O mito dos “soldados da paz” da ONU e o papel do Canadá
10 de Setembro de 2007. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

O seguinte texto é extraído de um artigo intitulado “Mitos sobre as missões de paz do Canadá” publicado em Notas sobre o Afeganistão, Primavera/Verão 2007, pela secção local de Winnipeg (Canadá) do Movimento de Resistência Popular Mundial. Além da sua denúncia do papel militar agressivo do Canadá no mundo – parte do qual resumimos em vez de o reproduzirmos na sua totalidade – esclarece a muitas vezes suavizada natureza dos esforços de “manutenção de paz” das Nações Unidas. (O texto integral está disponível em www.wprmwinnipeg.blogspot.com).

Por muitas razões, a verdade sobre as missões de paz do Canadá tem sido distorcida, falseada e encoberta. Como a realidade sobre essas missões tem sido tão distorcida tantas vezes, os canadianos são levados a acreditar que o Canadá é um país pacífico que nunca fez nenhum mal ao mundo. Mas o verdadeiro papel das missões de paz do Canadá tem sido o de garantir zonas estratégicas para os seus aliados imperialistas e garantir os seus próprios interesses económicos ou políticos.

As missões de “manutenção de paz” das Nações Unidas (ONU) são amplamente vistas como um esforço internacional envolvendo uma força operacional para promover o fim de conflitos armados ou a resolução de disputas há muito existentes. Mas então, por que é que a manutenção de paz se tem concentrado em certas zonas do mundo, enquanto outras foram completamente esquecidas? Por que é que, durante os anos 90, as Forças Canadianas tiveram um encobrimento das suas operações? Por que é que lugares como o Afeganistão (o tema dos artigos desta publicação) não estão melhor que antes das forças do Canadá terem atravessado as suas fronteiras?

Este documento irá detalhar muitas missões de manutenção de paz, bem como a 2ª Força Conjunta do Canadá. É claro que não é a história completa das missões de manutenção de paz do Canadá, concentrando-se nas missões a que muitos chamam os “grandes marcos da história canadiana”, bem como nas missões que muitos gostariam de esquecer.

A UNEF e o Canal do Suez

Embora antes de 1956 tenha havido algumas missões de observação de manutenção de paz, a Força de Emergência das Nações Unidas (UNEF) no Egipto é considerada a primeira verdadeira missão de manutenção de paz e a missão que deu à manutenção de paz o seu nome.

O Canal do Suez separa o território continental do Egipto da Península do Sinai e o Sinai separa o Canal do Suez de Israel. Historicamente, esse canal tem sido importante para a manutenção do controlo de África e da Índia. É extremamente importante para o transporte de bens e de petróleo da Ásia e de África para o Ocidente. Foi por isso que, quando o Egipto nacionalizou a Companhia do Canal do Suez, a Inglaterra e a França se opuseram.

Ao nacionalizar a Companhia, o Egipto obteve o controlo total do que passava pelo canal, pelo que os europeus já não podiam decidir quando e o que é que podiam transportar através dele. Isso pôs o Egipto contra a Inglaterra, a França e Israel, que usavam o Canal do Suez para transporte e comércio. Pouco depois da nacionalização do canal, Israel, França e Grã-Bretanha invadiram o Egipto. De seguida, a recusa da força anglo-francesa de se retirar elevou as tensões com outros países da NATO.

Os EUA opuseram-se à acção anglo-francesa, em parte porque sentiam que ela poderia debilitar a sua própria influência no Médio Oriente – e isso fez temer uma divisão dentro da NATO. Entretanto, a União Soviética ofereceu-se para ajudar o Egipto. Devido a isso, o então ministro canadiano dos negócios estrangeiros, Lester B. Pearson, temeu que o Ocidente perdesse a sua vantagem na Guerra Fria. Pearson sugeriu que uma força “legítima” da ONU fosse colocada no Egipto.

Os combates pararam em Novembro de 1956, quando a UNEF se instalou na zona. Em Abril, o Canal foi reaberto. Os objectivos da UNEF no Egipto tinham sido alcançados. Essa missão salvou os ingleses e os franceses de posteriores problemas na região e os soviéticos retiraram as suas ameaças. A UNEF resolveu a crise “União Soviética contra a NATO” naquela zona estratégica do mundo e permitiu que os EUA, a Inglaterra e a França se mantivessem aliados. A missão também garantiu a segurança de uma das principais rotas de comércio e transporte do Ocidente.

O Congo

O Congo era um território não controlado que possuía muitos recursos preciosos, incluindo diamantes, cobre, cobalto e urânio. Devido a isso, foi colonizado e ocupado pela Bélgica há mais de um século atrás. Durante a Guerra Fria, as intrigas no Congo cresceram porque os EUA achavam que os soviéticos iriam roubar essa zona por causa do seu urânio e porque o povo congolês lutava pela sua independência da Europa.

O próprio Canadá estava interessado no Congo devido aos projectos hidroeléctricos que poderiam vir a ser usados para a separação de urânio. O Canadá, no final dos anos 50, já estava a fornecer aos EUA pelo menos 50% do seu material nuclear para bombas e o Congo estava a fornecer-lhes outra quantidade semelhante.

Após a II Guerra Mundial, uma onda de movimentos de libertação nacional sacudiu a África. A União Soviética tentou atrair os países recém-libertados para a sua esfera de influência para conquistar mais zonas estratégicas que os EUA durante a Guerra Fria. Também havia um medo de que as bases belgas em África pudessem servir contra a NATO se ficassem em mãos erradas (soviéticas).

Os congoleses conquistaram a sua independência da Bélgica em 1960. Porém, a NATO precisava de ter a certeza de que o Congo acabava por se tornar num país neutro que respeitasse os interesses do Ocidente na região. Foi constituída uma força de manutenção de paz da ONU. Porém, a força da ONU não foi calorosamente recebida; muitos “soldados da paz” foram espancados e torturados.

Essa missão era formalmente uma missão da ONU. Porém, ajudou a garantir essa zona de África para os países da Nato, negando o seu acesso à União Soviética. A missão, provavelmente não por coincidência, não conseguiu, ou não quis, impedir o assassinato do primeiro primeiro-ministro e líder da independência do Congo, Patrice Lumumba. Foi um exemplo do esforço que o Canadá fez durante a Guerra Fria para garantir uma zona estratégica para os seus aliados, ao mesmo tempo que promovia os seus interesses na indústria do urânio.

Chipre

O Chipre é uma ilha estrategicamente situada entre a Europa e o Médio Oriente. Está a pouca distância do sul da Turquia e a oeste da Síria. 79% da população do Chipre tem ascendência grega, enquanto 18% tem origem turca. A ilha tornou-se uma colónia britânica em 1925.

Em meados dos anos 50, alguns cipriotas gregos quiseram unir-se como país à Grécia, num movimento chamado enosis, enquanto os cipriotas turcos discordavam disso. Houve um acordo na ilha para criar uma república em 1959, mas mais violência surgiu depois disso. Os britânicos, os turcos e os gregos tentaram obter um cessar-fogo, mas esse esforço foi insuficiente.

Esse conflito tornou-se num problema da NATO porque pôs dois países da NATO, a Turquia e a Grécia, um contra o outro. Uma força da ONU chamada UNIFCYP esteve inicialmente para ficar no Chipre durante apenas três meses, mas uma força mais pequena ficou durante toda a década de 80.

O interesse canadiano pelo Chipre é semelhante ao pelo Canal do Suez e pelo Congo. A União Soviética tinha 700 mísseis apontados a países da NATO, pelo que foram criados planos para usar o Chipre como base de mísseis que se opusessem a essa ameaça. Para proteger os interesses petrolíferos fora da Nato, bombardeiros de Camberra foram colocados na ilha. Chipre foi basicamente utilizado como base para os países da NATO. Quando o Iraque ameaçou invadir o Kuwait em 1961, a deslocação imediata de tropas do Chipre resolveu rapidamente uma crise que poderia ter levado a uma ameaça aos fornecimentos de petróleo ao Ocidente.

Se tivesse havido uma crise na ilha de Chipre, ela poderia ter interrompido gravemente as comunicações da NATO e a sua capacidade de se defender – porque 11 instalações de comunicações e de armazenamento nuclear tinham sido colocadas tanto na Grécia como na Turquia.

Os anos 90 foram um período agitado para as Forças Canadianas, a começar pela sua participação no ataque ao Iraque em 1991, durante a Primeira Guerra do Golfo.

Os anos 90

O conflito armado que rebentou na ex-Jugoslávia no início dos anos 90 forneceu um pretexto para várias intervenções. Entre 1992 e 2004, mais de 40 000 canadianos serviram só na Bósnia-Herzegovina (uma região da ex-Jugoslávia), não contando com a mobilização para a Croácia ou a sua campanha aérea no Kosovo.

Em 1999, as acções nessa região tiveram um novo incremento quando a NATO desencadeou uma guerra aérea contra a Sérvia. Supostamente, era para proteger os civis da província sérvia do Kosovo que estavam a ser oprimidos pela Sérvia – mas teve muito mais a ver com a NATO a usar o seu músculo contra uma Sérvia não cooperante. O Canadá enviou 125 membros da força aérea para uma base em Itália, para apoiar a NATO nessa campanha. A NATO atacou todo o tipo de infra-estruturas na Sérvia, incluindo pontes, um hospital e uma estação de televisão. Mais de 1000 civis foram mortos pelos bombardeamentos da NATO.

As forças europeias iniciaram as operações nos Balcãs em 2004. À excepção de um pequeno número, todos os 650 soldados do Canadá aí estacionados foram retirados. Apenas um par de meses antes, em Agosto, o Canadá tinha enviado 450 soldados para apoiar o golpe de estado encabeçado pelos EUA contra Jean-Bertrand Aristide no Haiti – reflectindo uma alteração na divisão imperialista de responsabilidades no mundo pós-Guerra Fria.

Uma das mais controversas mobilizações de tropas canadianas foi para a Somália em 1992 – apresentada como missão de ajuda humanitária.

Os habitantes locais não deram as boas-vindas ao contingente. Tornou-se comum entre as crianças entrarem furtivamente na base canadiana na Somália para roubarem comida. Antes da Somália, o Regimento Aerotransportado Canadiano, uma unidade de elite, tinha sido atingido por vários problemas. Tinha problemas de disciplina – e conhecidos simpatizantes do KKK (uma infame organização norte-americana violentamente racista) não foram afastados da unidade.

A 4 de Março de 1993, as tropas canadianas do Regimento Aerotransportado atraíram, capturaram e torturaram dois jovens somalis. Um morreu e o outro ficou ferido. Apenas doze dias depois, um outro jovem somali, Shidane Arone, foi capturado e mais tarde morto, mas apenas depois de ter sido torturado durante várias horas no acampamento. Há relatos contraditórios sobre por que é que foi possível o assassinato do rapaz, mas os assassinos e outras pessoas envolvidas na tortura alegam que a estrutura militar lhes tinha dado carta-branca. Os assassinatos chocaram o público canadiano e humilharam o governo.

O Regimento Aerotransportado foi dissolvido no início de 1995, após meses de indignação pública e vergonha internacional das Forças Canadianas devido ao escândalo do assassinato, tortura e encobrimento, que pareciam continuar sem se esbaterem. Porém, esse regimento dissolvido não foi inteiramente eliminado, mas sim absorvido por uma nova unidade de combate das Forças Canadianas: a 2ª Força de Trabalho Conjunto (JTF2).

A JTF2

A JTF2, criada em Abril de 1993, é uma fonte de orgulho para a burguesia canadiana, que pode responder rapidamente em qualquer lugar no mundo a um diverso conjunto de “crises”, apagando pequenos incêndios antes que se tornem grandes.

A JTF2 é a unidade de comandos de elite das Forças Canadianas. Os seus membros são escolhidos pela sua agressividade e treinados para o contra-“terrorismo” e a contra-insurreição.

A JTF2 é o braço “secreto” das classes dominantes canadianas. Está em todo o mundo: Haiti, Afeganistão, Ruanda, Congo e mesmo em contingentes contra os aborígenes da (província canadiano da) Colúmbia Britânica e do Quebeque. O jornal Ottawa Citizen desvendou a história do funcionamento clandestino da JTF2 na ex-Jugoslávia, algo que nem a ONU sabia. A natureza secreta da unidade significa que se pode envolver em várias crises muitas vezes antes de o Parlamento, e muito menos o público, se poderem dar conta disso ou de poderem organizar a sua contestação.

Mas como explicam os objectivos da unidade, é possível usá-la em defesa do “interesse nacional”. Ao contornar alguns sectores do governo, a JTF2 é uma garantia acrescida da burguesia canadiana em tempos de crise, onde frequentemente devem ser feitos actos fora da legalidade nacional e internacional. Isso permitiu a sua actuação em esforços militares canadianos contra as Primeiras Nações (os povos indígenas) em 1995 e nos exercícios de bombardeamento levados a cabo perto da cidade de Anjou, no Quebeque, quando se aproximou o referendo sobre a soberania do Quebeque em 1995, para intimidar as forças pró-independência.

As tropas canadianas de elite também treinaram as forças de contra-insurreição do Peru e do Nepal. Essas unidades (incluindo o Exército Real, a polícia e a Força Policial Armada) foram responsáveis por violações gratuitas dos direitos humanos no Nepal, incluindo assassinatos em massa, desaparecimentos, tortura e violações.

O sistema económico imperialista mundial em que todos nós vivemos impõe que os países no lado receptor dos benefícios deste sistema (incluindo países como o Canadá) tenham que agir para manterem e expandirem o seu domínio. Isso quer dizer capturar mercados e zonas ricas em recursos, eliminar ameaças e punir os rivais, entre outras medidas. A política externa canadiana, incluindo o seu papel de manutenção de paz, só faz sentido quando vista neste contexto.

Em todas as circunstâncias em que as forças canadianas foram mobilizadas para o exterior demonstram a seguinte regra: as acções militares canadianas em defesa das relações políticas e económicas dominantes de que a classe dominante canadiana beneficia, isto é, as relações imperialistas e capitalistas – as mesmas relações que tornam num inferno vivo a vida de milhões de pessoas no planeta. O Canadá age para fazer avançar o domínio e a expansão do capitalismo internacional, tanto especificamente para defender os seus interesses dentro do Canadá, como globalmente para acudir aos dos EUA e de outros imperialistas quando esses interesses complementam as necessidades do Canadá. Uma invasão ou intervenção não significam necessariamente lucro directo para os imperialistas do Canadá, mas mantém a sua boa posição numa fraternidade de ladrões.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese