outras pessoas estão desempregadas e não têm nenhum rendimento, à espera de tomarem o teu lugar se tu partires.

Cerca de 60% das flores do Quénia vêm do Lago Navaisha, tradicionalmente uma zona de retiro para os colonos brancos ricos e onde se situam vários hotéis e restaurantes, instalados longe da parda cidade de Navaisha, pobre e de média dimensão. As placas têm nomes de empresas holandesas, britânicas ou quenianas como Sher, Wildlife, Homegrown e Kingfisher. O Lago Navaisha é um dos maiores lagos de água fresca mas está a ser rapidamente transformado numa fossa da indústria das flores. As herdades floricultoras estão a drenar o lago, bombeando água fresca para as estufas e devolvendo, através de uma fossa, a água dos esgotos repleta de substâncias químicas. A vida vegetal deixou de existir por completo. As espécies de peixes e pássaros estão ameaçadas. O público não tem acesso ao lago e à água porque isso é tudo propriedade privada. Tem de fazer fila para as poucas torneiras comunais da zona, que nunca são suficientes para as necessidades da população local.

Mas, ao longo do último mês, desde as grandes manifestações em Nairobi, a violência propagou-se a Navaisha. Tu viste alguns dos teus colegas de trabalho serem atacados e perseguidos por membros de grupos étnicos diferentes dos deles. Viste os proprietários das herdades e os grandes proprietários brancos da zona fugirem do perigo e da violência em aviões e camiões privados. Não consegues acreditar nos teus próprios olhos quando vês pessoas de várias origens serem forçadas a correr para a prisão de Navaisha, tentando escapar às multidões de bandos locais (kikuyus), alguns aparentemente escoltados pela polícia, que dispara sobre quem se aventura a sair da prisão. Viste pessoas a serem retalhadas até à morte com machetes. O derramamento de sangue destruiu a mão-de-obra e algumas pessoas, que foram forçadas a ir para outras zonas do Quénia, continuam a manter-se longe com medo. Tu própria és filha de pais de etnias diferentes e tens medo de dizer alguma coisa em público a não ser no principal idioma da região. Não sabes o que aconteceu ao teus vizinhos luos e à mulher kalenjin casada com um kikuyu, que trabalhavam ao teu lado a cortar rosas.

Mas o que viste na semana anterior ao 14 de Fevereiro? Os teus patrões brancos e chefes quenianos estão a mobilizar toda a gente para regressarem ao trabalho com base na promessa de que “já é seguro”. Eles precisam de preparar as encomendas de rosas para o dia de festa que gera quase metade do lucro deles em cada ano e querem que trabalhes jornadas ainda mais longas que as que já trabalhas. À tua volta há medo, trauma e tragédia devido aos acontecimentos do último mês. Não há nenhuma “protecção” e a situação é tudo menos segura para os quenianos comuns como tu. Não há nenhum transporte disponível para os refugiados levarem para casa os mortos para serem enterrados, nem para fazer chegar alimentos. O teu marido não consegue chegar ao funeral do tio dele, morto nas lutas comunais. Mas hoje há muitos camiões estacionados lá fora. Descobres que os teus patrões contrataram polícias para protegerem as colunas de camiões cheios de rosas que se dirigem ao aeroporto de Nairobi. Fazes questão de espetar a tua própria carne com um dos espinhos, quando uma rosa é embalada para a Europa e observas o sangue a escorrer pela haste para a caixa do dia dos namorados.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese