O texto que se segue é um artigo assinado por Tugge da edição de Dezembro de 2007 da revista indiana People’s March (peoplesmarch.googlepages.com).
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| Guerrilheiros
maoistas em treino no estado indiano do Chhattisgarh (Foto: BBC News) |
Uma economia extremamente primitiva
A economia dos adivasis (povos tribais) local consistia sobretudo de duas componentes, a agricultura e a recolha de pequenos produtos da floresta. As formas da agricultura adivasi em todas essas divisões eram primitivas, com pequenas variações aqui e ali. Não é preciso dizer que eram completamente dependentes das monções (até hoje não houve nenhuma obra de irrigação, a não ser os pequenos projectos construídos pelos maoistas). O Dandakaranya é uma vasta região com uma densa cobertura florestal e pontilhada de colinas íngremes. Embora a precipitação anual não seja uniforme em todas as zonas, é normalmente acima da média. Esta região tem abundantes recursos hídricos permanentes tais como rios e riachos, com água a fluir quase todo o ano. Como nunca nenhum governo, fossem os dos colonialistas britânicos ou os dos seus sucessores compradores, construiu qualquer projecto de retenção de água, maior ou menor, a maior parte da água das chuvas é desperdiçada. Irrigar os campos a partir de poços ou pequenas lagoas, mesmo entre os camponeses mais abastados, é raro. De facto, a esmagadora maioria dos camponeses nem sequer sabe o que são poços de irrigação. Ainda estão a séculos dos homens que aprenderam a retirar água dos poços usando instrumentos como a roda de água e que, há milhares de anos, construíram represas e canais para irrigarem os campos. Numa palavra, aos camponeses adivasis da zona falta a experiência dos homens que enfrentaram dificuldades na obtenção de rendimentos estáveis e uma mudança fundamental na sua vida, passando da fase da recolha à de produção de alimentos, introduzindo muitas mudanças inovadoras nos métodos agrícolas.
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| Rebeldes
maoistas no Chhattisgarh (Foto: BBC News) |
Embora esta seja a situação nas zonas que não a das colinas de Maad, os adivasis que vivem nessas colinas fazem-nos lembrar em grande medida povos ainda mais primitivos. Quase todos eles ainda dependem sobretudo do método de cultivo corta-e-queima (jhum), fazendo crescer uma variedade rústica de um grão alimentar, a kola. Embora cultivem produtos como o arroz, a mostarda, o milho, etc., em pequenos lotes de terra ou ao lado das suas aldeias ou ainda em zonas planas entre as colinas, não sabem usar o arado. Limitam-se a cavar a terra com uma barra de ferro afiada e a introduzir as sementes. Embora tenham gado, não o sabem aparelhar para o trabalho agrícola. Embora tenham começado a usar o arado nalguns lugares onde aprenderam a fazê-lo por interacção com os migrantes mais desenvolvidos das planícies, isso ainda está no início, limitado a alguns lugares isolados.
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Guerrilheiros maoistas na Índia (Foto: People’s March) |
A via dos actuais governantes para o desenvolvimento
Embora esta seja a única forma através da qual será possível melhorar a economia adivasi, as classes dominantes compradoras que calçaram as botas dos seus amos coloniais britânicos nunca mostraram nenhum verdadeiro interesse na modernização da agricultura adivasi, apesar das suas repetidas e presunçosas alegações sobre o sucesso dos seus programas sociais de melhoria dos adivasis. Os velhos métodos agrícolas dos adivasis continuam a ser usados da mesma forma, sem qualquer alteração fundamental. Como foi dito acima, o Dandakaranya tem muitos rios permanentes. Há outros recursos hídricos que têm água todo o ano. Apesar disso, nenhum governo levou a cabo a construção de projectos de irrigação, principais ou secundários. Os governantes, que nunca implementaram nenhum programa que garantisse o sustento dos adivasis e provocasse uma mudança fundamental nas suas vidas e que contribuísse para o desenvolvimento das forças de produção, iniciaram agora um programa que destruirá completamente a economia adivasi. Eles tiveram a audácia de implementar esse programa de devastação em nome do “desenvolvimento”. Como resultado, está a surgir aqui uma economia distorcida. O nível da agricultura adivasi, já abaixo da subsistência, foi ainda mais devastado com o tipo de projectos infra-estruturais que os governantes levaram a cabo como parte da sua política de globalização.
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Adivasis em luta (Foto: People’s March) |
Quase todas as zonas habitadas pelos adivasis no país têm vastos recursos naturais. Embora os rios (e outros recursos hídricos), as florestas e as terras sejam os recursos mais visíveis, também não há falta de recursos minerais. A zona de Bastar em particular tem abundantes depósitos de vários minérios. Há 610 milhões de toneladas de depósitos de dolomite e 2340 milhões de toneladas de depósitos de minério de ferro na zona de Bastar. Calcula-se que haja 3580 milhões de toneladas de depósitos de calcário nas zonas de Devarapal, Larogi, Raikot e Mangi Dogri. A zona de Keskal tem 100 milhões de toneladas de depósitos de bauxite. A Empresa Mineira Estatal do Madhya Pradesh tem extraído estanho e corindo em Bastar. O minério de ferro das minas de Bailadilla é da melhor qualidade.
Alem disso, a floresta local alberga teca, maddi e outras árvores fornecedoras de madeiras caras da melhor qualidade. Toda a zona do Dandakaranya tem extensas zonas de bambu. As forças imperialistas e os seus lacaios indianos, as grandes empresas compradoras, juntaram as mãos no seu anseio de pilhagem desses vastos recursos naturais.
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| (Foto:
People’s March) |
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| (Foto:
People’s March) |
As classes dominantes exploradoras têm desenvolvido projectos turísticos em simultâneo com este tipo de industrialização, como parte do actual processo de globalização. Como uma vasta área do Dandakaranya tem uma densa cobertura florestal, ainda aí prospera uma larga variedade de pássaros e animais. Como continua a haver caça comercial com a conivência activa das autoridades, muitas espécies de pássaros e animais estão à beira da extinção. Contudo, muitos lugares ainda continuam a ser centros turísticos populares. Muitas zonas densamente povoadas foram declaradas Parques Nacionais, Zonas de Protecção de Tigres, Parques de Bisontes, etc., e milhares de camponeses adivasis foram expulsos dessas zonas.
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Cuidar da educação das crianças e jovens nas aldeias (Foto: People’s March) |
Quanto às vias-férreas, a linha Kirundul-Kothavalasa foi construída apenas com a finalidade de transportar o minério de ferro de Bailadilla para o porto de Visakhapatnam, rumo ao Japão. Os caminhos-de-ferro operam diariamente 32 comboios de mercadorias nessa rota, enquanto há apenas um comboio de passageiros diário, embora essa linha já exista há décadas. Foram gastos milhares de crores do dinheiro do povo e foram violentamente retiradas milhares de terras aos camponeses adivasis pobres”, sem qualquer compensação, para a construção dessa linha. É este o “desenvolvimento” de que as autoridades se vangloriam. Enquanto isto é assim, uma grande empresa compradora, a ESSAR, completou a instalação de um oleoduto subterrâneo que liga Bailadilla ao porto de Visakhapatnam, para o transporte do minério de ferro. Embora tenha havido uma forte oposição das massas adivasis, uma vez que esse oleoduto não só afectará milhares de acres dos seus campos, como também destruirá uma enorme área da floresta, as classes dominantes terminaram essa obra sob a protecção de forças de segurança para que os seus amos imperialistas japoneses possam obter o minério a custos de transporte ainda mais baixos.
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| (Foto:
People’s March) |
Vejamos agora que “benefícios” trouxe às massas adivasis este tipo de industrialização e turismo. A industrialização destruiu as suas casas e campos, atingindo assim duramente o seu modo de vida e pondo em perigo a sua própria existência. A sua cultura e tradições foram esmagadas. Pela primeira vez na história dessas massas adivasis, a prostituição tornou-se num grande negócio, com inocentes jovens tribais empurradas para o comércio da carne, aliciadas ou à força. Os adivasis, que nunca tinham ouvido falar sequer em doenças sexualmente transmissíveis, estão agora a tornar-se em suas vítimas. A mais temida das doenças, a SIDA, também fez a sua aparição. Como consequência natural, a lumpenização da juventude está surgir em grande escala. Bailadilla é um exemplo de todos os males que esta industrialização trouxe às vidas das massas adivasis. O antigo Cobrador distrital de Bastar, Brahmadev Sharma, um apoiante das massas adivasis, ao ver essas consequências nefastas ficou tão comovido que extravasou a sua tristeza pelas “pequenas irmãs enganadas de Bastar” através da poesia. Os trabalhos de exploração mineira que decorrem em Bailadilla poluíram tanto os rios Shankini e Dhakini que a água ficou vermelha. Centenas de cabras e vacas criadas pelos adivasis que vivem nas margens desses rios adoeceram e morreram depois de beberem dessa água. O peixe quase desapareceu desses rios.
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| (Foto:
People’s March) |
Alguns factos chocantes vieram à luz do dia quando analisámos mais profundamente as condições das acima referidas famílias. Nos últimos anos, as suas vidas ficaram completamente à mercê do governo e dos capitalistas. A parte dos seus rendimentos proveniente da recolha de produtos secundários da floresta e da produção agrícola tornou-se insignificante, enquanto a do trabalho físico aumentou. É verdade que, devido a isso, há mais dinheiro nas mãos das pessoas, mas a verdade é que os camponeses se tornaram agora assalariados. Isto é comparável às distorções que ocorrem noutras partes da economia do nosso país. A percentagem da agricultura no PIB do país tem diminuído ano após ano e em 2005-6 a percentagem desse sector de que depende 60% da população reduziu-se a apenas 22%.
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| (Foto:
People’s March) |
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| (Foto:
People’s March) |
Como dissemos antes, toda a zona do Dandakaranya é abundante numa grande variedade de valiosos depósitos minerais. Está a ter lugar uma grande concorrência no mercado entre as várias gigantes multinacionais e os seus agentes compradores indianos para se apoderarem dessas vastas riquezas. Os governos servis, tanto o Central como os dos estados envolvidos, decidiram leiloar esses recursos. Esses governos fazem grandes esforços para agradarem aos seus amos imperialistas, enganando as pessoas com falsas promessas e usando uma força brutal para ficarem com as terras das massas. Por exemplo, para contornarem as provisões da 73ª Emenda da Constituição, realizaram falsas Gram Sabhas (assembleias de aldeia), em que os únicos participantes foram polícias, responsáveis governamentais e esbirros da classe dominante, e anunciaram que tinham obtido o consentimento dos habitantes para ficarem com as suas terras. E, nos locais onde as pessoas resistiram corajosamente à sua expulsão, o estado usou uma força policial brutal, espancando e prendendo um grande número de pessoas, incluindo mulheres, como aconteceu na aldeia de Nagarnar. Onde quer que se tenham iniciado operações de exploração mineira, as pessoas perderam as terras que cultivavam há gerações e mesmo as suas casas. O estado limitou-se a lavar as suas mãos pagando uma compensação insignificante, a maior parte da qual foi engolida por funcionários corruptos e por esbirros dos partidos dominantes. Muitas pessoas nem sequer obtiveram esse escasso dinheiro, dado que não tinham nenhum título de terra em seu nome, embora tenham vivido nessas terras há gerações.
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| (Foto:
People’s March) |
As florestas estão a ser esvaziadas. Depois de fornecerem matérias-primas às grandes indústrias burguesas indianas e às indústrias imperialistas durante mais de um século, estão agora a ser ainda mais devastadas devido às cada vez mais intensas operações de exploração mineira, à construção de fábricas, instalações infra-estruturais, gigantescas barragens, etc., como parte da implementação das políticas de globalização imperialista. Devido a isso, milhões de pessoas estão a ser deslocadas e as suas vidas a ser devastadas. Não só as pessoas, mas muitas variedades de pássaros e animais estão a ser extintas devido à destruição indiscriminada das florestas em nome do desenvolvimento. O ambiente está a ser destruído.
A resistência popular e um novo poder no Dandakaranya
Mas as massas não estão a enfrentar tudo isto sem resistência. As massas, que chegaram à firme conclusão de que esta sociedade exploradora é a principal causa da sua economia distorcida, avançaram com a firme determinação de fazerem desaparecer o passado e prepararem um futuro mais luminoso. Durante as três últimas décadas, elas têm lutado pelo estabelecimento de um sistema alternativo que assegure um verdadeiro desenvolvimento e o bem-estar do povo. A questão é saber se se deve chegar a um compromisso com este sistema explorador, perdendo todas as suas riquezas e direitos de propriedade e mantendo-se à mercê dos exploradores, ou intensificar e consolidar ainda mais o recém-emergido sistema alternativo de poder popular e a sua luta? O povo escolheu a segunda alternativa e manteve-se firme na via da luta armada. Isso tem afectado duramente todos os esquemas dos exploradores. Por isso, de forma a removerem esse obstáculo e a implementarem os seus esquemas de pilhagem, as classes dominantes declararam guerra ao povo do Dandakaranya.
O povo, que não conseguia obter melhorias consideráveis nas suas vidas
com os antigos métodos agrícolas, tem, com uma curiosidade
revolucionária, levado a cabo reformas agrárias. Esta mudança não foi
súbita mas progrediu de uma forma gradual devido aos diligentes
esforços dos maoistas. De facto, os maoistas entraram no Dandakaranya
unindo as pessoas com as palavras de ordem “A terra a quem a
trabalha”. A revolução agrária foi e é o seu programa imediato.
Para isso, mobilizaram e organizaram as massas para a ocupação das
terras da floresta e das terras dos grandes agrários. Mais tarde, à
medida que os camponeses se consolidavam em organizações de massas, os
maoistas encorajaram e educaram as massas para avançarem para os
modernos métodos agrícolas. Os maoistas mobilizaram alguns quadros bem
versados nos modernos métodos agrícolas para educarem os camponeses.
Os maoistas recolheram sementes de camponeses de outras zonas de luta
e distribuíram-nas entre os camponeses do Dandakaranya. Mobilizaram as
massas para a construção de instalações de irrigação, embora em muito
pequena escala. Alocaram a isso uma parte especial do seu escasso
orçamento. Encorajaram as massas a formar cooperativas
revolucionárias. Têm educado os camponeses adivasis, em
particular os das colinas de Maad, sobre os benefícios da agricultura
moderna em vez do método de cultivo do corta-e-queima, o qual destrói
vastas áreas das florestas. Também implementaram algumas medidas para
solucionar os problemas relativos à saúde pública e à educação, os
quais assumiram a mesma importância que a agricultura tem. Da mesma
forma, estabeleceram conversações com os comerciantes sobre a
remuneração dos produtos recolhidos na floresta e pediram-lhes que
reduzissem a sua exploração. Com estas e outras medidas, surgiram
mudanças progressistas sem precedentes nas vidas das massas.
Todos estes programas revolucionários de desenvolvimento ganharam muita celeridade depois de as massas terem começado a criar os seus próprios órgãos de poder político, os Janatana Sarkars. Mas nada disto teria sido possível sem terem dado um duro golpe na hegemonia do sistema de exploração ao nível das aldeias. A guerra desencadeada pelas classes dominantes em nome da Salwa Judum [os bandos paramilitares contra-revolucionários dos grandes agrários organizados pelo estado] está a dificultar o avanço de tudo isto. Como resultado, as massas adivasis estão completamente empenhadas em se oporem à guerra desencadeada pela classe dominante.
A guerra desencadeada pelas classes dominantes prossegue em todas as frentes. Embora dependendo sobretudo da força brutal de milhares de elementos das forças de segurança, eles também estão a levar a cabo programas de reforma em nome do desenvolvimento. Mas quase todos eles não passam de esquemas de construção de instalações infra-estruturais que contribuirão para uma maior pilhagem dos recursos naturais e para a livre movimentação da polícia e dos paramilitares. As classes dominantes criaram a Salwa Judum para darem legitimidade a tudo isso. As massas podem estabelecer uma verdadeira economia democrática através da intensificação da resistência multifacetada e de pôr fim ao “desenvolvimento” distorcido que tem vindo a ocorrer há décadas.
Deve ser claramente percebido que a muito propagada Salwa Judum e a “ameaça naxalita” [os revolucionários maoistas], etc., no Chhattisgarh nada têm a ver com “terrorismo”, como eles pretendem, mas sim com as duas vias para o desenvolvimento. A primeira representa os enormes projectos mineiros e outros grandes negócios (indianos e estrangeiros) e uma massiva deslocação e destruição do sustento e do habitat dos adivasis. A segunda tem a ver com o desenvolvimento científico da agricultura baseada nos recursos indígenas, na preservação das florestas e dos seus ricos recursos naturais, em conjunto com o fim dos vários tipos de saque dos adivasis por ávidos políticos, burocratas, comerciantes e pela elite tribal.
A actual guerra no Chhattisgarh deve ser claramente vista por essas duas vias de desenvolvimento. Toda a gente tem que decidir de que lado está. Fingir ser neutral, dizer que os “inocentes adivasis” ficaram apanhados entre a violência de duas forças malévolas (equiparando a violência naxalita à do estado), é declaradamente falso e hipócrita, e funciona, quanto ao essencial, para justificar o terror estatal na região. Chegou o momento de todos os genuínos democratas assumirem uma posição clara sobre de que lado estão – se do dos barões ladrões, ou do dos adivasis; se do da pilhagem do país ou do da justiça para o povo!
| Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese |