Tortura da água: o que realmente é e porque é que a usam
12 de Novembro de 2007. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

Soldados no Vietname, próximo de Da Nang em 1968, aplicam a tortura da água a um suspeito para tentarem extraír-lhe informação
(Foto: United Press International. Fonte: Washington Post)


O facto de os políticos norte-americanos e a comunicação social terem conseguido tornar “controverso” o uso da tortura da água (“waterboarding”) – como se houvesse qualquer dúvida de que o seu uso é criminoso – é um tributo ao poder da ofuscação, das meias verdades e da pura mentira. Parece que quanto mais essas palavras são usadas, menos significam. Mas significam muito, tanto pelo que é como pelo que revela sobre uma sociedade que a usa.

A 9 de Novembro, o Senado dos EUA, onde a suposta oposição do Partido Democrático a Bush tem a maioria, aprovou a proposta de Bush de nomear como Procurador-Geral – o suposto guardião da legalidade – Michael Mukasey, um homem que se recusou a declarar ilegal a tortura da água ou a dizer sequer que deveria ser considerada uma tortura.

Na realidade, a tortura da água já é considerada uma violação do direito internacional há mais de um século. Isto não a impediu de se ter tornado numa das formas de tortura usada pelos governos reaccionários de todo o mundo. Em teoria também é ilegal perante a lei norte-americana, o que também pouco fez para impedir a sua utilização. Que o governo Bush a pratica abertamente – com o apoio implícito do Congresso dos EUA – revela a extensão com que o conceito de legalidade passou a ser considerado nos Estados Unidos, nas palavras de outro responsável judicial de Bush, “peculiar” – antiquado.

A tortura da água é muitas vezes chamada “afogamento simulado”, como se fosse simplesmente uma forma de assustar as pessoas nos interrogatórios. Mas não há nada de simulado nela. As pessoas são amarradas a uma tábua, com um pano a cobrir-lhes a cara. As enormes quantidades de água despejadas sobre o pano inundam os pulmões e a vítima sufoca lentamente. Malcolm Nance, que ensinou a técnica numa escola da Marinha dos EUA, escreveu no The Small Wars Journal [O Diário de Pequenas Guerras]: “O quanto a vítima é afogada depende do resultado desejado e da obstinação do indivíduo.”

Capa da revista Life, Vol. 39, nº 1021, publicada a 22 de Maio de 1902, mostrando a aplicação da "cura da água" a um filipino por soldados dos EUA. Ao fundo, soldados que representam vários países europeus observam, sorrindo e dizendo: "Estes piedosos ianquis já não nos podem atirar mais pedras", querendo dizer que os EUA já não têm autoridade moral para criticarem as práticas coloniais europeias.
(Fonte: http://www.korakora.org/projects/?q=node/215)


“Um médico da equipa observa a quantidade de água que é ingerida e os sinais fisiológicos que mostram quando é que o efeito de afogamento passa de experiência psicológica dolorosa a castigo horroroso e sufocante, até à espiral final da morte. Para os não iniciados, é horroroso de assistir... Quando feita correctamente, é uma morte controlada.”

O governo francês era particularmente conhecido por usar a tortura da água contra a luta de libertação nacional da Argélia que resultou na independência dessa colónia francesa em 1962. Num famoso filme sobre essa guerra, A Batalha de Argel de Gillo Pontecorvo, o Coronel Mathieu, uma personagem baseada no chefe real do exército francês na Argélia, responde à pergunta de um jornalista sobre a tortura: “O nosso dever é ganhar; por isso, para ser bastante claro, faço-lhe uma pergunta: Deve a França ficar na Argélia? Se a resposta for ‘sim’, temos que aceitar tudo o que isso requer.”

Henri Alleg, o editor de um jornal francês proibido pelas autoridades francesas, foi preso e torturado por pára-quedistas franceses em 1957. Na prisão, escreveu um livro sobre essa experiência. Jean-Paul Sartre, um dos mais proeminentes intelectuais de França, escreveu uma introdução ao manuscrito contrabandeado. O governo francês proibiu imediatamente A Questão, mas uma outra edição em francês foi publicada na Suíça. Isso representou um importante papel na exposição, para o povo francês, do verdadeiro carácter dessa guerra cujos métodos brutais reflectiam o seu carácter de guerra colonial levada a cabo contra um povo. Isso foi particularmente importante porque o Partido Socialista (que ajudou a fazer a guerra) e o não-revolucionário Partido Comunista (que inicialmente não se lhe opôs e que nunca o fez resolutamente) ajudaram a confundir muitos franceses.

Numa recente entrevista a uma rádio de Nova Iorque, Alleg, agora um velho historiador de 86 anos que mora em Paris, respondeu a uma pergunta sobre a sua experiência dizendo que a verdadeira questão não é saber se a tortura da água constitui uma tortura ou não, mas sim porque é que certos tipos de guerra requerem a tortura em geral:

“Eu estou realmente surpreendido por isto (saber se a tortura da água constitui tortura ou não) ser a grande questão agora colocada perante a opinião americana e não antes uma outra questão: Será que esta guerra é uma guerra aceitável? Será que um país civilizado pode usar essas coisas? E será que esta forma de combater – que, como dizem alguns militares, não pode ser diferente – é aceitável?

Reprodução da figura "A Tortura da Água" do livro "Praxis Rerum Criminalium", de J. Damhoudère, publicado em Antuérpia em 1556.
(Imagem no domínio público. Fonte: Wikipedia)


“É uma forma terrível de torturar uma pessoa, porque se está a levá-la próxima da morte e depois a trazê-la de volta à vida. E por vezes ela não volta à vida. Por isso, o uso da tortura, em minha opinião, é uma forma de fazer com que todas as pessoas tenham medo de que se lutarem... sofrerão esse tratamento. Por isso é uma utilização do terror contra as pessoas que lutam. Não é uma forma de obter qualquer informação; às vezes obtém-na, mas a maioria das vezes é inútil. Por isso, não é uma forma de vencer uma guerra, mesmo que as pessoas que lideram esta guerra digam que têm a obrigação de usar esse método se quiserem a vitória no final da guerra. Esta é a minha opinião.”

No seu livro de 1958, ele descreve assim a sua experiência: Os soldados amarraram-no a uma prancha, envolveram a sua cabeça com um pano e puseram-lhe a cabeça debaixo de uma torneira de água corrente. Disseram-lhe que mexesse os dedos quando estivesse disposto a cooperar. “O pano ficou rapidamente empapado. A água fluiu para todo o lado: para a minha boca, o meu nariz, por toda a minha cara. Mas durante algum tempo ainda consegui inspirar alguns pequenos tragos de ar. Tentei, contraindo a garganta, engolir tão pouca água quanto possível e resistir à sufocação mantendo ar nos meus pulmões enquanto pudesse. Mas não consegui aguentar mais que alguns momentos. Tive a impressão de me estar a afogar e uma agonia terrível, a da própria morte, tomou conta de mim. Apesar da minha vontade, todos os músculos do meu corpo lutaram inutilmente para me salvarem da sufocação. Apesar da minha vontade, os dedos de ambas as mãos tremeram descontroladamente. ‘Já está! Ele vai falar’, disse uma voz.

“A água deixou de correr e eles retiraram o pano. Eu consegui respirar. Na escuridão, vi os tenentes e o capitão que, com um cigarro entre os lábios, me batia no estômago com o punho para me fazer deitar fora a água que eu tinha engolido.”

Depois, porque ele não falou, eles começaram tudo de novo.

(Henri Alleg, The Question [A Questão], University of Nebraska Press, 2006. A entrevista, feita por Amy Goodman, está disponível em democracynow.org. Este artigo do SNUMAG também usou material de um artigo de Leonard Doyle no jornal britânico Independent, 1 de Novembro de 2007.)

(Nota do tradutor para português: Ver também http://www.tribunaliraque.info/pagina/artigos/depoimentos.html?artigo=312)

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese