As águas negras da ocupação norte-americana do Iraque
8 de Outubro de 2007. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

Praça Nisoor, o local do massacre
(Foto: AP)

A força norte-americana de assassinos de elite conhecida como Blackwater (“água negra”) – uma espécie de unidade SS privada – treinou as suas armas pesadas numa rotunda de Bagdad a 16 de Setembro e assassinou pelo menos 11 iraquianos. Outros 24 foram atingidos e ficaram feridos.

Um artigo no jornal Washington Post (4 de Outubro) descreve os acontecimentos desse dia através do destino de cinco pessoas atingidas pelos pistoleiros da Blackwater. “As vítimas foram desde um jovem de 11 anos a um velho de 55, segundo os registos hospitalares. Eram pobres ou da classe média. Entre eles contavam-se estudantes universitários, trabalhadores à jorna e profissionais vitais para a reconstrução do Iraque. Havia uma mãe e a sua filha. A filha sobreviveu. Havia um motorista de táxi, de apenas 25 anos, que era a única fonte de proveitos dos seus pais e sete irmãos. Ele morreu.”

Os mercenários queriam limpar de trânsito a praça, para que outra escolta que incluía diplomatas norte-americanos a pudesse atravessar. “Quando os veículos blindados da Blackwater entraram na praça, numa zona fortemente defendida próxima do bairro rico de Mansour em Bagdad, os agentes policiais iraquianos prepararam-se para parar o trânsito. Kadhum, uma médica, e o seu filho Haitham, que estavam na corrente de carros que os agentes estavam a tentar parar, não reagiram suficientemente depressa. Um guarda da Blackwater disparou, atingindo Haitham, que estava no lugar do condutor, segundo disseram três testemunhas.

“ ‘A bala atravessou o pára-brisas e abriu-lhe a cabeça’, referiu Sarhan Thiab, um agente da polícia de trânsito. ‘A mãe segurava-o, gritando por ajuda’. O carro, que tinha transmissão automática, continuou a andar. Outro agente, Ali Khalaf, tentou parar o veículo quando outra rajada de balas matou Kadhum.

Iraquiano ferido no massacre
(Foto: AP)

“Thiab fugiu primeiro, depois Khalaf, perseguidos por balas que atingiram o poste de um semáforo, um placard gigante e o seu posto de polícia. Então, os guardas da Blackwater escalaram a sua potência de fogo e submergiram o carro em chamas...

“Os guardas da Blackwater disseram que tinham disparado sobre o automóvel porque circulava a alta velocidade e não ia parar. Khalaf e outras testemunhas oculares disseram que circulava lentamente e não era nenhuma ameaça.

“Em poucos instantes, as balas estavam a voar em todas as direcções, disseram as testemunhas e os agentes policiais. Muita gente procurou abrigo num dique vizinho. Outros abandonaram os seus veículos... ‘As pessoas estavam a fugir, mas para onde é que podiam ir?’ ”

O artigo de Sudarsan Raghavan reconstitui cuidadosamente os detalhes humanos das pessoas cujas mortes descreve. Outros artigos descrevem a extensão e a duração do massacre. Os atiradores, em quatro veículos blindados e dois helicópteros, dispararam balas e explosivos em todas as direcções e sobre toda a rotunda. Abateram trabalhadores que reparavam um túnel e outros que plantavam flores na zona central. Do outro lado da praça estava um velho numa vespa e o polícia iraquiano Thiab acima mencionado disse a outro repórter: “Havia muito trânsito, ele estava a tentar dar a volta e eles abateram-no.” (Washington Post, 8 de Outubro)

Hassan Jabbar, ferido no massacre, a ser tratado num hospital
(Foto: AFP / Getty Images)

Será que tudo isto foi um engano, um acto de pânico? Parece ter sido um procedimento padrão.

Porque é que entrariam eles em pânico quando ninguém estava a disparar sobre eles? “Não há nenhuma evidência de que a escolta da Blackwater tenha estado directa ou indirectamente sob fogo,” concluiu uma investigação governamental iraquiana. “Não foi atingida nem sequer por uma pedra.”

Mais tarde, depois de abandonarem a praça pelo lado oposto ao donde tinham estado a disparar, a cerca de 150 metros, os mesmos homens abriram novamente fogo sobre outra aglomeração de carros, matando outra pessoa e ferindo mais duas.

Após o massacre da Praça Nisoor vieram a lume muitos incidentes semelhantes. Um ex-agente da Blackwater contou ao Washington Post (3 de Outubro) que só a sua equipa de 20 homens participava em média em quatro ou cinco tiroteios por semana. Em 2006, numa festa, um agente da Blackwater alegadamente bêbado matou um guarda-costas da vice-presidência iraquiana. Foi imediatamente levado de avião para fora do país e “punido” apenas com a perda do emprego e de bónus. Nunca foi mostrado nenhum interesse oficial nos massacres da Blackwater – até os esforços da empresa para encobrir, com a cumplicidade do governo dos EUA, este último regabofe de assassinatos os ter empurrado para os holofotes públicos.

Elementos da Blackwater em escolta a Paul Bremer, antigo governador norte-americano do Iraque
(Foto: Wathiq Khuzaie / EPA)

A Blackwater é a mais importante das dezenas de empresas similares a trabalhar no Iraque. É a principal empresa que o Departamento de Estado dos EUA utiliza para escoltar os diplomatas, homens de negócios em visita e outros figurões. Os EUA aprovaram uma lei que mantém cerca de 50 000 militares com “contratos privados”, bem como as forças regulares da ocupação norte-americana, protegidos de qualquer possibilidade de acção judicial dos iraquianos, a qual reduz os actuais gritos de indignação do governo iraquiano a gestos sem valor. Estes mercenários amantes de armas são sobretudo ex-soldados dos EUA, frequentemente recém-reformados das unidades de operações especiais e de comandos que actuam de uma forma semelhante às milícias privadas a que agora pertencem. Eles são um importante benefício para o governo dos EUA. Além de reduzirem em um quarto ou um terço o número de tropas regulares, a sua utilização privada torna possível usá-los de uma forma mais flexível e torna os seus actos “negáveis” no que diz respeito à responsabilidade do governo dos EUA. São homens que já provaram a sua lealdade, pelo menos ao dólar, e a sua vontade e capacidade de fazerem trabalhos muito sujos. Ao contrário das tropas regulares, estão obrigados ao silêncio sob a ameaça de multas esmagadoras. Não podem ser castigados por nada que façam, apenas por dizerem algo sobre isso a alguém.

Tal como outras empresas semelhantes, a Blackwater está também a trabalhar violentamente na ocupação do Afeganistão. Depois do Furacão Katrina em 2005, os seus comandos foram enviados para policiar os negros de Nova Orleães, na “pátria” do império que os emprega.

A empresa está completamente ligada ao governo. Os seus executivos são todos antigos altos responsáveis das operações governamentais de “contraterrorismo”, da CIA ou dos comandos. Também treinam 40 000 agentes por ano de equipas de ataque da polícia e outros agentes da lei. A partir disto, pode-se seguramente assumir que seguem um padrão – ainda que nem sempre oficialmente admitido – o das práticas da polícia, das forças armadas e dos serviços secretos norte-americanos.

Helicóptero da Blackwater
sobre Bagdad em Julho 2005

(Foto: AFP / Getty Images)

O chefe executivo da Blackwater, Erik Price, trabalhou para o primeiro presidente Bush (que ele considerava demasiado “liberal”) e é um grande contribuinte do partido do actual presidente. Também o são alguns dos seus familiares, alguns dos quais são influentes operacionais republicanos. Também é um fanático religioso muito ligado ao movimento fundamentalista cristão, uma característica comum entre os actuais oficiais militares dos EUA (Blackwater: The Rise of the World’s Most Powerful Mercenary Army [Blackwater: A Ascensão do Mais Poderoso Exército Mercenário do Mundo], Jeremy Scahill, Nation Books, 2007). Este livro compara a Blackwater à Guarda Pretoriana, o exército pessoal dos imperadores romanos. Um colunista norte-americano chamou-lhe um sintoma de um emergente “complexo mercenário-evangélico”. O próprio Price compara os seus pistoleiros a profetas armados da Bíblia a fazerem o trabalho de deus.

Embora muito disto tenha chegado à comunicação social, os membros do Congresso dos EUA e outros importantes políticos norte-americanos e muita da comunicação social retratam a Blackwater como uma organização de patifes cujas operações no Iraque estão à margem e vão mesmo contra os canais oficiais e políticos.

Para mostrar que isso não é verdade, seria suficiente citar o enorme número de massacres semelhantes e outras atrocidades cometidas pelas forças regulares que apenas fazem o que sempre fizeram. Um recente tema noticioso ilustra o resto:

Uma unidade de fuzileiros (marines) dos EUA actuou violentamente em Haditha, na província norte ocidental de Anbar, no Iraque, a 19 de Novembro de 2005, matando 24 pessoas, incluindo sete crianças, três mulheres e vários idosos. Furiosos com a morte de um soldado norte-americano num atentado, quando a sua escolta circulava a alta velocidade pela cidade, decidiram vingar-se em todas as pessoas que encontrassem. Primeiro, dirigiram-se a um táxi e mataram todas as cinco pessoas lá dentro. Depois, durante as horas seguintes, entraram em três casas e mataram todos os ocupantes. Cinco homens desarmados foram abatidos quando tinham as mãos no ar.

Guardas da Blackwater em Bagdad
(Foto: AFP)

A história nunca teria vindo a lume se um activista local dos direitos humanos não a tivesse filmado em vídeo imediatamente após o massacre, que o exército norte-americano já tinha justificado como tendo sido autodefesa face a um “ataque terrorista”. A indignação no Iraque teve eco no estrangeiro e forçou os EUA a responderem. O sargento que liderava a unidade, que com outros soldados tinha abatido os cinco homens, foi acusado de assassinato.

Quase dois anos depois, quando a “investigação” do crime rolava vagarosamente, a 5 de Outubro o oficial que fazia a investigação recomendou que as acusações contra ele fossem reduzidas a uma muito menos grave, a de homicídio por negligência. O general que dirigia o caso tinha deixado cair todas as acusações contra quatro dos oito fuzileiros acusados. O Sargento Frank Wuterich disse que lamentava as mortes mas que ele e os seus homens apenas estavam a seguir os procedimentos padrão. Em sua defesa, o seu advogado disse: “Nunca houve qualquer indicação de que qualquer destes marines tenha perdido o controlo ou entrado em roda livre.”

Por outras palavras, tal como os atiradores da Blackwater, os marines de Haditha fizeram o que era suposto fazerem – e, pelo menos no caso deles, até agora, o governo dos EUA tem confirmado isso.

O pai de uma das vítimas da Praça Nisoor perguntou: “Porque é que o sangue dos iraquianos é tão fácil de ser derramado por toda a gente?”

A luta no Iraque é complexa, e muito frequentemente as forças iraquianas que se opõem aos EUA cometem crimes contra outros iraquianos ou revelam de outras formas uma visão reaccionária e antipopular. Mas casos como o massacre da Praça Nisoor mostram a realidade até à sua essência: todas as tropas norte-americanas no Iraque são ocupantes, sejam elas pagas por fundos públicos ou privados, e combatem como ocupantes cujo inimigo é todo um povo, quer o povo esteja a resistir aos invasores ou simplesmente a tentar fazer a sua vida diária.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese