Uma vida, um país, um momento crucial: O filme Persépolis
8 de Outubro de 2007. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

A seguinte recensão foi traduzida da publicação estudantil iraniana Bazr (nº 20, www.bazr1384.com). A nota final é do SNUMAG.

Por vezes esquecemos que a História não é um livro nem um artigo, que é a vida. Que nós próprios somos parte da História, que a vivemos e a fazemos. E depois aparece a arte que nos relembra da vida para além do dia-a-dia.

Marjane Satrapi

Persépolis, um filme de animação de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, baseia-se nos quatro volumes da amplamente lida novela gráfica (banda desenhada) autobiográfica de Satrapi com o mesmo título. Conta a história do Irão contemporâneo através da vida de uma criança com grandes ambições: ser a última profetisa da galáxia e raspar as pernas. Conceitos contraditórios de uma existência que ao longo do filme entrelaçam a turbulenta história do Irão e a turbulenta vida de Marjane. Ela tem nove anos quando as vagas da revolução emergem para submergir o país. Vagas essas que levam os seus pais às manifestações, introduzem a política nos seus jogos de infância, libertam os prisioneiros dos calabouços do regime do Xá Pahlavi e acabam por levar à queda da monarquia. Na primeira parte do filme, através de um vislumbre da vida e da luta de três gerações da família de Marjane, somos apresentados a uma história de ditadura, petróleo e dependência, revolta e revolução, repressão e ainda mais revolta.

A infância de Marjane é marcada pelas figuras de familiares que lutaram contra o sistema dominante. O pai da mãe, nascido príncipe numa dinastia derrotada, tornou-se comunista. O seu tio aderiu ao Partido Democrático do Azerbaijão, um partido que apoiou a então socialista e vizinha URSS e tentou criar uma região autónoma antes de ser esmagado pelo governo central. Além de dar um esboço de um certo período histórico, aponta para uma outra verdade: as contradições fundamentais da sociedade empurram constantemente alguns intelectuais privilegiados para a revolta contra o sistema. Eles apercebem-se da natureza obsoleta das relações dominantes e essa compreensão da necessidade de mudar o mundo e de construir um outro mundo com toda uma nova base coloca-os nas fileiras dos oprimidos e mesmo, por vezes, à frente das suas lutas. No Irão, vimos muitas vezes esses intelectuais darem as suas vidas nesse percurso.

Diálogos e imagens simples relembram a verdade amarga, ao mesmo tempo que ridicularizam os tiranos e os seus parceiros. Isto impede que uma poeira evidentemente “educativa” assente durante o filme, ao mesmo tempo que seduz o espectador para a história. Claramente, Marjane não é uma criança iraniana comum. Vem de uma família intelectual com uma existência confortável. Mas Persépolis consegue retratar uma realidade universal (a história de um país) através da narrativa de uma vida particular e invulgar. A história que integra a herança familiar de Marjane e que define a sua vida faz parte da herança colectiva que molda a existência, as esperanças e os sonhos de todos nós.

A história antes da existência de Marjane é o pano de fundo para entendermos a sua vida, os acontecimentos históricos que moldaram o nosso destino e jogaram um papel não tão insignificante no moldar do mundo em que vivemos agora: a revolução iraniana de 1979 e o que se lhe seguiu. O derrube da monarquia levou à chegada ao poder da República Islâmica. A narração em voz sobreposta das principais personagens do filme acompanha os desenhos de Satrapi, imagens de vagas de repressão, mulheres forçadas a cobrir o cabelo, detenções, fugas do país e execuções. A República Islâmica ataca a maré revolucionária que derrubou o Xá. Anoush, o tio de Marjane que fora libertado das prisões do Xá pela revolução, é novamente preso. Marjane visita-o na prisão na noite anterior à sua execução. Ele fala-lhe da sua convicção na vitória final do proletariado.

Antes, tínhamos visto a efusão e a alegria esperançosa das massas iranianas durante os primeiros dias da revolução, quando as manifestações contra a monarquia apenas tinham começado. Vimos isso reflectido no riso da pequena Marjane quando joga com o pai. Agora, tudo isso chega a um fim abrupto. A execução de Anoush torna-se num símbolo da derrota da revolução. Numa cena pungente, ela enfurece-se contra o deus que ela imagina.

(Imagem: Sony Pictures)

Aqui somos apresentados a outro dos conflitos intelectuais de Marjane. Sempre que ela enfrenta um problema que não é fácil de resolver, ou que nem sequer consegue compreender correctamente, Marjane volta-se para o seu deus – um velho de barbas brancas sentado nas nuvens. Ele não representa necessariamente uma religião em particular. Como o deus de Marjane, tal como outras pessoas, só existe na sua cabeça, ele nunca é realmente útil. Apenas representa a disputa entre o conhecido e o desconhecido no seu cérebro.

Previamente, logo após a revolução, numa rua de bairro, Marjane e outras crianças perseguem um menino cujo pai é membro da Savak, a polícia secreta e torturadora do Xá. Mas quando o confronta, ela não lhe consegue bater. Mais tarde, o deus de Marjane diz-lhe para não se preocupar e deixar a justiça para ele. Por outras palavras, a esperança de que a revolução corrigirá as coisas ainda anda no ar. Mais tarde, após a execução de Anoush, deus aparece novamente, mas desta vez invoca fraqueza e diz que está impossibilitado de fazer alguma coisa. Agora a revolução está derrotada. Marjane rejeita-o, mas essa rejeição não é permanente, tal como a consciência não é permanente e nenhuma decisão está imune a oscilações. As realidades fora da nossa mente interagem constantemente com as nossas convicções e o nosso conhecimento e levam a subidas e descidas no processo de desenvolvimento da nossa vida e do nosso pensamento.

Esse deus faz outra aparição no filme muito mais tarde quando, ao fracassar na sua tentativa de encontrar uma vida nova no estrangeiro, Marjane fica cansada da vida e quer morrer. Mas ela é agora mais experiente e atenta ao seu papel na mudança. E assim Marx acompanha deus nessa cena. O deus de Marjane, com o seu aspecto e voz de banda desenhada, é um dos muitos toques humorísticos do filme, mas reflecte ao mesmo tempo a disputa da mente humana no processo de compreensão da realidade.

A realidade da implantação da República Islâmica que se seguiu ao golpe de estado de 1981 é trazida à tela pelos rostos de rapariguinhas que usam véus negros. Mas isso, apesar de amargo, é apenas parte da realidade. Também vemos uma alteração na personalidade dessas rapariguinhas, retratadas com linhas simples mas vivas que contrastam nitidamente com os panos negros que envolvem os seus rostos dinâmicos. Uma nova força está a emergir das profundezas da sociedade. A revolta das mulheres e das raparigas face à República Islâmica e à sua velha e podre ideologia faz parte do tecido da história e a narradora é ela própria um símbolo dessa força vibrante.

O conflito de Marjane com os vários representantes do regime no contexto de uma contínua repressão leva os seus pais a enviá-la para o estrangeiro. Aqui entramos num outro episódio do filme: o contacto de Marjane com o Ocidente. Ela foi enviada para a Áustria e acabou por ir viver num dormitório gerido por freiras. As freiras parecem – e actuam – como os assassinos islâmicos do Hezbollah no Irão. Os seus rostos são tornados feios pelo mesmo tipo de franzido à Khomeini habitualmente usado pelos Pasdaran (Guardas Revolucionários) do regime e pela Basij (a polícia da moralidade islâmica). Em Viena, ela sofre de solidão, nostalgia, racismo e, ao mesmo tempo, adolescência, a alegria do primeiro amor e da primeira decepção. Uma menina rebelde vinda do Irão, Marjane sente-se à vontade com a maioria dos desterrados da escola, os autoproclamados anarquistas, niilistas e outros colegas rebeldes. Porque eles se sentem em conflito com as autoridades de uma forma diferente, ficam fascinados com as suas histórias da guerra e da revolução. Algumas linhas divisórias fundamentais da sociedade são apresentadas como diferentes reacções em relação a esta rapariga estrangeira e escura – o racismo, a misoginia e a igreja por um lado, e a revolta contra o poder por outro.

(Imagem: Sony Pictures)

Vale a pena mencionar que o próprio filme é um produto de rebeldes tanto do “Sul” como do “Norte” globais. Entre os que encorajaram Satrapi a publicar as suas novelas gráficas (que se tornaram muito populares entre os fãs da banda desenhada) e os seus colaboradores na realização do filme (o qual, apesar da fidelidade aos livros, tem uma vida própria) estiveram artistas europeus cujo trabalho se guia por outros critérios que não o dinheiro e a fama. Vincent Paronnaud, que trabalhou de perto com Satrapi no filme, é ele próprio um conhecido desenhador gráfico, sob o pseudónimo de Winshluz. Ele considera-se um artista “subterrâneo” e acredita em tentar manter uma independência que signifique trabalhar com meios limitados mas manter a liberdade de pensamento e acção. Numa entrevista disponível na página da internet do Persépolis, Satrapi diz: “Sob muitas formas nós somos muito diferentes e até mesmo opostos, mas completámo-nos um ao outro ao fazermos este filme e mostrámos que todas as baboseiras sobre Oriente e Ocidente e o choque cultural com que somos bombardeados não passam de um disparate.” Dado o efeito que Persépolis teve no Ocidente, podemos dizer com confiança que a junção destes dois talentos rebeldes do Oriente e do Ocidente causou mossas nos muros que a ordem dominante ergue entre as pessoas.

A primeira experiência amorosa de Marjane ocorre na Áustria – e acaba traída. O seu coração desfeito, a solidão e a nostalgia tornam a vida tão difícil para ela que decide voltar ao Irão – o Irão de 1988, após o massacre de presos políticos pelo regime, depois da guerra com o Iraque. Quase um milhão de pessoas tinham morrido ou ficado incapacitadas. Inúmeras ruas foram rebaptizadas com nomes de mortos e um passeio pela cidade era “um passeio por um cemitério”. O fracasso de Marjane na Áustria, combinado com o cinzento e o peso da morte em Teerão, tiram-lhe as forças. Começa a pensar na morte. É aqui que deus (e Marx) lhe aparecem e lhe dizem para ser forte. Marx salienta com um sorriso que a luta continua. Marjane decide não abandonar a esperança. Levanta-se e leva a sua decisão à prática. Faz os exames, vai para universidade e dá início a mais um episódio da sua vida.

Se deus representa a luta de Marjane para compreender a realidade, a sua Avó representa o papel da experiência e da consciência. Ela é uma importante presença colorida ao longo do filme, cheia de experiência, mas alegre e bem-humorada na sua mordaz ridicularização de tudo o que acha estar errado. Ela pragueja livremente e todas as manhãs colhe jasmim que põe no sutiã para “cheirar bem”. Ensina Marjane a preservar a sua integridade. Sempre que Marjane vira as costas aos seus valores por fraqueza ou medo (seja face ao racismo na Áustria ou aos Pasdaran no Irão), a Avó enfatiza a importância da perseverança nos princípios de uma pessoa, uma vez que ela viu e sabe que os seres humanos, mesmo na mais difícil das situações, têm escolhas.

Este filme coloca importantes questões sobre a revolução. Questões a que não responde necessariamente, mas que, quando colocadas, despertam o pensamento e exigem uma análise. Numa cena, um familiar de Marjane está doente e precisa de um bypass no coração, uma operação que não era possível fazer no Irão. Para viver, precisa de autorização para deixar o país. A sua esposa dirige-se ao responsável administrativo do hospital para pedir autorização. O novo chefe tinha sido porteiro do seu prédio antes da revolução. Tornou-se num muçulmano inflexível, deixou crescer a barba, não olha para as mulheres nos olhos... e claro que recusa a autorização de saída. O destino do paciente, suspira ele, “está na vontade de deus”. A cena faz-nos sentir profundamente a impotência das pessoas face aos novos reaccionários no poder e a predomínio da ignorância e da superstição contra a ciência, a lógica e os interesses das pessoas.

Essa personagem salienta uma das questões políticas e ideológicas que todas as revoluções enfrentam. A Revolução abala as velhas relações e abre caminho à criação de novas relações. Mas quando a liderança está na mão de forças cujo interesse é preservar a velha ordem sob uma nova forma, como foi o caso do Irão em 1979, as tendências retrógradas entre as pessoas podem ser reforçadas e transformadas numa ferramenta nas mãos da nova classe dominante. Uma dessas tendências é a de usar as oportunidades oferecidas pela situação para se autopromoverem e tentarem obter posições a que antes não tinham acesso. Por vezes, essa tendência entre os estratos mais baixos está ligada a um sentimento de vingança contra os que no passado tinham posições privilegiadas; e muitas vezes essa violência não visa as classes dominantes, mas os estratos médios educados. É claro que, sem uma mudança fundamental nas relações existentes, apenas um punhado (que normalmente têm um aguçado olfacto oportunista) chega a algum lugar e a grande maioria continua a ser despojada e reprimida. A República Islâmica, que usou todos os recursos ideológicos reaccionários, sobretudo a religião, para estupidificar as massas e estabelecer e preservar o seu domínio, tirou proveito desta tendência retrógrada para manter uma fachada populista e preservar a sua base entre um sector das massas. O resultado foi uma brutal repressão dos intelectuais e das massas.

(Imagem: Sony Pictures)

Persépolis, à sua própria maneira, expõe completamente os crimes da República Islâmica. Mas, apesar do que alguns escolham assumir, não negligencia o papel do Ocidente no levar dos tiranos fantoches ao poder e na repressão das massas. Os espectadores dão-se conta do papel da Grã-Bretanha no golpe de estado que levou o pai do Xá ao poder, na pilhagem do petróleo do país, no treino dos torturadores da Savak pela CIA e na venda de armas pelos países ocidentais a ambos os lados da guerra Irão-Iraque. Tudo isso são lembranças de que o Irão não existe num vácuo mas faz parte de um sistema que espalhou os seus tentáculos por todo o globo e que a luta que aí ocorre faz parte da luta contra esse sistema global.

Este filme é uma preciosa obra de arte. A sua forma minimalista parece ser a melhor maneira de contar uma história tão cheia de acontecimentos e importantes questões. A brevidade das palavras, a simplicidade dos desenhos e a economia de cores contam uma história compacta cheia de humor e subtileza numa hora e meia. O que num outro contexto poderia ser considerado fraqueza artística, como a simplicidade ou por vezes mesmo a rudeza das linhas, a falta de cor e a clara franqueza do texto, são tudo virtudes de Persépolis. Ao explicar porque é que o filme foi feito com os tradicionais quadros desenhados à mão (desenhos animados individuais) em vez dos gráficos gerados por computador, Satrapi disse: “As linhas dos gráficos gerados por computador não têm imperfeições. Isso tira personalidade às personagens, os seres humanos não são perfeitos e as linhas desenhadas à mão reflectem melhor as suas almas.” Mas qualquer pessoa familiar com os métodos tradicionais de animação sabe quão gigantesco é o esforço necessário para produzir um filme de hora e meia a 12 imagens por segundo. Este filme é o produto de muitos artistas a trabalhar durante três anos, desde Chiara Mastroianni, Catherine Deneuve, Danielle Darieux e Simon Abkarian, cujas vozes deram ainda mais vida aos personagens, a todos os que nos bastidores estiveram ocupados a desenhar, inserir a música, editar, etc.

Satrapi e Paronnaud pegaram na vida contraditória de uma rapariga de um país abalado por uma revolução e atolado numa guerra, um mundo cheio de amor e muros, e transformaram-na numa bonita obra de arte. E assim aproximaram as pessoas dos dois lados do fosso (entre países oprimidos e opressores). Numa entrevista, Satrapi disse: “Se não virmos as pessoas como seres humanos, podemos bombardeá-las e nada acontece. Diariamente são mortas centenas de pessoas no Iraque e nós nem sequer fizemos um minuto de silêncio.” Durante anos, as classes dominantes imperialistas – com a ajuda consciente ou inconsciente da República Islâmica do Irão, claro – têm retratado os habitantes do Irão e do Médio Oriente como nada mais que fanáticos muçulmanos, um quadro irreal para preparar as mentes ocidentais para o assassinato em larga escala. Agora, este filme de animação a preto e branco retrata o povo iraniano mais realisticamente que muitos artigos e discursos. Os espectadores vêem que apesar do domínio da morte sobre o país, as pessoas celebram a vida nas suas muitas formas, mesmo que isso signifique que tenham problemas por usarem batom ou que percam as suas vidas por festejarem. Nada une mais as pessoas que um verdadeiro conhecimento da situação, dos problemas e dos sonhos de uns e outros. Satrapi, na sua entrevista, resume: “Se as pessoas virem o filme e disserem que essas pessoas são seres humanos como nós, o filme teve sucesso.” O extraordinário entusiasmo das pessoas em França pelo filme (que em breve estará disponível em inglês) é um sinal do seu sucesso.

Nota Final

A força da arte de Satrapi conquistou o apoio de pessoas influentes, incluindo duas das actrizes francesas mais conhecidas internacionalmente, e isso por sua vez ajudou o filme a entrar nos canais convencionais. Atraiu mais de um milhão de espectadores desde que aí estreou em Junho passado, com um impacto igualmente grande em audiências de língua francesa na Bélgica e na Suíça. Versões legendadas em espanhol e português estão a atrair espectadores na Europa e nalguns países latino-americanos. Passará nos cinemas alemães no início de Novembro.

Uma versão inglesa está prevista ser lançada na América do Norte a 25 de Dezembro. Várias mulheres de Hollywood levaram a cabo uma cruzada pessoal para conseguirem que ela fosse efectuada, incluindo uma produtora de filmes de Steven Spielberg e a filha de um executivo de topo da Sony Pictures, que recentemente comprou os direitos de distribuição. Uma versão em inglês é considerada chave para uma larga distribuição nacional que passe das lojas de arte onde nos EUA frequentemente ficam confinados os filmes legendados. Catherine Deneuve e Chiara Mastroianni, que também emprestaram as suas vozes à versão francesa, serão acompanhadas por Sean Penn, Gena Rowlands e Iggy Pop. Uma comissão da indústria cinematográfica francesa escolheu este filme de animação a preto e branco como seu representante na competição dos Óscares de Hollywood para o prémio do “melhor filme estrangeiro”.

(O sítio oficial do filme em francês é myspace.com/persepolislefilm e em inglês é www.sonyclassics.com/persepolis. O filme também está disponível em português em youtube.com/watch?v=jUXo4zw0vXA.)

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese