Afeganistão: As razões para o Canadá ir para a guerra
15 de Outubro de 2007. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

O artigo que se segue, “Afeganistão: Razões para a guerra”, é reproduzido de Notas sobre o Afeganistão, Primavera/Verão de 2007, uma publicação do comité local de Winnipeg, Canadá, do Movimento de Resistência Popular Mundial (www.wprmwinnipeg.blogspot.com). O Canadá tem um dos maiores e mais activos contingentes de ocupação daquele país. Este artigo centra-se nas razões por trás da participação voluntária do Canadá, uma abordagem que, por extensão, fala nas razões por que outros países imperialistas de “segunda linha”, como a Grã-Bretanha e a Alemanha, estão profundamente envolvidos e, mais genericamente, fala na própria guerra.

As tropas canadianas têm estado no Afeganistão desde o início de 2002, tanto a apoiar a Operação Liberdade Duradoura encabeçada pelos EUA, como a participar nas operações da NATO. Os motivos que levaram à participação do Canadá nessas operações militares têm sido pouco ou nada divulgados. A comunicação social, quando não aplaude abertamente a ocupação, tem-se recusado a revelar as razões mais profundas por que o Canadá se envolveu na sangrenta ocupação do Afeganistão, disfarçando o assunto e limitando o contexto do debate a uma simples questão de “ajudar os nossos amigos do sul” ou de “assumir as nossas responsabilidades de manutenção da paz”.

Mas há mais a dizer sobre esta situação. Devido à localização do Canadá, a sua economia está intimamente ligada à dos Estados Unidos. Por isso, é do interesse da classe dominante do Canadá – o grupo de pessoas que controla o grosso da riqueza do Canadá – assegurar que o Canadá mantém laços íntimos e amigáveis com os Estados Unidos. Manter laços amigáveis frequentemente significa apoiar a política externa norte-americana, o que pode ter a forma de adesão a embargos e sanções impostas pelos norte-americanos a outras nações ou o envio de tropas para apoiar operações militares norte-americanas no exterior. Esta última forma é a que estamos agora a testemunhar com a presença do Canadá no Afeganistão.

Actualmente, os Estados Unidos são a única superpotência do mundo. A sua política externa trabalha para manter e expandir a actual ordem imperialista mundial. Isto é uma tarefa difícil e cara. Por disso, os Estados Unidos esperam que outros países imperialistas de segunda linha, que beneficiam desta situação do mundo (i.e. países ocidentais industrializados como o Canadá, a Grã-Bretanha, etc.), ajudem na sua manutenção. Se esses países não derem o seu contributo para os custos de manutenção do sistema imperialista, correm o risco de serem excluídos da partilha dos espólios da pilhagem. O Canadá, sendo o quinto maior investidor estrangeiro do mundo (New Socialist #54), não pode arriscar perder o acesso à mão de obra barata, bem como aos depósitos de petróleo, gás e minerais que formam a base da economia canadiana.

Segundo a Associação Mineira do Canadá, a indústria mineira, as pedreiras e a extracção de petróleo e gás injectam quase 40 mil milhões de dólares por ano na economia canadiana. Compare-se isto aos 15,4 mil milhões da agricultura e aos 7,2 mil milhões da silvicultura e das madeiras e fica claro que os minérios, o petróleo e o gás têm uma grande importância na economia canadiana e consequentemente para a classe dominante canadiana. Além disso, outras indústrias como as de distribuição de electricidade/gás/água (262 mil milhões/ano), transportes (51.9 mil milhões/ano) e de manufacturação (184 mil milhões/ano) não podem funcionar sem matérias-primas como o petróleo, o gás e os metais. É neste contexto que começamos a ver quão estratégico é o Afeganistão para as necessidades particulares da classe dominante canadiana.

O Afeganistão tem depósitos minerais de qualidade mundial. Segundo o governo do Afeganistão, só o depósito de cobre de Aynak tem cerca de 240 milhões de toneladas de material. A 14 de Novembro de 2006, o Governo do Afeganistão divulgou a lista de empresas que está a ter em conta para o desenvolvimento desse depósito de cobre em particular. Entre a lista de nove empresas está a empresa mineira canadiana Hunter-Dickinson, Inc.

O Canadá é um líder mundial na indústria mineira. A bolsa de valores de Toronto (TSX), uma das maiores bolsas de valores do mundo, “é a sede da maior parceria de empresas mineiras do mundo”, em que a “actividade de transacção de acções na TSX em 2005 [excedeu] 167 mil milhões de dólares” (mining.ca, Associação Mineira do Canadá). Em 2005, 88% dos 1611 financiamentos públicos da indústria mineira global foram feitos na TSX. Londres ficou em segundo lugar com 9%. Globalmente, as empresas canadianas fazem 40% da exploração mineira do mundo.

Mas o Afeganistão não é apenas importante devido aos recursos que se encontram dentro das suas fronteiras. Geograficamente, o Afeganistão é o portal de uma região do mundo que está a ficar cada vez mais importante para as potências industriais do mundo desenvolvido e em desenvolvimento: a região do Mar Cáspio.

A importância estratégica do Mar Cáspio

Durante os últimos 10-15 anos, as potências económicas do mundo têm olhado para a região do Mar Cáspio devido à sua potencial riqueza em gás natural e petróleo. O Departamento de Informação Energética (dos EUA) estima que as reservas comprovadas de petróleo do Mar Cáspio estão entre 17 e 49 mil milhões de barris. Também calcula que as reservas comprovadas de gás natural sejam cerca de 232 bilhões de pés cúbicos. Estes recursos são de importância vital para qualquer potência industrial. Como foi acima mencionado, o petróleo e o gás são necessidades absolutas dos sectores de manufacturação e transportes, bem como de importância vital para as forças armadas de qualquer país. Tudo isto indica que a região do Mar Cáspio é uma zona do mundo estrategicamente muito importante, com reservas de petróleo e gás que ultrapassam facilmente as do Mar do Norte.

O Mar Cáspio é o maior corpo de água do mundo cercado por terra. Cinco países têm acesso ao Mar Cáspio: Azerbaijão, Rússia, Cazaquistão, Turquemenistão e Irão. O Afeganistão faz fronteira com o Turquemenistão a norte e com o Irão a oeste.

O Cazaquistão e o Azerbaijão têm significativas reservas de petróleo e as reservas de gás natural do Uzbequistão estão entre as dez maiores do mundo. As empresas canadianas têm estado envolvidas nos acontecimentos desta região há muitos anos. Segundo o sítio internet do Departamento de Relações Exteriores e Comércio Internacional (DFAIT), uma missão comercial canadiana em Maio de 2004 incluiu 10 empresas de Alberta (Canadá) que viajaram até ao Cazaquistão para se encontrarem com a empresa responsável pelas operações nos depósitos no Norte do Mar Cáspio, bem como com empresas canadianas já activas no Cazaquistão. “Quase todas as maiores empresas petrolíferas e de gás do mundo têm uma presença em Atyrau, a capital do petróleo e do gás do país.”

As empresas canadianas estiveram activas noutros lugares da região. Em 2004, o antigo primeiro-ministro canadiano e conselheiro da PetroKazakhstan (uma empresa canadiana com sede em Calgary, Canadá), Jean Chretien, encabeçou uma delegação canadiana que se reuniu com responsáveis turquemenos para negociar um acordo em nome da empresa Buried Hill Energy, de Edmonton, para desenvolver o bloco Serdar do Mar Cáspio (News Central Asia, 18 de Janeiro de 2004). Na mesma viagem, a delegação reuniu-se com responsáveis do Omã e do Turquemenistão para discutir a construção do Oleoduto Trans-Afegão (TAP) (News Central Asia, 4 de Setembro de 2004). O TAP é uma cadeia de oleodutos que irão levar para sul o petróleo e o gás extraído do Turquemenistão, através do Afeganistão e do Paquistão e que terminará na Índia. Esse oleoduto foi finalmente definido em 21 de Novembro de 2006. Em 2004, uma outra empresa canadiana, a ThermoDesign, ganhou um contrato de 42 milhões de dólares para construir uma fábrica de LPG e gás condensado no Turquemenistão (News Central Asia, 20 de Outubro de 2004).

Os interesses da classe dominante canadiana estão profundamente investidos nos recursos energéticos da região do Mar Cáspio. É do interesse directo da burguesia canadiana manter a região aberta ao capital canadiano. O Afeganistão é estrategicamente importante para alcançar esse objectivo porque, geograficamente, se situa exactamente onde os oleodutos precisam de atravessar para exportarem o petróleo e o gás do Mar Cáspio.

Conter o Irão e fechar a torneira à China

O Irão acrescenta uma interessante reviravolta na região. Primeiro, já é um dos países mais ricos em petróleo do mundo e está a ter acesso a mais reservas de petróleo e gás dos depósitos do Mar Cáspio. Actualmente, a dimensão do acesso que obterá irá depender de o Mar Cáspio vir a ser legalmente declarado um mar ou um lago. Se for um lago, todas as nações limítrofes terão que partilhar os seus recursos em igualdade e o Irão teria acesso a 20%. Se for um mar, cada país terá um acesso segundo o seu litoral, o que reduziria a parte do Irão para 13%.

O Irão também tem os segundos maiores depósitos de gás natural do mundo. Os maiores depósitos do mundo situam-se na Rússia e na Ásia Central. Segundo o sítio internet da EIA, eia.doe.gov, quase três quartos dos depósitos de gás natural do mundo situam-se no Médio Oriente e na Eurásia, com a Rússia, o Irão e o Qatar a responderem por 58% das reservas do mundo. Geograficamente, o Irão situa-se na encruzilhada entre a Ásia Central e a Europa. Por isso, os oleodutos que vão do leste para a Europa a oeste provavelmente precisariam de atravessar o Irão, dando efectivamente ao Irão influência sobre quase metade das reservas de gás natural do mundo. Isso seria inaceitável para os EUA que aspiram a controlar os cruciais recursos energéticos e a assim manterem sob controlo qualquer potencial rival.

Segundo o Washington Post, em 2004 a China assinou acordos com o Irão no valor de cerca de 90 mil milhões de dólares para comprar petróleo e gás iranianos e ajudar a desenvolver o campo petrolífero iraniano de Yadavaran. Em troca do petróleo, o Irão recebe muitos produtos fabricados na China, como computadores, electrodomésticos e automóveis. Com a China a desenvolver-se rapidamente, as suas vorazes necessidades energéticas estão a enfrentar as limitações que lhe são impostas pela actual situação política global... Por isso, é importante para a classe dominante norte-americana controlar os depósitos energéticos do mundo, não só para satisfazer as suas próprias necessidades energéticas como para impedir o aparecimento de qualquer potência militar e industrial concorrente. Isto significa necessariamente conter o Irão e construir rotas alternativas de oleodutos que sejam aceitáveis para a classe dominante norte-americana. Qualquer oleoduto que ligue o Médio Oriente e a região do Mar Cáspio a rivais como a China ou a Alemanha seria completamente inaceitável.

Assim podemos ver como o papel do Canadá no Afeganistão não ocorre por acaso – devido a algum tipo de excentricidade ou erro da política externa. O Canadá está no Afeganistão com o objectivo de defender os interesses nacionais do Canadá, interesses que estão enraizados no seu desejo de enriquecer através da indústria dos recursos naturais, bem como em manter relações íntimas e amigáveis com os EUA, o país que actualmente representa o principal papel na defesa da ordem económica mundial. E os “interesses nacionais” do capital canadiano, é preciso que se diga, estão em aguda contradição com os interesses dos povos do mundo, incluindo os da vasta maioria do povo do Canadá.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese