Estudantes iranianos começam ano lectivo confrontando Ahmadinejad
15 de Outubro de 2007. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

O confronto entre o regime iraniano e os estudantes começou logo no primeiro dia do novo ano lectivo.

O Presidente Mahmoud Ahmadinejad tinha um discurso marcado para a Universidade de Teerão nesse dia, 8 de Outubro. O regime estava consciente do potencial de agitação estudantil e tomou todas as medidas possíveis para manter a maioria dos estudantes fora do auditório onde ele iria discursar. A entrada foi restringida a apoiantes do regime escolhidos a dedo e a alguns docentes universitários e funcionários governamentais. Os estudantes normais da Universidade de Teerão e outras pessoas não só foram mantidos afastados da reunião, como muitos deles nem sequer foram autorizados a entrar no campus. As notícias indicam que, desde alguns dias antes da data do evento, as forças de segurança tomaram controlo da zona em torno da universidade. No próprio dia, montaram postos de fiscalização nas entradas e puseram todo o campus sob vigilância.

Embora muitos estudantes tenham sido impedidos de entrar no campus, alguns outros conseguiram-no. Entre estes estavam manifestantes vindos de várias universidades da capital e mesmo, segundo as notícias, alguns de outras cidades.

Desde manhã cedo, homens pertencentes a uma força de segurança não identificada andaram a patrulhar o campus e a conferir os bilhetes de identidade e os cartões de estudante. Como resultado disso, dois activistas de outras universidades foram identificados e expulsos do campus.

Apesar destas restrições, centenas de estudantes juntaram-se frente à biblioteca central a gritar “Abaixo o ditador!”, “Liberdade para os estudantes presos!”, “Não à tortura dos estudantes!” e “Nós, estudantes, preferimos morrer, em vez de tolerar o desprezo!” Dirigindo-se aos representantes do regime e às forças de segurança, gritaram: “Tenham vergonha, saiam da universidade!”.

É claro que o regime organizou as suas próprias forças de modo a estarem à mão. Trouxe entre 100 e 150 supostos estudantes, sobretudo membros da Basij (milícia) das universidades controladas pelos Pasdaran (Guardas Revolucionários). Eles colocaram-se frente ao auditório Alamehe Amini onde iria ser proferido o discurso para formarem outra camada protectora entre o auditório e os manifestantes estudantis. Os basiji entoaram frases islâmicas de glorificação de ícones xiitas e de proclamação do seu desejo de martírio, bem como gritos ocasionais de “Abaixo a Inglaterra” e “Abaixo a América” e insultos aos estudantes, sobretudo às mulheres. Confrontaram e por vezes espancaram os estudantes que tentavam entrar no auditório. Os manifestantes responderam gritando: “Canhões, tanques, basiji, nada nos pode parar agora”.

Alguns estudantes organizaram uma sessão frente à biblioteca central. Entre os oradores estavam estudantes de várias universidades, entre as quais a Universidade Técnica Amir Kabir e a Universidade Técnica Alameh. Condenaram as restrições impostas aos estudantes nesse dia e em geral, e exigiram a libertação dos estudantes e conferencistas que tinham sido presos, torturados ou expulsos da escola durante os seis últimos meses. Um estudante disse: “Nenhum estudante normal foi autorizado a entrar no auditório. Eles só autorizaram os basiji, que eram seus apoiantes. Este verão foram presos 21 estudantes e docentes universitários e 43 organizações estudantis foram declaradas ilegais.”

Alguns organizadores das associações de estudantes islâmicas tentaram limitar os protestos a uma linha reformista ou mesmo interromper os protestos. Por exemplo, tentaram realizar a sessão frente ao departamento de literatura, longe do auditório onde Ahmadinejad estava a falar, mas a maioria dos estudantes ignorou-os e começou a dirigir-se para a biblioteca central frente ao auditório. Eles também salientaram nos seus discursos que não se estavam a opor ao regime. Isto foi contestado pelos estudantes radicais e de tendências de esquerda que denunciaram e rejeitaram a linha e a acção “tradicional das associações de estudantes islâmicas”.

Durante esse tempo, os estudantes tentaram atacar a porta da frente e abri-la para que pudessem entrar. Tiveram que atrair e enfrentar as forças de segurança que os repeliram. As forças de segurança acabaram por lançar um ataque com gás lacrimogéneo à sessão dos estudantes e tentaram dispersar os manifestantes, ao mesmo tempo que ajudavam Ahmadinejad a fugir da universidade por uma porta lateral.

O regime tinha razão para ter tanto cuidado e para proibir tão estritamente os estudantes de chegarem perto do seu presidente. Os resultados foram semelhantes a 6 de Dezembro do ano passado, quando Ahmadinejad tentou falar no “Dia do Estudante” na Amir Kabir. Esse dia assinala o tiroteio policial sobre os estudantes que protestavam contra a visita do vice-presidente norte-americano Richard Nixon pouco depois do golpe de estado organizado pela CIA contra um governo nacionalista. Ahmadinejad teve que fugir do local quando estudantes enfurecidos queimaram o seu retrato e perseguiram o seu carro. O regime vingou-se aumentando a pressão e encarcerando e torturando estudantes. As autoridades perceberam que muitos estudantes já não se deixam enganar pela sua retórica antiamericana, pelo que desta vez começaram a preparar de antemão a sua repressão.

Desde a sua fundação há sete décadas, a Universidade de Teerão tem sido uma trincheira da luta contra os governantes do país. O regime do Xá colocado no poder pelos EUA e o regime islâmico que se lhe seguiu encarceraram ou mataram milhares dos seus estudantes. Durante a insurreição revolucionária contra o Xá, enquanto, através das mesquitas, o Aiatola Khomeini conseguia impor a sua liderança reaccionária a muitos sectores populares, as universidades não se renderam assim tão facilmente. Uma reunião em 1978 de mais de 30 000 estudantes na Universidade de Teerão, cantando “Poder às massas, Viva a unidade operário-camponesa!” fez estremecer os reaccionários de todos os matizes e foi recebida pelo ódio tanto do Xá e dos EUA, como de Khomeini e das suas forças. Após a queda do Xá em 1979, as universidades continuaram a ser um dos centros da revolução e dos protestos contra os novos governantes. Foi por isso que foi lançada uma suposta “revolução cultural” reaccionária – a islamização das universidades. Apesar da resistência de milhares de estudantes liderados pelos comunistas e por outros estudantes radicais, os assassinos do Hezbollah do regime forçaram a sua entrada nas universidades, ferindo e espancando centenas de estudantes. Essa “trincheira da liberdade” foi temporariamente perdida. As universidades permaneceram fechadas durante vários anos e foram depois reorganizadas numa base islâmica, em termos da liderança, dos programas e de quem era autorizado a entrar.

É certo que isso causou danos à revolução e à educação de toda uma geração, mas numa escala histórica foi de curta duração. Os estudantes depressa reemergiram no palco das lutas sociais. A princípio, essa nova geração de estudantes estava muito influenciada pelas ideias da clique de Khatami, a qual visava “reformar”, e não derrubar, o regime islâmico, mas as limitações desse pensamento vieram à superfície. Depois de uma luta estudantil em Julho de 1999, as forças de segurança atacaram brutalmente os estudantes e mataram, feriram, encarceraram e torturaram centenas de estudantes. Foi assim que se criou o antagonismo entre o actual movimento estudantil e o regime islâmico. Começou a chegar ao ponto de ebulição no decurso do último ano lectivo, quando centenas de estudantes enfrentaram a expulsão e muitos foram presos e torturados. Os docentes não-islamitas têm sido empurrados para a reforma ou expulsos. O regime começou a falar numa “segunda revolução cultural” e no fecho das universidades.

A actual situação e o movimento estudantil

Uma crise muito séria está a fermentar no Irão. Os imperialistas têm feito ameaças de um ataque militar. Uma guerra dessas seria, sobretudo, uma guerra contra o povo. Por isso o povo terá que enfrentar, mais cedo ou mais tarde, dois inimigos desapiedados. Esta situação coloca questões de vida ou morte ao povo do Irão. O regime iraniano já decidiu e não irá basear-se no povo. A sua natureza reaccionária e a sua contradição fundamental com os interesses do povo não lhe permitem outra coisa. A repressão do regime tem um alvo muito mais vasto que apenas os estudantes. Particularmente visados têm sido o movimento das mulheres e a imprensa independente. Segundo o regime, os seus esbirros e outros actos têm forçado meio milhão de mulheres a continuar a usar o véu. Durante o último ano foram executadas em público quase 200 pessoas, para criarem um clima de intimidação. Embora o regime os tenha etiquetado a todos de “criminosos”, sabe-se que alguns eram presos políticos como Majid Kavousifar, de 28 anos.

Os responsáveis do regime negam obstinadamente qualquer hipótese de um ataque militar dos EUA. Embora Ahmadinejad se tenha vangloriado na ONU que, apesar da pressão ocidental, o seu regime nunca abandonaria o seu programa nuclear, essa parte do seu discurso foi censurada pelo próprio regime quando ele foi difundido no Irão. Eles não querem que o povo se aperceba do perigo de uma guerra a propósito desse tema. De facto, a sua posição pública é a de que os EUA não ousariam atacar o Irão – uma certeza que tem pouco a ver com a realidade e que só pode deixar o povo desprevenido. Isto levanta a questão de saber quem os mulás temem mais – se os imperialistas ocidentais, se o povo do Irão. Ao mesmo tempo, eles acusam todos os movimentos sociais, incluindo os das mulheres e dos estudantes, de serem uma “quinta coluna” (agentes) do Ocidente.

Algumas forças autoproclamadas de esquerda sugerem que o povo iraniano e as organizações revolucionárias devem interromper a luta contra o regime islâmico de forma a se unirem contra a ameaça de uma invasão norte-americana. Mas o povo iraniano já teve experiências amargas com este tipo de sugestão perniciosa. O clero dominante nunca hesitou em apelar à “unidade” sempre que precisou de ajuda. Essa “unidade” tem significado sempre não lutar nem protestar contra o regime, nem sequer questionar as suas políticas reaccionárias. Quem recusasse essa “unidade” era sempre acusado de ser uma “quinta coluna” e punido. Foi isso que aconteceu durante os primeiros anos da revolução e também durante a guerra Irão-Iraque.

Durante a revolução, antes de tomarem o poder, Khomeini e os seus apoiantes apelaram a que os comunistas e outras organizações radicais apoiassem o movimento fundamentalista islâmico, porque a unidade contra o Xá era essencial. Khomeini prometeu que quando chegasse ao poder não imporia a religião ao povo. Quando essas forças islâmicas ficaram com o poder nas mãos, a sua primeira medida foi massacrar os comunistas e outros grupos radicais e endurecer o seu despótico domínio da teocracia islâmica sobre o povo e sobretudo sobre as mulheres. Aparentemente, um grande sector do povo iraniano já tomou a decisão de não suspender a sua luta contra o seu próprio regime reaccionário e de não repetir o mesmo cenário trágico.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese