EUA e Irão aproximam-se da guerra
17 de Setembro de 2007. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

As nuvens negras de um possível ataque norte-americano ao Irão assomam sobre a política mundial.

Isso ficou claro a 16 de Setembro, quando o ministro dos negócios estrangeiros de França, Bernard Kouchner, declarou à televisão francesa: “Temos que estar preparados para o pior, e o pior é a guerra”. Ele apressou-se a acrescentar que a guerra não está iminente, nem é a única hipótese, e que a diplomacia devia continuar “até ao fim”. Mas essa declaração representou uma reviravolta em relação à anterior oposição da França a um ataque norte-americano. Até agora, a França defendia que “o pior” era algo que devia ser evitado, e não “para se estar preparado”.

Pode-se pensar que a França podia enviar os seus aviões e navios de guerra para participarem no ataque. Mas esse nem sequer é o aspecto mais perigoso desta mudança política. A nova posição da França torna mais difícil que outros países europeus se oponham a um ataque. Kouchner comentou claramente que se o Conselho de Segurança da ONU não agisse mais duramente contra o Irão, a União Europeia poderia fazê-lo por si própria – uma não muito subtil advertência à Rússia, membro do Conselho de Segurança (e talvez à China), para alinharem com os EUA ou arriscarem-se a ser reduzidos à irrelevância.

O mais importante, como salientaram outros comentadores, é que esta alteração chega dias depois do almoço do Presidente francês Nicolas Sarkozy com o Presidente norte-americano George W. Bush em Agosto. No início deste ano, o anterior presidente francês Jacques Chirac tinha comentado que a perspectiva de o Irão obter algumas armas nucleares não era algo que o fazia perder o sono com preocupação. Depois do encontro com Bush, Sarkozy disse que embora a guerra fosse uma catástrofe, a perspectiva de um regime iraniano com armas nucleares era “inaceitável”. Isto pode indicar a convicção – ou mesmo informações privilegiadas – dentro dos círculos da classe dominante francesa de que, nesta altura, um ataque norte-americano não pode ser evitado e que, por isso, a França não tinha outra alternativa senão tentar defender os seus interesses imperialistas nesta situação.

Porém, estas declarações, apesar de ameaçadoras, não são a única coisa que está a acontecer. Muitos observadores disseram que uma misteriosa missão aérea israelita na Síria no início de Setembro poderia ter sido um ensaio para um ataque ao Irão. O governo sírio diz que a sua força aérea interceptou e repeliu um avião furtivo israelita que despejou as suas munições e combustível no deserto para acelerar a fuga. Fontes israelitas sugerem que a intrusão foi um sucesso, sem dizerem qual foi o seu objectivo. Nenhum dos governos forneceu qualquer pormenor. O silêncio das normalmente orgulhosas fontes israelitas é particularmente invulgar. A única coisa que é clara é que um avião militar israelita violou o espaço aéreo do único estado aliado do Irão – e que nenhum governo árabe, europeu ou qualquer outro, nem mesmo a Rússia, já para não falar nos EUA, manifestou qualquer desconforto com esse facto.

Mesmo antes deste sinal de alarme específico ter começado a soar, os tambores da guerra começaram a ouvir-se ruidosamente em meados de Agosto quando um alto responsável militar norte-americano, o Major General Rick Lynch, alegou ter informações de que 50 membros das forças externas (al-Quds) dos Guardas Revolucionários Iranianos (Pasdaran) estavam a operar dentro do Iraque, treinando fundamentalistas xiitas para atacarem as forças de ocupação. Não foi a primeira vez que responsáveis norte-americanos fizeram esse tipo de alegações, mas fazer de novo estas acusações agora, sobretudo nestes duros termos, indica que os EUA estão a trabalhar arduamente na elaboração de outro caso contra o Irão, a acrescentar à questão do esquema de enriquecimento de combustível nuclear do Irão, um dossiê que também está a chegar ao ponto de ebulição.

Por cima disto, a comunicação social norte-americana noticiou que a administração Bush está a preparar-se para declarar os Guardas Revolucionários, com 125 mil membros, uma “organização terrorista”. Afixar a etiqueta de “terrorista” ao serviço militar oficial de um estado seria um acto extremamente invulgar, uma provocação não muito distante de etiquetar o próprio regime como alvo da “guerra ao terror” que já levou às invasões do Afeganistão e do Iraque.

A “IV Guerra Mundial”

A 28 de Agosto, o Presidente norte-americano George W. Bush, falando perante uma convenção de veteranos, escalou as acusações e alegou que a unidade al-Quds estava por trás do uso de “penetradores feitos de explosivos”, as sofisticadas bombas colocadas nas bermas das estradas que os EUA declararam responsáveis pela maior parte das mortes mais recentes dos seus soldados no Iraque. Isto poderia vir a ser possivelmente o mesmo tipo de “causus belli” (razão para a guerra) que Bush alegou ter encontrado com as “armas de destruição em massa” de Saddam Hussein. Mesmo que os EUA não pretendam ir mais longe neste momento, o mero acto de fazer essa alegação pretende inflamar certos sectores da população norte-americana, incluindo entre as fileiras das próprias forças armadas. Essas paixões não podem ser ligadas e desligadas de tempos a tempos. Ao ouvir-se Bush e outros responsáveis norte-americanos e a sua comunicação social a falarem sobre isso, pode-se pensar que os EUA e o Irão já estão em guerra no Iraque.

Bush anunciou que tinha autorizado os comandantes militares norte-americanos no Iraque a “oporem-se à actividade assassina de Teerão”. E continuou: “A nossa estratégia é esta: em cada dia trabalhamos para proteger o povo norte-americano. Combateremos aí para não termos que combater nos Estados Unidos da América.” Uma vez mais, tal como no caso da invasão do Iraque, um ataque ao Irão está a ser descrito como um acto de “autodefesa”. Bush avisou: “Tomarei todas as medidas necessárias para proteger as nossas tropas”.

Ele também se referiu de novo à actividade nuclear do Irão, acusando o regime iraniano de ameaçar o Médio Oriente com as “nuvens negras do holocausto nuclear”, numa tentativa de criar um paralelo entre a suposta ameaça do Irão à existência de Israel e a exterminação de judeus pelos nazis. O que está aqui subjacente – que não é nenhum mistério para o público de Bush – é que impedir um novo “holocausto” justificaria moralmente os mais violentos meios a que os EUA possam recorrer. Bush estava a reproduzir o argumento avançado pelo patriarca dos neoconservadores norte-americanos, Norman Podhoretz, de que os EUA estão nas vésperas de uma “IV guerra mundial” contra o “islamofascismo” e que, ao contrário dos países europeus que supostamente “apaziguaram” os nazis envolvendo-se numa guerra “nobre”, desta vez os EUA têm que atacar os seus inimigos sem demora e com tudo o que têm. “Enfrentaremos este perigo antes de seja demasiado tarde”, declarou Bush.

Poucas horas depois do discurso de Bush, as tropas norte-americanas prenderam sete cidadãos iranianos em Bagdad. Embora tenham sido libertados no dia seguinte, as autoridades norte-americanas não se desculparam nem explicaram a razão para as detenções. Outros iranianos que tinham sido detidos anteriormente por tropas dos EUA no Iraque permanecem em custódia norte-americana. Isto torna ainda mais notável que o facto de os EUA ainda não terem divulgado nenhum pormenor sobre as suas acusações, já para não falar de provas.

A ONU, uma organização “pária”?

Vale a pena salientar o momento escolhido para estas provocações deliberadas e estas ameaças não disfarçadas de um ataque militar. Elas chegam imediatamente após o Irão ter concordado em aumentar a sua cooperação com a Agência Internacional da Energia Atómica (AIEA). Segundo a agência, o Irão tinha autorizado, pela primeira vez, os inspectores da agência a visitarem o local do reactor de água pesada agora em construção. A AIEA informou que o Irão estava a ser “invulgarmente cooperativo”. O director da agência, Mohamed El-Baradei, disse numa entrevista: “Esta é a primeira vez que o Irão está pronto a discutir todas as questões importantes... É um passo significativo.”

Porém, as autoridades norte-americanas minimizaram esse “passo significativo” declarando-o insuficiente. Um porta-voz do Departamento de Estado dos EUA disse: “O Irão recusou-se a cumprir as suas obrigações internacionais e, em resultado disso, a comunidade internacional vai continuar a manter a pressão.” No dia seguinte a El-Baradei ter divulgado um plano secreto de desanuviamento da querela nuclear, que ele tinha negociado em segredo com o Irão, diplomatas dos EUA, Grã-Bretanha, França e Alemanha “abandonaram o seu escritório” em “protesto” contra a sua “intromissão irresponsável” (The New York Times, 17 de Setembro).

A questão nuclear é apenas um desvio em relação a questões mais fundamentais. Os EUA estão a fazer exigências que sabem que a República Islâmica não pode aceitar sem minar o seu próprio poder e talvez abrir a porta ao seu próprio fim: uma rendição pública e humilhante à exigência ilegal e irrazoável dos EUA de que o Irão abandone todas as pesquisas nucleares. Os dois lados sabem que a verdadeira questão é a sobrevivência do regime iraniano. Pode ter acontecido que os EUA tenham aumentado a pressão sobre o Irão (e sobre a Agência da Energia Atómica da ONU) apenas porque o pior medo de Washington é que ocorra algo inferior a um enfrentamento decisivo. Nesta situação, o regime iraniano chegou à conclusão de que não conseguia satisfazer os imperialistas norte-americanos independentemente do que faça. Eles estão prontos a fazer concessões para salvar o seu regime, mas os EUA estão à espera de muito mais que concessões. Eles querem derrubar a República Islâmica, ou pelo menos forçar uma alteração tão grande da sua estrutura que se torne irreconhecível. Por isso, os mulás sentem que não têm outra alternativa se não prepararem-se para uma guerra, e por vezes tomam mesmo medidas provocatórias, num esforço desesperado de ganharem a iniciativa política.

Importantes órgãos da comunicação social norte-americana têm seguido a linha do seu governo e aumentaram a sua propaganda a favor do bombardeamento do Irão. Um editorial assinado do jornal Washington Post, um ícone liberal da linha política antes associada à família Kennedy, atacava El-Baradei como um “regulador pária”, “comportando-se como se fosse independente do [Conselho de Segurança da ONU], livre de ignorar as suas decisões e de usar a sua agência para contrariar os seus principais membros – sobretudo os Estados Unidos”. O autor, Fred Hiatt, escreveu um editorial semelhante na altura dos preparativos da invasão norte-americana do Iraque, condenando El-Baradei por se ter recusado a endossar as mentiras dos EUA sobre as armas de destruição em massa de Saddam. Agora ele concede que o responsável da ONU tinha tido razão ao “denunciar as acusações da administração Bush de que Saddam Hussein tinha reiniciado o seu programa nuclear antes da invasão de 2003”, mas lamuria-se de que, desta vez, ele não tem o direito a usar o “capital” do Prémio Nobel da Paz que obteve pela sua posição de oposição às alegações norte-americanas. Em vez de pedir desculpa pelo seu jornalismo chauvinista belicista nessa altura, o Post parece estar determinado a fazer de novo o mesmo.

De forma semelhante, a revista norte-americana Newsweek de 3 de Setembro publicou um artigo de Reuel Marc Gerecht, um membro do neoconservador American Enterprise Institute e antigo especialista da CIA sobre o Médio Oriente. O artigo repete as alegações do governo dos EUA contra o regime iraniano e os seus Guardas Revolucionários e assume-as como factos provados. Gerecht chega mesmo a insuflá-las ainda mais, dizendo que é “bastante possível” que o regime iraniano esteja a ajudar a Al-Qaeda. O artigo continua, dizendo que é provável que esta situação continue, “a menos que os Estados Unidos encontrem formas mais efectivas de se oporem a Teerão”. E conclui: “Washington pode tentar exercer um poder suave – com sanções, resoluções, isolamento diplomático e uma retórica mais dura. Mas a República Islâmica, sobretudo o seu presidente radical e a sua guarda pretoriana, são praticantes consumados de um poder duro. É improvável que eles venham a ser subjugados com tácticas moderadas. Em vez disso, eles parecem determinados a continuar a matar americanos no Iraque, esperando para ver se e quando é que os Estados Unidos desistem e correm para as portas de saída.” Uma vez mais, a revista que publicou este artigo tem sido há muito identificada com o Partido Democrático.

Várias figuras proeminentes deste partido da classe dominante cerraram publicamente fileiras com Bush em torno desta questão. Um dos principais candidatos democratas à Presidência, Barack Obama, declarou que um Irão nuclear seria pior que uma guerra com o Irão. Outro candidato, Hillary Clinton, critica a administração Bush por não enfrentar suficientemente o Irão e por pôr muita ênfase no Iraque. Estes exemplos mostram que, apesar das diferenças dentro da classe dominante dos EUA, e mesmo apesar de alguma oposição à guerra do Iraque, muitas figuras importantes sentem que podem aceitar outra guerra se ela for iniciada durante a administração Bush.

Alguns observadores crêem que a Casa Branca de Bush está a considerar uma acção militar tão seriamente que desencadeará o ataque antes de sair do governo e deixará o presidente seguinte a lidar com o resultado.

“Os preparativos começarão em Setembro”

Barnett R Rubin, um especialista sobre o Afeganistão e a região que trabalha na Universidade de Nova Iorque, escreveu no blogue Informed Comments on Global Affairs [Comentários Esclarecidos sobre Assuntos Globais] a 29 de Agosto:

“Hoje recebi uma mensagem de um amigo que tem excelentes ligações em Washington e cujas informações têm sido muitas vezes proféticas. Segundo essa mensagem, tal como em 2002, os preparativos começarão depois do Dia do Trabalho [Labour Day], com um grande pontapé de saída a 11 de Setembro. O meu amigo tinha estado a falar com uma pessoa de uma das principais instituições neoconservadoras. Ele resumiu assim o que lhe foi dito:

“Eles [a instituição] têm ‘instruções’ (sim, foi essa a palavra usada) do Gabinete do Vice-Presidente para lançarem uma campanha a favor da guerra com o Irão na semana a seguir ao Labour Day; ela será coordenada com o American Enterprise Institute, o Wall Street Journal, o Weekly Standard, o Commentary, [o canal de televisão] Fox e os suspeitos do costume. Será um ataque pesado e contínuo na comunicação social, projectado para criar no sentimento público uma situação em que se possa defender a guerra. Evidentemente, eles não pensam que alguma vez conseguirão obter o apoio da maioria – eles querem algo como 35-40% de apoio, o que para eles é uma ‘abundância’.”

Surpreendentemente, esta antevisão do desenvolvimento dos acontecimentos em Setembro acabou por acontecer, pelo menos em parte, incluindo os artigos no Washington Post e na Newsweek e o ataque ao director da AIEA, El-Baradei. Rubin escreveu depois (a 5 de Setembro): “Como eu e muitos outros salientaram, há cada vez mais sinais de que a administração decidiu ou quase decidiu desencadear um ataque aéreo e marítimo ao Irão, o qual incluirá, mas não se limitará a isso, todas as instalações ligadas ao programa nuclear do país. Todo o equipamento militar está posicionado para esse ataque (três grupos de combate no Golfo Pérsico).”

Num anterior artigo no jornal The Guardian, John Pilger tinha escrito: “A administração Bush, em conivência secreta com Blair, passou quatro anos a preparar-se para a Operação ‘Liberdade no Irão’. Quarenta e cinco mísseis de cruzeiro estão preparados para atacar. Segundo o principal pensador estratégico da Rússia, o General Leonid Ivashov: ‘As instalações nucleares serão objectivos secundários, e há 20 instalações dessas. Armas nucleares de combate poderão vir a ser usadas e isso resultará na contaminação radioactiva de todo o território iraniano e fora dele’.” (13 de Abril)

Muitos jornalistas atentos partilharam os seguintes comentários: “Silenciosamente, furtivamente, sem ser vista pelas máquinas fotográficas, a guerra começou no Irão. Muitas fontes confirmam que os EUA aumentaram a sua ajuda aos movimentos armados das minorias étnicas que compõem cerca de 40% da população do Irão. A ABC News noticiou em Abril que os EUA tinham ajudado secretamente o grupo baluchi Jund al-Islam (Soldados do Islão), responsável por um ataque recente que matou 20 Guardas Revolucionários. Segundo um relatório da American Foundation, comandos norte-americanos têm estado a operar dentro do Irão desde 2004.” (Alain Gresh, Le Monde Diplomatique, reproduzido pelo Guardian, 15 de Maio)

A importância destes novos desenvolvimentos

Algumas pessoas podem pensar que estes desenvolvimentos recentes representam mais ameaças que pura e simplesmente nunca se concretizarão. Eles argumentam que já houve tantas outras ameaças e tanta especulação sobre acções militares contra o Irão que nunca se concretizaram e, além isso, dado o atoleiro no Iraque, os EUA não têm capacidade para desencadearem outra guerra.

Esta forma de pensar de facto não reflecte a realidade da situação, com todas as forças dinâmicas em jogo. Os analistas do imperialismo norte-americano estão muito conscientes das dificuldades e das possíveis consequências dessa guerra, mas também estão muito conscientes de que as consequências de não atacarem o Irão poderão ser ainda piores para os interesses estratégicos do império.

Bush tornou isso claro no seu discurso-chave de 13 de Setembro em defesa da continuação da guerra do Iraque, onde ele mencionou o Irão muitas vezes e associou os objectivos dos EUA para os dois países. Um “Iraque livre iria opor-se ao Irão”, afirmou ele, insinuando que esse tinha sido, desde o início, um dos principais objectivos da invasão – e que pode mesmo ter sido.

Ele enumerou os objectivos dos EUA: “Derrotar a al-Qaeda, travar o Irão, ajudar o governo afegão, trabalhar para a paz na Terra Santa e fortalecer as nossas forças armadas para que possamos levar a melhor na nossa luta contra os terroristas e os extremistas”. Esta declaração está cheia de significado a vários níveis, incluindo num apelo aos fundamentalistas cristãos, ao não se referir à Palestina nem sequer a Israel, mas à “Terra Santa”. Também inclui uma tentativa extremamente perigosa e também enganadora de tentar associar o ataque ao World Trade Center ao Iraque, e agora também ao Irão. Mas, pelo menos a um certo nível, Bush pode ser tomado à letra: para os imperialistas norte-americanos, o Iraque, o Irão, o Afeganistão e o fundamentalismo islâmico armado fazem todos parte de um pacote, são batalhas a ser travadas naquilo que eles entendem ser uma única guerra. A invasão do Iraque não foi um erro levado a cabo sem nenhuma razão real. Os EUA ainda estão a prosseguir nos objectivos por trás dela e há sobre isso, na sua maior parte, uma unidade na classe dominante norte-americana.

O Iraque e o Irão

Os EUA não pretendem conquistar o mundo país a país. Os estrategas de Bush viram a invasão do Iraque como uma base para a alteração da configuração política do Médio Oriente, rico em petróleo, e com ele do mundo, para se apoderarem e garantirem a hegemonia global. A renovada ênfase de Bush na importância de um Iraque “livre” é uma forma de insistir em que não haverá nenhum recuo nos objectivos, não só de para isso conquistar os países do Médio Oriente, mas também, com o mesmo fim, estabelecer regimes sustentáveis e reformar as sociedades de forma a empurrarem esses países ainda mais firmemente para o império, económica e socialmente, mas também politicamente, “drenando o pântano” gerador do fundamentalismo islâmico, mesmo em países com regimes dependentes dos EUA como a Arábia Saudita e o Egipto. (Ver Ian Buruma sobre Podhoretz na The New York review of Books de 27 de Setembro)

Independentemente de quão mal possa estar a correr para eles a guerra no Iraque, eles não renunciaram a esses objectivos e a mudança de regime no Irão é pelo menos tão importante para eles como o Iraque, se não mesmo mais, sobretudo por causa, e não apesar, da possibilidade que enfrentam de uma intolerável derrota no Iraque e da catástrofe que ela representaria para o seu programa político, económico e ideológico, incluindo para o seu conflito global com o fundamentalismo islâmico armado. Eles podem não estar ansiosos por uma nova guerra numa altura em que ainda estão atolados no pó do Iraque e do Afeganistão, mas o desespero da situação impõe soluções desesperadas e o tempo está a chegar ao fim.

Em suma, as dificuldades que os EUA enfrentam na ocupação do Iraque aumentaram a sua necessidade de atacar o regime iraniano.

Se menosprezarmos a profundidade com que os EUA enfrentam uma verdadeira necessidade no mundo de hoje, então menosprezaremos o perigo de um ataque dos EUA ao Irão. Eles têm que agarrar a oportunidade de uma hegemonia global que lhes foi oferecida pelo inesperado colapso da outra superpotência, antes que surjam outras configurações rivais. Ao mesmo tempo, como tão dramaticamente assistimos no Iraque, isso seria, no melhor caso, um jogo desesperado e há uma possibilidade muito real de as coisas ficarem ainda mais fora do seu controlo – no Médio Oriente, noutros lugares e possivelmente mesmo em casa.

Apesar da unidade quanto aos objectivos, uma das razões por que ainda há controvérsia sobre como lidar com o Irão, aparentemente mesmo dentro da própria Casa Branca entre a Secretária de Estado Condoleezza Rice e o Vice-Presidente Dick Cheney, é que todas as opções são perigosas para o império norte-americano e ninguém pode prever o resultado.

O Iraque é uma grande fonte de medo para esses imperialistas, não só por causa do atoleiro, mas talvez mesmo mais como exemplo de como as invasões não resultam necessariamente como seguramente algumas pessoas gostariam que resultassem. A ironia é que a intervenção dos EUA no Afeganistão e no Iraque fortaleceu enormemente a posição do regime iraniano na região. Afinal de contas, foram os EUA que encorajaram Saddam Hussein a atacar a República Islâmica do Irão em 1980. A queda de Saddam e dos (também inicialmente apoiados pelos EUA) talibãs afastaram das fronteiras do Irão os regimes irredutíveis seus inimigos. Mas mais que isso, o fracasso da ocupação dos dois países deu força política às forças pró-iranianas (sobretudo aos xiitas institucionais do Iraque, bem como a Karzai no Afeganistão), ao mesmo tempo que os EUA testemunham a derrocada do mito da sua invencibilidade militar. Os EUA estão particularmente incomodados com isso, mas parecem pouco poder fazer para o inverter – excepto uma mudança de regime no Irão.

A profundidade a que os dois países estão interligados em termos dos interesses estratégicos do império norte-americano, e não apenas nas mentes dos seus líderes políticos, manifesta-se na forma como a estratégia dos EUA no Iraque é influenciada pela emergente guerra com o Irão. Agora vemos os EUA a prepararem-se para abandonar os mesmos líderes xiitas formados no Irão que antes apoiaram e a reabraçar as próprias forças baathistas e líderes tribais sunitas de que dependia parcialmente o regime de Saddam – não porque os EUA tenham descoberto de repente os esquadrões da morte xiitas (que eles encorajaram desde o início), mas por causa da frente única mundial antixiita que os EUA estão a tentar cozinhar, ainda que temporariamente, para atacarem o regime iraniano.

A situação no Irão

A pressão permanente dos EUA e de outros imperialistas ocidentais sobre o regime iraniano deram aos mulás uma desculpa para afiarem a sua lâmina contra as massas e reprimirem qualquer voz dissidente a pretexto de lutarem contra a subversão com origem em elementos estrangeiros. Para manterem o controlo sobre o povo, eles escondem e negam a possibilidade de um ataque dos EUA. Aquilo com que o regime está mais preocupado é com uma “revolução de veludo”, uma mudança não violenta de regime segundo o modelo das esquematizadas pelos EUA na Ucrânia e noutros países do ex-bloco soviético. Em parte devido a um verdadeiro medo disso e em parte usando isso como desculpa, o regime escalou a repressão das massas, tomando nos últimos meses medidas sem precedentes nos últimos dez anos. Há diariamente mais enforcamentos públicos. Os programas de televisão com “confissões” de prisioneiros são de novo amplamente difundidos. Recentemente, várias mulheres foram publicamente condenadas à morte por apedrejamento e há rumores de que isso está a acontecer nas aldeias sem ser divulgado. A polícia e outros rufiões do regime ameaçam as mulheres e os jovens na rua. O Ministério da Virtude acusa todos os dias algum jornal de estar envolvido na preparação de um golpe de estado. Pode-se dizer que a recente repressão tem afectado todos os aspectos das vidas das massas. Socialmente, os jovens são o alvo principal. Os estudantes estão sob constante vigilância e pressão política. Activistas operários foram presos e encarcerados e jovens dos bairros pobres foram executados como “assassinos”. Tudo isto tem como objectivo semear o medo entre os jovens rebeldes que cresceram durante o período da repressão e privação.

A realidade é que o espectro de uma rebelião de massas ameaça o regime islâmico. Para o regime, tanto como para os imperialistas, o futuro é impossível de prever e cheio de perigos vindos de baixo.

É do interesse do povo rejeitar tanto os imperialistas como as forças fundamentalistas reaccionárias. Estão em jogo inúmeras vidas e um grande sofrimento. É necessário apoiar o povo iraniano na sua luta contra um regime brutal e reaccionário e, ao mesmo tempo, construir um forte movimento de oposição e resistência a mais agressões norte-americanas e, desta forma, promover uma revolução que vise todos os reaccionários e imperialistas. Este é o factor mais potencialmente poderoso que poderá sabotar os planos de todos os reaccionários envolvidos.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese