Annapolis – um pequeno balanço
3 de Dezembro de 2007. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

Quais os resultados da conferência de Annapolis com Israel e os palestinianos?

Primeiro, os EUA declararam publicamente o seu exclusivo sobre a questão. O Roteiro – um plano para um “mini-estado” palestiniano impotente à sombra do gigantesco monstro israelita – tem estado até agora associado a quatro “intervenientes”: EUA, Europa, ONU e Rússia. A falência do Quarteto ficou clara alguns dias depois, quando os EUA apresentaram – e depois retiraram repentinamente – uma resolução ao Conselho de Segurança da ONU que endossava a conferência de Annapolis e os seus acordos. Esta reviravolta de um dia para o outro não teve nada a ver com o conteúdo da resolução. Pelo contrário, reflectia uma alteração para os EUA, que antes procuravam ter a cooperação de outras potências e instituições na continuação do apoio a Israel. Agora que os EUA querem dominar o Conselho de Segurança, a ONU e outros países – em particular a Rússia – estão de fora do jogo.

Em conjugação com isto, os responsáveis do governo Bush consideraram que a sua vitória mais importante não era o vago acordo assinado pelo primeiro-ministro israelita Ehud Olmert e pelo Presidente da Organização de Libertação da Palestina e da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas (Abu Mazen). Pelo contrário, foi a legitimidade conferida a este projecto e ao seu patrocínio totalmente norte-americano pela presença de 44 países.

Houve dois importantes convidados cuja chegada esteve em dúvida até ao último minuto. Um foi a Síria. Após um período de debate interno, os EUA aparentemente decidiram manobrar para destruir a frente unida entre esse estado laico e os principais opositores islâmicos aos EUA na região, a República Islâmica do Irão, o partido islâmico libanês Hezbollah e a organização islâmica palestiniana Hamas. O outro foi a Arábia Saudita, pelo menos tão fundamentalista quanto o Irão, mas cujo fundamentalismo é de uma variante pró-EUA porque o seu rei depende do apoio dos EUA. A presença saudita de alto nível foi amplamente interpretada não só como um sinal de cedência às exigências dos EUA, mas do seu próprio medo de uma rivalidade pela sua influência regional vinda do Irão e da sua corrente islâmica.

No discurso de Bush, o único momento substancial da breve conferência, ele avisou: “O momento é o adequado porque está em curso a batalha pelo futuro do Médio Oriente... Os extremistas estão a tentar impor a sua visão negra.” Por outras palavras, a razão mais premente para a realização da conferência é o confronto em curso entre os EUA e os seus aliados e estados clientes, por um lado, e por outro, o fundamentalismo islâmico anti-EUA, incluindo, agora de uma forma mais importante, o regime iraniano, cujo alcance ideológico, político e prático tem crescido com cada novo recuo dos EUA na região, do Líbano e Iraque ao Paquistão e Afeganistão.

O fundamentalismo islâmico é composto de variantes díspares e muitas vezes mutuamente antagónicas, e os EUA têm sido frequentemente os principais apoiantes de forças islâmicas reaccionárias em defesa dos seus próprios interesses imediatos. Porém, algumas variantes desse fundamentalismo anti-EUA puseram-se à cabeça da oposição aos planos do imperialismo norte-americano para um Grande Médio Oriente e tornaram-se no principal obstáculo à necessidade que os EUA têm de penetrar e dominar económica, social e politicamente ainda mais esses países e de criar um império mais sustentável. Afinal, apesar dos benefícios do dinheiro da CIA durante a guerra anti-soviética no Afeganistão, o que mais aborreceu o cidadão saudita Osama Bin Laden quanto ao seu país, por razões religiosas bem como políticas, foi a sua subserviência aos EUA.

Mas o acordo de Annapolis não deixou de ter conteúdo, embora declare simplesmente: “Na prossecução do objectivo dos dois estados, concordamos em... empenharmo-nos em negociações sólidas e permanentes e em fazer todos os esforços para se chegar a um acordo antes do final de 2008.” O ponto que todos os presentes tiveram que endossar, pelo menos pela sua presença, se não mesmo em palavras, foi a defesa e o carácter do estado israelita como condição da existência de um estado palestiniano. Bush salientou o compromisso norte-americano em relação a Israel, não só como mais um país, mas como “um estado judeu e pátria do povo judeu” – um estado não para os seus habitantes, como os estados normais, mas para um e um só povo, independentemente de onde viva e apesar de outras pessoas aí viverem (mesmo que fosse verdade, o que não é, que os judeus constituem um único povo em todo o lado). Uma vez emoldurado este princípio, e tornado ainda mais na pedra de toque de que tudo o resto depende, o que se segue inevitavelmente são medidas para impor esse carácter reaccionário, arbitrário e inerentemente instável:

• Nenhum direito de regresso para os quase 4,5 milhões de palestinianos expulsos com o estabelecimento desse estado e as suas subsequentes guerras de expansão, porque isso poderia tornar os judeus numa minoria. Para os descendentes afastados – e religiosamente definidos – dos judeus que abandonaram a Palestina, na sua maior parte, há 1500 anos, considera-se que desfrutam de um direito de “regresso” a um lugar onde nunca estiveram, enquanto para os palestinianos vivos aí nascidos se considera que os seus filhos perderam esse direito.

• A cidadania de segunda classe para os 1,5 milhões de palestinianos que permanecem dentro das fronteiras desse estado, com restrições legais, sofrimento e por vezes violência destinada a fazer com que sair seja a sua melhor opção, e o debate público nos círculos sionistas sobre a possível “transferência” forçada dos árabes que ainda aí permanecem, de Israel para... o mini-estado palestiniano. De qualquer forma, ao defender as “duas pátrias”, Bush alegou que a existência de Israel como “pátria judia” requer um “pátria” separada para os palestinianos... onde os palestinianos que actualmente vivem em Israel e noutros lugares deveriam presumivelmente regressar.

• Condições opressivas para outros não-judeus e um grande número de judeus não-religiosos, porque numa extensão crescente, e alarmante para muitos israelitas, os líderes religiosos fundamentalistas judeus estão a expandir a sua autoridade sobre a vida quotidiana de toda a gente (por exemplo, proibindo casamentos não-judeus, tornando o divórcio dependente do consentimento do marido e de outras formas que dão força de lei a restrições religiosas).

• E, não menos inevitavelmente, o actual controlo militar, económico e político israelita sobre os palestinianos para além das autoproclamadas (mas até agora sempre em expansão) fronteiras para proteger o estado judeu daqueles cujas vidas e futuro foram esmagados.

O tipo de estado palestiniano que os EUA visam pode ser visto no facto de Washington já ter decidido quem vai ser autorizado a liderá-lo, independentemente do que os palestinianos pensem ou votem. Durante anos, os EUA apoiaram a recusa de Israel a sequer falar com o predecessor de Abbas na liderança da OLP e da Autoridade Palestiniana, Yasser Arafat. Agora, decidiram que Abbas, com as mesmas credenciais, deve falar por todos os palestinianos. Mas ainda o tratam como seu servidor. Não lhe deram um único compromisso positivo em qualquer dos pontos que os seus conselheiros disseram ser chave: o direito de regresso dos palestinianos exilados (implicitamente, a porta foi-lhe fechada), as fronteiras de Israel (ainda não interligadas), o direito à água (o monopólio de Israel sobre a água torna inútil muita da terra deixada aos palestinianos) e o estatuto de Jerusalém (em relação à maior parte da qual os israelitas juraram nunca ceder). Depois da conferência, o presidente da Autoridade Palestiniana alegou que os EUA nem sequer se preocuparam em informá-lo sobre a sua mudança de posição no Conselho de Segurança, uma bofetada na cara, já que Abbas tinha apelidado a resolução de “prova do empenho dos EUA” para conseguir que Israel fizesse compromissos. Apesar disso, na própria conferência, ele alinhou em tudo o que lhe foi dito, porque o apoio dos EUA é a sua fonte principal de legitimidade e sobrevivência.

Embora Annapolis tenha resultado em algo para os EUA e Israel, esse sucesso é muito relativo. Também sublinhou as suas debilidades. A conferência mostrou que Israel é o único bastião fidedigno dos EUA no Médio Oriente; que os EUA não têm nenhuma solução justa a oferecer aos palestinianos; e que sua capacidade de atingir os seus objectivos na região dependem da trémula lealdade de regimes isolados, altamente antiquados e frágeis e cada vez mais odiados pelos seus próprios povos. Mesmo os estrategas imperiais norte-americanos reconhecem que esta situação é tudo menos estável, que o melhor que eles podem esperar é conseguirem manter isto unido durante o tempo suficiente para redefinirem toda a região através de ameaças e talvez de desencadearem mais guerras, sobretudo confrontando e reorganizando totalmente ou despedaçando a República Islâmica do Irão – num vendaval cujas consequências são imprevisíveis.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese